Relato de um certo Oriente – Milton Hatoum

Toda família possui sua própria história. Aliás, citando a máxima mais conhecida de Tolstoi, todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira. Indo um pouco adiante, toda família é feliz e infeliz ao mesmo tempo, em proporções variáveis de cada sentimento, e cada uma delas constitui seu próprio romance.

Esta é a obra de estreia do autor Milton Hatoum e nela já se percebem os elementos que se repetirão em seu romance mais conhecido, Dois Irmãos: uma família de imigrantes libaneses se instala em Manaus e, apesar da aparência de sucesso e prosperidade para os olhos alheios, a desestrutura de sua profundidade marca os destinos de cada um de seus membros.

A história da família se confunde com a de sua matriarca, Emilie, que veio do Líbano ainda mocinha e sem vontade, cuja personalidade forte e dedicada servia para amalgamar familiares e amigos, mas também para estragar os filhos com seus mimos (como a história dos filhos não é a dela, coincidentemente ou não o tema volta a ser explorado no livro seguinte do autor). É através da figura que abria a casa para os vizinhos, mantinha a classe para que uma briga com o marido não se tornasse escândalo, fazia doações aos pobres como auto-expiação que se conta a história da família, de sua fundação, através de parentes e pessoas próximas. Existem as festas e comemorações, mas também as tragédias pequenas e grandes.

Como também todas as pessoas, Emilie tem uma face diferente para cada um que a vê: a mãe de criação que supre uma ausência que não se perde tempo em explicar, a jovem mãe biológica com seu santuário secreto, a amiga de juventude com quem se dividiu um dos piores dias da vida, a melhor amiga e quase irmã que precisa de alguém para confiar suas mágoas…

 

Como também é um pouco lógico, é um romance que se passa no interior da casa, com as pequenas coisas do cotidiano e com a imensa carga psicológica de suas implicações. É muito mais a história das pequenas coisas, dos pequenos dias, do que das tragédias – apesar de serem estas as responsáveis pela definição da vida e destino dos personagens, para o bem ou para o mal. Não se preocupa também em dar todas as respostas para as perguntas que o texto joga: a muitas cabe ao leitor completar, outras são desimportantes e desviariam demais do tom de “coletânea de causos” que a narrativa busca.

Novamente, não é um romance que agradará a todos os leitores, principalmente aqueles que não apreciam a literatura do cotidiano, mas para quem gosta das histórias que existem entre as paredes de casa e das consequências do mais íntimo dos relacionamentos é um livro para lá de recomendado.

***

Até a próxima!

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11 Responses to Relato de um certo Oriente – Milton Hatoum

  1. Orquidea says:

    Olá!!
    Oba!!!
    Eu gosto desses elementos que vc disse!!! Mais filosofia e psicologia!!
    Pelo que disseste acho que tem a ver comigo (hehe)
    Por falar nisso que livro!! Anna Karenine que vc citou a frase de Tolstoi, no início do post.
    Você já leu tem resenha??
    Vou procurar aqui…
    Bjk
    Valeu a dica!

  2. criscatbr says:

    Ai ai ai.. mais um pra minha lista de “quero ler”.
    Gosto mto de estórias de personagens em ambientes contidos, em que os detalhes do cotidiano são esquadrinhados.
    Nunca li nada do Hatoum. Melhor começar por este ou por “Dois irmãos”?

    abs

  3. Anna Carolina de Oliveira says:

    Oi Ana, tudo bem?
    Conheci seu blog hoje, procurando por resenhas de A Dança dos Dragões (sabe como é, você gosta de um livro que ninguém a sua volta leu, e então fica procurando por resenhas na internet para ver se compartilha sua opinião com alguém….) e gostei muito de suas resenhas e textos, principalmente porque em alguns deles você também comenta o estilo de escrita, algo que presto atenção e que me cativa nos autores!

    Passei a tarde lendo suas resenhas de livros que já li e dos que estão na fila de espera para ler e compartilho boa parte das suas opiniões.Já adicionei seu blog aos meus favoritos e com certeza agora ele fará parte da minha “ronda diária”!

    Gostaria de saber se você já leu algum livro da Anne Bishop, em especial a trilogia das Jóias Negras. E A Hospedeira, da Stephenie Meyer? Adorei esse livro e achei que ela evoluiu muito em relação a série Crepúsculo (que li no estilo “guilty pleasure” hehehe) mas me parece que esse livro não cativou muito o público. Não estou pedindo resenhas, viu? É que fiquei curiosa para saber sua opinião.

    Enfim, só gostaria de dizer que conquistou mais uma leitora para seu blog!
    Um abraço!

    • Oi, Anna! Adorei seu comentário, de verdade, obrigada pela preferência e que bom que gostou!

      Não li os livros citados, mas se vier a lê-los com certeza vou fazer algum comentário sobre eles!

      Abraços!

  4. Olá, pela sua resenha senti que é uma leitura talhada para mim. Obrigada!

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