Juliette Society – Sasha Grey

juliette-capaNa verdade, duas coisas me atraíram para este livro: a personagem da autora, uma ex-atriz pornô que em sua época áurea foi a queridinha do gênero e ganhou fama por isso, e a frustrante experiência com o erotismo de Cinquenta Tons de Cinza (beeeem conservador e burocrático). Eu gosto de livros eróticos, um clássico do gênero, inclusive, é um dos meus livros prediletos dentre todos. Autores como Anaïs Nin ou Henry Miller habitam eventualmente minha lista de leituras (infelizmente não li nada deles desde o início do blog, posso até ver isso, hein), então ver uma versão “pop” para livrarias (porque existe o grande, vasto e safado universo dos livros de banca, o qual nunca penetrei) é uma experiência interessante, ainda mais se houver bons resultados.

 Sobre Sasha Grey, já que falei nela, em sua época de atriz pornô foi uma das queridinhas da indústria e do público, principalmente pelas performances extremas. Ela teve sorte de conseguir sair do meio jovem, com uma fanbase disposta a apoiá-la em seus novos projetos e, aparentemente, sem grandes sequelas – o que não é fácil, a indústria pornográfica é especialmente cruel com suas funcionárias (não é nada bonito, muito menos glamouroso). Entrar nela é, quase invariavelmente, degradar a saúde e a sanidade (e não me venham com “elas escolheram”, porque muitas vezes é a única escolha possível num momento de desespero financeiro – e mesmo não sendo o caso, nas raríssimas exceções, a candidata não sabe o que encontrará do outro lado. Não é muito diferente da prostituição).

 Enfim. Enchi-me de curiosidade pelo livro, até porque a autora deve saber uma coisinha ou mais sobre sexo do que aquela dos Cinquenta Tons – e a experiência despretensiosa poderia ser divertida.

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O Aprendiz de Assassino – Robin Hobb

capa-aprendizFalamos muito daquela fantasia top que está na boca do povo, seja por causa de um eventual filme ou minissérie, seja porque vem associado a uma grande campanha de marketing ou atrelada a um grande nome.  Mas existem várias obras que, se não estão fora do radar, fazem parte de um “lado B” menos pop, mas conhecidos pelos leitores e sempre relacionados quando se perguntam sobre boas obras. Um desses casos é a Saga dos Visionários, de Robin Hobb, que saiu recentemente traduzida em português.

Robin Hobb, esta, que é uma mulher de pseudônimo “neutro” utilizado para, quem sabe, burlar o estranhamento de uma autora escrevendo para um público mais neutro (o que dá um longo assunto cheio de pano para manga que não trataremos por agora), nos traz a história de Fitz, fruto da relação ilegítima do herdeiro dos Seis Ducados com uma camponesa, largado por seu avô materno para que a família de seu pai de livre dele. Só que o garoto é uma peça importantíssima para qualquer pretensões políticas – é um herdeiro, ainda que ilegítimo, que nas mãos erradas pode ser uma grande ameaça ao status quo. E que ameaça – o rei Sagaz casou-se duas vezes e possui filhos dos dois casamentos, ou seja, sua própria casa já possui sozinha um grande potencial de divisão.

O menino, então, é criado como um bichinho selvagem por Bronco, o mestre dos estábulos, mas logo percebem que o garoto pode ser muito, muito mais útil se participar dos jogos de poder.

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Cinquenta Tons do Sr. Darcy – Emma Thomas

50-tons-darcyÉ uma verdade universalmente reconhecida que um clássico gera o desejo da iconoclastia. Aliás, essa iconoclastia é até mesmo saudável, pois obras e conceitos intocáveis não são nada saudáveis – e para que a quebra seja eficiente, quem a faz deve conhecer a obra original para tal.

Orgulho e Preconceito é uma das obras mais importantes da literatura inglesa. Um jovem provavelmente lerá o livro no colégio em países de língua inglesa, inclusive (e será que pegarão a ojeriza aos clássicos tão comum entre os alunos pátrios?). É muito mais do que um romance: é o retrato e crítica social de uma época que aparenta ser tão glamourosa, mas que continua se aplicando aos dias atuais, como o peso da conta bancária de alguém, prestígio social, preconceitos à primeira vista e mal-entendidos.

E como todo clássico, é constantemente renovado, tanto pela adaptação para outras mídias (tem ao mínimo três versões em filmes/séries de TV, incluindo uma muito clássica da BBC) quanto por recontagens (por incrível que pareça O Diário de Bridget Jones é uma versão moderna da obra) e paródias (como a precursora da onda de mashups Orgulho e Preconceito e Zumbis). Acho todos os casos válidos, pois é assim que o clássico se mantém vivo, não imutável e encostado na parede pegando poeira, traça e teia de aranha.

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Cinquenta Tons de Liberdade – E. L. James

uAiai. O que não se faz para pagar uns pecadinhos literários? Mas a penitência chegou ao fim, esse é o último livro do famoso best-seller de “pornô para mamães” que está na lista de mais vendidos desde que foi lançado no mundo todo para deleite de algumas, curiosidade de muitos e horror de outros. Não vou dizer que não tenha sido uma experiência antropológica, digamos assim, divertida, principalmente por fatores involuntários, e nem a certeza de que agora vou precisar de outra série ruim para ler pelo único objetivo de zoeira… (até porque o último livro de Fallen já foi lançado, tenho de ler depois).

Mas enfim, vocês podem ver minha travessia por inferno e purgatório aqui e aqui. Nesse último volume Ana, que deveria ter saído correndo, procurado atendimento psicológico para si e para Christian, ir viver sua vida ou sei lá aceitou um pedido de casamento feito depois de longuíssimos 45 dias de relacionamento. É, porque é muito sensato assumir um compromisso assim tão sério com uma pessoa que você conhece faz um mês e meio. Pelo menos na inspiração declarada Crepúsculo ainda se leva mais de ano para que Bella e Edward juntem os trapinhos. Só que ninguém nessa história é mentalmente são, vamos que vamos com essa história de casamento.

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Cinquenta Tons Mais Escuros – E. L. James

Avisei na resenha anterior: corra desse cara, Ana, que ele é cilada! Óbvio que ela não correu o mais rápido que conseguiu. Mas o mesmo se aplica para mim: sei que esse livro é cilada, mas lá estava eu lendo feito boba e escrevendo essa resenha para relatar a experiência para vocês.

Recapitulando, a série Cinquenta Tons é o sucesso editorial de todos os tempos da última semana. Conta a história de Anastasia Steele, uma moça bobinha, inexperiente e insegura que se envolve com o misterioso, problemático, lindo, tesão, bonito e gostosão (e rico, mui rico) Christian Grey. Nisso, nossa ex-virgem descobriu-se compulsiva por sexo, que é algo que o bonitão pode dar em abundância para ela, e assim segue a vida.

As novidades deste segundo volume são que o casal reata e começa a se conhecer melhor (porque, claro, eles só vão ter um diálogo honesto depois de meses de putaria extrema. Ninguém nem sabe qual o prato preferido do outro, qual matéria gostava mais na escola, essas coisas) (meu namorado teria problemas, acho que não tenho prato preferido. Qual é meu prato preferido? o.Ô). Agora estão num namoro firme e sério, ao contrário da relação de escopo meramente sexual que o sr. Grey pretendia no início. Mas como estava tudo tranquilo demais, agora temos um chefe tarado e uma ex-namorada louca na parada, para agitarem tudo!

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Cinquenta Tons de Cinza – E. L. James

Minha curiosidade literária me coloca em roubadas de vez em quando. Aliás, se forem pegar a lista de resenhas do site, dá pra ver algumas dúzias dessas roubadas, com resultados diversos. Quando comecei a ouvir falar de Cinquenta Tons de Cinza, pensei algo como: “corra, Bino, é uma cilada!”. Só que daí a febre foi crescendo, as pessoas foram falando mais, fui tendo mais informações e o bichinho da curiosidade começou a me picar. Ui.

Pensei que estivesse embarcando em mais um roubada, mas não: o livro é UMA DELÍCIA. Só que por motivos muito, muito errados (e nem tou falando da parte erótica, afinal, o repórter gostosinho tem lá sua razão).

Para quem não sabe ainda sobre o que se trata esse novo fenômeno editorial, é a história de Anastasia Steele, estudante, 21 anos, virgem, insegura e de baixa autoestima, que, às vésperas de sua formatura conhece o bonitão, gostosão e ricaço Christian Grey. Surge uma tensãozinha recíproca que evolui para romance, mas o sr. Grey é um camarada esquisito, desses que exigem que as pretendentes assinem um termo de confidencialidade antes de se entregarem aos seus encantos. Só que, ao contrário do que o leitor possa suspeitar, não se trata de uma ereção de 5cm – mas uma predileção por sexo sujo. E outras feridas emocionais que conheceremos, juntos de nossa inocente protagonista, que descobre ter uma periquita em chamas.

O livro é kitsch até a medula e um poço de humor involuntário. Sério, é o antídoto perfeito contra qualquer mau humor. A narrativa é ruim, o livro é mal escrito mesmo e a autora parece não estar nem aí, pelo contrário, é a lei do lulz. E pelo lulz, não dá para largar o livro até o final.

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The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

Tem espaço no mundo (e nas estantes) para todo tipo de história. O que é legal para mim pode não ser para você e vice-e-versa, ou mesmo o que é legal para mim no humor de hoje pode não ser amanhã. Posso querer para hoje algo mais denso e cheio de significados, enquanto amanhã posso querer uma comédia bem leve. Posso querer um terror de arrepiar e amanhã um romance que estoure meu índice glicêmico. Às vezes quero apenas a segurança de saber exatamente o que vou encontrar na leitura.

Então, não vejo mal nenhum em um livro épico, com um dualismo maniqueísta sem maiores questionamentos, o protagonista passando pela jornada do herói sendo que dá para marcar em uma cartela de bingo os elementos ou passos da jornada, personagens rasos que só estão ali para cumprir papéis pré-determinados sem maior preocupação em desenvolvimento, vilões megalômanos e todas essas coisas. Na verdade tem épocas em que quero esse tipo de leitura, que quando bem feita é bem divertida (ainda mais para quem tem gosto por uma boa high fantasy).

Então, fui atrás de um clássico do gênero. A série Wheel of the Time é uma das mais famosas e mais queridas do gênero high fantasy, com vários e apaixonados fãs, fóruns de discussão, vários produtos derivados como jogos eletrônicos e rpg’s… enfim. Todo um universo de fãs não pode estar errado em apontar apelo e carisma na série, então era um livro que valia ser lido nem que para conhecer do que se tratava.

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A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

Então é Natal.

Todo mundo de ressaca, 10kg mais gordo, depois de ouvir milhares de trocadilhos infames com “peru” e nós aqui do blog oferecemos a última resenha do ano! Êêêê!!!!

Aprendi a ler muito cedo, então posso dizer que os livros estão presentes na minha vida desde sempre. Mas não foram eles minhas únicas referências de narrativa, muito menos as únicas histórias que ouvi ao longo da vida.

Lá pelos meus inocentes sete ou oito aninhos regados a manhãs fazendo lição de casa na frente da TV ligada na saudosa Manchete, eis que surgia meio por um acaso uma obra que acabou por ser marcada a ferro e fogo no coração da minha geração: Os Cavaleiros do Zodíaco. Como esquecer as Doze Casas, do Mestre do Santuário, das batalhas épicas, armaduras, golpes gritados, do valor da amizade e da devoção à Atena? Podem falar o que quiserem da trama em si (e é fraquinha mesmo, ai essa história na minha mão…), mas o carisma dos personagens, o clima da série e suas passagens memoráveis  são inesquecíveis.

Depois ainda vi muitos animes na mesma linha: o grupo de amigos que luta contra o mal e que depende da força da amizade e do amor para avançar, com muuuuita pirotecnia (e meu segundo anime mais marcante de todos é Sailor Moon, tá, prontofalay). Mas a gente vai crescendo e procurando histórias mais elaboradas, já que não só de pirotecnia vive o espectador…

Até que, em um belo dia, cai na mão do leitor já crescidinho e escolado um livro que tem todo o clima de seus desenhos prediletos da infânca E um roteiro caprichado. Epic win. A Batalha do Apocalipse me conquistou por isso, por ser uma espécie de Cavaleiros do Zodíaco 2.0.

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Os Sete – André Vianco

Antes de começar a resenha tem “causo” pra contar: quando fui a São Paulo para o lançamento do Meu Amor É Um Vampiro, em junho, a Ana Cristina Rodrigues, também participante do livro, tinha um almoço marcado com alguns membros do Grupo Silvestre – inclusive, Felipe Pena, o dono do blog linkado ao lado, era um dos presentes no citado almoço. O manifesto tem a interessante proposta de valorizar a literatura de entretenimento, vista como marginal, secundária, pequena, de segunda classe… Enfim, voltarei ao tema no post e algum dia falarei disso com calma. E quem estava presente no almoço? André Vianco.

Almoçando, conversa vai e conversa vem, em um desses acidentes de percurso ele acidentalmente derrubou uma taça de água nesta que vos escreve. Lembrem-se: eu lançaria dentro de algumas horas um livro sobre vampiros e o mais conhecido autor brasileiro contemporâneo de terror e fantasia tinha me acertado água. A simbologia é óbvia e resolvi tomar como o melhor dos presságios – um batismo como escritora profissional. 🙂

***

Literatura não se limita à produção acadêmica, pelo contrário. Já falei um pouco sobre isso antes, mas nunca é demais repetir. Existem os autores que estão preocupados em utilizarem-se dos fundamentos da teoria literária para fazerem obras de arte atemporais (ou ao menos tentam), de usarem palavras e transformá-las em poesia, de utilizar a ficção para filosofar… E outros que querem principalmente entreter o público, garantir uma leitura leve e divertida.

E o que o André Vianco quer oferecer ao seu leitor é: entretenimento. Diversão. Como um bom blockbuster pipoca de ação, desses que servem para desligar o cérebro e curtir – e que jamais ganharão um Sundance, um Cannes ou um Festival de Berlim… mas farão grande bilheteria, arrasarão no boca-a-boca e alguns deles até gerarão mini-fandoms.

Claro, como o Vianco atingiu notoriedade e sucesso, começam os detratores. Os livros são ruins, são isso, são aquilo, são aquilo-outro e blablabla. Muito curiosa para saber a origem de seu sucesso, resolvi encomendar um livro e ver qual era e não gostei do que li por uma série de razões.

Mas da mesma forma que alguns outros autores, resolvi dar ao autor uma segunda chance para tentar entender por que ele tem tantos fãs, suas oficinas no Fantasticon estão sempre cheias. Como não gostei muito do primeiro livro que li fui deixando pra lá, deixando pra lá, até acontecer o incidente acima e aparecer uma linda e providencial promoção dos livros dele numa das lojas online que você encontra no banner aí do ladinho… -> 😛

Os Sete foi o escolhido por ser seu primeiro livro de vampiros e por ter só uma continuação realmente direta. Comecei a ler de coração aberto e preparada para encontrar diversão despretensiosa.

Agora eu vou dizer que o livro é lindo e maravilhoso e a melhor coisa que já li na vida? Não. Mas o autor entregou exatamente o que eu como leitora comprei: DIVERSÃO.

A história acho que todo mundo conhece: um grupo de jovens mergulhadores de uma cidadezinha do Rio Grande do Sul encontra uma caravela naufragada e dentro dela uma caixa de prata contendo sete cadáveres e avisos expressos para que eles continuassem selados. Não é preciso pensar muito para saber que são sete vampiros poderosíssimos, presos por caçadores na Portugal do século XVI e que despertarão no Brasil dos dias de hoje para continuarem seu rastro de destruição.

Mas os vampiros aqui não são só tradicionais chupadores de sangue e transmorfos em morcegos: eles têm poderes monstruosos como convocar o gelo, tempestades, acordar os mortos ou transmutar-se em lobisomem e farão uso deles para capturar novas vítimas e procurarem vingança do caçador que séculos atrás conseguiu prendê-los e distanciá-los de suas terras portuguesas.

Os vampiros aqui não escondem sua natureza de monstros. Matam sem dó, se alimentam sem remorso e lutam contra os humanos como se fossem baratas. Mas não é por isso que estão isentos de sentimentos: até determinado ponto, possuem uma aliança entre si, e como temos a oportunidade de ver o mundo pelos seus olhos, dá para criar empatia pelos personagens, em especial por Inverno e Gentil.

Os humanos são então forçados a tentar pará-los antes que o foco de destruição saia da pequena cidade – e o protagonista, Tiago, além disso, precisa salvar sua amiga Eliane, que parece atrair os monstros. Então dá-lhe exército, tiro, tática, mordida, porrada, sangue espirrando, tensão e perseguição. Para quem gosta de ação, é uma ótima pedida – assim como para quem anda enjoado de vampiros brilhantes e românticos, o pessoal aqui quer é tocar o terror.

E CLARO, tudo isso se passa no Brasil com personagens que falam português e que poderiam ser qualquer um dos leitores, além de passear por uma cidadezinha litorânea fictícia, Porto Alegre e principalmente Osasco, a terra natal do autor (e DÁ para ver a diferença quando o autor se propõe a descrever o mundo que está mais imediatamente ao seu redor).

Mas aqui entra o mais grave defeito do livro (que se repete em outros livros – curiosamente, a próxima resenha, que também vai ser de um livro nacional, vai voltar a esse ponto): faltou a mão de um editor, faltou aquele acabamento no material pronto.

Para começar: dava para fazer uma boa lipoaspiração no livro, cortar metade dos coadjuvantes com nome e sobrenome, que só aparecem para terem seus quinze minutos de fama e não influem em nada no transcorrer das coisas. Dava para fazer uma boa intervenção no desfecho – que ficou um pouco arrastado porque a sequência demorou demais para se resolver – e tornar as coisas mais ágeis. O livro tem 400 páginas, mas poderia facilmente e de uma maneira mais fluida, contar a exata mesma história em 300 – o que evitaria muitas passagens em que a leitura acaba se arrastando.

Outra coisa: tem umas falhas de construção de cenário (como o IML dentro de um cemitério e não dentro/próximo a um hospital, como é o usual ou o que o trem transporta, isso para não dar um spoiler) que um editor poderia enxergar e consertar, já que é coisa pouca – e até dava para deixar passar outras coisas grandes, já que a suspensão da descrença aqui é semelhante ao Duro de Matar ou o Máquina Mortífera – pensar “pô que apelação!” é meio parte da graça.

Uma reclamação comum que vejo por aí é em relação à linguagem do autor. Realmente, o Vianco está longe de ser o autor mais lírico que já li, mas a linguagem que ele usa é o coloquial que se conversa na lan-house, no cafezinho, no boteco. Inclusive, essa coloquialidade ajuda bem na naturalidade dos diálogos, que fluem bem.

Outra coisa é que a trama do interior do exército, que vai bem na primeira metade do livro, é esquecida na segunda, em que Tiago e Eliane vão para o centro da ação. Dava para ter balanceado melhor os dois focos da trama até o final (e deixar as coisas mais enxutas, tb).

Não é uma leitura que vá agradar a todos os gostos, como filmes de ação também não agradam, mas que vale para desligar a cabeça e curtir o prazer de ver as coisas explodirem.

E deu para entender perfeitamente qual apelo que torna o livro um best-seller (lembrando que não houve uma campanha de marketing na época de seu lançamento), mas pretendo voltar ao assunto algum dia… 🙂

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Até a próxima!

Essa é a penúltima resenha de 2010, teremos mais uma e depois férias!

Eragon – Christopher Paolini

Tenho pé atrás confesso com modinhas, ainda mais quando escuto opiniões divergentes e a própria proposta da coisa não me chama a atenção. No auge do Harry Potter, muito se questionou qual seria seu sucessor. Um dos “prováveis sucessores do Harry Potter” da vez foi Eragon – que saiu no Brasil mais ou menos na época em que foi anunciado a produção de um filme baseado na obra.

A história simplesmente não me interessou a princípio e continuou a não me interessar. Sempre torci o nariz, achando que não seria uma história de meu agrado, que o tempo gasto para lê-la poderia ser investido de maneira mais útil lendo coisas que fossem mais ao meu gosto. Só que alguns amigos, surpresos por eu ter lido Crepúsculo – e não desgostado -, alguns até com experiência de leitura, me disseram: “Por que não ler Eragon? É divertido e descompromissado – e mais satisfatório do que Crepúsculo”. Um dia, passeando pelos sites online, vi uma oferta imperdível: a saga inteira por R$29,90. Pareceu um preço justo pela curiosidade, então encomendei.

Resolvi ler Eragon, o primeiro da saga, de coração aberto, não esperando uma obra genial e revolucionária, mas diversão leve e despretensiosa.

Então comecei a ler a história de um mundo onde humanos, elfos (que vieram do… oeste, oh god), anões, orcs e nazgûls urgals e raz’acs convivem entre si. O mapa traz indicações a lugares como Eldor, Ardwen, Melian… Bom, sinto que já ouvi algo parecido em algum lugar, alguma vez…

Este é o mundo de Alagaësia, onde um anel foi forjado e agora precisa ser destruído nas montanhas de Mordor anos atrás, havia uma ordem de cavaleiros jedi místicos que controlavam seus dragões, detentores de um grande poder. Só que um destes cavaleiros, Galbatorix, perdeu seu dragão e, com a ajuda de um desertor, eliminou todos os demais cavaleiros-dragões, tornando-se o Imperador tirânico e despótico.

(a partir daqui, spoilers, ok?)

Entretanto, alguns ovos de dragão escaparam do massacre e um deles conseguiu ser enviado para um lugar seguro. Eragon, um jovem garoto órfão, criado pelos tios em uma fazenda, que desconhece seu próprio passado, encontra o ovo, que choca, revelando a existência de Saphira, uma dragoa azul que acabou de nascer mas tem personalidade de adolescente. Suas mentes se ligam e Eragon é revelado como um cavaleiro-dragão, o primeiro em séculos.

Então, guiado por Brom, aparentemente um bardo, mas um mago experimentado e repleto de conhecimentos, começa sua jornada do herói através do mundo de Alagaësia, para se encontrar com os Varden, uma facção rebelde que desafia o Imperador.

Lá pelas tantas, o destino de Eragon se cruza com o de uma bela princesa elfa que está aliada aos rebeldes. Acaba ganhando um aliado amigo, que o salva de poucas e boas, e acabam formando um trio até encontrarem o QG dos Varden.

Murtagh, o amigo (?) de Eragon, ressalte-se, é emo sorumbático, com dificuldades de relacionar-se ou relaxar, sendo perseguido por seu sharingan por sua origem. E, claro, Eragon e Arya, a elfa, se apaixonam, o que nunca é fácil nessas circunstâncias

E assim começam as aventuras de Eragon, cavaleiro dragão, no primeiro livro de sua (NOSSA, JURA?) trilogia. Ok, não é uma trilogia, virou tetralogia, jocosamente uma trilogia de quatro.

Toda a parte anterior dessa resenha foi para apontar, de forma irônica, sarcástica e ácida o que considero o maior e principal ponto fraco do livro: ele é um amálgama de várias sagas famosas. É quase um Senhor dos Anéis encontra Star Wars, com uma boooa pitada dos dragões de Pern por cima (que é uma série que nunca saiu no Brasil mas é um grande sucesso nos EUA).

Para deixar bem claro aqui: eu não chamaria de plágio, pois os elementos de várias histórias estão misturados entre si e não há cópia de nenhuma delas. Mas, também, não há nenhuma originalidade, nenhuma criação em cima de fórmulas já conhecidas, testadas e aprovadas. São elas reunidas, batidas no liquidificador e servidas ao público. É uma espécie de “roteiro-miojo” – bem menos complexo do que o arroz-com-feijão, só jogar a jornada do herói na água por três minutos e pôr temperinhos por cima.

A jornada do herói, ou monomito (algum dia volto ao tema com mais calma), é um roteiro basilar para se contar uma história e muito está relacionado ao processo de crescimento pessoal do indivíduo, mas colocá-la da forma mais linear possível em uma história, de forma que dê para identificar facilmente cada uma de suas etapas, está para lá de batido. É uma maneira fácil e prática de montar uma história, sim, quase com o preenchimento de lacunas, mas não traz nenhuma surpresa para o leitor com algum experimentalismo.

O que é outro ponto importante: eu não sou da faixa etária planejada para o livro, de jeito nenhum. Mas daí lembro que li o Senhor dos Anéis com 15 anos, sem maiores problemas – e, antes disso, já tinha lido Admirável Mundo Novo ou a Odisseia. Tudo bem, eu reconheço que essa é a exceção e não a regra, mas fica complicado não comparar Eragorn com toda a minha carga anterior de leitura – e que a total falta de originalidade do roteiro salte aos olhos.

O que é uma pena, porque a prosa do autor é até gostosa de se ler. Imagino o que ele faria com uma história que fosse um pouco mais dele…

E aqui outro ponto de esclarecimento: como já disse, a jornada do herói é uma das formas mais clássicas de se contar uma história. Há quem diga, inclusive, que todas as histórias já foram contadas. Não estou pregando aqui uma originalidade total – difícil, quase impossível, somos humanos, se formos buscar, todos os nossos dilemas possuem a mesma raiz – mas a utilização de elementos clássicos de uma forma original, de uma maneira nova. As próprias comparações que saltam aos olhos quando se lê Eragon: Star Wars não é um primor de originalidade, mas conseguiu reunir elementos antigos em algo novo. Mesmo o Senhor dos Anéis: trata-se de um paradigma do gênero fantástico, mas algumas das referências são óbvias (como O Anel dos Nibelungos, p. ex.). E, nunca é demais ressaltar, toda obra parte de uma série de referências anteriores – mas para que ela se torne algo novo, deve transcendê-las.

Eragon é um livro divertido, bom para passar o tempo, de leitura rápida. Há alguns problemas de suspensão da descrença – mais para o final, principalmente. Eu deixei de levar o livro a sério depois de uma passagem em que os personagens atravessam um deserto durante o dia (!!!) e praticamente a jato com seus cavalos. Um pouco de lógica básica, no caso, não faria nenhum mal à trama.

Outro ponto é que, pelo menos para mim, Eragon, Saphira e amigos próximos nunca estiveram realmente em perigo – exceto aqueles que, para qualquer um que já viu Star Wars, precisam ser eliminados para o bem da história. Essa sensação de que não interessa o que aconteça, o personagem vai se dar bem – não estou nem falando de morte, mas de ver planos darem redondamente errado, de perigos iminentes, de separações dolorosas, de ver o personagem “por baixo” para poder se reerguer.

Enfim, valeu a leitura, foi leve e divertida. Mas a satisfação foi a mesma de almoçar um miojo porque não tem mais nada em casa…

(e um p.s. inevitável: lá pelas tantas tem um figurante chamado Korgan. Não pude deixar de imaginar Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur, Elessar, de espada na mão dizendo “there can be only one“).

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