Game of Thrones – Quinta Temporada

shireenEu me lembro muito palpavelmente da minha reação à primeira temporada de Game of Thrones: era a volta à simplicidade dos velhos tempos, à sensação de maravilhamento que tive na leitura do primeiro livro, anos atrás – e que se opunha ao confuso, prolixo e muito pouco satisfatório quinto livro da saga, também lançado naquele ano. Era o confronto de uma história fantástica realista, com personagens carismáticos, com uma que se enfiava num espiral de confusão e desamparo, com muitas perguntas, poucas respostas e a incerteza de se haverá um dia um final (o último capítulo faz isso parecer impossível, ao menos em sete livros).

Nos últimos quatro anos, muita coisa aconteceu. Game of Thrones, o seriado, se tornou um dos maiores hypes da história – se antes éramos uma meia dúzia de nerds que tínhamos importado os livros e estávamos ansiosos por um seriado fantástico que nem sabíamos se daria certo e seria renovado, hoje estamos diante de uma franquia bilionária, com milhares de subprodutos, fortíssima presença na mídia e com público amplo e variado. A Song of Ice and Fire, os livros, continuam… como se estava. À espera do sexto livro (para quando, não se sabe), vários e interessantes contos sobre outros personagens no mesmo universo (recomendo O Cavaleiro dos Sete Reinos para uma sensação bem semelhante à do primeiro livro), um livro-cenário bem legal, que também explora personagens secundários e informações de sobra para os fãs (e que ainda não li inteiro)…

E chegamos ao final agridoce prometido pelo autor, mas que provavelmente nem ele mesmo foi capaz de antecipar: veremos o final na série de TV primeiro. As consequências disso já começam a ser sentidas, inclusive com uma nada óbvia guerra civil se estabelecendo entre autor e produtores do seriado (JAMAIS um virá a público falar do outro, ainda mais com a galinha dos ovos de ouro botando sem parar, mas dá para captar bastante nas entrelinhas).

Por erros próprios e outros que vêm do material original (por menos que os fãs mais ardorosos desejem admitir), a quinta temporada consegue ser a mais equivocada de todas.

Alguns reclamam do ritmo lento dos primeiros episódios; eu, particularmente, achei que as coisas andaram rápido o bastante (não sei se é porque li o quinto livro e sei o quanto as tramas demoraram a se desenvolver ali). Inclusive, leitor, não-leitor, tudo passou a dar na mesma: personagens que estão vivos nos livros morreram, que morreram nos livros estão vivos, tramas foram suprimidas, outras alteradas, enfim, acabaram os spoilers.

Aqui começa o sofrimento de ter de condensar dois livros infilmáveis (dispersos, pouco objetivos e com uma procissão de personagens tendo cada um quinze minutos de projeção) – era impossível que Sansa, por exemplo, passasse uma temporada inteira não fazendo nada enquanto havia uma trama na qual ela poderia ser adaptada. Como já disse antes, a simples adaptação da trama dela não me incomodou em nada. Tyrion passando uma temporada indo de um lado para o outro e por fim chegar ao destino com uma diferença de, sei lá, três dias para tudo se desandar? MUITO MELHOR a versão objetiva que adotaram na série. Cersei e Daenerys descobrindo que não sabem governar e metendo os pés pelas mãos em cima de pés pelas mãos? Resumido. Jon contando mantimentos e se dando conta que a coisa está realmente muito feia? Também não.

Agora, o Episódio na Praia de Jaime Lannister em Dorne foi entre o triste e o sofrível. Cortaram Riverlands (porque cenários demais, personagens demais, tramas demais e sentido de menos)? Tudo bem. Mas o arremedo de utilidade que deram para ele ficou péssimo – um bom personagem (um dos melhores do livro original) preso numa trama péssima, sem sentido e com personagens horríveis. Vamos cortar Arianne Martell porque também cortaremos o Jovem Griff e poupará um longo caminho, além de que é melhor usar um personagem já existente do que tentar criar empatia com uma desconhecida, tudo bem, mas pelo menos numa história que fizesse algum sentido, acho eu. Porque esse segmento não fez nenhum.

Não sei se para o não-leitor essa passagem tenha desagradado tanto, mas para o leitor, foi talvez o pior segmento deste ano, por estar errado por qualquer ângulo que se olhe (por mais que no final tenham ao menos dado um gancho interessante para a coisa – mas, sinceramente, qual será a diferença se jamais virmos essas pessoas de novo?).

Sobre a definição do arco da Sansa, já falei bastante sobre o tema. E é o começo do grande, grandíssimo problema dessa temporada – se nos deu um episódio maravilhoso, sendo tudo aquilo que o livro cinco não foi para os leitores (Hardhome), a série parece ter caído na armadilha de seu principal trunfo: o choque. Qual a necessidade, para a história, terminada a temporada, de não ter sido deixado implícito o que aconteceu com a Sansa após o casamento? E o que é pior, fazer o sofrimento dela como centro para o desenvolvimento de um personagem masculino? Só consigo ver um “VAMOS SER POLÊMICOS, VAMOS DEIXAR A INTERNET FALANDO SOBRE NÓS!”, pouco importando se isso geraria uma cena desconfortável e mesmo uma falta de coerência interna danada – já que no fim da quarta temporada ela parecia mais esperta e confiante, na quinta, virou uma mocinha indefesa que não conseguiu fazer muito por si mesma além de insultar o marido (nem mesmo tentativa e falha em manipulá-lo houve). Que ao menos não nos dessem o final da quarta temporada, já que queriam trilhá-la pelo caminho escolhido, pois forneceram aos espectadores no mínimo uma leitura equivocada.

E o reforço do choque pelo choque, do “vamos fazer as coisas da maneira mais chocantes que conseguirmos para termos buzz e toda a internet falar de nós” voltou de novo no nono episódio. De novo, não achei o destino de Shireen gratuito. Era algo sugerido no mínimo desde a quarta temporada. Porém, novamente, houve um gigante pecado na forma, que tornou tudo simplesmente envolto num maravilhoso molho de choque gratuito. Afinal, é preciso um Ned Stark, um Red Wedding, em toda temporada, para as coisas irem bem, né? E parece nem importar muito se o novo choque da temporada precisa estar bem construído – ou se foi gratuito e apressado para agradar aos fãs. Aliás, esse parece ter desagradado muito mais do que agradado. Novamente, nem tanto pelo conteúdo, mas pela forma como ele foi apresentado.

Voltando, não que os erros primários não tenham sido cometidos lá no começo. Se há hoje essa pressa do Martin para terminar o livro 6 antes da sexta temporada… por que isso não foi avaliado ao vender os direitos da série, em primeiro lugar? Ou saber que dois livros pessimamente editados (o 4 ou 5) muito dificilmente virariam um material com tanto apelo na TV como o terceiro livro?

Enfim, finda a temporada, é bom pegar as partes boas (Hardhome, todo o arco da Arya), mas principalmente esperar que os produtores levem em consideração aquilo que desagradou e poderá ser revisto para temporadas vindouras. Não será difícil.

***

Até a próxima!

Anúncios

2 Responses to Game of Thrones – Quinta Temporada

  1. Republicou isso em Eu Vivo a Melhor Idadee comentado:
    JÁ GOSTEI MAIS DA TRAMA. OS SETS SÃO MUITO LUXUOSOS E A TECNOLOGIA SENSACIONAL. MAS A HISTÓRIA ERA MELHOR

  2. Bruno disse:

    Só pra dizer que subscrevo embaixo de tudo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: