Meio Sol Amarelo – Chimamanda Ngozi Adichie

meio-sol-capaIndependente da orientação política seguida pelo leitor, é preciso saber que há uma óbvia ênfase na história de apenas uma parte do mundo, daqueles lugares Que Realmente Importam. É até uma piadinha comum e recorrente que um acidente de carro com vítimas nos Estados Unidos será manchete no jornal noturno, mas o mesmo evento ocorrido na esquina do bairro passará batido, como se nada tivesse havido.

Da mesma forma se faz o tratamento dos grandes eventos e tragédias da história da humanidade. Se aconteceram debaixo dos holofotes, terão destaque nos livros de história, debates e cultura popular (quantos filmes existem sobre o exército americano na Segunda Guerra Mundial, por exemplo?). Outros, nos cantos mais periféricos do mundo, são esquecidos, ou mesmo nunca referidos.

Para minha geração, Biafra é um nome vazio. No máximo evoca criancinhas mortas de fome na África, de uma forma bem genérica (já que o mesmo Ocidente-que-importa adora generalizar a África como pessoas passando fome). E trata-se, apenas, de uma das maiores tragédias da história da humanidade.

E entramos aqui no papel da literatura. Dentre as várias funções da arte, existem duas a serem destacadas: a da lembrança do que jamais pode ser esquecido e o da terapia do povo, de quem precisa falar sobre o luto para processá-lo e aprender com ele.

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O Primo Basílio – Eça de Queirós

o-primo-basilio-capaJá mencionei em outras ocasiões que perdemos muito mais do que ganhamos com preconceitos literários. Uma torcida de nariz e lá se vai a oportunidade de ler obras brilhantes, que seriam muito divertidas e instrutivas, mas que nos recusamos a ler por… bobagens.

A resenha de hoje é de um livro que já vem acompanhado da pecha de “livro obrigatório do vestibular”, “livro antigo”, “livro chato” e vários outros adjetivos pouco lisonjeiros. Mas para quem se dispuser a deixar de lado os preconceitos, temos uma história bem instigante e interessante.

(mas concordo que a obrigatoriedade de certas leituras, ainda mais em idades em que muitas vezes a temática pode não ser tão interessante, tira muito a magia da coisa. Pessoalmente, não tive esse problema – lembro-me de ter lido Senhora para o colégio e ADOREI o livro, mesmo na época. Aliás, o único livro realmente muito muito chato que (não) li (porque era um saco) para o vestibular foi um romance contemporâneo… Só não devemos virar reféns disso. Tenho muitas respostas positivas de pessoas que releram os romances depois da escola e descobriram que eles, na verdade, eram muito bons. Não dá para descartar todos os “livros antigos”, “livros curriculares” apenas por esse único e exato motivo).

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Desafio Volta ao Mundo

mundoAno-novo, nada melhor do que começarmos com um desafio literário novo!

Na verdade, não iria tornar um desafio público, mas, provocada pelo Luan, resolvi escrevê-lo.

Uma coisa que falo muito aqui no blog e recomendo para qualquer leitor: saiam da lista dos mais vendidos. Saiam dos best-sellers e autores óbvios. A gente acaba se fechando tanto no mais do mesmo que não enxerga o resto, acaba entrando num loop de ler eternamente o mesmo tipo de coisas (até porque acaba sendo mais fácil). E nem precisa ir muito longe para encontrar esses autores: indo para um nível ainda pop, mas que sai do best-seller, já achamos ótimos autores e que nos darão o diferente (dois exemplos óbvios: Haruki Murakami e Chimamanda Adichie. São autores pops, acessibilíssimos e que já saem dos mesmos autores e temas batidos). Nós também temos a tendência (enorme, gigante) de consumir muita literatura anglófona e… ignorar o resto. Ou deixar de ver o que mais há fora disso.

Então chegamos ao nosso desafio: a volta ao mundo!

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Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

hibisco-roxo-capaQuando dei-me conta que lia mais literatura americana/inglesa do que qualquer outra anos atrás, resolvi que era um erro que precisava ser reparado e resolvi dar maior atenção às demais vozes do mundo. Aí percebi que nunca tinha lido autores africanos e corri atrás desse objetivo. Aí fui mais longe: percebi que li apenas africanos brancos, queria saber o que os autores africanos negros tinham a dizer. Minha primeira experiência foi com Chinua Achebe (infelizmente sem resenha já que não tenho ânimo/inspiração/coragem para resenhar todos os livros que leio), talvez o mais clássico autor nigeriano contemporâneo. A colagem que ele faz, da tradição tribal que colide e se funde com a colonização europeia mas que deixa certo desalento de “e agora?” nas pessoas e culturas antigas, é fantástica.

Mas poderia ser mais contemporânea ainda. Então finalmente fui ler Chimamanda Ngozi Adichie, conhecida deste blog desde 2010 pelo incrivelmente fantástico e necessário vídeo Os Perigos de Uma Única História, mas não tem problema se a conheceu este ano por causa da Beyoncé e de seus outros TEDs. Chimamanda é uma jovem autora nigeriana que no fim da adolescência se mudou para os Estados Unidos para melhores oportunidades de estudo e talvez hoje uma das jovens vozes mais hypadas da literatura internacional. Não sem mérito, diga-se.

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trilogia The Chemical Garden – Lauren DeStefano

Aprisionada-capaEntão.

 Das séries de resenhas de livros ruins, recentemente tratei de Divergente e de A Seleção. Hoje a resenha será de uma série que trata de temas muito semelhantes a esses dois, mas com um diferencial: achei muito boa. Aliás, não sei se é uma visão enviesada, ou estou vendo apenas o que quero enxergar, mas é até uma crítica sobre os tropos irrefletidos das distopias românticas young adult.

(até coloquei no google e Wither é de 2011, A Seleção, de 2012 e Divergente, de 2011 também. Ou seja, não tem como ser cópia)

Bom, para começar o primeiro livro saiu em português alguns anos atrás, com o nome de Aprisionada. Mas por ter sido por editora pequena e que já encerrou suas atividades, talvez não seja muito fácil encontrar um exemplar por aí. Consegui um empréstimo – depois de opiniões de que esta série é muito boa – mas talvez seja mais fácil adquirir em inglês mesmo (por falar nisso, comprei os outros dois livros na Amazon para o kindle) (por falar nisso, já tenho base para fazer um dos posts mais pedidos do blog em todos os tempos, aguardem).

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série A Seleção – Kiera Cass

a-selecao-capaSabem os reality shows? Existe uma escala de baixaria neles, com certeza, que vai de um nível leve até uma chutação de balde generalizada capaz de gerar uma vergonha alheia tão grande que se transforma em humor. As maiores baixarias de toda, lógico, vem da reciclagem dos antigos programas de arrumar namorado: vejamos pérolas como Rock of Love, ou arrumar uma nova namorada para um astro como Bret Michaels, conhecido pela necessidade de pessoas novas para esquentarem seus pés nas noites frias.

Enfim, transpondo isso para os livros: imaginem uma mistura de Cinderela, Jogos Vorazes (que já era uma espécie de reality show por si só, mas enfim) e Rock of Love – temos a série de hoje, A Seleção.

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Rani e o Sino da Divisão – Jim Anotsu

rani-capaHá uma citação atribuída a Tolstói que diz: “se quer ser universal, comece por pintar a sua aldeia”. O autor Jim Anotsu, já antigo conhecido deste blog, resolveu levar essa máxima a sério: saem as grandes cidades imaginárias, entra o sossego de uma cidade do interior cheia de histórias, lendas e causos que só os locais conhecem – cenário perfeito para ser bombardeado com a mistura de sempre de fantasia e cultura pop.

Rani é uma garota de 15 anos absolutamente comum, não fosse pela ligeira fobia social, que precisa lidar com dramas adolescentes comuns tais quais a prova de matemática de semana que vem, a seletiva das olimpíadas escolares ou quando sairá o novo disco do Nightwish (sua banda preferida junto com sua melhor amiga, Marina, com quem também divide um duo de heavy metal). Um belo dia, ao ir para escola, depara-se com um garoto esquisito, Pietro – e esse encontro desembocará na bombástica revelação de que ela é uma das últimas xamãs vivas, uma espécie em extinção graças à ação do nosso vilão malvado, que quer destruir o mundo, e só ela poderá detê-lo antes que consiga seus objetivos, precisando para isso do tal Sino da Divisão do título.

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Convergente – Veronica Roth

convergente-capaA melhor coisa a fazer quando você se angustia por não terminar nenhum livro de jeito nenhum é pegar um que você sabe que a leitura flui fácil. É tiro e queda: você lê rapidinho e fim, livro lido! Claro que acho muito complicada a obrigação de ler – se lazer vira obrigação, deixou de ser diversão para ser outra coisa. Então, se não tenho blog patrocinado, se não trabalho no processo editorial como um todo, melhor fazer as coisas no meu ritmo e jeito – afinal, por que procurar stress numa atividade que deveria ter o efeito contrário? (e se escrevo isso aqui é que vejo tanta gente, entre amigos e conhecidos, falando que “precisam” ler livros, que leram pouco durante o ano, etc – e confesso que já fui um pouco assim também – que não custa relembrar isso. Não é uma competição. Não deveria ser, ao menos).

Convergente era um livro que servia bem a esse propósito: leitura rápida, já tinha lido os dois outros volumes (e apesar de não ter gostado do segundo confesso que a autora deixava um bom cliffhanger) e ouvi rumores que a autora tinha tomado uma medida bem ousada no livro. Fiquei curiosa e fui conferir, milagrosamente não muito tempo depois do lançamento.

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O Amor de Uma Boa Mulher – Alice Munro

amor-boa-mulherEntão chegamos ao prêmio literário de maior prestígio do mundo, o Nobel. O franco favorito a ser contemplado em 2013, o nigeriano Chinua Achebe, faleceu no começo do ano – e como não há premiação póstuma, deixou seu posto em aberto (só para comentar, já li um dos livros do autor, chamado A Flecha de Deus – que, de certa forma, se assemelha ao livro de hoje, naquilo que traz o recorte do cotidiano de uma família e comunidade numa Nigéria que passa por um imenso choque cultural). Assim sendo, não havia favoritos ou nomes certos e uma grande indagação no ar: quem será o contemplado?

A grande torcida das bolsas de apostas (e também deste blog) era pelo japonês Haruki Murakami, mas a decepção foi generalizada no dia do anúncio do prêmio, que contemplou a canadense Alice Munro. A obra da autora, contista (num mundo de romancistas, um raro dom), intimamente ligada ao cotidiano e vida das mulheres canadenses nas décadas centrais do século XX. Claro que fiquei insatisfeita porque meu candidato preferido não havia ganhado, mas a temática da autora me despertou alguma curiosidade, além de que, querendo ou não, havendo justiça ou não, o Nobel é a maior chancela que um autor pode ter por sua obra.

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Insurgente – Veronica Roth

Às vezes o valor de uma leitura leve é subestimada: não existe escolha melhor quando se está cansada, estressada, madrugando num aeroporto e sem saber a que horas seu voo vai sair,se sair (a história dessa viagem por si mesma daria uma obra de ficção, mas enfim). Então, ao invés de um denso livro de contos de Alice Munro, e mesmo sem lá muito saldo na conta, era melhor continuar a ler essa saga, já que a curiosidade, como sempre, matou o gato.

Não posso negar que me diverti bastante com o primeiro volume da saga e estava mesmo curiosa pela continuação, mas, além da companhia em momentos de tédio profundo e incertezas abissais, o livro mais me aborreceu do que qualquer outra coisa. Não consigo me identificar com Marrentinha, a protagonista, que continua a andar por aí em sua cidade-prisão distópica fazendo as coisas mais estúpidas possíveis e que não possuem nem mesmo a desculpa de plot device, já que dava para fazer a trama andar de mil e uma outras formas. Ao menos não apareceu nenhum triângulo amoroso, algo que é quase sempre irritante em youngs adults que não estão focados no romance, mas em qualquer outra questão que envolva a vida da protagonista (que sempre sempre sempre é The Chosen One).

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