Jogador nº1 – Ernest Cline

Na minha época (tudo bem, essa história de “na minha época” é coisa de velho saudosista, mas não sei começar de outra forma) nerd era xingamento. Aquelx menininhx meio esquisitinhx que sentava no fundo da sala e tinha gostos extravagantes era um risco de contaminação para todo um grupo de playboys praieiros e guerreiros. Lembro uma vez, eu com meus 16 aninhos na saída do colégio, conversando com duas coleguinhas: “gosto da Lisa Simpson, faria uma camiseta com a foto dela, escrito ‘nerd’”, para o olhar horrorizado de ambas. Só que os anos mudaram, veio a internet, veio The Big Bang Theory, os filmes de super-heróis e ser nerd virou bonito, cool. Virou uma tribo urbana com vestuário, linguajar e gostos próprios, como várias outras.

Falando ainda em “na minha época” e “papo de velho saudosista”, “nossa” época sempre costuma ser maior, melhor e mais brilhante do que todas as outras. Talvez seja reflexo da infância/adolescência, onde a vida era realmente mais fácil e tranquila, mas nossas memórias afetivas costumam nos fazer nos apegarmos àquelas lembranças e colocá-las com uma cor mais viva do que elas realmente têm. Vemos isso no fetiche pelos anos 80 (aliás, a bem da verdade, esse fetiche muda quando determinada geração chega na fase dos 20/30, apesar de eu não ter visto ainda muito “saudosismo 90” por aí…). Não importa se as roupas e penteados eram bregas, se a situação financeira ao menos aqui no Brasil ia de mal a pior, se as coisas em termos de tecnologia, saúde, ciência e tudo mais melhoraram bastante depois. Época melhor do que aqueles anos de conforto não pode haver.

Talvez também pelo fato de que a geração que iniciou o processo de desestigmatização do nerd ter sido criança/adolescente nos anos 80, e essa década ter sido marcada pelo início comercial dos jogos de videogame, de ter sido marcada por filmes para toda família que também marcaram época, de ter dado novos ares à música, contribuem no fato da intersecção entre o culto à década e a cultura nerd ser bem ampla.

Tudo isso para começarmos a falar sobre o livro de hoje. Esta é a história de Wade Watts, um garoto pobre, órfão (lógico) e cujo único refúgio é o OASIS, plataforma virtual que é uma mistura de facebook, Second Life e World of Warcraft. Estamos na não tão distante década de 2050 e a sociedade (americana, ao menos) entrou em colapso pela falta de combustíveis. À enorme e crescente população miserável, sobraram favelas, subempregos e vícios diversos. Entre esses vícios, o alienante OASIS, onde a grama é verde e as garotas são bonitas. O programa está presente na maioria dos lares e oferece diversão e cultura para todas as idades (incluindo escolas não-presenciais), além de uma realidade muito mais estimulante do que o mundo real.

O programa foi feito originalmente pelo designer de jogos James Halliday, um sujeito excêntrico que cresceu justamente na década de 1980 e espalhou essa temática pela criação. A popularidade do OASIS (que é um programa gratuito onde o usuário só paga pelo conteúdo extra) o alçou à condição de mito e lhe deu muito, mas muito dinheiro. Excêntrico como era, resolveu que distribuiria sua herança por meio de uma caça ao tesouro no programa, onde o usuário que desvendasse primeiro as pistas espalhadas e divididas na busca de três chaves encontraria o Ovo de Páscoa e seria o rico herdeiro. Não precisa ser um gênio para saber como a história segue a partir daí.

Na busca pelo Ovo, nosso herói Wade terá a ajuda de seus amigos Aech, Art3mis, Daito e Shoto e todos eles enfrentarão a ganância da Equipe Rocket IOI, capitaneada por Nolan Sorrento, que quer capitalizar o OASIS cobrando acesso aos usuários e cortando outras benesses beneficentes gratuitas (o equivalente local de querer derrubar uma floresta para construir um estacionamento no lugar) e que não se importará em jogar sujo para pôr as mãos no dinheiro. A chave para desvendar o mistério será… a cultura pop dos anos 1980 🙂

E dá-lhe referências a seriados, filmes, músicas, animes e jogos. Só que como elas fazem parte do universo, ou melhor, o constituem, elas soam naturais. Não é, como muitas vezes acontece, a referência pelo prazer da referência, ou para falar que leu aquele livro, viu aquele filme e para mostrar aos leitores tais conhecimentos. Se uma parte importantíssima do enredo é a cultura pop dos anos 80, então este vai ser o material que constituirá o texto. Não fere os olhos. (mas para mim faltou a referência mais óbvia de todas: Tron! Realidade virtual e anos 80 quer dizer o que para vocês?).

O livro até dialoga com o cyberpunk e com a realidade virtual a la Nevasca, mas de forma muito menos pretensiosa e muito mais autêntica. Aliás, a bem da verdade, esse é um livro muito mais honesto e mesmo com os defeitos que serão apontados abaixo, o resultado final é mais consistente.

Claro que o roteiro vai muito além do previsível (lendo as trinta primeiras páginas dá para sacar a história inteira), com direito a um deus ex machina na cara de pau quando as coisas parecem perdidas e muito maniqueísmo preto-no-branco: quem é bom é bom, quem é mau é mau, pessoas boas fazendo coisas moralmente questionáveis contra os vilões malvados tá de boa e por aí afora. É tão arroz com feijão que é quase um miojo literário.

Outra coisa: comigo a suspensão da descrença não funcionou. Vejam bem: por mais que a história se passe uns 40 anos no futuro, pense no uso que as pessoas de todas as idades fazem do facebook, por exemplo: é olhar foto e repassar corrente, no máximo trocar uns recados. Essa imersão no virtual ocorreria em tão pouco tempo, ainda mais levando em consideração que a educação à distância pelo OASIS só se difundiu pra valer na geração de Wade? Todo mundo se alienaria no programa e deixaria a realidade horrível de lado, sem nem lutar? As duas opções seriam então a droga ou o jogo? (mas aí ao escrever isso penso em pessoas penduradas em smartphones rua afora e penso que talvez a coisa não esteja tão distante assim…).

Enfim, uma bela homenagem à cultura nerd e à década de 80. Legalzinho, mas esquecível.

***

Até a próxima!

Anúncios

6 Responses to Jogador nº1 – Ernest Cline

  1. Eu estava pensando em deixar de escrever uma resposta e colocar um avatar desses, mas deixei pra lá. 😀

  2. Pingback: Jogador nº1 – Ernest Cline | Ficção científica literária | Scoop.it

  3. Eles… traduziram… easter egg…?

  4. Thiago Oliveira says:

    Primeira vez que leio uma resenha desse livro que se parece com minha opinião. 99% dos blogs tecem mil elogios.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: