Nihonjin – Oscar Nakasato

Há assuntos naturalmente envolventes, como o que envolve culturas diferentes que precisam se conciliar pelas circunstâncias, ou a formação do Brasil por pessoas que vieram de todas as partes do mundo (consensualmente ou não). Esbarrei com esse livro quando pesquisava sobre o prêmio Benvirá e soube que fora o vencedor da primeira edição – no site, havia uma amostra do primeiro capítulo e o interesse foi imediato, tanto pela temática da imigração japonesa quanto pelo texto ao mesmo tempo delicado e instigante.

Mas aí ocorreu outro fato que me reforçou o interesse pelo livro: a mais recente polêmica envolvendo o Prêmio Jabuti, na figura de um personagem em particular, o Jurado C. Resumindo, pois outros já explicaram a situação muito melhor, a regra de votação do Jabuti esse ano permitia que cada jurado desse notas de 0 a 10 para os concorrentes. O Jurado C então resolveu privilegiar autores iniciantes, dando zero para autores já consagrados e alterando as notas do concurso. Por fim, quem venceu o Jabuti 2012 foi justamente o livro Nihonjin, do estreante Oscar Nakasato.

O livro e seu conteúdo não têm a menor culpa de estarem no olho do furacão dessa polêmica. Aliás, espero que a confusão toda não cole no material, já que o livro é bem interessante para ser considerado “campeão com asterisco”. E, como sempre é bom lembrar, essas são minhas opiniões de leitora – não sou crítica literária, não tenho pretensão alguma de sê-lo. Com certeza há por aí opinião profissional mais abalizada, só procurar, então aqui coloco a opinião de uma leitora.

Deixando todo o papo chato de lado, vamos à opinião que é o mais importante :P: este é um romance sobre a chegada dos primeiros japoneses ao Brasil (ou nihonjins, em japonês), contada através da trajetória da recém-chegada família de alguns anos da família Inabata e de seu patriarca, Hideo. Como todos os imigrantes, ele saiu do Japão cheio de esperanças de fazer fortuna numa terra estranha e exótica, mas as coisas não se saíram exatamente como as previsões iniciais apontavam. Da esperança do eldorado, a realidade tem apenas trabalho, muito trabalho, e o salário pouco e nem sempre justo.

Claro, nem todos passam intactos aos primeiros tempos e à adaptação a um mundo completamente diferente daquele de onde saíram: clima, idioma, comida, necessidade. Nem todos suportam a mudança, evidentemente, procurando a fuga na bebida, a incerteza na cidade ou mesmo a morte. Da mesma forma, o status social mudou: em determinada passagem, Hideo proíbe a esposa de conversar com a vizinha negra para não ser lembrado pela presença dela que vieram àquele país trabalhar no lugar dos antigos escravos, ou evita situações em que os lembrem que os nihonjins (“estrangeiros”) reais são eles.

Os anos se passam, os filhos nascem e a ilusão do retorno se perde. Um novo dilema aparece com as novas gerações: integrar-se ou manter-se fiel à cultura de origem sem misturar-se? E quando seus filhos, crescidos num meio diferente do seu, acabam também por não fazer as mesmas escolhas, dedicando-se mais à nova pátria do que à antiga?

O choque e a mudança gradual de culturas, que inevitavelmente flerta com a tragédia de um momento histórico em que estas foram postas à prova (a Segunda Guerra Mundial e o assassinato de japoneses por japoneses nas colônias brasileiras, tema que mesmo hoje muitos desconhecem) e a chegada do presente e futuro. O capítulo final é de uma doçura (o encontro inevitável do avô-protagonista e do neto-narrador) e ao mesmo tempo melancolia marcantes, assim como sua conclusão.

De certa forma, tanto o estilo como o tema dialogam com o livro de estreia de Milton Hatoum, mas agora com outra cultura e outro grupo de imigrantes em foco. Recomendo muito a leitura taanto por ser um livro atualíssimo, saído do forno um dia desses, quanto pelo texto rico e pela temática, a visão interna de uma cultura estrangeira que se torna local e parte de algo maior.

***

Até a próxima!

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5 Responses to Nihonjin – Oscar Nakasato

  1. Jéssica says:

    Parabéns pela bela resenha. Nihonjin acaba de entrar na minha lista de desejados!

    Estou cultivando um crescente interesse pela cultura nipônica nos últimos meses, obrigada pela recomendação, que veio num momento tão oportuno.

    Darei os créditos ao seu texto quando resenhar o romance no meu blog. ;]

  2. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

  3. Marlène Keico Takada says:

    Acabei de ler nihonjin,eu mesma descendente de japoneses,educada fora do gueto japones,foi por um acaso,atravez de uma livraria portugues /brasileiro em Paris,hoje com très culturas,li com muita atenção cada passagem,talvez à procura de restaurar um passado que me é um total vazio,pela falta de personagem vivos n’a minha estoria pessoal dessa imigração dos meus avós e de meu pai.polêmica existe e sempre existera ,com prêmio ou sem prêmio adorei ter lido nihonjin .

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