O Nome do Vento – Patrick Rothfuss

Após ler os quatro primeiros livros da série A Song of Ice and Fire, do George R.R. Martin, como já mencionei aqui antes, queria dar um tempo da literatura de fantasia. Por quê? A já citada série me impactou de uma maneira tão profunda que qualquer coisa do gênero que eu lesse a seguir seria eclipsada. Então, claro, procurei ler coisas que não fossem relacionadas ao gênero fantástico ou que tivessem alguma variedade temática grande o suficiente para evitar comparações.

Só que acabei esbarrando com O Nome do Vento, que veio bem recomendado por vários amigos e conhecidos. O livro (não confundir com A Sombra do Vento, por favor :P) é o primeiro volume de uma trilogia, chamada Crônicas do Matador do Rei – e, claro, também se trata de um romance de high fantasy, com um mundo fantástico em que a magia e criaturas mágicas existem e atuam.

Bom dizer também que, como Jonathan Strange & Mr. Norrell, é uma obra que sai no Brasil quase que por engano, já que não vem seguida nem de filme e nem de hype – e ela foi lançada originalmente em 2007, ou seja, recentíssima (ainda mais se parar pra pensar que Eye of the World, o primeiro volume da série Wheel of Time, de Robert Jordan, que é escorada no hype lá fora, tendo inclusive um fandom bem ativo, só saiu no Brasil esse ano, com quase 20 anos de diferença do lançamento original…). Ponto para a editora Sextante – e espero que tragam mais livros recentes também!

Outro ponto forte da edição é a capa: um belo trabalho gráfico, uma ilustração bem caprichada, bem coerente com a proposta da trama e que chama a atenção.

Só que entramos aqui em um ponto fraco, pois nem tudo são flores: a tradução deixou um pouco a desejar. Há um erro bobo e que muda bastante o sentido da trama, mas a escolha lexical utilizada na edição brasileira não foi das mais felizes. Não é nada que prejudique a leitura, mas eu acho que poderia ter sido melhorado.

Ah, sobre a política de spoilers: o grande spoiler que o leitor encontrará abaixo está na orelha do livro, então não achei nenhum crime mencionar o fato.

Ultrapassadas as preliminares, vamos ao livro: somos apresentados a um mundo de fantasia, onde a magia e espécies mágicas pulsam, e também a Kote, um taverneiro de uma vilazinha do interior, que na verdade é um aventureiro aposentado. Não apenas um aventureiro: um guerreiro, bardo, cientista, que esteve envolvido em grandes eventos de seu mundo, que tornou-se uma lenda entre os vivos. Claro, no momento tudo o que ele deseja é paz e sossego, até ser surpreendido por um cronista renomado, que está interessado em conhecer sua história através de seu próprio relato e não vai desistir antes de consegui-lo.

Kote, após alguma insistência, concorda em contar sua história, mas afirma que precisará de três dias para isso – e aqui está o sentido da trilogia, cada dia correspondendo a um livro.

Então começamos do começo: a infância, quando ainda se chamava Kvote e era o filho do líder de um povo nômade e ligado às artes, espalhando suas canções e danças por todo o mundo. Ele, uma criança superdotada e bastante curiosa pelos mistérios do mundo ao seu redor, com uma facilidade impressionante de aprendizado.

Em uma das andanças de seu povo, acabam esbarrando com um latoeiro, que na verdade é um estudioso arcano que, dentre outras coisas, conhece o nome do vento. E, Kvote, como boa criança precoce, vai adotá-lo como mestre, e ouvir pela primeira vez sobre a Universidade, onde os conhecimentos são distribuídos e propagados.

Nessa hora, o pensamento foi irresistível: “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?”. Mas resolvi insistir um pouco na leitura para ver no que daria…

…e a vida do menino vira do avesso depois que seu povo é dizimado pelo Chandriano, uma organização mística que habita as lendas e superstições do mundo.

Aqui, cabe um parêntesis: como Kvote vem de um povo imerso em músicas e contos, as músicas e contos do mundo aparecem na narrativa, e são bem trabalhados e rítmicos. A rima do Chandriano, em especial, merece destaque: dá arrepios seja no original, seja em português. Fica a palhinha, no original:

when the hearthfire turn to blue,
what to do? what to do?
run outside, run and hide.
when his eyes are black as crow?
where to go? where to go?
near and far. here they are
see a man without a face?
move likes ghosts from place to place
what’s their plan? what’s their plain?
chandrian. chandrian

E o mundo de O Nome do Vento é bastante sombrio e cínico. É o mundo de um deus morto, onde a magia arcana foi proibida e até os dias atuais continua sendo vista com reservas, onde a diferença social existe e está latente. É um mundo onde mazelas existem, onde o vício e venda de drogas ocorrem à luz do dia, onde a degradação é visível e latente.

E Kvote tem a obrigação de enfrentar um mundo sombrio e cínico e sobreviver. E sobrevive, aos trancos e barrancos mas sobrevive (e essa parte da trama lembra bastante o Charles Dickens e seus órfãos). Até que, por alguns lances de sorte, acaba tendo a oportunidade de ir para a Universidade.

E a Universidade, não posso deixar de comentar, é uma versão sombria e cínica de Hogwarts, com as diferenças sociais exacerbadas e Kvote, inteligente mas tornado arrogante pela consciência de tal capacidade, desafiando as regras do lugar. Claro, ele não é o protagonista bonzinho, está ali para cometer pecados e pecadilhos, a tropeçar nas próprias pernas mas também ser vítima de injustiças alheias. E é interessante ver suas escolhas e atos por sua perspectiva e não por a de uma outra pessoa.

Um dos pontos interessantes do livro é ter vários dos clichês de fantasia revisitados, mas dentro de lugar. O choque de realidade do órfão precoce, a escola mágica que é tudo, menos um lugar amigável, as tavernas e bardos, tudo isso está lá. Inclusive, uma das melhores e mais criativas caçadas a um dragão que me lembro de ter visto ocorre neste livro, ao decorrer da trama.

Enfim, o primeiro dia da vida de Kvote é animado – e, por ser uma história narrada em primeira pessoa, sabemos que ele sobreviverá a todos os apertos -, é interessante ver as memórias de um personagem tão fantástico expostas e exploradas. Foi uma bela surpresa, valeu a pena tê-lo conhecido e a seu mundo esse ano e espero continuar a ouvir seu relato sobre sua própria vida em breve!

***

Quer tirar suas próprias conclusões? Compre o livro! (Submarino)

***

Os comentários estão abertos, acima!

Gostaria de ver algum livro por aqui? Deixe AQUI sua sugestão!

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21 Responses to O Nome do Vento – Patrick Rothfuss

  1. Piaza says:

    Parece muito bom, e realmente, só por fugir do “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?” , já merece alguma crédito.

  2. Muito bom isso aqui! vou compraro “O Nome do Vento”. Sempre desejei encontrar um site de literatura no Brasil em que as pessoas comentassem os livros, dessem suas opiniões e as deixassem como fonte de consulta para outros que se interessassem pela compra de um livro de fantasia, como o Fantasy Book Critic faz nos EUA. E os melhores críticos recebem uma seção especial, pois suas opiniões são avaliadas pelos leitores como nós fazemos dando estrelinhas aos livros, nos sites de venda eletrônica, indicando ou metendo o pau numa compra que fizemos. Parabéns pela iniciativa e gostaria de colaborar, se possível. Como faço?

  3. supernen says:

    eu comprei esse livro na bienal desse ano e nossa eu estou adorando!As vezes eu passo horas buscando informações sobre as continuações xD de fato,eu me surpreendi com o lançamento do livro aqui meio que do nada.Mas agora eu fiquei realmente curiosa com uma coisa…qual foi a mudança que eles fizeram que mudaram o sentido da história?Eu imaginei que se é um errinho bobo ou apenas uma escolha lexical seja mais facil explicar xD será que eu me enganei?De qualquer maneira eu fiquei muito curiosa a respeito disso!beijos e amei o blog!

    • Ana Carolina Silveira says:

      Tem uma hora que o Kvote fala que “nomes não são importantes”, mas ele acha que os nomes são sim, importantíssimos, e isso é um pouco da base da história. Esse não ficou aí perdido no texto.
      Beijos e obrigada, volte sempre! 😀

      • pamella says:

        Realmente!É verdade eu também tinha reparado nisso.Não adivinhei que era isso,mas eu achei estranho.Obrigada pela resposta,estou acompanhando sempre!Beijos

  4. Beatrriz says:

    Bem eu para o meu aniversario de 14 anos fui á fnac e vi este livro fiquei hipnotizada digamos pelo livro, li e no final reparei que É UMA TRIOLOGIA a questão é a seguinte ONDE ESTÁ O SEGUNDO??? COMO SE CHAMA????

  5. Karin Grudzinski says:

    sorry… bastou ler os blogs anteriores… falta de costume, sabe como é…

  6. fael says:

    Esse livro é Mitico!
    Um dos melhores com toda certeza. Recomendadissimo!
    Quem se interessar mais por esse livro, eu convido à participar do meu novo fórum sobre essa série: onomedovento.forumeiros.com

    Parabens pelo site, esta cada dia melhor!

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  9. Cecilia says:

    Meu filho de 15 anos já leu esse livro 3 vezes…diz que foi o melhor livro que ele já leu…Eu já li e gostei muito.Quando sai o 2º livro?

  10. Daniel Herold says:

    Nossa… Meu irmão menor comprou esse livro e me convenceu a ler.

    Gostei muito, li, reli, conheci o cara que desenhou a capa:

    Interessantemente essa é somente a capa das versões brasileira e francesa. A capa do original é HORRÍVEL, FEIA, e o Kote parece mais aqueles chaveirinhos antigos com aquele carinha do cabelo vermelho.

    O cara que desenhou essa capa brasileira, ao contrário de muitos outros “criadores de capas”, leu o livro todo, ficou fã do autor, mas a sua capa, que tem exatamente tudo a ver com a história, nem é a original…. Triste.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Essa é uma das capas de livro mais bonitas que já vi, e além de ser linda é uma das mais fiéis, também.

      Realmente, para fazer uma capa tão linda tem de ser fã e saber do que se está falando (e a capa original é horrorosa, salvo raríssimas exceções acho as capas americanas feias demais)

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  14. Mary says:

    Ana, qual foi o trem da tradução que você falou? Não reparei nada.

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