The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

Tem espaço no mundo (e nas estantes) para todo tipo de história. O que é legal para mim pode não ser para você e vice-e-versa, ou mesmo o que é legal para mim no humor de hoje pode não ser amanhã. Posso querer para hoje algo mais denso e cheio de significados, enquanto amanhã posso querer uma comédia bem leve. Posso querer um terror de arrepiar e amanhã um romance que estoure meu índice glicêmico. Às vezes quero apenas a segurança de saber exatamente o que vou encontrar na leitura.

Então, não vejo mal nenhum em um livro épico, com um dualismo maniqueísta sem maiores questionamentos, o protagonista passando pela jornada do herói sendo que dá para marcar em uma cartela de bingo os elementos ou passos da jornada, personagens rasos que só estão ali para cumprir papéis pré-determinados sem maior preocupação em desenvolvimento, vilões megalômanos e todas essas coisas. Na verdade tem épocas em que quero esse tipo de leitura, que quando bem feita é bem divertida (ainda mais para quem tem gosto por uma boa high fantasy).

Então, fui atrás de um clássico do gênero. A série Wheel of the Time é uma das mais famosas e mais queridas do gênero high fantasy, com vários e apaixonados fãs, fóruns de discussão, vários produtos derivados como jogos eletrônicos e rpg’s… enfim. Todo um universo de fãs não pode estar errado em apontar apelo e carisma na série, então era um livro que valia ser lido nem que para conhecer do que se tratava.

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Os Filhos do Éden – Eduardo Spohr

Um dos grandes destaques do ano passado foi, sem dúvidas, A Batalha do Apocalipse, do brasileiro Eduardo Spohr, que partiu de uma edição independente (que se esgotou num instante) para uma grande editora – e permaneceu por semanas a fio entre os livros mais vendidos, com todos os méritos.

O desafio foi o que veio depois: como seriam as coisas após um épico das proporções de A Batalha do Apocalipse?

Os Filhos do Éden parte de uma decisão ao mesmo tempo arriscada e corajosa: pegar o cenário de A Batalha do Apocalipse, mas contar outra história com outros personagens. O autor justifica-se dizendo que o Apocalipse é o grande evento de seu universo e não haveria como ser fiel ao próprio cenário concebendo um evento “maior do que o maior”. Concordo. O cenário dos anjos é riquíssimo e cobre no mínimo 10 mil anos de história da humanidade, há possibilidades de se contar uma infinidade de história nesse meio-tempo. Fora que são livros independentes: dá para ler primeiro Os Filhos do Éden sem prejuízos de compreensão de cenário e personagens, até porque falam de tempos e eventos diversos.

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A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

Então é Natal.

Todo mundo de ressaca, 10kg mais gordo, depois de ouvir milhares de trocadilhos infames com “peru” e nós aqui do blog oferecemos a última resenha do ano! Êêêê!!!!

Aprendi a ler muito cedo, então posso dizer que os livros estão presentes na minha vida desde sempre. Mas não foram eles minhas únicas referências de narrativa, muito menos as únicas histórias que ouvi ao longo da vida.

Lá pelos meus inocentes sete ou oito aninhos regados a manhãs fazendo lição de casa na frente da TV ligada na saudosa Manchete, eis que surgia meio por um acaso uma obra que acabou por ser marcada a ferro e fogo no coração da minha geração: Os Cavaleiros do Zodíaco. Como esquecer as Doze Casas, do Mestre do Santuário, das batalhas épicas, armaduras, golpes gritados, do valor da amizade e da devoção à Atena? Podem falar o que quiserem da trama em si (e é fraquinha mesmo, ai essa história na minha mão…), mas o carisma dos personagens, o clima da série e suas passagens memoráveis  são inesquecíveis.

Depois ainda vi muitos animes na mesma linha: o grupo de amigos que luta contra o mal e que depende da força da amizade e do amor para avançar, com muuuuita pirotecnia (e meu segundo anime mais marcante de todos é Sailor Moon, tá, prontofalay). Mas a gente vai crescendo e procurando histórias mais elaboradas, já que não só de pirotecnia vive o espectador…

Até que, em um belo dia, cai na mão do leitor já crescidinho e escolado um livro que tem todo o clima de seus desenhos prediletos da infânca E um roteiro caprichado. Epic win. A Batalha do Apocalipse me conquistou por isso, por ser uma espécie de Cavaleiros do Zodíaco 2.0.

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Os Portões de Roma – Conn Iggulden

Ficção histórica é um gênero que eu assisto mais do que leio – gosto bastante das minisséries que a Globo faz de vez em quando, de filmes e de seriados como o excelente Roma ou The Tudors. E gosto de ler ficção histórica também, quando sou atraída pela temática.

Só que esse é um dos gêneros literários mais difíceis de desenvolver, por exigir uma pesquisa quase acadêmica e também, ao se tratar de personalidades históricas reais. É complicado fazer ficção histórica sobre personagens que existiram mesmo – basta abrir um livro de história e todos os grandes feitos de sua vida estarão lá: as batalhas vencidas e perdidas, as conquistas, realizações, problemas pessoais, amantes, filhos… A coisa complica ainda mais quando a linha que separa o homem e o mito é tênue e sua história pessoal já foi contada e recontada muitas vezes.

Conn Iggulden então se arrisca a fazer um romance histórico baseado na vida daquele que talvez seja o romano mais conhecido de todos: Júlio César. Todo mundo conhece as clássicas frases “alea jacta est” (uma preferida pessoal), “veni, vidi, vici” ou “tu quolque, Brutus?”, atribuídas a ele. Todos sabem que ele foi amante de Cleópatra, a rainha egípcia. Todos sabem que ele jogou a semente para o fim da República e o começo do Império Romano. Todos sabem que foi assassinado no Senado, por seus iguais. Então como recontar de forma interessante o que é bem conhecido por todos?

O autor resolve contar essa história numa série de livros chamada O Imperador e o primeiro deles, Os Portões de Roma, trata dos primeiros anos de Júlio César, da infância até quando ele se torna adulto.

É a história de duas crianças, Caio (de Caio Júlio César, ou Gaius Julius Caesar, como preferirem, seguindo a convenção romana de nomes), herdeiro de um rico senador romano, e de seu amiguinho de infância, criado por sua família após o abandono da mãe, Marco (apesar da homonímia e ao contrário do que acreditei a princípio, NÃO se trata de Marco Antônio). Ambos tem a mesma idade e são os melhores amigos e companheiros um do outro, brincando, enfrentando os valentões e aprendendo sobre a vida.

Claro que para fins de narrativa muitos fatos históricos precisam ser ligeiramente alterados ou mesmo suprimidos (apesar de que Caio filho único é meio complicado quando se sabe que Otávio, seu herdeiro político, era neto de sua irmã) e há o compromisso com os fatos tão conhecidos da vida da personalidade em questão (preocupação que Bernard Cornwell não precisa ter ao falar da vida de pessoas comuns, ainda que transitem entre personagens históricos, ou, para ficar na onda romana que abateu-se sobre este blog, o brasileiro Max Mallmann em seu mais recente livro).

Sobre Marco (que é uma dessas mudanças nos fatos históricos para fins de narrativa, já que ele era mais novo do que Júlio César na história oficial – e, de acordo com algumas fofocas antigas, seu bastardo), ao contrário de seu amigo bem nascido Caio, recai o estigma da pobreza, do abandono e da falta de herança. Se tudo será fácil para o rico herdeiro, para ele o mundo está de costas. Essas diferenças começam a se ressaltar no treinamento físico e militar de ambos: o duro mestre de lutas fará questão de ressaltar que os dois garotos não são iguais – e a dualidade de Marco o tornará o melhor personagem do livro. Para quem tem saudades dos quadrinhos, em especial dos mangás shonen, Marco parece um desses garotos tocados pela arrogância da juventude com um sorriso no rosto, olhos brilhantes e linhas de ação – e seu mestre também lembra muito os mestres durões que esses garotos encontram em suas histórias. E, sinceramente para mim, sua plotline que inclui lutas, navios, duelos, atrevimento e ousadia é bem mais interessante do que a do jovem nobre treinado para a política Caio.

Inclusive, a única parte realmente maçante do livro é quando Caio chega em Roma para viver com seu tio Mário. A rotina burocrática de Roma não é interessante como o treinamento e a vida de moleques, mas logo a intriga vira guerra e as aventuras recomeçam. Mesmo Caio, quando deixa os tempos de menino e se torna Júlio César, se torna um personagem mais interessante, ainda que sempre pareça ciente do destino que o alcançará.

Mas fora isso e o fato de que Caio e Marco nunca parecerem em perigo, é um livro interessante, que empolga na leitura e faz lembrar os quadrinhos de garotos atrevidos e aventureiros. Nesse ponto, achei o livro MUITO mais simpático do que os que li do Bernard Cornwell e fiquei sinceramente curiosa para ler os volumes que se seguem e ver de qual forma o autor vai continuar a contar a história da vida deste grande homem e mito.

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Se você quer um livro autografado pelo Conn Iggulden mas não pôde comparecer à Bienal, existem alguns exemplares à disposição na Livraria Cultura by Record no Conjunto Nacional e na Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, ambos em São Paulo!

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(p.s.: Quem aí quer resenha da série Roma? Animo a fazer, mas vai depender da demanda :P)

A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte III: A Análise

Continuando com a última parte do especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, aqui vão os links para a PARTE I e para a PARTE II do especial.

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As Referências

Claro que é impossível determinar todo o caldo referencial de onde uma série surge, ainda mais se a bagagem literária e cultural do autor é extensa. Às vezes o personagem X surgiu da observação de uma pessoa conhecida, ou o evento Y surgiu de uma “digestão inconsciente” de vários dados dispersos entre si. A fonte da inspiração acaba sendo essa, no fim das contas, a absorção ao longo da vida de fatos, eventos, leituras, personagens reais ou não, sensações pessoais, enfim, da vivência.

Não existe criatividade sem alimentação, não há como construir um cenário convincente para uma história sem alimentar-se de sua própria história (às vezes me dá desgosto em perceber o quanto algumas pessoas que querem seguir o caminho de escritoras desconhecem a história brasileira, que deveria ser o mínimo), geografia, um pouquinho de ciências naturais para não cair no física, quimica ou biologicamente impossível e muita literatura. Ler os clássicos é uma exigência “para ontem” – afinal, tem muita gente por aí querendo reinventar a roda, por que não descobrir e apreciar aquilo que foi feito?

Seria impossível para mim analisar todas as referências de George R. R. Martin ou de quem quer que seja, mas tem algumas bem interessantes e dignas de nota.

A primeira, e mais óbvia de todas, é a referência à Guerra das Duas Rosas e aos eventos históricos ingleses ocorridos do século XII até mais ou menos o século XVII. Para os desavisados, a Guerra das Duas Rosas foi uma guerra civil ocorrida no século XV entre as famílias York e Lancaster, que disputavam o trono inglês. Bom, o símbolo dos York era a rosa branca e o dos Lancaster a rosa vermelha, então aí está a origem do nome do conflito – e se pararmos para pensar, além da inspiração dos nomes, uma das cores dos Stark é o branco e uma dos Lannister é o vermelho 😉

Há também várias referências a nobres ingleses (a mais notória, a Ricardo III, que tem seu espectro dividido em dois personagens: o Ricardo III real inspirou Stannis Baratheon, enquanto o Ricardo III concebido por Shakespeare inspirou Tyrion Lannister) e a eventos ocorridos no período acima destacado.

Mas, claro, não apenas aos ingleses. Alguns outros personagens históricos europeus dão o ar de sua graça, bem como a inspiração das ricas famílias italianas renascentistas (dá para ver um eco bem grande dos Bórgias, na concepção da família Lannister, pelo poder, riqueza e devassidão moral. A própria Cersei tem muito de Lucrezia Borgia em si).

E também a visão de outros povos. Os Dothraki, o povo dos cavalos, tem muito dos hunos/mongóis históricos, assim como os Ironborn são uma mistura de vikings com os navegadores portugueses. As cidades-estado do outro lado do mar lembram a dinâmica das cidade-estado gregas e Braavos é inspirada em Veneza e seus canais.

E as referências ficcionais? As histórias de cavalaria do século XIX – se procurarem direitinho, vão encontrar o Ivanhoé lutando justas em Westeros, assim como uma versão dark do Robin Hood e de seus foras-da-lei. Dom Quixote está lá – como referência a personagens (dá para encontrar no mínimo dois Quixotes e dois Sanchos na série), ao cenário e até mesmo certa personagem que vai assistir a uma peça chamada Knight of the Woeful Contenance (“O Cavaleiro da Triste Figura”) 😉

Os clássicos, como Crime e Castigo e Moby Dick, marcam presença – e também a fantasia e a ficção científica clássicas. As referências a Tolkien, em temática e até mesmo em alguns nomes são tão claras que não precisam de comentários. Os Ironborn e sua cultura também são uma clara homenagem a H. P. Lovecraft – desde seu símbolo, o Kraken, passando por sua religião, que cultura o Deus Submerso, até Dogon, um de seus ancestrais 😉

Outra obra que é referência claríssima é Duna – tanto pelo papel assumido pela política e pela intriga social em uma obra ficcional quanto por pontos específicos, como uma releitura dos dançarinos faciais e dos mentats.

A fantasia mais contemporânea, como Black Company do Gleen Cook – em que o desenvolvimento dos personagens é forte e onde os personagens cinza começam a ter lugar de destaque – a obra de Jack Vance e, porque não, a saga Wheel of Time do amigo pessoal Robert Jordan também estão lá.

Partindo para a mitologia, talvez a primeira e mais clara das lendas referencias seja o ciclo arturiano – tanto as lendas quanto um bocadinho de Once and a Future King, do T. H. White – e, por que não, do meu “querido” Bernard Cornwell. Alguns dos personagens lembram Lancelot, Galahad, Merlin, Mordred e todos os outros. E, inclusive, o próprio rei Arthur – o filho bastardo do Uthred e único e oculto herdeiro de um trono vago.

Também há várias referências mitológicas gregas e celtas – quanto às gregas, não apenas as mitológicas, mas também os das tragédias, como a tentativa vã de escapar de profecias.

Enfim, essa foi só uma pincelada. Leiam vocês também e coloquem aí nos comentários as referências que vocês encontrarem ^^

A Resenha

O grande mérito de George R. R. Martin e de A Song of Ice and Fire é dar um passo adiante no cânon da fantasia contemporânea. Enquanto muitos repetem fórmulas – ou mesmo avançam pouco dentro do pré-estabelecido mas não conseguem ir além – essa é a inauguração do novo dentro da fantasia.

J. R. R. Tolkien é um dos cânons da fantasia moderna (e a utilização de “moderna” e “contemporânea” aqui é proposital). Não dá para negar sua influência em tudo aquilo o que veio depois – desde a alta fantasia de Gary Gygax e Dave Arneson (os criadores do Dungeons and Dragons – o RPG -, apesar de sua inspiração alegada ser Robert Howard e o sword and sorcery) até a fantasia urbana de Neil Gaiman.

Mesmo as séries mais contemporâneas, como Wheel of Time, tem uma raiz tolkeniana arraigada, por mais que os anões, elfos e fireballs – ou seja, o clichê e o lugar comum da alta fantasia – estejam distantes. São passos que caminham para a evolução e para a revolução.

Os personagens cinza – ou seja, aqueles em que o bem e o mal convivem igualmente – não são novidades na ficção fantástica, vide a série Black Company – do início da década de 1980 e que traz como protagonistas um grupo de anti-heróis. Como já disse antes, a política ter papel pivotal em uma trama, tendo suas nuances exploradas, também não é novidade, vide Duna – que também é uma obra-prima, um divisor de águas e um cânon dentro da ficção científica – que é de 1965. Então, A Song of Ice and Fire representa inovação temática? Não. Mas representa um modo de fazer inovador.

O que faz a saga funcionar – e destacar-se das várias similares – é a junção dos elementos na contagem da história: o cenário fantástico detalhado e profundo, a trama política que se assemelha a um romance histórico e os personagens humanos e carismáticos. Meu conselho hoje para alguém que quer escrever fantasia – ou entender os contornos do gênero: leia Tolkien. E leia Martin.

É fácil encontrar na obra vários dos clichês de fantasia: o príncipe prometido, a profecia, o cavaleiro andante, a linda princesa que se apaixona pelo guerreiro rude, a menina que se veste de homem para poder lutar… Só que a grande maioria deles vem com uma roupagem nova e não óbvia. É a inovação e a criação, não a mera repetição vazia do que se viu em obras anteriores. (para uma lista bem interessante E CHEIA DE SPOILERS dos clichês de A Song of Ice and Fire – e uma boa amostragem de como alguns foram subvertidos – clique AQUI)

Não posso fazer ainda uma análise completa da saga – principalmente porque ainda faltam no mínimo mas três livros para serem lançados e há alguns desenvolvimentos de personagem que precisam ser esclarecidos, mas mesmo que nunca haja uma conclusão, é leitura obrigatória.

E as falhas? A principal delas são algumas incongruências narrativas ocorridas no livro três (e que infelizmente não dá para explorar sem esbarrar em milhares de spoilers, mas se alguém tiver lido e desejar MESMO a explicação, cutuque), que culminaram no lançamento, em uma década, apenas do quarto livro, mas não sei se elas serão corrigidas nos próximos livros, então este ponto fica em aberto.


A Game of Thrones, o Seriado

Agora é oficial!

A HBO anunciou a produção da série A Game of Thrones, a adaptação de A Song of Ice and Fire, que deve estreiar no início de 2011. O elenco conta com nomes como Sean Bean (o Boromir de Senhor dos Anéis, entre outros) como Eddard Stark, Lena Headey (a Rainha Gorgo de 300, a Sarah Connor de The Sarah Connor Chronicles, entre outros) como Cersei Lannister e muitos outros. Bom, aqui fica o registro, falo mais sobre o seriado no futuro (ainda mais porque sou fã de Rome, Band of Brothers, True Blood… :P)


Westeros sob outros olhares

Aqui, duas resenhas nacionais sobre A Song of Ice and Fire, feitas por Ana Cristina Rodrigues e Rober Pinheiro.

Internacionalmente, indico a Westeros.Org, que é um fansite com as bênçãos do autor da série, bem como o Tower of the Hand, para informações mais rápidas. Sobre a produção do seriado, tem o Winter is Coming, com informações quentes.

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E com isso, acabamos nosso especial A Song of Ice and Fire e retomamos a programação normal! Caso vocês queiram ver mais informações sobre a série, análises e personagens, peçam, que terei prazer em atender 😛

O link de comentários está aberto, acima.

E até a próxima!

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Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte II: Os Alicerces

Continuando o especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, a Parte I do especial está AQUI.

E peço mais uma vez desculpas mas, como já havia dito, o post anterior teve um quê de “edição extraordinária”. Continuo bastante ocupada com os compromissos acadêmicos – e com algumas novidades que vocês logo logo ficarão sabendo 🙂 Desculpem mesmo pela demora, mas haverá compensação 🙂

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É difícil falar de uma “grande obra grande” em o poucas palavras, ainda mais quando há um imenso volume de informação a ser tratada: textual, intertextual, contextual… Então, para que essa seja uma leitura um pouco mais agradável para você que acompanha este blog, continuamos o especial A Song of Ice and Fire.

O Autor

George R. R. Martin, o autor da obra, não é nenhum iniciante na arte da escrita. Ele despontou para o meio da ficção especulativa dos EUA no inicinho da década de 1970, com publicações de contos na Isaac Asimov Magazine e em outras mais. Seus primeiros romances foram publicados no finalzinho da década de 1970 e início da década de 1980 – onde ele foi trabalhar como roteirista em Hollywood. Lá, roteirizou a série A Bela e a Fera (que passou no Brasil numa dessas sessões aventura da vida).

Cansado da pressão hollywoodiana e após sofrer alguns reveses, como séries não produzidas, George R. R. Martin resolveu dedicar-se àquela que se tornaria sua obra-prima, A Song of Ice and Fire. O primeiro livro foi lançado em 1996, já com muito sucesso.

Mas por que eu estou falando do autor, já que quase sempre as resenhas do blog se limitam às obras: por algumas atitudes muito interessantes que ele tem em sua profissão. A primeira delas é o incentivo à publicação de antologias – tão comuns lá fora e uma moda que queremos que pegue aqui no Brasil também – que reunem autores veteranos e novatos e algumas delas que ele mesmo organiza (inclusive, o outro projeto corrente dele, Wildcards, diz respeito a um universo de ficção científica compartilhado por vários autores. Muitos livros já foram lançados e por ser um universo grande, continuam sendo).

A segunda diz respeito à interação com o público. Ao contrário de alguns autores que vivem em torres de marfim e têm nojinho de seus leitores, George Martin gosta da proximidade do público, com direito a um blog até bem divertido e participações constantes em eventos. Inclusive é interessante dizer que sua companheira, Parris, é ativa e atuante no fandom de A Song of Ice and Fire!

E tudo isso é interessante pela humanização do autor – tanto quanto produtor de texto como quanto incentivador. Eu escrevo e tem muitos leitores daqui que escrevem também e essa postura de ser mais do que autor, mas também incentivador e agitador é muito interessante. Outra coisa que fica clara também: são raríssimos os casos dos autores que farão sua obra-prima aos 20 anos de idade, sem uma alimentação cultural intensa ou muito trabalho anterior e que mesmo um autor experiente sofre por percalços para terminar seus escritos de maneira satisfatória.

O Narrador

O narrador da saga tem uma peculiaridade interessante, que vale a pena ser destacada: ele é muitos, que correspondem aos pontos de vista dos personagens da trama.

Como assim?

Cada capítulo é narrado por esse narrador pessoal, em terceira pessoa, mas que acompanha os olhos e a perspectiva de determinado personagem. Vamos ver o que ele enxerga, sentir o que ele sente, saber o que ele sabe. As impressões do mundo serão ditadas por ele e não por um observador externo, as pessoas terão faces diferentes dependendo de por quem elas são observadas – um dos exemplos mais óbvios aqui são os Lannister em geral e Jaime Lannister em particular – para a maioria das pessoas, um monstro, para Tyrion, seu irmão mais velho que resolve tudo na força bruta.

E claro, veremos a percepção do pater familiae, da mãe zelosa, de uma menina de onze anos e pouca coisa na cabeça, de um menino de oito, de um excluído social… São, como se pode perceber, perspectivas diferentes, que gerarão pontos de vista diferentes para os mesmos fatos.

O narrador, por óbvio, não é onisciente. Mais ainda: o leitor conhece mais da trama e de seus desdobramentos do que o narrador – e a construção dessa dinâmica é algo muito interessante de se notar.

Os Personagens e o Cenário

Não há como dissociar os dois elementos, tanto pela história ser narrada de forma intimista através de pontos de vista, como já discutido acima, quanto por serem esses os dois elementos que levam muitos a rotular A Song of Ice and Fire como fantasia realista – ou seja, a ambientação e os personagens são tão críveis que, tirante o fator pirlimpimpim, a série poderia ser facilmente confundida com um romance histórico. Inclusive, os dois primeiros terços de A Game of Thrones pendem muito mais ao romance histórico do que ao fantástico. Se a história se passasse na Inglaterra na época da Guerra das Duas Rosas ou na França mais ou menos do mesmo período, tudo permaneceria igualmente factível.

E os personagens… A narração em pontos de vista casa tão bem com a saga pela maneira como os personagens são elaborados. São pessoas reais transpostas em papel, com os acertos, erros e idiossincrasias que tornam cada um aquilo que é.

Trata-se basicamente de seres humanos: são pessoas que não podem ser qualificadas como boas ou más, com qualidades, defeitos e imperfeições. Há aqueles que possuem uma ética pessoal fortíssima, outros que não se importam em mentir e dissimular. Há os simpáticos, há os patéticos. É impossível não se apegar aos personagens, seja para amá-los, seja para amar odiá-los.

E sobre eles paira risco real: sim, personagens podem morrer para o bem da história, mesmo que eles estejam entre o rol dos principais. Sim, personagens podem tomar decisões erradas, ser vítimas de armadilhas sem que a armada os salve de última hora, ver suas ações gerarem as piores consequências possíveis, ficarem no chão – e também verem planos darem certo, verem planos darem mais certo do que o esperado, darem a volta por cima. Algo que costumo criticar muito a falta em outras obras está presente aqui: existe perigo, angústia, pode ser que o personagem em questão sobreviva, mas física e mentalmente abalado.

Voltando ao cenário (alguns aspectos mais referenciais serão deixados para a Parte III do especial), a construção prima pelo realismo e pela factibilidade. Não basta ao escritor criar um mundo paralelo sem alma para que haja uma história de fantasia consistente. Como Tolkien deixa bem claro, não se pode chamar um cenário de papelão de “mundo” – é preciso começar dos alicerces.

Claro, ao contrário de Tolkien, aqui não se começa de uma teogonia – até porque, apesar da existência explícita do sobrenatural, não há certeza nenhuma de que realmente exista algum deus – mas dos detalhes sobre a geografia, a história, a cultura.

Somos apresentados a fatos históricos de Westeros, como a ascensão e queda da dinastia Targaryen, rebeliões bem e mal-sucedidas, personagens históricos, antigas rixas que geram consequências até o tempo presente. Sabemos, por referências textuais automáticas, que não caem no enciclopedismo, que Dorne não é totalmente integrada ao resto de Westeros, ou que existem cidades-estado além-mar com culturas misteriosas e envoltas em lendas e mistérios mil.

Além das lendas e geografia, o mundo tem gostos, como os bolos de limão da Sansa, o vinho Redwyne, os pêssegos de Renly, os ricos e fartos banquetes festivos, os pratos repulsivos que se tornam verdadeiros manjares no momento da fome. Os rituais religiosos, seja da Fé dos Sete, de R’hlorr ou do Deus Submerso, estão lá, bem como os pequenos ritos comuns de cada dia. Aspectos práticos da política e a forma como os julgamentos são feitos também estão lá.

Uma regra social que acaba por se tornar importante: os sobrenomes dos bastardos. Bastardos não são oficiais, então não terão direito ao sobrenome oficial de sua família a menos que haja um reconhecimento régio. Então, além do estigma, carregarão ainda um sobrenome, cada um relativo à sua região de nascimento. Os bastardos do norte, por exemplo, se chamam Snow – “Neve”, combinando com o mundo de neve onde vivem.

E é isso o que faz um mundo ser palpável: o macrocosmo e o microcosmo, juntos, naturais, orgânicos.

E para não dizer que falei de um dos pontos que mais chamam a atenção: os nomes. Jon ao invés de John, Eddard ao invés de Edward, Catelyn ao invés de Catherine – nomes que soam como os equivalentes em inglês, mas recendem a tempos antigos – junto aos inventados, como Cersei, Tyrion ou Daenerys. É uma síntese de Westeros: um mundo que soa familiar a nossos ouvidos e olhos, mas que tem suas próprias particularidades e apropriações do real. É um mundo diferente, mas que guarda similaridades demais com o nosso para ser totalmente estranho.

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E aguardem a parte 3 e final do especial, que não vai demorar tanto, eu juro! 🙂

E LEMBRETE: o blog (e eu) está concorrendo ao Prêmio Melhores do Ano!!! Para votar, clique AQUI! 🙂

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Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

A Clash of Kings – George R. R. Martin

A “linha editorial” deste blog é evitar ao máximo spoilers das obras aqui apresentadas. São minhas opiniões depois de realizadas as leituras, evitando ao máximo dar detalhes das tramas ou tirar surpresas (e não considero que fatos acontecidos nos primeiros 10 ou 20% iniciais de um livro sejam necessariamente spoilers).

Spoiler, do inglês “to spoil”, estragar, significa revelar alguma reviravolta de determinada trama… e estragar a surpresa do leitor. Há quem não se importe (eu mesma, dependendo da série, vou atrás de spoilers), há quem odeie, há aqueles que alteram o impacto de alguns acontecimentos (se você souber de antemão, algumas cenas perdem o impacto imaginado pelo autor), há os inocentes. Então, prefiro evitá-los.

Claro, tem algumas histórias e situações que são domínio público. Você SABE que Romeu e Julieta morrem no final. Qual era o segredo de Diadorim. Qual o destino de Dorian Gray e seu retrato. Então, nestes casos específicos, não há nada de mal em revelar o que se acontece.

Tudo isso para dizer que, justamente por ser o segundo livro de uma saga – é a continuação de A Game of Thrones, já resenhado algum tempo atrás, da série A Song of Ice and Fire – é difícil descrever a história de A Clash of Kings sem montanhas de spoilers.

Mas vou tentar fazê-lo de maneira que não exista spoiler algum.

Em A Clash of Kings, aparecem mais tramas paralelas, focando diferentes personagens em diversos locais de Westeros e do resto do mundo. Personagens que foram só citados ou tiveram aparições menores em A Game of Thrones ganham força, ganhando até mesmo pontos de vista. Mesmo os personagens do primeiro livro, que seguiam uma linha de acontecimentos mais ou menos comum, se dispersam pelo mundo, afastando os diversos pontos de vista de uma influência direta uns nos outros e criando várias e várias tramas autônomas entre si.

E a nota quanto aos personagens continua valendo: são humanos, reais, com acertos e erros. Íntegros ou corruptos, bons ou maus, simpáticos ou patéticos, todos eles são humanos passíveis de erros e atos heróicos, capazes de gerar empatia por parte dos leitores. Não há como não se envolver com suas alegrias e suas dores.

Outro ponto interessante a se tocar é que George R. R. Martin se aprofunda em pontos que outros escritores de fantasia tendem a não explorar ou mesmo evitar: sexo, traições, violência física. Há apenas uma certeza ao leitor: TUDO é possível. Não é porque fulano é um personagem importante que ele está imune ao sofrimento e à morte.

E é justamente a incerteza e o grande leque de possibilidades que só faz abrir que torna a série interessantíssima, valendo a pena acompanhar e ver até onde o autor nos guiará. 😀

O Último Reino – Bernard Cornwell

Bernard Cornwell é um dos autores preferidos da Mariana. Ainda na minha crise de abstinência de livros durante o período de festas, ela, sentindo-se com pena de minha situação, emprestou-me este livro, “porque é de um dos meus autores preferidos, espero que você goste também”.

Ele acabou ficando por último da pilha, atrás dos livros que já coloquei aqui como lidos. Até que, finalmente, resolvi lê-lo, também pela curiosidade de conhecer a obra deste autor e pela oportunidade de saná-la.

O Último Reino é o primeiro livro da série Crônicas Saxônicas que, até o presente momento, é uma pentalogia com quatro livros lançados. Como ele já foi trilogia e tetralogia, então este número pode mudar. Trata da história do rei Alfredo, o Grande, que conseguiu enfrentar a ameaça de uma invasão dinamarquesa total e, a partir de Wessex, o último reino inglês, estabelecer a Inglaterra. É um romance histórico contado a partir do ponto de vista do ficcional Uthred, guerreiro inglês que se vê dividido entre dinamarqueses e ingleses, paganismo e cristianismo, a espada e a pena.

Este primeiro livro conta a história da infância e adolescência de Uthred, herdeiro de um senhor de terras que vê-se despojado de sua propriedade e passa a ser criado pelo dinamarquês Ragnar, que passa a considerar como seu próprio pai. Ele cresce, se torna um guerreiro, e o destino o coloca ao lado do rei Alfredo, a quem despreza imensamente, bem como contra os dinamarqueses, povo que adotou como seu.

O começo da história não me pareceu exatamente empolgante, as primeiras páginas foram bem chatinhas. Entretanto, ultrapassado o prólogo, o primeiro capítulo flui rapidamente com a história da infância e adolescência do guerreiro inglês entre dinamarqueses. Lá, desperta a sede de sangue e a selvageria em seu corpo, bem como outras paixões. As duas partes seguintes do livro, que relatam sua incorporação ao exército de Wessex e suas batalhas posteriores, também é bem empolgante.

Como romance histórico, com direito a espadas, paredes de escudos, lanças, membros decepados, sangue e tudo mais, funciona perfeitamente. A ação é uma constante e batalhas ocorrem o tempo todo, para todos os gostos. Como desconheço a história inglesa do século IX, não posso dizer se está adequado ou não à realidade, mas o autor apresenta uma atmosfera bem crível.

Quanto aos personagens, Uthred é nosso narrador e guia e, através de seus olhos, conhecemos as pessoas que o rodeiam: o padre feio e beato, porém gente boa; o general inimigo que vê como figura paterna; o velho e sábio skald, os demais generais, a garota selvagem que se torna seu primeiro amor, o rei carola e profundamente inteligente. Não os achei personagens profundos, mas também não creio que tenha sido a intenção do autor aprofundá-los. E Uthred soa como o garotão protagonista de mangá shonen que quer chutar umas bundas e cortar pessoas em pedacinhos, e que guia sua vida em função disso. Adolescência. Um dia ele crescerá, espero.

Entretanto, há três pontos do livro que me incomodaram bastante. A seguir:

1) Por que Ragnar poupou Uthred da morte? “Ele é insolente e atrevido, posso ficar com ele?”. No frenesi da batalha ele não cortaria um garoto em pedacinhos? Afinal, um a mais, um a menos… E, mesmo se sobrevivesse, seria um prisioneiro com tanta deferência? Lembrando que os dinamarqueses só conhecem sua origem nobre depois disso…

2) Mais para frente quando determinada fortaleza é assaltada, destruída e seus habitantes mortos, como um general, no meio de uma guerra, vai deixar sua fortaleza desguarnecida e não vai fazer rondas em torno de seu vilarejo para verificar que tudo anda bem, ainda mais com revoltas pipocando por toda a parte?

3) Descobrimos que determinado personagem é o antepassado de Chuck Norris além de tudo. Ele atravessa, sozinho, o acampamento inimigo, coloca fogo em uma frota de navios igualmente sozinho e não sofre um arranhão até que a batalha real comece? Essa foi ainda mais difícil de aceitar do que as duas anteriores e quebra o clima da batalha aonde está inserida.

Enfim.
Vale a pena se você gostar de ficção histórica, de lutas de espada e de Bernard Cornwell.