The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

Tem espaço no mundo (e nas estantes) para todo tipo de história. O que é legal para mim pode não ser para você e vice-e-versa, ou mesmo o que é legal para mim no humor de hoje pode não ser amanhã. Posso querer para hoje algo mais denso e cheio de significados, enquanto amanhã posso querer uma comédia bem leve. Posso querer um terror de arrepiar e amanhã um romance que estoure meu índice glicêmico. Às vezes quero apenas a segurança de saber exatamente o que vou encontrar na leitura.

Então, não vejo mal nenhum em um livro épico, com um dualismo maniqueísta sem maiores questionamentos, o protagonista passando pela jornada do herói sendo que dá para marcar em uma cartela de bingo os elementos ou passos da jornada, personagens rasos que só estão ali para cumprir papéis pré-determinados sem maior preocupação em desenvolvimento, vilões megalômanos e todas essas coisas. Na verdade tem épocas em que quero esse tipo de leitura, que quando bem feita é bem divertida (ainda mais para quem tem gosto por uma boa high fantasy).

Então, fui atrás de um clássico do gênero. A série Wheel of the Time é uma das mais famosas e mais queridas do gênero high fantasy, com vários e apaixonados fãs, fóruns de discussão, vários produtos derivados como jogos eletrônicos e rpg’s… enfim. Todo um universo de fãs não pode estar errado em apontar apelo e carisma na série, então era um livro que valia ser lido nem que para conhecer do que se tratava.

A edição escolhida foi o pocket em inglês de The Eye of the World, o primeiro livro da série. Ele chegou a sair em português, com o título de O Olho do Mundo, mas por uma editora pequena, de distribuição ruim e com preço nada convidativo. Assim fica difícil, né? Já ouvi boatos de uma reedição, mas nenhum indício factual de que ela possa ocorrer dentro de breve.

(e uma nota sobre a edição em inglês: quem acha o vocabulário do Martin difícil em inglês – não acho, tirando um termo ou outro é bem tranquilo em termos de vocabulário e estrutura – deveria pensar duas vezes antes de ler esse livro. O vocabulário é bem rebuscado, dá para se perder bonito de vez em quando mesmo já tendo o hábito de ler em inglês. Dá para ler até o fim sem problemas de compreensão, claro, mas não é o livro mais tranquilo do mundo, pelo contrário).

A série não tem pretensões de oferecer mais do que o feijão-com-arroz e nesse segmento de high fantasy épica, é uma das mais queridas e comentadas. Claro, como já dito não há a menor vontade de reinventar a roda ou romper paradigmas de gênero, mas também não há nenhum problema quanto a isso. O problema é outro e talvez já comece a ser explicado, ou intuído, por uma historinha.

No começo, Robert Jordan, o autor, planejava uma série de poucos livros, mas o próximo nunca era o último. Foi virando uma série de 8, 10, 12 livros… até que o autor morreu antes de fechar a saga. Isso mesmo. Infelizmente, ele foi vítima de um câncer rápido e letal, mas não sem antes passar as diretrizes do último livro para Brandon Sanderson… que o dividiu em três. Mas agora vai. Esperamos.

Esta é a história de Rand Al’Thor, um garoto de uma vila do interior perdida na fronteira entre o nada e o lugar nenhum (pééé), órfão de mãe (pééé) e que obviamente não é quem imagina ser (pééé). Um belo dia, uma misteriosa mulher que vem a ser uma Aes Sedai (feiticeiras poderosas e temidas) aparece, Coisas Estranhas Acontecem e Rand e seus amigos Perrin (Pé-rrin!) e Matt (acompanhados por mais um monte de gente), ouvem o Chamado da Aventura e precisam buscar seu Verdadeiro Destino (que, claro, está diretamente ligado ao Despertar do Mal Supremo).

(bingo!)

Achei que a narrativa da primeira parte do livro cairia muito melhor como jogo de videogame no estilo dos RPGs clássicos do Super NES (os Final Fantasy, Chrono Trigger, etc). Na verdade, seria um jogo bem legal de ser jogado (e para mim cairia bem melhor assim, com party, NPC’s, lojinhas de armas e suprimentos, eu podendo explorar o cenário pixelado e coisital). Na verdade, a partir de determinado ponto já conseguia enxergar os bonequinhos andando pela grama verde e pelas casinhas, tendo batalhas randômicas, sub-chefes e até mesmo chefões mais poderosos. Sério, daria um videogame de console bem legal, mas como livro, não achei tão forte assim.

E claro, o grande problema que achei no livro todo. Personagens sem carisma? Dá para se sobreviver (porque Rand Al’Thor não tem carisma algum e é o protagonista, o Matt e a Nynaeve além de não terem carisma são chatos, os únicos personagens que achei legaizinhos – e ênfase no “inho” são o Perrin (e de certo modo a Egwene) depois que se separam do grupo principal). Roteiro jornada do herói clichê sem nenhuma inovação? Como já comecei a resenha anunciando, não vejo problema algum nisso.

O problema é a enrolação.

Claro, pelo tom da história, temática e tudo mais, dá para perceber que provavelmente vai ter mais de um livro, então dá para esperar que o começo, até por ambientação e apresentação de personagens, seja mais devagar. Só que aqui as coisas são, digamos assim… devagar demais. A edição que li tem mais de 800 páginas e até a página 300, eles mal chegaram na primeira cidade do mapa. E acontece tanta coisa relevante assim? Não.

O mesmo mais para frente. Mais 300 páginas até a próxima cidade, sendo que tem dois capítulos NOS QUAIS OS FATOS SE REPETEM. Nessa hora parei, larguei o livro pra lá e fui seguir minha vida. Se voltei para ele foi porque já tinha ido longe demais e queria ver onde terminava.

Não é aquele livro que dá gana de ler o próximo capítulo. Mais do que isso, as coisas demoram muito para acontecer, ficam no meio da embromação, são tantos detalhes que não estão construindo nada (tudo bem, alguns até dá para aceitar que são sementes que estão sendo plantadas, mas outros…), até mesmo o fator “isso é inútil, mas é cool” não acontece (com uma honrosa exceção: Egwene, Perrin, os lobos e a comunidade hippie medieval). O que acontece? O leitor desanima, perde o interesse.

Para nem chegar no final onde vilões tirados do sovaco aparecem (ao invés de só um enfrentamento básico com o vilão principal desse livro, que já se delineava), onde tudo termina numa correria danada e dá-lhe pontas soltas. Aliás, bom notar que o plot DESSE livro (levar os protagonistas da pacata cidadezinha X para a capital mágica Y) não se fechou. A história parou no meio do caminho e ficou por isso mesmo.

De onde concluo que se o autor não gostasse tanto de uma embromaçãozinha, tinha terminado com uns cinco ou seis livros e tava ótimo… Dava para ter tirado metade do livro (e ainda ficaria um livro grande para não vir a desculpa de “grande para adequar-se ao mercado americano”), apresentado personagens, universo, plantado as sementinhas e feito tudo fluir que é uma beleza.

Até dá para entender o apelo da série e o fato dela ter durado tanto e ser tão querida, mas para mim… Conheci, não agradou e fim de registro.

Se alguém quiser meus comentários durante a leitura e perceber o quanto perdi a paciência com o livro, só ver minha ficha do Skoob. Spoilers à beça, já aviso 😛

***

Se ainda assim você quiser conferir por si mesmo, tem o livro na Livraria Cultura, só encomendar aqui!

***

Até a próxima!

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24 Responses to The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

  1. Bruno says:

    Boa síntese do livro. 😛 A história do livro é bem clichê e lugar comum, sem absolutamente nenhuma surpresa, mas tem gente que procura isso mesmo. Se fosse uma trilogia talvez eu até pensasse em ler o resto, mas como são acho que 14 (ou 15?) livros já…

  2. alexandrelancaster says:

    Nem li o livro, mas eu morri de rir com os detalhes avacalhadores e as citações a videogames pixelados. XD

  3. Eu estou lendo esse livro. Comprei um box com os três primeiros há algum tempo.
    Bom, não posso negar nada do que você disse. O livro enrola demais (e eu que pensava que EU enrolava demais quando eu escrevia), é bem complicado que demore um livro inteiro somente para levar os personagens de uma cidade à outra. Mesmo que as cidades sejam distantes pra caralho, deveria ter um time skipping maior.
    Gosto muito de obras bastante descritivas e com um passing lento, mas The Eye of the World realmente… usa isso de um jeito que não é exatamente legal. O worldbuilding foi até interessante, mas a questão dos personagens viajando sem parar se estende demais. Acho que todo o caminhar estava aceitável até o momento em que eles se separam logo depois de serem atacados nas ruínas daquela cidade antiga. Mas depois disso as coisas foram se arrastando de um modo que não foi muito legal.
    Pra falar a verdade, os capítulos que vieram depois da separação dos personagens foram muito interessantes, porque constrói os personagens enquanto eles estão longe “dos adultos”.
    Sobre os personagens, são sim clichê e pegam exatamente arquétipos que dá para encontrar na maioria dos rpgs de snes, mas eu não os achei desinteressantes, Rand é o herói padrão e Matt o sidekick padrão (iguaizinhos a Cless e Chester de Tales of Phantasy), mas não os achei de todo sem graça. A questão é que o livro foi escrito em 1990 e acho que naquela época ainda havia espaço para a clássica e batida jornada do herói, creio que tem que ter isso em mente quando se lê.
    Não posso dizer que gostei do livro… Mas eu pretendo ler as sequencias. Querendo ou não, foi necessário histórias “batidas” que nem essa para que a fantasia tomasse forma mais livres e misturadas como as encontradas atualmente.

    Sobre a narrativa do autor, a forma como ele descreve, não posso falar mal, pois lembrou a forma como eu mesmo o faço D:

    ps: Há de se convir que o prologo é muito bom.
    pps: Gostei da forma como os nomes foram escolhidos, modificando nomes “arturianos”.
    ppps: Se quiser, quando eu terminar de ler o segundo livro, te digo se vale a pena o esforço.
    pppps: eu tinha que sair, então saí escrevendo tudo sem organizar, as primeiras coisas que vieram à cabeça :X

    • A única parte que realmente gostei de tirar o chapéu foi a da side story do Perrin e da Egwene (o prólogo também é bom, faz parecer que o livro todo vai seguir o ritmo), até mesmo para a parte em que a Nynaeve fica um pouquinho menos infantil, mas fora isso… Não deu pra mim. Ele é descritivo, enrolado e parado DEMAIS…

    • Cara, não vou entrar em detalhes pra não estragar nada, mas uma coisa eu te garanto: o Rand não é o herói perfeitinho típico das novelas de high fantasy, tampouco o Mat e o Perrin são meros coadjuvantes! Continue sua leitura, pois tenho certeza de que vai gostar!! O primeiro livro não faz jus à qualidade da série, então não baseie seu conceito unicamente por ele!

  4. talkativebookworm says:

    ROLEI DE RIR COM O HISTÓRICO DE LEITURA! Sério, basicamente a mesma coisa qe eu pensei.

  5. Carlos Rocha says:

    Gostei dos comentários… Vou lembrar disso quando pegar essa série para ler (se arrumar tempo na fila dos livros infinitos).

  6. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

  7. Franz Brehme says:

    Eu não vou falar que o primeiro livro é o melhor: até porque a ideia original era fazer uma homenagem a Tolkien. Mas sim, a série desenrola nos próximos volumes e todas as coisas que parecem soltas no primeiro livro, fazem sentido. A série ganha corpo, volume e densidade. Tem uma das melhores descrições do “sistema de magia”, por assim se dizer. Eu ADORO a série e já comprei o meu último volume na pré-venda (eu também estou soltando fogos pelo fim da série, que muitas vezes me fez verter lágrimas).

    Só não gosto do volume 9 (se não me falha a memória), pq em 420 páginas ele descreve o que aconteceu em UM ÚNICO DIA. O próprio autor, depois, pediu desculpas por esse livro… Mas depois dessas páginas, o resto da saga vai que é uma beleza! Pelo menos para mim. 😛

    Pena que o Jordan faleceu. Mas o Brandon Sanderson (autor de Elantris), fez um excelente trabalho nos últimos três volumes. E mais: muito do material já estava pronto, seja digitado ou narrado pelo autor (assim que ele descobriu que tinha amiloidose).

    Eu fiz uma resenha no site da REDERpg dos dois primeiros volumes, lançados em português.

    Abraços.

    • Entendo que uma série pode acertar leitores em cheio e ser emocionante. Aliás, vendo pelos fóruns e internet da vida, dá para ver o quanto a série é amada pelos fãs. Uma pena mesmo o autor ter morrido, mas disso eu sabia: que o sucessor foi escolhido e recebeu material antes da morte do autor – e imagino a emoção de saber que FINALMENTE o último livro vem por aí. Fora que fica o medo para todos aqueles que acompanham Séries Eternas e Intermináveis 😛

  8. Não acho que a crítica esteja errada. O primeiro livro da série é mesmo bastante raso, demorado e em boa parte até enfadonho. Tenho até a impressão de que isso se deva em boa parte à intenção do autor em fazer uma série longa (que, salvo engano, a princípio teria 6 volumes e acabará com 15 – 14 livros + 1 “prequência”), e por isso talvez ele tenha “se dado ao luxo” de escolher um ritmo lentíssimo para a narrativa do primeiro livro.

    Contudo, é impossível julgar a série por este único livro. Se você superar o “trauma” e ler o segundo volume da série, vai descobrir uma guinada espetacular na trama, na densidade das personagens, e principalmente no desenvolvimento do que no primeiro livro parece ser um dualismo pueril e simplista entre forças do bem vs. forças do mal. O ritmo da narrativa assume uma velocidade e uma intensidade que tiram o fôlego – principalmente quando o autor começa a desenvolver mais e mais as tramas paralelas (uma hora tem tanta coisa acontecendo que você fica com um nó cerebral – e, creio eu, propositalmente).

    Além disso, o autor mescla de forma esplêndida elementos da cultura oriental – principalmente religiosos – com elementos tipicamente arturianos; faz críticas absolutamente claras à nossa sociedade de consumo, ao machismo e às relações políticas internacionais e, principalmente, mostra, de uma maneira que te deixa até mesmo nervoso, o que a simples falta de diálogo não é capaz de causar.

    Defeitos? São muitos. O principal deles é justamente a demora para se concluir a trama. O autor dá a clara impressão de que queria aproveitar ao máximo a “galinha dos ovos de ouro” que descobrira, e assim lançou volume atrás de volume sem terminar a série. A maioria desses volumes é sensacional, mas um ou outro poderia ser simplesmente podado por inteiro no caso, por exemplo, de uma adaptação da obra para a televisão, tamanha a enrolação e a irrelevância para a trama.

    Enfim… É impossível agradar a gregos e a troianos, isso é fato. Ainda assim, acho que a série só conquistou seu espaço nas prateleiras e nas coleções de fãs de ficção porque ela, em seu todo, é sim muito rica. Vale a pena quebrar a barreira do primeiro volume e se deliciar com esse universo ficcional bastante interessante!

    • Quem sabe agora que a série parece que vai terminar mesmo? 🙂

      • Franz Brehme says:

        Parece não, terminou! 😛

      • Pois é, terminou! O último volume acabou de ser publicado!

      • Pra vcs dois: só acredito vendo que não tem um gancho safado pra continuação 😛

      • Puts, acho pouquíssimo provável! Os próprios fãs não aguentam mais a falta de desfecho! Só o fato de o último livro ter se transformado em 3 já gerou discussão suficiente pra Tor, pro Brandon Sanderson e pra Harriet Rigney (viúva do Jordan e titular dos direitos autorais da obra).

        Em verdade, até acredito que haveria mais alguma coisa se o Jordan fosse vivo. Inclusive, ele tinha sim planos para novos livros, veja mais a respeito neste link: http://encyclopaedia-wot.org/books/other/index.html

        Agora, deixando aflorar o lado fã, o único livro que eu gostaria mesmo que saísse seria uma nova edição do guia chamado “The World of Robert Jordan’s The Wheel of Time”, mais conhecido como “The Big White Book”! =D

        Em tempo: se você gosta de literatura fantástica, vale a pena arriscar a série “The Malazan Book of the Fallen”, do canadense Steven Erikson. Também é uma série longa (15 livros, sendo 10 do Steven Erikson – todos já lançados – e 5 de seu amigo e co-criador do cenário, Ian Cameron Esslemont). O inglês é um tanto quanto mais complicado do que o do Jordan, e a cronologia da série é completamente tresloucada. Mas vale muito, muito a pena! Ah, e é Low Fantasy, então não tem heróis certinhos e épicos, já que você aparentemente não curte muito isso, hahahahaha!

  9. Pingback: The Way of Kings | Rodapé do Horizonte

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