The Crown

the-crownNão se pode negar o glamour que a realeza traz. Sejam os príncipes e princesas cheios de luxo e poder dos contos de fadas ou as excentricidades trazidas pela coluna social mais próxima, há forte apelo nos reis, rainhas, príncipes e princesas reais e imaginários. Mas tirando o luxo, glamour, pompa, circunstância, dinheiro e completa perda da normalidade por viver integralmente sob os holofotes, o que há por trás de um reinado?
E quando se trata da família real que talvez seja a mais popular do mundo, herdeiros daquele que já foi o maior império do mundo?
A série The Crown traz essa pergunta como pano de fundo.

A série inicia-se num período histórico turbulento – há pouco a Segunda  Guerra Mundial terminou e o pós-guerra não foi capaz de fechar ainda todas as feridas abertas pelo mortal conflito travado anteriormente – a Grã-Bretanha ainda não foi totalmente reconstruída, a economia não se recuperou e há uma noção de mudança de era permeando o mundo. O rei, George VI, está gravemente doente e, dentro de pouco tempo, sua filha, a jovem Lilibet, terá a missão de substitui-lo.
Estamos falando, é claro, de Elizabeth II, a monarca que é há 64 anos chefe de Estado da Grã-Bretanha e Commonwealth e essa é uma biografia, ainda que ficcional, do início de seu reinado. Seu produtor é o mesmo do filme A Rainha, que trata de um momento crucial de sua vida e reinado (que acabam se fundindo lentamente numa coisa só): a ascensão de um primeiro-ministro anti-monarquista e a morte de um dos membros mais populares da realeza. Só que agora não estamos falando de um filme, mas de uma série de TV, e não de um momento específico, mas de tudo o que a trouxe até o dia de hoje.
Trata-se da segunda produção mais cara da Netflix e isso é compreensível na riqueza de detalhes, tanto de figurino, cenários e caracterização dos atores. É uma série belíssima e bem-produzida, com todo o glamour que a família real britânica evoca.
Obviamente, trata-se de uma obra  de ficção baseada em pessoas e fatos reais, alguns deles romanceados para melhor adequação à narrativa, não de um documentário com reproduções exatas dos fatos da maneira como ocorreram. Assim, ainda que se trate de pessoas reais, a perspectiva a ser adotada para a apreciação da obra de ficção é, obviamente, a de personagens.
Lilibet, a moça correta, que fez questão de incluir votos de casamento sobre obediência para não emascular ainda mais seu marido que em plena década de 1940 sabe que terá apenas um papel decorativo em sua vida, não tem tanto tempo assim para aproveitar sua vida particular. Esta terá de morrer para dar lugar à Elizabeth II (“para que confusões, deixe meu nome mesmo”), a soberana, a chefe do Estado, a pessoa que incorpora o espírito nacional num cargo vitalício sem férias e licença e que te cobra muito mais do que dará em troca (ok, podem ter bens, riquezas, glamour, mas o que é não ter vida? Ser um personagem durante toda a sua vida, com bilhões de olhos sobre todos os seus passos e seu poder desviar da linha por um segundo sequer sem que isso se torne um imenso escândalo nacional?). É saber que um passo, por mínimo que seja, dado errado, será um preço pesado demais.
E é, naturalmente, a história das pessoas ao seu redor. Seja Winston Churchill, envelhecido sim, mas que recusa reconhecer-se ultrapassado ou mesmo admitir a passagem do tempo (da mesma maneira que o episódio da poeira revela sua teimosia política e a experiência que o faz sair de uma situação péssima para um grande acerto político, o da pintura do retrato é, literalmente, seu retrato – envelhecido, sentindo a passagem do tempo, mas que não admite a realidade de tais fatos)
Por se tratar de pessoas vivas, famosas, poderosas e que, muito mais do que isso, se confundem com o próprio conceito de nação, a produção pega bem leve nas críticas, além do tom favorável. A própria Elizabeth em quase todos os momentos parece certinha demais, perfeita demais, obediente demais, fazendo tudo conforme o figurino e o esperado (o leitor pode se perguntar, evidentemente, se a realeza significa isso – perder sua identidade e se tornar somente aquilo que esperam que você seja). Outras figuras, coincidentemente ou não já falecidas, são retratadas com mais profundidade: Churchill é o estadista genial, capaz como poucos de libertar-se de situações difíceis, mas que não aceita a chegada da idade; Eduardo VIII/David é um homem que, por ter pago um preço alto demais por algo que talvez não valesse assim tanto a pena, tem de morrer abraçado para sempre com sua decisão (não consigo ver as cartas como a verdadeira opinião dele pela família – pelo contrário, no contexto da narrativa, pois conhecemos apenas o personagem e não a figura real, as cartas soam muito mais como auto-afirmação da decisão de não mais pertencer àquela família e satisfação para sua esposa do que sentimentos reais); a Princesa Margaret, apesar de amorosa e gentil, pode ser uma jovem excêntrica e curtir a vida, mas sempre estará à sombra da irmã.
Por falar em princesa Margaret, seu romance frustrado é uma das situações mais interessantes da série, se não pelo apelo narrativo, por todas as circunstâncias. O casamento de um membro da família real possui um elemento político importante, não pode se realizar com qualquer pessoa em qualquer circunstância. Fosse ela uma moça pobre ou mesmo uma socialite de uma família sem títulos ou de títulos menores, tanto faria se casar com quem bem entendesse. Mas ela é princesa e a realeza carrega um fardo enorme de impedimentos – e, posta diante da alternativa de abrir mão do título e viver do amor, esta é descartada sem maiores dramas de consciência. O problema do matrimônio, como sabemos, é cíclico na família real: passou por Edward VIII, pela princesa Margaret e, posteriormente, sabemos de antemão, em Charles.
Outro ponto que achei interessante é, apesar do tom de certa forma até mesmo chapa-branca da série, é o estranhamento que certos discursos causam nos dias de hoje (cito os episódios de visitas à África como melhor exemplo). Aquela visão colonialista, de povo bárbaro e exótico ao qual os ingleses levam a civilização e a finesse está nos discursos e atitudes e é algo que dói nos ouvidos, que arde. Inclusive vejo como uma crítica da produção a esse tipo de pensamento que não haja suavidade nos discursos – todas as letras estão lá e é pra causar estranhamento e choque mesmo.
Minha única crítica acaba sendo ao fato que, ainda que se trate de uma série de uma protagonista feminina, acaba sendo uma série de homens sobre homens. O primeiro episódio é exemplar nisso – não é a história de Elizabeth, é a história de Phillip (o rapaz rico, filho de sua época na qual um homem é a cabeça do lar, que sabe e aceita que será um marido decorativo – e é até interessante na série as maneiras como ele tenta lidar com essa situação e dar uma utilidade para sua vida), da doença de seu pai, da ascensão do primeiro ministro. O foco do casamento está em Phillip. O foco da política está em Churchill, ou no rei George VI, ou em Edward VIII, ou em Peter Townsend. E não é por falta de personagens femininas interessantes: as três rainhas e Margaret o são, e muito. Mas mesmo para uma soberana, a condição de mulher ainda a joga para o segundo plano. Inclusive, há episódios que nem mesmo passam no Teste Bechdel, já que certamente os assuntos dos homens são muito mais interessantes.
Enfim, poderia dizer muito mais, mas recomendo bastante para quem gosta da temática, de séries de época, de discussões internas e palácios e princesas. E recomendo efusivamente o filme A Rainha.
***
Até a próxima!
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