O Alienado – Cirilo S. Lemos

Não sei como começar a falar sobre esse livro. Aliás, creio ser essa a principal prerrogativa dos bons romances (não necessariamente histórias de amor): aquela sensação de desorientação, de não saber por onde começar uma análise.

Talvez desorientação seja uma palavra muito exata para ser utilizada aqui: o enredo segue uma linha de lógica e coerência internas, mas é qualquer coisa, menos seguro para o leitor. Cada página pode ser um passo em falso, cada linha um barranco onde se pode despencar de uma história da outra.

É um texto que transcende o gênero. Ficção científica? Fantasia? Mainstream com um viés simbolista? A moldura da classificação é pequena para enquadrar o conteúdo da trama e em nenhum momento o autor tenta encaixar-se aqui ou acolá. As coisas fluem, os elementos necessários aparecem, mas por que a necessidade de rótulo? Basta embarcar na experiência estranha (no melhor dos sentidos da palavra).

Esta é a história de Cosmo Kant (o nome de filósofo/super-herói parece ser muito menos arbitrário do que pode aparentar), um sujeito comum dono de uma vida comum que está escrevendo um romance (que não é uma história de amor) e frequenta um analista, até o dia em que um sujeito sai do espelho de seu banheiro e as coisas começam a ficar realmente estranhas. Para piorar, Cosmo parece ser alvo de criaturas chamadas Metafilósofos, que não deveriam existir fora de seus escritos. Dizer mais do que isso é estragar a trajetória de leitura.

A narrativa está longe de ser linear e se divide em fragmentos espalhados pelo espaço-tempo que inicialmente não se conectam entre si, mas que depois passam a fazer todo sentido. Ponto para o autor que consegue fazer essa jornada coerente e coesa, por mais que o elemento tempo tenha tanto sentido aqui como em um sonho.

Os capítulos seguem a lógica dos pesadelos, nos quais o protagonista se encontra numa situação opressiva em que não ficou muito claro como ele chegou lá e sem saber muito bem o que está procurando, ainda que haja coerência na situação. Em determinadas cenas, quase esperei que, como nos sonhos, Cosmo se angustiasse para encontrar um objeto que não soubesse o que era ou que todo cenário mudasse de repente quando ele menos esperasse e tudo continuasse fazendo sentido (bom, não dá para não dizer que de vez em quando isso acontece).

Pode se encontrar na temática um quê da angústia opressiva de Kafka, da luta sufocante contra um inimigo desconhecido e que parece muito mais poderoso do que seu adversário, ou mesmo do terror distópico de Orwell; quadrinhos de super-herói, filosofia, cyberpunk cinematográfico como Matrix e a pura vida suburbana, mas sem parecer que algum desses elementos esteja deslocado dos demais ou que a refinação temática esbarra no pedantismo.

A narrativa também é um ponto fortíssimo. Como disse, o autor traz ao leitor a experiência de um pesadelo guiado e para replicar a estranheza do universo onde nos encontramos, utiliza-se de alguns subterfúgios, como capítulos que revelam a confusão mental do personagem e são construídos a partir desta, ou passagens da obra no formato de quadrinhos, quebrando a soberania das letras e enriquecendo o tortuoso caminho percorrido.

Enfim, este é um livro que está muitos passos além de qualquer produção nacional, ainda mais das editoras de gênero, que eu tenha acompanhado nos últimos anos e se for para indicar um autor e uma obra para demonstrar vanguardismo certamente essa seria minha escolha. Recomendo e muito a experiência da leitura (e gosto bastante de frisar a palavra “experiência” neste caso, pois as emoções avocadas levam a leitura para um patamar muito além da zona de conforto do leitor). É um romance, que não é história de amor, pronto para ser conferido.

***

Ficou curioso? (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!

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6 Responses to O Alienado – Cirilo S. Lemos

  1. Josué says:

    Minha melhor leitura esse ano, de longe.

  2. Bruno says:

    Acho que conseguiu descrever o livro bem melhor do que eu 😛 Tá muito boa a resenha, recomendo muito o livro também.

    (Mas minha melhor leitura do ano foi a HQ Habibi, do Craig Thompson…)

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