Meio Sol Amarelo – Chimamanda Ngozi Adichie

meio-sol-capaIndependente da orientação política seguida pelo leitor, é preciso saber que há uma óbvia ênfase na história de apenas uma parte do mundo, daqueles lugares Que Realmente Importam. É até uma piadinha comum e recorrente que um acidente de carro com vítimas nos Estados Unidos será manchete no jornal noturno, mas o mesmo evento ocorrido na esquina do bairro passará batido, como se nada tivesse havido.

Da mesma forma se faz o tratamento dos grandes eventos e tragédias da história da humanidade. Se aconteceram debaixo dos holofotes, terão destaque nos livros de história, debates e cultura popular (quantos filmes existem sobre o exército americano na Segunda Guerra Mundial, por exemplo?). Outros, nos cantos mais periféricos do mundo, são esquecidos, ou mesmo nunca referidos.

Para minha geração, Biafra é um nome vazio. No máximo evoca criancinhas mortas de fome na África, de uma forma bem genérica (já que o mesmo Ocidente-que-importa adora generalizar a África como pessoas passando fome). E trata-se, apenas, de uma das maiores tragédias da história da humanidade.

E entramos aqui no papel da literatura. Dentre as várias funções da arte, existem duas a serem destacadas: a da lembrança do que jamais pode ser esquecido e o da terapia do povo, de quem precisa falar sobre o luto para processá-lo e aprender com ele.

Meio Sol Amarelo é um livro sobre a guerra de Biafra (explicação rápida resumida: as fronteiras dos países africanos foram estabelecidas por tratados após a descolonização europeia, sem levarem em conta etnias locais e suas terras tradicionais. A Nigéria é formada pela união de várias etnias e Biafra diz respeito à região dominada pela minoria igbo, que se julgava desfavorecida pelo governo central. Houve guerra civil que durou alguns anos e ceifou milhões de vidas, grande parte delas de fome pelas barreiras impostas pelo governo nigeriano para entrega de ajuda humanitária), contada pela perspectiva de alguns personagens: duas irmãs igbo da classe alta nigeriana, um jornalista inglês emigrado para Nigéria, um professor universitário nigeriano de tendências comunistas e seu serviçal, um garoto de aldeia sem muito contato anterior com a ocidentalização do país.

A história começa como uma trama realista contemporânea qualquer: Gêmea Boa e Gêmea Má são ricas herdeiras, cada uma com uma perspectiva diferente da vida e que se apaixonam e se envolvem com homens desaprovados por suas famílias. Como toda trama familiar há traições, intrigas e disse-que-disses, porém tudo fica pequeno quando a guerra eclode e a preocupação passa a ser com o dia de amanhã.

Apesar de ser um livro interessante, foi meu menos preferido da autora até o momento. Achei mais longo do que deveria e não consegui criar um laço de empatia com os personagens – Gêmea Boa era tão protótipo da mary sue (tão linda que todos os homens se apaixonavam só de olhar para ela, caridosa, dedicada à causa biafrense, familiar amorosa e dedicada, rica) que me parecia uma inserção idealizada no contexto sujo. Seu marido, Professor Esquerdomacho (professor universitário com tendências comunistas, mergulhado de cabeça na intelectualidade revolucionária, porém dado a vícios mundanos como puladas de cerca e retribuições desproporcionais), apesar de um pouco melhor constituído não ganhou minha empatia. Branco Emasculado (o branco feioso, tímido, inseguro, que todo mundo faz bullying e bem menos intelectual do que pensa ser) é uma resposta clara e direta aos protagonistas europeus heroicos na história dos africanos, mas é um personagem bem chato. Dos protagonistas, o único realmente interessante e que me sentia instigada a saber da história era Ugwu, o menino nascido e criado na aldeia que acaba criado por patrões de outra classe social e profundamente intelectualizados – e a transição pela adolescência (com todas as suas implicações) atropelada pela guerra, com um grande choque cultural entre sua origem e aquela de seus patrões é a história mais instigante de todos os personagens.

Tenho a impressão de que, por mais que não seja o livro de estreia da autora, foi escrito antes de Hibisco Roxo, até pela falta de balanço entre personagens e texto. Como disse, é o relato de uma guerra desconhecida pelo ocidente e que deixou raízes profundas em quem passou por ela, que vale ser conhecida, mas dava para ter polido mais o resultado final.

Outro ponto positivo, a meu ver, é primeiramente a ironizada aos protagonistas brancos em terras que não são deles: Richard é, no fim das contas, apesar de suas boas intenções, uma figura um tanto quanto ridícula. Outra é que é uma história narrada sob o ponto de vista dos ricos: apesar de serem pessoas da elite – financeira, intelectual – nigeriana e depois biafrense, logo perdem fortunas e dignidade para a guerra, precisando entrar em filas de alimentos e morar em abrigos como todos os outros (mesmo que ainda persistam muitos privilégios). Melhor do que um “pobreza-exploitation”, que parece ser o grande clichê sobre a África.

Enfim, é uma leitura interessante pelo contexto, mas a parte do romance deixa bastante a desejar.

P.S.: Tem também um filme (nigeriano, uma das indústrias cinematográficas mais prolíficas da atualidade) baseado no livro, que não é tão bom e que acaba só ressaltando os pontos do livro que poderiam ter sido elaborados de forma diferente em prol de um romance melhor.

***mundo

P.P.S.: Lembram da Volta ao Mundo? No momento, estamos na África 🙂

***

Até a próxima!

 

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3 Responses to Meio Sol Amarelo – Chimamanda Ngozi Adichie

  1. como podemos ter uma impressão tão diferenciada de uma mesma escrita! Da onde você tirou que existe no livro “uma gemêa boa e outra má” ? Qual é a má? a que dá aula para crianças em seu próprio quintal? ou a outra que ajuda a plantar legumes e ajuda os pobres no hospital montado pelos padres? Que parte do “romance” ficou a desejar, já que esse livro é um drama de guerra? Mesmo discordando, gostei do seu blog.

    • Fiz uma referência como figura ilustrativa, como gêmeas de personalidades opostas – e enquanto Olenna é pintada desde o começo como a boazinha, Kainene tem uma personalidade mais voltada para o cinismo pragmático. E “romance” não no sentido amoroso da palavra, mas no de narrativa.

  2. Moon.L says:

    Não é o meu livro favorito da Chimamanda Adichie, pois o meu preferido é Americanah, porém não gostei da sua resenha. Absurdo o fato da gêmea má e gêmea boa, as duas eram maravilhosas, as duas tinham amor a sua pátria, não é a toa que com o iniciar da guerra as duas permaneceram lá lutando por Biafra. Olanna era a irmã bonita que tentava ter uma relação harmoniosa com os pais, mesmo com as diferenças ideológicas e as tentativas dos mesmos de usa-la para atrair investidores. Kainene, era a irmã não tão bonita, mas diferente de Olanna era firme em seus pensamentos e ideais (não que Olanna não fosse), mas diferente da irmã, Kainene era firme, sabia se impor, era sarcástica e ao mesmo tempo misteriosa. As falas dela eram maravilhosas e cheias de ironias e verdades. Ela não era má, era uma mulher forte, independente e dominante, não é a toa que Richard foi escolhido para ser seu parceiro. Richard era um jornalistinha, passivo, introvertido e observador, o oposto da mulher.
    Concordo na parte que fala que Odenigbo é um esquerdomacho, mas o seu desbravamento e sua perca de decência e moral cabe a guerra (não estou justificando a atitude terrível dela de ter traído Olanna). A traição também não foi culpa total dela, a garota foi coagida a dormir com o mesmo pela mãe dele, o porque disso? nunca iremos saber, mas a rejeição a baby e as várias tentativas de aborto acusam isso. O livro é mais do que a história da guerra de Biafra, era sobre duas irmãs, tão diferentes e iguais. No fim as duas se reconciliaram, não só a si, mas toda a família.

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