A Outra Volta do Parafuso – Henry James

Um dos maiores apelos do terror, além do medo do desconhecido, é quando a ameaça desconhecida poderia acontecer com qualquer um, inclusive com o leitor em seu sossego. Muito além do terror gráfico de monstros, demônios ou ameaças cósmicas está aquele um pouco mais próximo: a loucura, a perseguição, o crime.

Esta também é a premissa mais básica de uma das mais clássicas escolas do terror (aquela vitoriana, do fim do século XIX e início do XX, que também diz muito acerca do positivismo vigente e do advento da ciência sobre o obscurantismo): qual o pior terror, as assombrações ou as alucinações que ocorrem apenas na mente do assombrado? O sobrenatural é real ou é apenas imaginação?

A trama, já que o livro é de 1898, é bem conhecida: uma jovem preceptora vai trabalhar numa mansão erma (e mansões ermas e sombrias tem tudo a ver com terror, também) contratada para cuidar de dois órfãos, com a condição de em momento algum aborrecer o tio e responsável legal deles com qualquer problema, mas ela começa a ver os fantasmas de sua antecessora e seu amante e conclui que as crianças estão em perigo e precisa salvá-las. Lógico que apenas ela vê os fantasmas e ameaças e toda a trama se constrói sobre as visões.

Só que para mim uma questão ficou muito mais forte do que se os fantasmas existem mesmo ou não: independente da ameaça ser real, o nível de paranoia da protagonista. É ela que conclui sozinha que eles são uma ameaça, mesmo não entendendo nada de fantasmas (e não procura ajuda de um padre, pastor ou sei lá e nem cogita essa ajuda). Também conclui por si mesma (e alimentada pelas fofocas da governanta – se reais ou maledicentes, também indiferente – que podem servir como sugestionamento) o que eles procuram e tudo o que querem fazer, sem conversar a sério com ninguém mais. Ter uma conversa séria e honesta com as crianças também parece fora de questão: ela conclui que existe uma conspiração gigante (não tem base nenhuma para isso além de meia dúzia de fofocas e conclusões que ela interpreta como quer) e sua má condução da situação caminha para fins trágicos.

As crianças em questão (os órfãos Miles e Flora) são duas das peças mais creepy que já me lembro de ter visto em ficção, principalmente o menino. Para começo de conversa, ele é expulso da escola e nossa experientíssima babá, só que não, não procura se informar com o diretor sobre as causas da expulsão – tampouco pergunta ao menino sobre isso. Segundo, o comportamento sempre estranho. Vi interpretações do livro sobre os fantasmas como reflexo da sexualidade da protagonista. Acho a colocação exagerada, mas há um quê de sexual em Miles (o texto deixa espaço para conclusão de um possível abuso sexual por parte do falecido tutor, ou mesmo que a expulsão do colégio possa ter tido essa causa), talvez com uma paixãozinha infantil pela preceptora. Mas o comportamento estranho das crianças, seja qual for a origem, até dialoga de certa forma com o filme Os Outros: chegou um momento em que me perguntei se os verdadeiros fantasmas da história não eram elas.

Um ponto que também estourou meus olhos são o retrato dos preconceitos vitorianos: na época uma mulher estava numa posição inferior à de um homem (por mais que esteja em um papel de autoridade sobre ele) e um empregado ao patrão. É aquela sensação boa de ainda bem que as coisas mudam (não que tais preconceitos tenham deixado de existir, mas não são mais institucionalizados, ao menos).

Enfim, um terror clássico sobre aquilo que é real versus aquilo que sua cabeça cria/sugestiona – e como lidar com essas informações da melhor forma possível. E como perder-se na própria paranoia ao invés de buscar soluções efetivas pode tornar tudo pior ainda.

***

P.S.: Geralmente coloco a capa da edição que eu li para ilustrar a resenha, mas não achei uma boa reprodução na internet da edição lida (a dos Clássicos Abril de algum ano da década de 1980). Então coloquei uma capa da nova tradução lançada pela Cia das Letras/Penguin Books, que você pode adquirir aqui caso deseje (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!

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14 Responses to A Outra Volta do Parafuso – Henry James

  1. Orquidea says:

    Tem que se ler o livro né? Porque vi o filme e parece pela sua resenha que seguiu direito o livro, tb no filme a governanta não procura saber o porque ele foi expulso (o menino)…
    A tradução dessa editora costumo confiar e a capa tb ta bonita, gostei.
    No texto seu vc não disse se leu “A Volta do Parafuso”? Você leu o primeiro?
    Abç e
    boas leituras
    PS: Estou a ler Abraham Lincoln Caçador de Vampiros, to gostando muito!!

  2. Orquidea says:

    Desculpa!! Conhecia o livro como “A Volta do Parafuso”. Pensei que era uma continuação…
    Abç

  3. Alex Bastos says:

    Li esses dias o livro, passei grande parte dele questionando se as crianças não eram fantasmas, pareciam bem irreais. Ótima resenha como sempre Ana.

    P. S: Saudade!

  4. Uau! Enredo bem instigante, além de fugir do óbvio do padrão literário atual sobre a temática.

  5. Michelle says:

    Oi!
    Também estou participando do Desafio Literário. Li esse livro faz um tempinho e também fiquei intrigada com a paranoia da preceptora. Ela tira conclusões do nada e pronto. Conversar com as outras pessoas, perguntar, pedir ajuda… nada disso passa pela cabeça dela. Por isso não gostei tanto. Eu vi uma das adaptações da história para o cinema e achei bem fiel.
    bjo

  6. Tava passeando pelo site do desafio literário e adorei saber de mais alguém que tenha lido a Volta do Parafuso (ou Outra volta, cada edição é diferente rs) Eu gostei bastante da história também, alias, teve um final muito melhor que o filme, que faz a gente questionar realmente a sanidade dela (eu acredito que entendi o que ela fez com o Miles no fim), já o filme acho que pecou por ter ido para o lado do sobrenatural. Só não gosto do modo rápido que ela tira as conclusões, nisso o filme foi um pouco mais sutil.

    Os diálogos com as crianças são incríveis né, foi o mais me chamou a atenção, e faz a gente realmente suspeitar deles, mas se parar pra pensar, é até normal pra crianças que foram criadas só com adultos por perto terem uma mentalidade mais adulta.

    • Até entendo o lado das crianças, de terem passado por vários traumas (morte dos pais, morte da outra governanta), então se justifica elas serem meio creepy, mas é algo que chama muito a atenção…

  7. Acho que o livro que li é bem “mais ou menos”… sinceramente, peguei o livro pelo nome, mas o livro que peguei são duas histórias do Henry James, este, e “Lady Barberina” que não li, mas por ser dois livros pode ser que não seja a história completa… ficou meio confuso, mas tenho medo de comprar o livro e ser a mesma coisa… e ai, o que acham?

  8. Pingback: Desafio Literário 2012 « Leitura Escrita

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