The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

Tem espaço no mundo (e nas estantes) para todo tipo de história. O que é legal para mim pode não ser para você e vice-e-versa, ou mesmo o que é legal para mim no humor de hoje pode não ser amanhã. Posso querer para hoje algo mais denso e cheio de significados, enquanto amanhã posso querer uma comédia bem leve. Posso querer um terror de arrepiar e amanhã um romance que estoure meu índice glicêmico. Às vezes quero apenas a segurança de saber exatamente o que vou encontrar na leitura.

Então, não vejo mal nenhum em um livro épico, com um dualismo maniqueísta sem maiores questionamentos, o protagonista passando pela jornada do herói sendo que dá para marcar em uma cartela de bingo os elementos ou passos da jornada, personagens rasos que só estão ali para cumprir papéis pré-determinados sem maior preocupação em desenvolvimento, vilões megalômanos e todas essas coisas. Na verdade tem épocas em que quero esse tipo de leitura, que quando bem feita é bem divertida (ainda mais para quem tem gosto por uma boa high fantasy).

Então, fui atrás de um clássico do gênero. A série Wheel of the Time é uma das mais famosas e mais queridas do gênero high fantasy, com vários e apaixonados fãs, fóruns de discussão, vários produtos derivados como jogos eletrônicos e rpg’s… enfim. Todo um universo de fãs não pode estar errado em apontar apelo e carisma na série, então era um livro que valia ser lido nem que para conhecer do que se tratava.

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Cidade dos Ossos – Cassandra Clare

Eu poderia começar essa resenha ironizando todas as (várias) semelhanças deste livro com Harry Potter, falar de novo sobre, principalmente agora que os filmes do bruxinho estão chegando ao fim, a busca incessante pelo “novo Harry Potter” volta com força total (apesar de que aqui acho que  comparação cinematográfica mais justa seria o “novo Crepúsculo”) ou sobre o recente boom de anjos na literatura.

Mas não vou começar por nada disso.

Vou dizer sobre o quanto esse livro foi uma agradável surpresa.

Para começo de conversa, não sei o que me atraiu nele. É um dos lançamentos hypados de young-adult do momento, mas quando vi a sinopse pela primeira vez, não me bateu lá muita vontade de ler. Só que recentemente, no fim do ano, lendo a sinopse novamente, o livro despertou minha curiosidade o suficiente para ser adquirido. Também fiquei sabendo que a autora, Cassandra Clare, era autora de fanfics tendo inclusive escrito um dos mais famosos baseados no Harry Potter, o Draco Dormiens (que até eu li, apesar de não me interessar por fanfics de Harry Potter – voltaremos ao tema jajá). Bateu uma identificação danada, já que há muitos e muitos anos eu também escrevia fanfics e queria fazer mnhas próprias histórias, então também tinha o “vamos ver o que uma fanfiqueira faz quando precisa criar seu próprio universo”.

E é aqui que entra minha supresa: o livro, dentro dos parâmetros do gênero e público a que se propõe, é muito bom.

É a história de Clary Frey, uma adolescente de 15 anos normal que, um belo dia, ao ir à baladeeenha com seu amigo Simon, vê um adolescente esquisito e resolve ir atrás dele para uma paquera. As implicações de um inocente flerte juvenil são a descoberta de que demônios, vampiros, lobisomens e outras criaturas místicas não são mitos: eles estão entre nós. Além disso, os nephilims, um grupo de caçadores com sangue de anjo, andam entre nós para garantir que todos se comportem – especialmente uma facção chamada Caçadores de Sombras, treinados desde a tenra idade para retornarem demônios para suas dimensões de origem e manter a paz dimensional.

Clary conhece então os irmãos Alec e Isabelle – e Jace, o loirinho bonitinho e sarcástico que chama sua atenção imediatamente. E, claro, sua vida muda para sempre a partir deste encontro. E, mais claro ainda, ela não sabe toda a verdade sobre sua origem e si mesma. Após o encontro inusitado, coisas muito estranhas começam a acontecer em sua vida e quando sua mãe é sequestrada, ela se dá conta de que está envolvida até o pescoço com os Caçadores de Sombras e precisa tirar essa história a limpo.

Então dá-lhe perseguições, criaturas mágicas das mais diversas que vivem disfarçadas de humanos, lugares mágicos escondidos dos olhares vulgares (ou mundanos, como são chamados aqui), reviravoltas, segredos perdidos no tempo, alguns deles capazes de mudar toda a vida dos envolvidos…

Aqui, voltamos ao Harry Potter. Como já dito, a autora escrevia fanfics do bruxinho e sua turma e resolveu escrever suas próprias histórias em seu próprio cenário. As semelhanças entre as duas obras aqui não é meramente acidental e nem podem ser – elas se tocam, se inspiram, derivam.

Vamos pegar uma sinopse do Cidade dos Ossos: garota sai de sua vida normal e é jogada em um mundo mágico desconhecido das pessoas comuns, que está sendo ameaçado por um ditador poderoso, que todos julgavam morto, e que deseja dominar este mundo mágico e subjugar a humanidade comum. Isso realmente não lembra NADA para vocês?

E outros detalhes, como a semelhança entre Clary e Gina Weasley (apesar de que acho essa forçada – a Clary, por sua descrição física e nome, me parece muito mais uma mary sue – ou projeção idealizada da autora – do que uma versão da Gina), Jace e Draco Malfoy, um dicotomia entre as criaturas mágicas e o mundo dos “trouxas”/”mundanos”… E, claro, a parte em que a história dos pais dos protagonistas é contada parece mais como seria um fanfiction nos marotos, mas enfim…

Mas o cenário, quando visto de perto, não soa falso como uma Hogwarts estilizada seria – há criaturas que jamais passariam perto das aventuras do bruxinho, como anjos e demônios, e o sistema de magia e controle não está restrito às regras rígidas de um colégio interno. Pelo contrário: a regra aqui é não ter regras (exceto as da boa  vizinhança, controladas pelos Caçadores de Sombra). Inclusive, há mundanos, como o Simon (meu personagem predileto de longe!), que mesmo com sua falta de poderes são capazes de salvar o dia.

Uma palavrinha sobre os personagens agora: o Jace foi tão planejado para que todas as meninas caíssem de paixão por ele que para mim não funcionou. Achei-o chatinho, artificial demais no tom blasé/irônico, não consegui criar empatia. Ele foi tão feito para ser gostado e para que todos caiam de paixão por ele que ficou fora do tom, que não me despertou mais do que indiferença. O Simon (e aqui entra a “regra de liberdade dos personagens abaixo dos protagonistas” da qual um dia voltarei a falar) consegue ser muito mais simpático – um humano sem poderes, desprezado pelos Caçadores de Sombra mas que se infiltra, se impõe e vira parte do time.

Quanto à Clary, protagonista, gostei dela. As atitudes estão coerentes com a de uma adolescente que vê seu mundo virar de ponta-cabeça algumas milhares de vezes, são muito mais “alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui????” misturada com a paixonite adolescente inevitável. Quero ver de que forma isso vai ser conduzido ao longo da série.

Enfim, o livro foi uma gratíssima surpresa, a trama segura o leitor e o deixa ligado do começo ao fim e me deu muita curiosidade de seguir a série (não ao ponto de comprar tudo o que já saiu em inglês, mas deu). O próximo livro da série sai no Brasil em abril – e vou adquiri-lo logo que for possível! Fica a recomendação para quem gosta do gênero, para quem quer uma leitura de desligar a cabeça e ler feliz da vida e para quem quer desbravar um pouco do maravilhoso mundo da Y.A.

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Quer tirar suas próprias conclusões? Compre o livro! (Submarino)

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Até  próxima!

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Wizard’s First Rule (A Primeira Regra do Mago) – Terry Goodkind

A Guerra dos Tronos está no topo do hype agora. O seriado está sendo produzido pela HBO com cuidado e esmero, com orçamento que permite fazer coisas boas, com elenco escolhido a dedo, tudo para manter o padrão HBO de qualidade (Roma? True Blood? Band of Brothers?). Para quem quer novidades frescas sobre a série, recomendo clicar aqui e aqui.

Mas pouco antes de A Song of Ice and Fire virar série, outra obra hypada virou seriado, pela mais modesta ABC: Sword of Truth, rebatizada como Legend of the Seeker. Assisti aos dois primeiros episódios e não achei exatamente a minha (e PELAMOR, a série tem DEFEITOS especiais!), então deixei pra lá.

Um dia, em dezembro do ano passado, estava andando pela livraria, vendo as estantes de livros quando vi uma capa com duas figuras que pareciam uma bruxa e um guerreiro que se encaravam numa linda paisagem e com o convidativo título de A Primeira Regra do Mago. Fiquei interessada, fui consultar o preço e quase morri ao descobrir que o lindo livrinho custava a bagatela de 75 reais (a faca vem de brinde,  Rocco?). Meu salário de free-lancer profissional liberal não dá conta desta demanda, então deixei para lá. Comentando o fato com uma amiga, ela me disse: “ora, mas eu tenho esse livro aqui e mais os dois próximos da série, você quer emprestado?”, ao qual eu respondi: “:D”.

Só em junho consegui pegar os livros e o tamanico (mais de 800 páginas cada) me assustou. Deixei para uma oportunidade vindoura, que apareceu durante a semana passada. Espero que o pessoal da comunidade Legend of the Seeker não me odeie muito, pois minha intenção original de fazer essa resenha foi pela quantidade de acessos que recebo de lá 😛

Enfim:

Era uma vez Richard Cypher, um rapaz que vive uma vida normal como guia de uma floresta e que tem seu destino mudado quando, por um acaso, encontra uma bela mulher perseguida por quatro homens armados. Seu nome é Kahlan e ela está buscando pelo último grande mago do mundo, que poderá despertar o legendário Seeker, aquele que detém a Espada da Verdade e é o único capaz de deter Darken Rahl, um feiticeiro malvado e muito poderoso que vai dominar o mundo após reunir três artefatos do poder (precisa MESMO falar alguma coisa aqui?).

Claro que antes da página 100 o autor já revela que o Richard é o Seeker (para que ficar cozinhando o galo com o óbvio?), a identidade do mago e coloca todo mundo na estrada para enfrentar o mal iminente. Enquanto Richard, Kahlan e Zedd viajam pela Fronteira, dá quase para imaginá-los pixelizados em um RPG do Super Nintendo (sim, eu vi os bonequinhos, as batalhas randômicas e o cenário na minha frente enquanto lia).

E é aquele tipo de livro com margem de segurança: quem é bom é bom, quem é mau é mau, o vilão não quer nada menos do que dominar o mundo, os clichês cairão como frutas maduras no colo do leitor, vão haver deus ex-machina sempre que necessário…

Maniqueísmo é necessariamente ruim? Não acho (e pra mim o grande problema do livro apesar de passar por aí nem é esse). Uma história feijão-com-arroz de aplicação direta da jornada do herói cheeeeia de clichês do gênero é necessariamente ruim? Não acho também. Mas, CLARO, se o que o autor está vendendo é isso e o que você está comprando é isso.  Como essa relação se estabeleceu aqui, não me incomodei. Esse tipo de história não me desgosta – não é o que quero ler o tempo todo, mas tem épocas em que andar na “margem de segurança” é preciso, até.

E, claro, worldbuilding é para fracos. Pra que perder tempo criando um mundo se você pode presumir que o leitor é versado em high fantasy e conhece as convenções do gênero, rabiscar um mapa com indicações e tá tudo certo? Claro, dá para incluir fronteiras mágicas que não podem ser ultrapassadas e monstrinhos, mas nenhuma novidade.

Os personagens ganham poderes e o protagonista entendem melhor sua natureza de escolhido, de figura central de profecias e tal, mas ninguém cresce ou muda (aliás, até muda, mas explico abaixo). Para que personagens redondos se os planos já resolvem, para que cinza se o preto e branco já agradam?

Porém, o relacionamento entre Richard e Kahlan é bonitinho bem-construído, a maneira como vão se apaixonando e ficam perdidinhos de amor. É um desdobramento óbvio desde o momento em que se encontram, mas o autor consegue fazê-lo sutil e gradual. Primeiro, a necessidade de se protegerem, segundo, a cumplicidade que nunca tiveram por ninguém mais, terceiro, o desejo, quarto, a constatação do óbvio. É um amor proibido – ela é uma Confessora, a última de sua estirpe, e não pode se relacionar com um homem sem torná-lo um escravo sem vontade própria – mas que não consegue ser contido. O capítulo em que ela revela ao apaixonado Richard por que não podem ficar juntos é de encher os olhos de lágrimas, se a intenção foi fazer o leitor se compadecer, o autor conseguiu brilhantemente.

E, claro, a trama tem uma mistura de safadeza oculta com puta falta de sacanagem. Há uma certa perversão sexual permeando o ambiente (JÁ MENCIONEI QUE A SUB-VILÃ É UMA DOMINATRIX????? *-*) – a diferença de uma Confessora para uma Mord Sith é que a primeira é uma moça boazinha que fará a dominação por mágica, mas os efeitos são os mesmos. A dominação pelo sexo/amor/temor é da mesma natureza, mas maniqueísta.

As Confessoras, puras em suas roupinhas brancas, criaturas que tem o poder de tomar a vontade de um homem para si e devassar seus segredos (foram feitas justamente para tomarem confissões, como o nome sugere) evitam o contato com os homens para que não se apaixonem e os destruam – mas não hesitam em escolher um macho aleatório para se reproduzirem – e existem tantas técnicas rudimentares de inseminação artificial, ainda mais num mundo mágico, então para que dominar um homem e tirar sua vontade para se reproduzir sendo que é possível simplesmente negociar um doador?

As Mord Sith, guerreiras criadas para se tornarem sádicas ao extremo e terem prazer na tortura, tomam a vontade de seus prisioneiros pelo medo e pelo terror – e eventualmente tomam algum deles para serem seus parceiros. Qual a diferença, senão o sinal trocado?

(mas sejamos justos, as Confessoras são temidas pela grande maioria das pessoas…)

E a puta falta de sacanagem é porque apesar disso o livro não tem uma única ceninha caliente!!!! =(((((

Agora alguns detalhes que não posso deixar passar – e que interferiram bastante na minha apreciação do livro – mas que são SPOILERS. Se você se sente incomodado por isso, pule direto para o fim da resenha.

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Os Filhos de Galagah – Leandro Reis

Oi, pessoal!

Desculpem pela falta de atualizações, mas essa semana foi realmente complicada e tensa…

Mas indo ao ponto que interessa… Literatura e RPG são ideias imiscíveis? O ambiente e construção de cenários do RPG é estéril para gerar uma composição literária?

Vamos ver sobre a estrutura básica de um RPG (ou role playing game se você chegou hoje aqui no blog e não faz ideia do que eu estou falando), além de ser um excelente pretexto para reunir os amigos e ter horas agradáveis: cada um dos jogadores compõe um personagem com características próprias e o interpretará durante uma jornada, precisando portanto interagir com os demais jogadores e com o mundo onde ele está. A aventura é guiada pelo mestre, que tem o papel de fornecer a trama principal e guiar os jogadores-personagens por ela, levando-os a labirintos, a cidades, a clímaxes, conflitos e apresentando pistas e soluções. Não para menos, o nome correto do mestre é narrador 🙂

Narrativa de RPG é literária? Não e nem tem pretensão de ser (por mais que o Castelo Falkenstein tenha me ensinado o que era steampunk e Vampiro: A Máscara contribuiu e muito para aumentar meu rol de conhecimento sobre a mitologia vampírica :P). Um autor que se arrisque a transcrever uma campanha de RPG, por mais que ela tenha sido legal e envolvente, não vai ter um trabalho recompensador. Fora que um mundo que seja cópia de um cenário de campanha, seja D&D, Gurps, World of Darkness, Tormenta ou o que for, será apenas uma versão pálida de sua origem – para não dizer plágio – e colocar figurinhas de papelão para brincar nele não vai melhorar as coisas.

Mas o RPG – e a estrutura narrativa de um RPG – podem ser uma boa influência para a construção de um romance? Ora, por que não? A dinâmica do grupo formado por pessoas de características completamente diferentes e que precisam cooperar entre si e a maneira como encadear eventos, twists e clímaxes, se utilizados com cuidado e consciência, podem gerar bons frutos. O problema dos textos pejorativamente chamados “literatura de RPG” não é o uso do RPG em si – é a forma como ele é utilizado.

Outra coisa também, que já falei aqui antes em outras oportunidades, é a necessidade de originalidade e inovação de uma história. Uma história para ser boa precisa necessariamente ser original e inovadora? Depende. Para ganhar valor literário, sobreviver ao tempo, é óbvio que sim. Mas para diversão e consumo puro e simples, às vezes as histórias arroz-com-feijão (básicas) satisfazem muito mais do que as elaboradas – afinal tem dias em que tudo o que queremos é um arroz com feijão bem temperadinho e os literários são ótimos quando se quer desligar a cabeça e só aproveitar.

Conheço o Leandro Reis da Fábrica dos Sonhos e Filhos de Galagah é seu romance de estreia. Ele não esconde de ninguém que sua inspiração veio das campanhas de RPG que ele jogava com seus amigos – mas aqui entramos na questão da forma de utilização da referência. Tudo em Galagah lembra uma campanha de RPG – o universo mágico pseudo-medieval, o sistema de magia, a existência e influência dos deuses, os elfos e humanos que convivem em harmonia (cadê os anões???) e os orcs antagonistas, as classes de guerreiros… Mas apesar de não haver nenhuma novidade na caracterização desses elementos e da apresentação do mundo, não é possível dizer que Grinmelken seja uma cópia pálida de Dungeons and Dragons ou de alguma outra aventura medieval. É derivado, sim, mas não uma cópia – é um mundo verdejante de vida própria (e pelo parentesco, me lembrou com nostalgia disso aqui).

Acompanhamos a história de Galatea Goldshine, a princesa dourada escolhida pelo deus Radrak para se tornar sua paladina, em sua jornada para salvar sua família de uma maldição ancestral. É também a história de Iallanara, a órfã que jamais teve escolhas a não ser abraçar um destino maldito. As caminhadas de ambas se cruzam e aí é o ponto onde a aventura realmente começa.

O enredo não traz novidades: a paladina está procurando os três objetos mágicos (na verdade três poderes incorpóreos) que a permitirão enfrentar seu maior inimigo e, para tanto, vai ter de reunir aliados e escapar de inimigos antes do último desafio. Só que tal enredo é narrado de forma envolvente – depois que o livro engrena é difícil largá-lo.

(e essa é a primeira crítica – escusável – ao livro: demora a pegar. Para mim, a história só deslanchou quando Galatea e Iallanara finalmente se encontraram – mas, como eu disse, tem desculpa: é uma falha muito comum em autores iniciantes demorarem a dar ritmo à história, além do que como a trama está planejada para ser uma trilogia, a introdução pode demorar mais um pouco pois não ocorrerá nos livros seguintes, que já começarão com a ação).

Quanto aos personagens, apesar de não serem referidos com esses nomes exatos (ÓTIMO E EXCELENTE que assim o seja), correspondem a personagens típicos da composição de um grupo de rpg: a paladina, a necromante, o ladino, o mago. Os personagens que ganham maior desenvolvimento nesse primeiro livro são em parte Galatea – a paladina que é a encarnação da vontade e detentora de uma fé cega em seu deus e em sua missão (essa fé vai ser questionada nos próximos livros? Espero que sim, pois ao meu ver não existe fé verdadeira sem provação) – e Iallanara.

Aliás, um ponto a destacar aqui: a jornada de expiação de Iallanara a torna a melhor personagem de todo o romance. Ela é humana, conflituosa, é atingida pela dúvida e pela descrença, sente dor, sofre, tem seus momentos de relaxamento. Ela, mais do que Galatea, é quem faz a roda do destino se mover – e merecia ser a protagonista que em busca de perdão segue mundo afora ao lado da paladina.

O autor soube dosar bem os momentos de relaxamento e tensão (só perdeu a mão na cena de tortura) e apesar de já de antemão ser previsível que Galatea e seu grupo irão de sar bem, o “como” é interessante e instigador. O único ponto que achei realmente negativo do livro foi o excesso de deus ex machinas. Galatea nunca precisa resolver um problema sozinha!!!! Ela está em dúvida? Um de seus mentores espirituais sussurra algo em seu ouvido. Ela passa por necessidades? A ajuda extremamente conveniente aparecerá. Em nenhum momento ela é posta realmente à prova ou está em situação de perigo real. Está certo que ela é uma protegida divina, mas mesmo sua jornada de crescimento interior é prejudicada se ela não precisa aprender e crescer.

Mas enfim: como disse, não consegui desgrudar do livro! Não é o tipo de romance que agrada a todos os gostos, mas no cômputo geral me deu exatamente o que eu esperava que iria dar. E quando for possível lerei o livro 2, O Senhor das Sombras, onde sei que Iallanara ❤ tem um papel mais importante e decisivo!

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Até a próxima!

A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte I: Um Breve Resumo da Trama

Hoje é um desses dias em que estava eu tranquila, abrindo meu e-mail sossegadamente e resolvendo pendências acadêmicas, examinando bem de perto alguns prazos que tenho para cumprir quando a amiga Ana Cristina Rodrigues me cutucou via gtalk me mandando uma notícia que segundo ela eu iria gostar MUITO de saber…

E então eu me senti como se trabalhasse no editorial de alguma revista, em um dia tranquilo e nada promissor, preparando alguma matéria sem muito gosto até que um grande evento ocorre e tudo o mais precisa parar para dar atenção a uma notícia quente e bombástica.

E a notícia que fez parar tudo foi bem essa: A EDITORA LEYA ANUNCIA O LANÇAMENTO DA SÉRIE A SONG OF ICE AND FIRE NO BRASIL.

O título da série no Brasil passou a ser Crônicas de Gelo e Fogo e o primeiro livro se chamará A Guerra dos Tronos.

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Não é segredo para ninguém que a série A Song of Ice and Fire, do George R. R. Martin, é uma de minhas sagas literárias prediletas. Já tive a oportunidade de resenhar aqui, anteriormente, A Game of Thrones e A Clash of Kings, os dois primeiros livros da série. Pensei em resenhar os outros dois, mas pelo risco de esbarrar e não conseguir evitar alguns spoilers, o que não seria desejável, achei mais conveniente um texto que tratasse de toda a saga em si mesmo, de forma geral, pois sem dúvidas há muito a ser dito.

Só que farei este post EM PARTES. A saga é muito extensa e bastante rica em detalhes. Até agora, são mais de quatro mil páginas de texto riquíssimo em detalhes e informações. Então, primeiramente, algumas palavras sobre o enredo da saga. Claro, aqui está em resumo, com o mínimo de spoilers possível – e com direito a ilustrações bonitinhas que achei internet afora. 🙂

Então, vamos lá:

Uma Breve História de Westeros

Era uma vez o continente de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno toda uma vida. O descompasso entre as estações do ano acaba por trazer alguns inconvenientes, como, por exemplo, o ataque de criaturas míticas conhecidas como Os Outros (nenhuma referência a Lost aqui), que vivem no extremo norte do mundo onde a neve é eterna. Para evitá-los, há alguns milênios foi construída, com gelo, pedra e magia, pelos primeiros habitantes do continente (the First Men e the Children of the Forest – os Primeiros Homens e os Filhos das Matas) uma barreira (“the Wall”) para impedir seus ataques. Uma das principais famílias do norte, os Stark, desde então, vem sendo um dos principais mantenedores da barreira, esforçando-se para mantê-la.

Com o tempo, outros povos do mundo, como os Andals e os Rhoynar, migraram para o continente de Westeros, formando, com os povos que já o habitavam, sete reinos, que viviam em constante guerra entre si.

Até que, fugindo da poderosa cidade-estado de Valyria – que pouco depois foi destruída por um cataclisma conhecido como The Doom – Aegon Targaryen, acompanhado de suas duas irmãs e de seus três dragões, conquistou Westeros. Após alguns entraves políticos que duraram poucas gerações, os Sete Reinos estavam submetidos à Dinastia Targaryen, os reis de toda Westeros.

Porém há uma particularidade entre os Targaryen: para manter a linhagem “pura”, ou mesmo evitar conflitos de poder, os irmãos se casam entre si – talvez por isso a manutenção de características como cabelos prateados e olhos roxos e violetas – e há algo sobre eles digno de nota: “toda vez que nasce um Targaryen, os deuses jogam uma moeda: ou ele será brilhante, ou será um maníaco”.

Por trezentos anos os Targaryen governaram pacificamente, enfrentando apenas algumas rebeliões de fácil controle e eventos trágicos como a morte de todos os seus dragões, até o advento do rei Aerys II, the Mad King – que era, bom, louco. Seu filho mais velho e herdeiro, Rhaegar Targaryen, raptou Lyanna Stark, única filha da tradicional família do norte, o que acabou por desencadear uma violenta guerra civil.

Dentre os principais líderes dos rebeldes estavam Eddard Stark, irmão de Lyanna e herdeiro da Casa Stark, e Robert Baratheon, seu amigo de infância. Quando a guerra estava quase decidida, os Lannister, a família mais rica de Westeros, juntaram seus esforços às forças rebeldes para pôr um fim na dinastia Targaryen. Sobraram apenas a rainha, grávida de uma menina que se chamou Daenerys, e Viserys, seu filho pequeno, mandados para o exílio.

E assim começou o reinado de Robert Baratheon I…

Os Livros da Série

A série A Song of Ice and Fire tem previsão, no momento, de ser composta por sete livros (há também um spin-off, chamado Os Contos de Dunk e Egg, compostos até agora por três contos soltos – The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante), The Sworn Sword (A Espada Jurada) e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso), que também se passam em Westeros, mas com personagens diferentes e cerca de setenta anos antes dos eventos da saga principal). Já foram lançados quatro livros – A Game of Thrones (1996), A Clash of Kings (1998), A Storm of Swords (2000) e A Feast for Crows (2004). O quinto livro, A Dance with Dragons, está previsto para sair “em breve” – um “em breve” que vem se estendendo desde 2005, mas enfim…

1. O Jogo de Tronos

1.1. O Jogo de Tronos

O primeiro livro da série, após um prólogo eletrizante que vem afirmar para os quatro ventos que esta é sim uma saga fantástica, nos apresenta Eddard Stark, o austero patriarca de Winterfell, o castelo do norte, que segue sua rotina normal juntamente de sua esposa, Catelyn, e de seus cinco filhos legítimos e seu bastardo. Um belo dia, recebe a notícia que Jon Arryn, o homem que o criou e que ocupava o cargo de Mão do Rei – uma espécie de primeiro-ministro, que faz o serviço pesado de administração do reino enquanto o rei bebe, caça e se diverte – está morto. Além disso, o rei Robert está a caminho, pois quer convidá-lo para ser a nova mão do rei.

Logo, chegam a Winterfell o rei Robert, sua esposa, a bela e arrogante Cersei Lannister, seus três filhos e os dois irmãos dela – Jaime, o belo e cruel guarda real, e Tyrion, o anão, que não é belo como seus irmãos, mas possui uma notável capacidade de raciocínio. Eddard – ou Ned, para os íntimos – enxerga a família Lannister com desconfiança, afinal o patriarca Tywin Lannister escolheu apoiar os rebeldes apenas quando a guerra já estava decidida e, principalmente, por Jaime Lannister, da guarda real, que jurara proteger o rei, ter matado Aerys II, e estava sentado no Trono de Ferro, com sua espada ainda suja de sangue – o que rendeu a ele a alcunha de Kingslayer (o Matador de Reis, o Matarreis) e o desprezo profundo por parte das demais pessoas.

Ned não está inclinado a aceitar o convite, mas uma carta recebida por sua esposa, Catelyn, com a indicativa de que na verdade Jon Arryn não morreu de causas naturais, mas foi assassinado, juntamente com uma tragédia familiar repentina, mudam toda a situação. O patriarca Stark vai para a Corte, conhecendo suas figuras boas e ruins, honradas e desonradas, e acaba, mesmo que sem querer, participando do Jogo de Tronos – o eterno jogo de manipulações e intrigas que tem a capacidade de retirar ou pôr este ou aquele rei no trono.

E, como diria a rainha Cersei, “No jogo de tronos, você ganha ou morre. Não há meio termo”. Há vários jogadores, vários trunfos, várias cartas na manga. E não são todos os participantes que jogam limpo ou de maneira honrada na grande parte do tempo. Agora, Ned vai ter de confiar nos seus instintos para fazer as melhores jogadas, ou confiar ou desconfiar das pessoas certas no momento certo.

1.2. A Muralha

Enquanto a trama na corte se sucede, temos também a história de Jon Snow. Ele é o filho bastardo de Ned Stark, criado com bastante amor e carinho por seu pai, juntamente a seus irmãos e irmãs. Todavia, a madrasta, Catelyn, sempre se ressentiu do bastardo que o marido trouxe para casa, de mãe desconhecida, que representa sua traição, um risco para seu primogênito, Robb – ambos regulam idade e são os melhores amigos um do outro – e que, golpe de misericórdia, é o único filho homem que herdou os traços físicos da família Stark.

Jon então cresce consciente que está em uma posição diferente e inferior à dos irmãos e que nunca poderá herdar Winterfell. Cresce também com um código de conduta quase tão rígido quanto o do seu pai e, encantado pelas histórias que ouviu durante a infância e também pelas contadas por seu tio Benjen Stark, além de consciente de que a bastardia não é o melhor cartão de visitas, parte para se juntar à Night’s Watch (Patrulha Noturna), que guarda a Muralha desde seus primórdios.

Como as histórias dos Outros viraram lendas, a Night’s Watch encontra-se em um momento de baixa. Salvo um ou outro membros de famílias tradicionais do norte, como o próprio Benjen Stark e alguns outros, é o perfeito lugar para “desovar” bastardos, criminosos e indesejáveis sociais diversos. A falta de recursos por parte do Rei também é evidente, e os homens devem matar um leão por dia para se manterem vivos e cumprirem suas funções de vigilância. Além disso, a ordem funciona como uma irmandade – seus membros precisam renunciar à antiga vida, bem como fazer votos de castidade e pobreza.

Então, o Bastardo de Winterfell, criado no conforto da casa grande, precisa aprender que nem todos saíram do mesmo berço nobre, perder resquícios de arrogância e aprender a levar sua nova vida gélida e dura da melhor maneira possível.

Acontece que coisas estranhas estão acontecendo Além da Muralha e Jon precisa manter todos os seus sentidos alertas…

1.3. A Rainha Do Outro Lado do Mar

Mas Aerys deixou uma herdeira, Daenerys, nascida após a morte de seu pai e enquanto sua mãe e irmão estavam no exílio. Ela nasceu durante a maior tempestade que assolou Westeros, ganhando assim o epíteto de Stormborn (Filha da Tormenta), que será apenas o primeiro de muitos que ganha ao longo da trama. A mãe acaba por morrer no parto, deixando-a sozinha no mundo, junto a seu irmão Viserys.

Os dois vivem a infância de cidade a cidade em seu exílio fora de Westeros, até que Viserys se aproveita do fato de ter uma irmã princesa, de sangue real valyriano e, quando ela entra na puberdade, a vende como esposa para Khal Drogo, o líder de uma tribo nômade de guerreiros criadores de cavalos em troca de um exército. Só que a moeda que os deuses jogaram para Viserys foi a da demência, tornando todos os seus planos de conquista infrutíferos.

Então, Dany precisa juntar força dentro de si para deixar os tempos de menina e tornar-se uma mulher, guerreira e estrategista, pronta para tomar para si seu reino de direto. Para isso, ela terá aliados – alguns deles, hmm… especiais, digamos assim – e inimigos, mas terá de contar principalmente com sua perseverança e força de vontade.

Mas o caminho do crescimento não é assim tão fácil…

2. O Choque de Reis

Conforme se torna previsível pela leitura do primeiro livro, o jogo de tronos se torna mais ativo do que nunca. Novos participantes interessados no Trono de Ferro se anunciam e uma guerra civil se avulta no horizonte, de proporções até mesmo fratricidas. Aqui, as ações de Robert e Eddard mostram suas consequências, e nem todas serão agradáveis para todas as pessoas.

São apresentados com maior vagar os outros irmãos Baratheon: Stannis e Renly, cada um deles aliado a uma das facções conflitantes. Stannis, por sua vez, associou-se com uma feiticeira, Melisandre, o que dá o gancho para um dos pontos que permeiam a saga: o conflito religioso entre a Fé dos Sete, seguida pela maioria do reino – e que em muito se assemelha com o catolicismo, desde analogia a dogmas como o Mistério da Santíssima Trindade até mesmo a forma de organização monástica, com “padres”, “freiras”, “monges” e até mesmo um “Papa” – e a crescente religião de R’hlorr, o deus da luz, em sua eterna batalha contra O Grande Outro, o deus das trevas.

Também são apresentados os Ironborn (“Filhos do Ferro” que, bom, não são Starks), residentes nas Ilhas de Ferro e uma espécie de piratas, que teve sua rebelião alguns anos atrás, de onde saíram perdedores, mas que agora tem sua oportunidade perfeita para vingança.

É também o início da ascensão de Tyrion Lannister como um grande jogador do Jogo de Tronos. É alguém que possui tudo contra – a aparência repulsiva aos olhos alheios, a desconfiança dos demais jogadores, a oposição explícita de sua irmã Cersei – mas uma capacidade de raciocínio e de leitura dos acontecimentos ímpar. É graças a ele que grandes alianças se firmam, grandes tragédias são evitadas e que a corte se move. E, graças à sua sagacidade e agudez mental, conquista aliados fiéis – e inimigos sedentos por seu sangue.

E o destino das duas filhas de Eddard, Sansa e Arya, começa a se delinear aqui: a primeira, criada para ser uma dama da corte, romântica e adoradora de livros e cañções, começa a duras penas aprender que o mundo real não é bonito, cor-de-rosa e cheio de nuvenzinhas. Pelo contrário: vai se tornando uma adolescente em uma bela prisão de ouro, abusada fisicamente e psicologicamente, esperando pelo cavaleiro andante belo, garboso e cheiroso que a salvará de seus fantasmas (minor spoiler, mas o único cavaleiro bonitão, garboso, cheiroso e sex symbol da trama gosta é de um outro cavaleiro bonito, garboso e conhecido como “o homem mais bem-vestido da corte”). Mas “o mundo não é uma canção” e atrás de faces bonitas há a injúria, e talvez o consolo esteja encoberto por uma camada de rudez e selvageria.

Já Arya, a mais nova, que sempre detestou as coisas de menina e que gostava mesmo era de lutas de espadas, perseguição a gatos e outras brincadeiras de meninos, também se perde em um mundo sujo, sangrento e desagradável, para também sofrer abusos físicos e psicológicos. Ao contrário de sua irmã, um passarinho frágil, ela cresce para se tornar um cão vira-lata e faminto, que não tem pudores para lutar por sua própria sobrevivência. Valar morghulis.

E neste livro, também, a magia do mundo de Westeros vai se intensificando mais e mais. Vai se tornando cada vez menos sutil e mais atuante, mas nem sempre será uma coisa boa, limpa e bonita de se ver, além de custar, às vezes, preços mais caros do que as pessoas estão dispostas a pagar.

E, claro, a guerra civil se inicia. Para quem gosta de batalhas, um prato cheio, que dura uma boa dezena de capítulos e é mostrada por vários ângulos: dos lados envolvidos no conflito e do lado inocente, que deseja apenas estar vivo para ver o sol do dia seguinte.

3. A Tempestade de Espadas

Este é o maior livro e também aquele onde mais coisas acontecem. Aqui, pode-se esperar twists diversos, cenas de efeito e impacto diversos, todas as plotlines e personagens atingindo pontos críticos de conflito e posicionamento. É o ápice dos quatro livros já lançados, também o preferido dos fãs e ganhador de prêmios. A ação ocorre do princípio ao fim, com muitas batalhas, traições, golpes certeiros, vitórias, derrotas, lágrimas e sangue.

É difícil falar sobre este livro por uma razão simples: a história toda – todinha – sofre alterações pelos acontecimentos deste volume. Várias tramas encontram seu fim aqui, com direito a uma das maiores traições literárias que eu me lembre, comparável ao cavalo de Troia, e que também é uma das sequências mais eletrizantes e inesquecíveis de toda a série.

Batalhas são vencidas, batalhas são perdidas, oportunidades aparecem e são aproveitadas, traições se revelam, acertos de contas acontecem, personagens aparentemente desconectados se encontram, conchavos são armados com sucesso, blefes são armados com sucesso e o balanço de poder é alterado de maneira definitiva.

Para não cair em spoilers, só digo que aqui temos a oportunidade de conhecer Jaime Lannister um pouco mais a fundo, saber suas motivações e sentimentos. É uma excelente oportunidade para enxergar um personagem que só foi visto pelos olhares dos outros personagens até agora, a maioria deles realçando seus defeitos, mas de dentro de sua própria cabeça e através de sua interação com Brienne, que é seu oposto polar em qualquer sentido ou direção que se olhe – e que é chave fundamental para entendê-lo.

Um Pequeno Interlúdio: Salto de Cinco Anos?

Era a intenção de George R. R. Martin que houvesse um salto de cinco anos entre o terceiro e o quarto livros da série, para que os personagens crianças pudessem crescer, algumas situações pudessem ficar melhor cimentadas, alguns desenvolvimentos óbvios pudessem ocorrer com calma.

Inclusive, no final do livro 3 alguns personagens foram colocados em locais estratégicos, onde poderiam passar cinco anos sem serem incomodados, com suas plotlines aparentemente resolvidas até ali, todo o caminho traçado para a pausa e amadurecimento. O autor falou várias vezes sobre seu arrependimento de ter colocado protagonistas tão jovens e essa parecia ser a maneira mais simples de fazer com que todo mundo envelhecesse um bocadinho – e também treinasse e desenvolvesse um bocadinho também.

SÓ QUE… Algumas plotlines, até primordiais, não ficariam em suspenso por cinco anos, não sem rios de flashbacks e explicações furadas. Alguns fatos que ocorreram no final de A Storm of Swords demandavam uma solução imediata em termos de continuidade e coerência. Simplesmente não havia a possibilidade de avançar o tempo cinco anos sem prejuízos irreparáveis à toda malha ricamente construída até então.

(e, claro, retcons, que são a coisa mais detestável do mundo, estão e sempre estiveram fora de questão).

Qual a solução, então? Dividir o quarto livro em duas partes, correspondendo ao quarto e quinto livros da saga, para resolver os assuntos pendentes, movimentar as peças no tabuleiro narrativo e servir de interlúdio para a segunda parte da trama, ainda a vir. Os dois livros preenchem o mesmo espaço de tempo, sendo que o primeiro trata dos fatos ocorridos na corte e terras próximas, no sul e na cidade de Braavos, enquanto o quinto tratará do Norte e das terras de Além-Mar.

Então, em 2004, após quatro anos de árdua espera, foi lançado o quarto livro da saga, A Feast for Crows…

4. Um Festim para Corvos

Este é, até então, o livro mais intimista da série.

A guerra civil acabou e uma pretensa e relativa paz começa a se estender por Westeros. Os mortos são contados e enterrados, o poder é reorganizado após sua mudança de mãos, mas o drama de quem realmente perde com a guerra é mostrado: as famílias que perderam seus pais e suas mães, as plantações que não foram colhidas, as terras que não foram semeadas, os milhares de desabrigados e desamparados que enchem os campos. Essas são as vítimas dos jogos de poder, são quem morrerá de fome porque a comida acabou, morrerá de frio porque não há mais casa, será morto porque a lei se foi e os criminosos e enlouquecidos pelas batalhas estão à solta.

É pelos olhos de Brienne, a moça pura e sensível, mas olhada com deprezo por sua aparência e modo de ser, que veremos as pessoas comuns lutando pelo seu restinho de dignidade e pela chance de lutarem por sua sobrevivência.

Mas mais do que isso, há um ponto comum em todas as plotlines deste livro: a identidade. Em metade deles, a busca pela identidade, tenha sido ela perdida muitos anos atrás e que precisa ser recuperada ou que precisa ser construída após uma vida de rejeição. Nos outros três, a perda da identidade – seja ela subtraída voluntariamente, por força das circunstâncias ou por um turbilhão mental de confusão e loucura. E essa privação da identidade também gera e gerará consequências.

São personagens que se procuram, que se opõem. Seja a feia, porém de coração nobre Brienne, que se opõe a belíssima e cada vez mais descolada da realidade Cersei, o destino cada vez mais cruel de Sansa e Arya, as jornadas de Samwell e Jaime, que em última análise buscam a mesma coisa.

Por fim, os Ironborn são revisitados, bem como o povo de Dorne, a província mais ao sul e mais isolada de Westeros. São os últimos jogadores para completar o Jogo de Tronos e esta é a hora de colocar as cartas na mesa. É bom ressaltar que a conclusão dos capítulos de Dorne é uma das mais arrepiantes de toda a série.

Neste livro estão os capítulos mais belos da saga, com ênfase naquele chamado Cat of Cannals e um dos capítulos de Brienne onde o religioso discursa sobre os homens destruídos pela guerra. Aqui, a prosa de George Martin encontra sua forma mais bela. Não é apenas a trama que é contada, mas também é possível saborear vagarosamente todos os detalhes, a escolha de palavras, cenas e sensações do leitor. É fazer da leitura prazerosa e saborosa.

Por não ser um livro agitado e cheio de reviravoltas como anterior – além da expectativa dos quatro anos de espera – este é um livro visto pelo rabo dos olhos de alguns fãs, mas a leitura é belíssima. E, claro, é uma leitura que vale a pena ser apreciada e degustada com carinho.

E agora estamos esperando o quinto livro, que está prometido desde 2005. Entramos no sexto ano de espera: será que desse ano não passa? Eu pressinto que sim. Espero estar certa para logo poder trazer a resenha de A Dance with Dragons para vocês 🙂

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Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis