Flashforward – Robert J. Sawyer

Dois dos temas mais instigantes em qualquer ficção são as viagens no tempo e a questão do livre-arbítrio ou do destino determinado pelas profecias. Está tudo escrito ou tudo pode ser modificado? E, mais do que isso, tentar evitar a profecia vai fazer seu destinatário caminhar diretamente para sua concretização? (esse é um dilema presente na literatura desde sempre – na verdade, os gregos entendiam que o pior dos pecados era justamente tentar burlar o destino, com consequências trágicas).

No livro de hoje, o tema das profecias vêm através da ficção científica e de uma viagem no tempo coletiva involuntária. Como em nossa realidade, o CERN construiu um acelerador de partículas capaz de replicar as condições do início do universo e detectar o bóson de Higgs, partícula presente em modelos teóricos e cuja detecção os confirmaria. Então, um pouco diferente de nós, em 2009, liderados por Lloyd Simcoe e Theo Procopides, o experimento é feito, mas acaba tendo um efeito colateral para lá de inesperado: a humanidade inteira “apagou” por cinco minutos e teve a consciência lançada para 21 anos no futuro, podendo assistir à sua vida por lá por este tempo.

(aqui entra um parêntesis necessário: o livro foi lançado originalmente em 1999, passando-se dez anos no futuro, em 2009. Apesar de já haver o CERN, não havia condições de saber que o experimento do acelerador de partículas só poderia ser realizado alguns anos no futuro, em 2012, e alguns estranhamentos tecnológicos também prejudicam um pouquinho a suspensão da descrença. Bom, só um pouquinho, porque além de ter de se levar toda obra futurista com um grão de sal, os maiores problemas de suspensão de descrença são outros. Mas é engraçado a ausência de telefones celulares/smartphones e a requisição de VHS’s de gravação de câmeras de segurança…)

As visões têm impacto imediato na vida pessoal de toda a humanidade, no caso, focada nos envolvidos – Lloyd se vê casado com uma mulher que não é sua noiva e Theo tem uma revelação ainda pior: dentro de 21 anos no futuro, ele será assassinado, e sai numa investigação sobre a identidade de seu futuro assassino e como poderá evitar o porvir.

A discussão sobre a mutabilidade ou não do futuro, utilizando como base teorias físicas explicadas de forma didática e que requerem pouco de conhecimento prévio é bem interessante e mais do que isso, as questões filosóficas sobre livre arbítrio e o peso da consciência do futuro (inexorável?). Como viver a vida normalmente se você sabe que algumas coisas fatalmente (será?) acontecerão? Se relacionamentos começarão/terminarão, se você não está no lugar que planejou? Se a vida é incerteza, o que fazer quando a certeza existe?

A trama sobre a investigação prévia de um crime também é interessante e o autor poderia investir mais nela. O Robert J. Sawyer é vencedor de prêmios importantes como Hugo e Nebula, mas a trama peca em não investir naquilo que tem de mais interessante. Aliás, esse é um desses casos em que o autor coloca elementos muito legais na história, mas simplesmente os deixa de lado e não desenvolve. A trama vai caindo ao transcorrer do livro e o desfecho é bem fraquinho, não corresponde às expectativas criadas e nem mesmo às discussões abordadas.

Inclusive, tem uma passagem que era para homenagear 2001, talvez?, mas acaba completamente deslocada de todo o resto. Sério, fiquei me perguntando POR QUÊ? Uma sensação ainda mais amarga para um final que já deixa a desejar, com direito a uma cena de perseguição meio sem-graça. Aliás, é raro ter cenas de perseguição escritas que consigam ser eletrizantes.

E claro, o problema de suspensão de descrença que disse antes. Como dito antes, as pessoas tiveram um “apagão” quando a consciência foi projetada, o que gerou inconvenientes como acidentes de trânsito, aéreos, mortes na mesa de cirurgia, pessoas que trabalhavam em máquinas, caíram de escadas e tudo mais que possa ter consequências trágicas. O texto fala de passagem sobre as milhões de pessoas que morreram, mas as consequências dos danos me parecem bastante subestimadas. Imaginem vocês que milhões de pessoas simplesmente morreram da noite para o dia, outras se feriram gravemente – e como fica a produção de coisas básicas para a vida? Tudo bem, energia elétrica, telefonia, internet, abastecimento de água e gás são praticamente eletrônicos, mas e os danos em aeronaves e veículos? Em ruas, prédios, espaços públicos? E eventuais incêndios que possam ter saído de controle? Como está a distribuição de alimentos já que a coisa ficou realmente feia? Em resumo: a sociedade deveria estar CAÓTICA, só voltando ao normal semanas depois do acontecido, então como as coisas após o flashforward estão aparentemente tão tranquilas? Isso me incomodou bastante o que, junto com o final, tira muitos pontos do livro.

Também vale dizer que ganhou uma adaptação em seriado pela ABC (ou, melhor dizendo, foi cometida uma adaptação), que não caiu no gosto do público e foi cancelada antes mesmo do fim da primeira temporada. Entra no rol de adaptações infelizes, apesar de que acho que daria para fazer um filme de pouco mais de duas horas sobre o livro e conseguir um grau alto de fidelidade.

Enfim, é um livro cuja primeira metade é imperdível e tem ideias bem interessantes, mas que acaba desandando pelo caminho. Não desrecomendo a leitura, mas também, infelizmente, não é um must-read…

***

Até a próxima!

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6 Responses to Flashforward – Robert J. Sawyer

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  2. jrcazeri says:

    Na época do lançamento, fiquei muito interessado no livro, que foi ficando na fila, ficando e acabou no esquecimento. O piloto da série de TV, que mostra um tanto do caos pós apagão é interessante, mas a retomada rápida do cotidiano já era um ponto negativo na série, não imaginei que o mesmo acontecia no livro, uma pena.

    Vai voltar pro fim da fila do “talvez, um dia, quem sabe”…

  3. criscatbr says:

    Não conhecia o livro. Cheguei a assistir à série e, apesar do fracasso nas telinhas, eu tinha achado a premissa bastante interessante. Tanto que escrevi sobre o assunto num post (http://migre.me/bGJFJ). Infelizmente não souberam explorar bem a trama. Nesse aspecto, parece ter seguido fielmente o livro: início impactante, desandando depois de 12 ou 13 episódios. Uma pena.

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