Territórios Invisíveis – Nikelen Witter

territorios-capaAlguns livros são gratas surpresas e nos oferecem muito mais do que aparentam numa primeira vista, mesmo quando já prometiam muito…

Quando criança/pré-adolescente, quando não se falava no termo young adult, eu amava livros de aventuras (principalmente se envolvessem mistérios), de protagonistas mais ou menos de minha idade com uma vida semelhante à minha. Foi a época dos Karas, de Pedro Bandeira, e de quase toda a Coleção Vaga-Lume. Era o tipo de história que mais me empolgava (e que foi evoluindo com o tempo, a descoberta de coisas novas, etc), que me imaginava ali num grupo de jovens aventureiros/investigadores contra perigos inimagináveis.

E não é que o Territórios Invisíveis trouxe de volta toda essa sensação boa de livro da infância?

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A Morte É Legal – Jim Anotsu

Então um dia nós vemos um escritor novo por aí e pensamos: nossa, que livro legal, quero ver o que mais ele é capaz de fazer. Pensa que ele tem referências interessantes e pouco usuais para os colegas de geração e de nicho e, quando tem notícias de um novo romance, fica curiosa em ver o resultado final e o que o cara é capaz de aprontar.

(aqui um parêntesis que ninguém precisa saber: eu vi os primeiros rascunhos do livro, dei pitacos, falei do que gostei e não gostei. Por causa da minha moleza para ler de elementos externos, acabei lendo a versão final assim como todo mundo. Acompanhar o doloroso parto de um livro é bem interessante, discussões sobre esse ou aquele personagem, essa ou aquela trama, se isso funciona direito ou aquilo precisa de reparos… enfim).

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The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

Tem espaço no mundo (e nas estantes) para todo tipo de história. O que é legal para mim pode não ser para você e vice-e-versa, ou mesmo o que é legal para mim no humor de hoje pode não ser amanhã. Posso querer para hoje algo mais denso e cheio de significados, enquanto amanhã posso querer uma comédia bem leve. Posso querer um terror de arrepiar e amanhã um romance que estoure meu índice glicêmico. Às vezes quero apenas a segurança de saber exatamente o que vou encontrar na leitura.

Então, não vejo mal nenhum em um livro épico, com um dualismo maniqueísta sem maiores questionamentos, o protagonista passando pela jornada do herói sendo que dá para marcar em uma cartela de bingo os elementos ou passos da jornada, personagens rasos que só estão ali para cumprir papéis pré-determinados sem maior preocupação em desenvolvimento, vilões megalômanos e todas essas coisas. Na verdade tem épocas em que quero esse tipo de leitura, que quando bem feita é bem divertida (ainda mais para quem tem gosto por uma boa high fantasy).

Então, fui atrás de um clássico do gênero. A série Wheel of the Time é uma das mais famosas e mais queridas do gênero high fantasy, com vários e apaixonados fãs, fóruns de discussão, vários produtos derivados como jogos eletrônicos e rpg’s… enfim. Todo um universo de fãs não pode estar errado em apontar apelo e carisma na série, então era um livro que valia ser lido nem que para conhecer do que se tratava.

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Sagas 3: Martelo das Bruxas – Vários Autores

Já fazia tempo que queria conferir o trabalho da editora gaúcha Argonautas (é tão legal ver a variedade crescente de temas, locais e pessoas que a literatura fantástica nacional proporciona!). Eles possuem um projeto interessante chamado Sagas, que são antologias temáticas com uma pegada mais pulp (como a capa sugere) de bons autores convidados e tamanho reduzido, o que influencia diretamente em seu preço. Até agora foram lançados dois volumes, mas o terceiro e mais recente me chamou a atenção pela temática: como o título já sugere de imediato, trata-se de uma versão fantástica da inquisição.

Como você, meu bem-informado leitor, bem sabe, a perseguição à bruxaria (não necessariamente sob a Inquisição) está muito relacionada a uma religião, agora dominante, que desejava destruir os últimos vestígios de paganismo havidos na Europa medieval e que aliou-se a uma perseguição ao feminino e suas artes (como o ciclo dos nascimentos, tradicionalmente “assunto das mulheres”, e a cura pelas ervas). Foi uma época especialmente difícil para ser mulher (como se houvesse época fácil, mas essa se destaca), principalmente porque qualquer uma poderia ser acusada de bruxaria por qualquer motivo e os processos eram bastante precários – para quem se interessa em saber a injustiça destes julgamentos ajudou a prática jurídica a evoluir, mas enfim.

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O Rei Mago – Lev Grossman

Não gosto muito de fazer resenhas de livros seguintes de séries, primeiro porque é impossível evitar a comparação com o livro anterior, segundo porque não tem como evitar spoilers. Ou mesmo não tenho muito a dizer depois do primeiro livro porque o(s) seguinte(s) não agrega(m) muito. Mas de vez em quando, ainda mais se gostei muito do livro ou se há muito o que ser dito (bom, uma coisa não deixa de pressupor a outra, né), por que não fazer?

Um ponto importante antes de começarmos a resenha propriamente dita: este é um caso no qual o livro é realmente uma continuação do anterior. A trama de Os Magos (recomendo bastante) terminou naquele livro, apesar do universo ter deixado brechas para ser expandido. A trama deste novo livro é bem outra, ainda que com os mesmos personagens e cenário. Novamente, temos um começo, meio e fim, ainda que já se tenha uma convivência anterior com cenário e personagens.

A partir de aqui, spoilers do primeiro livro, então fiquem atentos!

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A Wizard of Earthsea – Ursula K. LeGuin

Acho que não falo muito de uma das peças essenciais da composição de um livro: o autor. No caso, a autora: Ursula K. Le Guin. Ela é uma das maiores autoras de ficção científica do século XX, que começou a publicar justamente quando o movimento feministra e tantos outros da década de 1960 começaram. Acadêmica, resolveu imprimir em sua ficção científica temas das ciências humanas e sociais, como antropologia e sociologia. Dentro desses temas, sua obra é marcada por discussões sobre gênero, racismo, sustentabilidade… Talvez seus maiores clássicos sejam A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, que tratam exatamente sobre esses temas. Trata-se de uma ficção científica mais sóbria, repleta de significados intertextuais, reconhecida e premiada por essas razões.

Mas tem uma coisa bem legal sobre a Ursula K. LeGuin: além dessa ficção mais sisuda, ela também escreve para crianças e jovens. Earthsea (ou Terramar, os livros saíram no Brasil, mas são de edição esgotada) é uma série fantástica mais aventuresca, focada em um público mais jovem, inspirada nos trabalhos de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis que ela leu durante a infância. O que esperar então de uma saga aventuresca feita por uma autora engajada política e socialmente? Simples: uma história com um subtexto não muito comum em livros de fantasia 🙂

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Fluxograma para um leitor iniciante de ficção científica e fantasia

Esse fluxograma bem legal está rodando pelas redes sociais há alguns dias, a partir do blog SF Signal e que traz um guia dos 100 melhores livros de FC&F para leitura. É bem legal ir pelos caminhos e procurar qual seria “seu livro”. Está em inglês e não traduzi, mas se você entende, é legal ir acompanhando.

(clique na figura para ampliar)

É uma lista evidentemente controversa (senti falta do Drácula aí, por exemplo, e acho que Stardust está sobrando), mas interessante. Realmente, se você é um leitor iniciante do gênero, que quer saber por onde começar, esta é uma excelente estrada. Dá também para fazer umas consideraçõezinhas sobre os escolhidos.

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Os Filhos do Éden – Eduardo Spohr

Um dos grandes destaques do ano passado foi, sem dúvidas, A Batalha do Apocalipse, do brasileiro Eduardo Spohr, que partiu de uma edição independente (que se esgotou num instante) para uma grande editora – e permaneceu por semanas a fio entre os livros mais vendidos, com todos os méritos.

O desafio foi o que veio depois: como seriam as coisas após um épico das proporções de A Batalha do Apocalipse?

Os Filhos do Éden parte de uma decisão ao mesmo tempo arriscada e corajosa: pegar o cenário de A Batalha do Apocalipse, mas contar outra história com outros personagens. O autor justifica-se dizendo que o Apocalipse é o grande evento de seu universo e não haveria como ser fiel ao próprio cenário concebendo um evento “maior do que o maior”. Concordo. O cenário dos anjos é riquíssimo e cobre no mínimo 10 mil anos de história da humanidade, há possibilidades de se contar uma infinidade de história nesse meio-tempo. Fora que são livros independentes: dá para ler primeiro Os Filhos do Éden sem prejuízos de compreensão de cenário e personagens, até porque falam de tempos e eventos diversos.

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Os Magos – Lev Grossman

Meses atrás, em um desses momentos de indecisão sobre a próxima leitura e conversando sobre indicações de livros, meu correspondente gaúcho me indicou um dos seus livros preferidos, que havia lhe impactado bastante quando lido: Os Magos, de Lev Grossman.

A recomendação e a temática do livro (uma fantasia passada no mundo real, nos tempos atuais, com uma pegada mais adulta, além de estar um pouco distante da “modinha” fantástica) me convenceram a dar uma chance ao livro –  e ele acabou trazendo um conteúdo um pouco diferente daquele que eu imaginava encontrar.

Essa é a história de Quentin, um adolescente normal, com tendências nerds, solitário e dotado de inteligência acima da média que, um belo dia, graças a uma série de eventos estranhos, é convidado a frequentar a Universidade Mágica de Brakebills. Claro, até aquele presente momento, ele não sabia da existência de mágica no mundo, apesar de seu apego aos livros infantis passados no lindo, mágico e idílico mundo de Fillory que ele sempre quis visitar. (e aqui entra uma referência explícita e óbvia a Nárnia, mas também, e por que não, à Terra do Nunca, referência que fica mais clara com o subtexto em mente, mas já chegamos lá).

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O Baronato de Shoah: A Canção do Silêncio – José Roberto Vieira

Os videogames, como diversão eletrônica acessível, agradável e cativante, começaram a ser popularizados no inicinho da década de 80, com o primeiro console doméstico, o Atari. De lá para cá, os jogos foram ganhando em complexidade – gráfica e temática – e deixam, aos poucos, de ser vistos apenas como “diversão para crianças” para serem vistos como peças de narrativa em que o jogador pode participar do rumo da trama (bom, acho que já falei sobre isso antes…)

Uma geração inteira cresceu com os dedos apertando botões nos joysticks, acompanhando as histórias nas quais podiam interferir e se apegando aos personagens, dramas e desafios dos jogos. Esta geração, que já se aproxima dos 30 anos, cresceu, apareceu e agora afirma seu lugar como adulta e como parte do mundo e da construção cultural geral. E, logicamente, tendo crescido salvando Zelda, isso influenciaria também a forma de expressão do mundo (e o que é a literatura senão uma forma de se expressar?)

O Baronato de Shoah é um livro cuja inspiração explícita é o videogame, em especial os RPGs de console e mais especialmente ainda a série Final Fantasy (da qual voltarei a falar aqui algum dia). Também dá para ver uma grande influência dos animes (em especial Full Metal Alchemist, que você pode ter uma palhinha de como é AQUI e AQUI), o que demonstra bem as influências de um autor que cresceu nas décadas de 80 e 90.

Mas deixando as referências de lado, vamos falar da história.

Era uma vez o continente de Nordara e o Baronato de Shoah, terra onde, séculos atrás, os Titãs foram vencidos pelos bnei shoah, guerreiros de elite, em oposição aos ggoym, que não lutaram e nos dias atuais carregam uma pecha de covardia por isso. Os bnei shoah tornaram-se então uma espécie de aristocracia e vários de seus jovens são treinados, desde a tenra idade, para a manutenção do exército, encaminhado de acordo com cada um de seus dons (os dons e seus nomes são livremente inspirados na Cabala e mitologia hebraica em geral – então esperem por um tempero bastante diferente para essa aventura. Na verdade, “Kabalah” é até mesmo o nome da tropa de elite do Baronato).

E segue a história de Sehn Hadjakkis, cujos pais são guerreiros extraordinários da Kabalah, fazendo com que as expectativas sobre ele fossem altíssimas. Ele namora Maya, que apesar de ggoym vem de uma família bastante rica, mas a diferença de “castas” os impede de ficarem juntos. Ambos os adolescentes juram amor eterno e partem para seus destinos, ele para o treinamento para ingressar a Kabalah, ela para se casar com algum noivo escolhido pela sua família.

Sehn conhece então o grupo de amigos que fará parte integrante de sua vida, em especial Edgar – que também terá papel importantíssimo no decorrer da história.  Nessa primeira parte da história, talvez pela quantidade de termos exóticos e de personagens que precisam ser apresentados, além da inevitável infodump sobre o cenário e suas peculiaridades, a linha narrativa do Sehn ficou bastante confusa – e a da Maya muito mais interessante (já que ela não é o tipo de moça que ficará sentada esperando os desígnios de sua família sobre seu futuro, – apesar de que a personagem, balanceada no começo da história, pende para o caricatural em seu desenvolvimento). Isso é corrigido na segunda parte da história, principalmente depois que os planos dos vilões são revelados, os personagens são melhor integrados e a linha narrativa de Sehn ganha agilidade.

Quanto à terceira parte, dá para sentir alguns problemas, como a pequena passagem da personagem Minerva – que não acrescenta em nada à trama – e alguma confusão no capítulo final  – onde achei que se as coisas se estendessem por mais umas 10 ou 15 páginas, a situação se desenrolaria de forma menos atropelada. É de se levar em consideração que é o primeiro livro do autor e que o livro é o primeiro volume de uma série (o que perdoa a necessidade de bastante infodump para ambientação)

Claro, essas são falhas que me saltaram aos olhos, mas nenhuma delas prejudica o bom desenvolvimento da leitura ou a compreensão global dos eventos. Além disso, ainda mais se você jogou Final Fantasy, todo o clima de videogame traz um bônus a mais e um sorriso no rosto da narrativa (ainda mais levando em consideração que a dinâmica Sehn-Edgar lembra BASTANTE a dupla abaixo, e Tesla também tem um tempero de vilões loucos da série como Kefka ou Kuja)

E tem, é claro, o cenário steampunk fantástico, bem legal de se ver. Porque a estética steampunk (e mesmo a parte política/crítica social) não precisa estar atada ao planeta Terra, não é mesmo? 🙂 E dá-lhe dirigíveis voadores, espadarmas, um combustível alternativo (a Névoa) e até mesmo robôs gigantes 😀  A construção de mundo, bem diferente do high fantasy clássico, é algo bem legal de se ver.

Enfim. Excelente homenagem aos videogames, aos animes e amostras de uma fantasia que pode ter temperos diferentes e também ser o reflexo de novas mídias e histórias.

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Até a próxima!