O Rei Mago – Lev Grossman

Não gosto muito de fazer resenhas de livros seguintes de séries, primeiro porque é impossível evitar a comparação com o livro anterior, segundo porque não tem como evitar spoilers. Ou mesmo não tenho muito a dizer depois do primeiro livro porque o(s) seguinte(s) não agrega(m) muito. Mas de vez em quando, ainda mais se gostei muito do livro ou se há muito o que ser dito (bom, uma coisa não deixa de pressupor a outra, né), por que não fazer?

Um ponto importante antes de começarmos a resenha propriamente dita: este é um caso no qual o livro é realmente uma continuação do anterior. A trama de Os Magos (recomendo bastante) terminou naquele livro, apesar do universo ter deixado brechas para ser expandido. A trama deste novo livro é bem outra, ainda que com os mesmos personagens e cenário. Novamente, temos um começo, meio e fim, ainda que já se tenha uma convivência anterior com cenário e personagens.

A partir de aqui, spoilers do primeiro livro, então fiquem atentos!

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O Castelo das Águias – Ana Lúcia Merege

A partir de 2010, como qualquer um que acompanha este blog ou mesmo “o cenário” deve ter percebido, os títulos de literatura fantástica nacional começaram a invadir o mercado, especialmente graças ao advento das editoras temáticas, como a Draco, ou pelo impulso de autores de sucesso, como Eduardo Spohr ou Raphael Draccon. Com a proliferação de lançamentos, começa a acontecer algo que é o esperado desde o início, as temáticas começam a se diversificar. Fantasia medieval rpgística, fantasia urbana, dark fantasy, fantasia épica, anjos, demônios, elfos, fadas, lobisomens… E é bom que seja assim, afinal todos os gostos são contemplados, e é bom ter opção dentro de um mesmo nicho.

O Castelo das Águias é uma high fantasy de humanos e elfos que dividem um mundo mágico com uma leve inspiração da mitologia nórdica (bom, se tem elfos, de qualquer forma foi inspirado,  mas no caso a inspiração é bem maior e mais explícita). E mais do que isso: é sobre um mundo mágico, onde elfos e humanos convivem mais ou menos pacificamente, e que precisam frequentar escolas para aprenderem as artes mágicas. Neste ponto, tende mais para O Nome do Vento do que para Harry Potter em abordagem.

É a história intimista de Anna de Bryke, jovem (muito jovem!) humana que é contatada pelo Castelo das Águias, a escola de magia, para ser a nova Mestra das Sagas – aquela que ensinará os poemas e contos antigos para as crianças, para que treinem narrativa e visualização, etapas fundamentais para o perfeito aprendizado das artes mágicas. Ela é vista com narizes torcidos, afinal tem apenas uma avó elfa, e conquista a amizade de alguns e antipatia de outros. Em especial, chama -e é chamada a atenção – de Kieran, o único mago humano além dela, mestre das águias, homem misterioso e com fama de temperamento difícil.

Preciso dizer no que isso vai dar? 😀

Claro que a história não é feita apenas de romance, apesar de ser o gatilho da trama política na qual Anna se mete. As águias de Kieran são importantes receptáculos de magia, tornando-se uma poderosa arma de guerra quando necessário, e a disputa sobre sua posse, que era sutil, se intensifica. A jovem mestra das sagas, interessada em conhecer melhor o objeto de seu afeto, acaba mergulhando de cabeça em maquinações políticas às quais não é familiar, e das quais não pode escapar.

A narrativa do livro é sensacional, uma das mais caprichadas que já vi em livros nacionais dos autores fantásticos. Dá para imergir por completo na atmosfera mágica de Athelgard através da mão de contadora de histórias da autora que entra em ação, guiando o leitor pelo saboroso texto e fazendo-o imaginar, visualizar e até mesmo sentir o perfume do Castelo das Águias, de suas torres coloridas e de seus campos verdejantes.

Outra coisa que achei muito legal no livro foi a forma como a magia é tratada: a impressão da imaginação no mundo (que é o que de fato é a magia) sistematizada e que precisa de estudo e exercício para ser posta em prática. Inclusive, contar histórias também é uma forma de mágica, como Anna ensina aos seus alunos (e achei o Mata Dragões um adolescente exibido muito fofo!).

Kieran consegue um bom equilíbrio entre o mistério e a ação e é impossível não entender como Anna apaixonou-se imediatamente por ele. A mestra das sagas também é a menina que sai do interior e vai para a academia e que precisa aprender a encarar o mundo real e seus alunos – como os fofos Mata Dragões e Padraig).

Mas nesse ponto entra aquilo que achei o grande defeito do livro: fora os protagonistas e os dois alunos fofinhos, nenhum dos outros personagens foi bem caracterizado. Só  conheço os demais professores da escola por seus nomes – e se de repente todos os nomes fossem trocados, acho que não faria muita diferença em saber quem era quem. Não que eu quisesse que fossem personagens redondos, mas acho que faltou distingui-los melhor, dar marcas para suas personalidades, fazer com que o leitor se lembrasse de quem está sendo falado  quando o assunto volta para eles.  Mesmo o vilão: sei quem era e entendi suas motivações, mas faltou um “salzinho”, um temperinho para ele ter uma presença maior. Faltou falar um pouco mais sobre eles – e nem precisava de muito, os dois alunos que citei aparecem em menos de meia dúzia de ocasiões e me lembro perfeitamente de ambos. O que abunda não prejudica, essa é minha dica para os futuros livros da saga (já que desconfio que não vai ser a única história de Kieran de Scyllix e Anna de Bryke que veremos…)

Enfim, é bem legal ver que finalmente estamos produzindo fantasia – e BOA fantasia – para todos os gostos 🙂

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Até a próxima!

Wizard’s First Rule (A Primeira Regra do Mago) – Terry Goodkind

A Guerra dos Tronos está no topo do hype agora. O seriado está sendo produzido pela HBO com cuidado e esmero, com orçamento que permite fazer coisas boas, com elenco escolhido a dedo, tudo para manter o padrão HBO de qualidade (Roma? True Blood? Band of Brothers?). Para quem quer novidades frescas sobre a série, recomendo clicar aqui e aqui.

Mas pouco antes de A Song of Ice and Fire virar série, outra obra hypada virou seriado, pela mais modesta ABC: Sword of Truth, rebatizada como Legend of the Seeker. Assisti aos dois primeiros episódios e não achei exatamente a minha (e PELAMOR, a série tem DEFEITOS especiais!), então deixei pra lá.

Um dia, em dezembro do ano passado, estava andando pela livraria, vendo as estantes de livros quando vi uma capa com duas figuras que pareciam uma bruxa e um guerreiro que se encaravam numa linda paisagem e com o convidativo título de A Primeira Regra do Mago. Fiquei interessada, fui consultar o preço e quase morri ao descobrir que o lindo livrinho custava a bagatela de 75 reais (a faca vem de brinde,  Rocco?). Meu salário de free-lancer profissional liberal não dá conta desta demanda, então deixei para lá. Comentando o fato com uma amiga, ela me disse: “ora, mas eu tenho esse livro aqui e mais os dois próximos da série, você quer emprestado?”, ao qual eu respondi: “:D”.

Só em junho consegui pegar os livros e o tamanico (mais de 800 páginas cada) me assustou. Deixei para uma oportunidade vindoura, que apareceu durante a semana passada. Espero que o pessoal da comunidade Legend of the Seeker não me odeie muito, pois minha intenção original de fazer essa resenha foi pela quantidade de acessos que recebo de lá 😛

Enfim:

Era uma vez Richard Cypher, um rapaz que vive uma vida normal como guia de uma floresta e que tem seu destino mudado quando, por um acaso, encontra uma bela mulher perseguida por quatro homens armados. Seu nome é Kahlan e ela está buscando pelo último grande mago do mundo, que poderá despertar o legendário Seeker, aquele que detém a Espada da Verdade e é o único capaz de deter Darken Rahl, um feiticeiro malvado e muito poderoso que vai dominar o mundo após reunir três artefatos do poder (precisa MESMO falar alguma coisa aqui?).

Claro que antes da página 100 o autor já revela que o Richard é o Seeker (para que ficar cozinhando o galo com o óbvio?), a identidade do mago e coloca todo mundo na estrada para enfrentar o mal iminente. Enquanto Richard, Kahlan e Zedd viajam pela Fronteira, dá quase para imaginá-los pixelizados em um RPG do Super Nintendo (sim, eu vi os bonequinhos, as batalhas randômicas e o cenário na minha frente enquanto lia).

E é aquele tipo de livro com margem de segurança: quem é bom é bom, quem é mau é mau, o vilão não quer nada menos do que dominar o mundo, os clichês cairão como frutas maduras no colo do leitor, vão haver deus ex-machina sempre que necessário…

Maniqueísmo é necessariamente ruim? Não acho (e pra mim o grande problema do livro apesar de passar por aí nem é esse). Uma história feijão-com-arroz de aplicação direta da jornada do herói cheeeeia de clichês do gênero é necessariamente ruim? Não acho também. Mas, CLARO, se o que o autor está vendendo é isso e o que você está comprando é isso.  Como essa relação se estabeleceu aqui, não me incomodei. Esse tipo de história não me desgosta – não é o que quero ler o tempo todo, mas tem épocas em que andar na “margem de segurança” é preciso, até.

E, claro, worldbuilding é para fracos. Pra que perder tempo criando um mundo se você pode presumir que o leitor é versado em high fantasy e conhece as convenções do gênero, rabiscar um mapa com indicações e tá tudo certo? Claro, dá para incluir fronteiras mágicas que não podem ser ultrapassadas e monstrinhos, mas nenhuma novidade.

Os personagens ganham poderes e o protagonista entendem melhor sua natureza de escolhido, de figura central de profecias e tal, mas ninguém cresce ou muda (aliás, até muda, mas explico abaixo). Para que personagens redondos se os planos já resolvem, para que cinza se o preto e branco já agradam?

Porém, o relacionamento entre Richard e Kahlan é bonitinho bem-construído, a maneira como vão se apaixonando e ficam perdidinhos de amor. É um desdobramento óbvio desde o momento em que se encontram, mas o autor consegue fazê-lo sutil e gradual. Primeiro, a necessidade de se protegerem, segundo, a cumplicidade que nunca tiveram por ninguém mais, terceiro, o desejo, quarto, a constatação do óbvio. É um amor proibido – ela é uma Confessora, a última de sua estirpe, e não pode se relacionar com um homem sem torná-lo um escravo sem vontade própria – mas que não consegue ser contido. O capítulo em que ela revela ao apaixonado Richard por que não podem ficar juntos é de encher os olhos de lágrimas, se a intenção foi fazer o leitor se compadecer, o autor conseguiu brilhantemente.

E, claro, a trama tem uma mistura de safadeza oculta com puta falta de sacanagem. Há uma certa perversão sexual permeando o ambiente (JÁ MENCIONEI QUE A SUB-VILÃ É UMA DOMINATRIX????? *-*) – a diferença de uma Confessora para uma Mord Sith é que a primeira é uma moça boazinha que fará a dominação por mágica, mas os efeitos são os mesmos. A dominação pelo sexo/amor/temor é da mesma natureza, mas maniqueísta.

As Confessoras, puras em suas roupinhas brancas, criaturas que tem o poder de tomar a vontade de um homem para si e devassar seus segredos (foram feitas justamente para tomarem confissões, como o nome sugere) evitam o contato com os homens para que não se apaixonem e os destruam – mas não hesitam em escolher um macho aleatório para se reproduzirem – e existem tantas técnicas rudimentares de inseminação artificial, ainda mais num mundo mágico, então para que dominar um homem e tirar sua vontade para se reproduzir sendo que é possível simplesmente negociar um doador?

As Mord Sith, guerreiras criadas para se tornarem sádicas ao extremo e terem prazer na tortura, tomam a vontade de seus prisioneiros pelo medo e pelo terror – e eventualmente tomam algum deles para serem seus parceiros. Qual a diferença, senão o sinal trocado?

(mas sejamos justos, as Confessoras são temidas pela grande maioria das pessoas…)

E a puta falta de sacanagem é porque apesar disso o livro não tem uma única ceninha caliente!!!! =(((((

Agora alguns detalhes que não posso deixar passar – e que interferiram bastante na minha apreciação do livro – mas que são SPOILERS. Se você se sente incomodado por isso, pule direto para o fim da resenha.

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Os Filhos de Galagah – Leandro Reis

Oi, pessoal!

Desculpem pela falta de atualizações, mas essa semana foi realmente complicada e tensa…

Mas indo ao ponto que interessa… Literatura e RPG são ideias imiscíveis? O ambiente e construção de cenários do RPG é estéril para gerar uma composição literária?

Vamos ver sobre a estrutura básica de um RPG (ou role playing game se você chegou hoje aqui no blog e não faz ideia do que eu estou falando), além de ser um excelente pretexto para reunir os amigos e ter horas agradáveis: cada um dos jogadores compõe um personagem com características próprias e o interpretará durante uma jornada, precisando portanto interagir com os demais jogadores e com o mundo onde ele está. A aventura é guiada pelo mestre, que tem o papel de fornecer a trama principal e guiar os jogadores-personagens por ela, levando-os a labirintos, a cidades, a clímaxes, conflitos e apresentando pistas e soluções. Não para menos, o nome correto do mestre é narrador 🙂

Narrativa de RPG é literária? Não e nem tem pretensão de ser (por mais que o Castelo Falkenstein tenha me ensinado o que era steampunk e Vampiro: A Máscara contribuiu e muito para aumentar meu rol de conhecimento sobre a mitologia vampírica :P). Um autor que se arrisque a transcrever uma campanha de RPG, por mais que ela tenha sido legal e envolvente, não vai ter um trabalho recompensador. Fora que um mundo que seja cópia de um cenário de campanha, seja D&D, Gurps, World of Darkness, Tormenta ou o que for, será apenas uma versão pálida de sua origem – para não dizer plágio – e colocar figurinhas de papelão para brincar nele não vai melhorar as coisas.

Mas o RPG – e a estrutura narrativa de um RPG – podem ser uma boa influência para a construção de um romance? Ora, por que não? A dinâmica do grupo formado por pessoas de características completamente diferentes e que precisam cooperar entre si e a maneira como encadear eventos, twists e clímaxes, se utilizados com cuidado e consciência, podem gerar bons frutos. O problema dos textos pejorativamente chamados “literatura de RPG” não é o uso do RPG em si – é a forma como ele é utilizado.

Outra coisa também, que já falei aqui antes em outras oportunidades, é a necessidade de originalidade e inovação de uma história. Uma história para ser boa precisa necessariamente ser original e inovadora? Depende. Para ganhar valor literário, sobreviver ao tempo, é óbvio que sim. Mas para diversão e consumo puro e simples, às vezes as histórias arroz-com-feijão (básicas) satisfazem muito mais do que as elaboradas – afinal tem dias em que tudo o que queremos é um arroz com feijão bem temperadinho e os literários são ótimos quando se quer desligar a cabeça e só aproveitar.

Conheço o Leandro Reis da Fábrica dos Sonhos e Filhos de Galagah é seu romance de estreia. Ele não esconde de ninguém que sua inspiração veio das campanhas de RPG que ele jogava com seus amigos – mas aqui entramos na questão da forma de utilização da referência. Tudo em Galagah lembra uma campanha de RPG – o universo mágico pseudo-medieval, o sistema de magia, a existência e influência dos deuses, os elfos e humanos que convivem em harmonia (cadê os anões???) e os orcs antagonistas, as classes de guerreiros… Mas apesar de não haver nenhuma novidade na caracterização desses elementos e da apresentação do mundo, não é possível dizer que Grinmelken seja uma cópia pálida de Dungeons and Dragons ou de alguma outra aventura medieval. É derivado, sim, mas não uma cópia – é um mundo verdejante de vida própria (e pelo parentesco, me lembrou com nostalgia disso aqui).

Acompanhamos a história de Galatea Goldshine, a princesa dourada escolhida pelo deus Radrak para se tornar sua paladina, em sua jornada para salvar sua família de uma maldição ancestral. É também a história de Iallanara, a órfã que jamais teve escolhas a não ser abraçar um destino maldito. As caminhadas de ambas se cruzam e aí é o ponto onde a aventura realmente começa.

O enredo não traz novidades: a paladina está procurando os três objetos mágicos (na verdade três poderes incorpóreos) que a permitirão enfrentar seu maior inimigo e, para tanto, vai ter de reunir aliados e escapar de inimigos antes do último desafio. Só que tal enredo é narrado de forma envolvente – depois que o livro engrena é difícil largá-lo.

(e essa é a primeira crítica – escusável – ao livro: demora a pegar. Para mim, a história só deslanchou quando Galatea e Iallanara finalmente se encontraram – mas, como eu disse, tem desculpa: é uma falha muito comum em autores iniciantes demorarem a dar ritmo à história, além do que como a trama está planejada para ser uma trilogia, a introdução pode demorar mais um pouco pois não ocorrerá nos livros seguintes, que já começarão com a ação).

Quanto aos personagens, apesar de não serem referidos com esses nomes exatos (ÓTIMO E EXCELENTE que assim o seja), correspondem a personagens típicos da composição de um grupo de rpg: a paladina, a necromante, o ladino, o mago. Os personagens que ganham maior desenvolvimento nesse primeiro livro são em parte Galatea – a paladina que é a encarnação da vontade e detentora de uma fé cega em seu deus e em sua missão (essa fé vai ser questionada nos próximos livros? Espero que sim, pois ao meu ver não existe fé verdadeira sem provação) – e Iallanara.

Aliás, um ponto a destacar aqui: a jornada de expiação de Iallanara a torna a melhor personagem de todo o romance. Ela é humana, conflituosa, é atingida pela dúvida e pela descrença, sente dor, sofre, tem seus momentos de relaxamento. Ela, mais do que Galatea, é quem faz a roda do destino se mover – e merecia ser a protagonista que em busca de perdão segue mundo afora ao lado da paladina.

O autor soube dosar bem os momentos de relaxamento e tensão (só perdeu a mão na cena de tortura) e apesar de já de antemão ser previsível que Galatea e seu grupo irão de sar bem, o “como” é interessante e instigador. O único ponto que achei realmente negativo do livro foi o excesso de deus ex machinas. Galatea nunca precisa resolver um problema sozinha!!!! Ela está em dúvida? Um de seus mentores espirituais sussurra algo em seu ouvido. Ela passa por necessidades? A ajuda extremamente conveniente aparecerá. Em nenhum momento ela é posta realmente à prova ou está em situação de perigo real. Está certo que ela é uma protegida divina, mas mesmo sua jornada de crescimento interior é prejudicada se ela não precisa aprender e crescer.

Mas enfim: como disse, não consegui desgrudar do livro! Não é o tipo de romance que agrada a todos os gostos, mas no cômputo geral me deu exatamente o que eu esperava que iria dar. E quando for possível lerei o livro 2, O Senhor das Sombras, onde sei que Iallanara ❤ tem um papel mais importante e decisivo!

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Até a próxima!

O Ladrão de Raios – Rick Riordan

Sou fascinada por mitologias em geral e pela mitologia grega em particular. Meu primeiro contato, e lá se vão mais de 20 anos, foi numa edição especial da Turma da Mônica chamada Os 12 Trabalhos da Mônica – uma releitura do mito de Hércules (ou, em grego, Héracles) protagonizada pela turminha. Junto, acompanhava um glossário ilustrado com um resuminho dos doze trabalhos originais e também dos doze olimpianos. Foi impossível não me apaixonar por sua história e conceito.

Depois, ainda na infäncia, ainda tive contato com Os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, que também é um livro riquíssimo sobre mitologia em geral – e que é meu campeão absoluto em releituras até hoje e que recomendo efusivamente. E, claro, com os Cavaleiros do Zodíaco, que dispensam maiores apresentações.

Depois ainda tem o Hércules da Disney – uma SENHORA releitura com muitas liberdades, mas que ficou muito simpática, o Hércules do seriado, a Xena (os dois últimos são meio trash em excesso, mas…). E isso para nem mencionar que nesse ponto já fui buscar os livros clássicos, como Ilíada, Odisseia, coletâneas de histórias clássicas, Metamorfoses, Teogonia… Bom, se fosse falar só dos clássicos, o post não iria para frente (mas posso tentar dar uma pincelada geral na cultura e mitologia gregas clássicas, vocês querem? Respondam nos comentários).

Na verdade, a cutura clássica é tão parte da nossa que nos é natural. É difícil fazer releituras de mitos gregos sem que se caia no ridículo ou na saturação. Claro, há releituras que atingiram o patamar de clássicos – como Ulysses, de James Joyce, mas a maior parte delas não faz jus sequer aos mitos de onde se originaram, ainda mais se levarmos em consideração que Ulisses ainda anda por aí em sua jornada, que Édipo não consegue fugir de seu destino, que Antígona ainda confronta a lei e a justiça, ou que Psiquê é uma princesa encantada.

Mas vamos ao livro de hoje, Percy Jackson e O Ladrão de Raios. Ouvi falar dele em 2008, talvez, mas a história não me interessou -parecia entrar no campo da saturação grega. O tempo passou, veio a adaptação cinematográfica, que também não me empolgou… até o dia em que vi a Medusa com um iPhone na mão e um centauro cadeirante nas fotos promocionais e pensei algo como “EU PRECISO ASSISTIR ISSO!”.

Assisti quase na estreia, só para me decepcionar bastante. Apesar da ambientação bem legal, achei a trama do filme bastante sem-graça. Em 20 minutos eu já tinha uma previsão aproximada – e que acabou se provando correta – de tudo o que iria acontecer até o final, inclusos o vilão e algumas surpresinhas. No fim, achei um filme pipoca esquecível, e fiquei me perguntando se o livro seria assim tão decepcionante.

Então comecei a leitura, sem compromisso e curiosa pelo que viria pela frente.

Como já tivemos a oportunidade de discutir antes, a indústria literária busca o sucessor do Harry Potter, o livro que será um best-seller absoluto entre o público jovem. Percy Jackson é também um dos candidatos a “novo Harry Potter” – e já começa pelo nome do protagonista. Não apenas por isso: Percy é o filho bastardo de um olimpiano – e, portanto, como nas antigas lendas, é um semideus com poderes sobrehumanos – bem como Harry é um órfão que desconhece sua origem como bruxo.

Mas até os 12 anos, ele é só o menino que vive com sua mãe amável e padrasto repusivo, sofredor de DDA e dislexia, expulso regularmente de colégios pelos fatos inexplicáveis que parece atrair. Seu melhor amigo se chama Grover e ele parece ter um dom especial para que as coisas ocorram da pior maneira com ele (além de não ser só um pré-adolescente comum). Após mais um evento misterioso e constrangedor na escola, Percy descobre que na verdade é um semideus e é convidado por seu professor de latim, que se revela como sendo o centauro Quíron, para frequentar o Acampamento Meio-Sangue, lugar para onde os semideuses vão para aprenderem a sobreviver.

Lá, encontra Quíron, o grande mestre e professor legal que o protege e incentiva, Dioniso, que aqui é o chefe do acampamento que não tem a mínima boa vontade com nosso protagonista, Clarisse, uma garota que não vai com sua cara e se torna sua rival – e Annabeth, filha de Atena e a garota superinteligente que o ajudará em sua jornada.

Mas o Olimpo está em polvorosa, pois alguém roubou o raio-mestre de Zeus – e a culpa cai em Percy que, naturalmente, nada sabre sobre isso. Temendo que a situação fique pior para ele e para o mundo, ele parte em busca do verdadeiro ladrão.

Os pontos altos do livro são, primeiro, a transposição da mitologia clássica para os Estados Unidos, hoje. Os deuses, imortais em geral e monstros precisam se arranjar para viverem em nossa sociedade, precisando dividir espaço com o progresso e tecnologia. E é interessante por fazer um contraponto, ou complemento, ao universo de Deuses Americanos, do Neil Gaiman, que sai de um ponto de partida semelhante, onde os deuses precisam viver no mundo de hoje.

Outra coisa que também me conquistou no livro foi o narrador. Ele é profundamente irônico e debochado, o que dá um sabor especial às aventuras, tanto pelos comentários quanto pela visão pouco ortodoxa dos acontecimentos ao seu redor.

Percy nada sabe do mundo mítico que passa a frequentar, e lá se vão as más-notas, acidentes de percurso e quase-mortes decorrentes de sua ignorância, todas elas temperadas pela ironia já referida.

Ainda, o ritmo do livro é muito gostoso, no ritmo de “só mais um capitulozinho” dá para se ler tudo em uma só tacada, com diversão garantida

Mas, indo aos pontos negativos do livro: os personagens são muito pouco ou nada profundos (apesar de não parecer ser a intenção do autor aprofundá-los, de qualquer forma) e a derivação dos estereótipos do Harry Potter, inclusive da trama ter um quê escolar pois as aventuras se passam e são consequências do acampamento de verão, acaba sendo óbvia demais. A fórmula ficou evidente, na finalização ainda foi possível encontrar rascunhos e esboços.

Outra coisa são os monstros. Depois de determinado ponto, fica cansativa a dinâmica do monstro bobo e necessariamente mau e sem critério, que vai ser morto pelos heróis e se regenerará em breve, para continuar sendo bobo, mau e sem critério. Nos antigos mitos, monstros racionais tinham alguma inteligência, conteúdo e missão na vida, mas aqui parecem ter tanto conteúdo quanto os monstros da semana de algum desenho animado.

A trama do livro também é um pouco cansativa quando passa à parte da descoberta do verdadeiro ladrão – e algumas soluções do filme acabam ficando melhores, como o clube da Lótus, p. ex. A luta final do livro também é estranha, confusa e um pouco forçada, além do deus ex machina evidente (mas como deus não sairá da máquina se o que mais temos aqui são deidades dando bobeira?). O twist final também teve sua boa dose de forçação de barra – se as informações fossem mais diluídas no texto, apesar de que algumas situações foram até de fácil conclusão,  a twist cairia melhor.

Mas, tirando o que já destaquei, o livro me tirou a impressão ruim do filme – apesar das falhas, é bem divertido, principalmente por causa do narrador.

Quem espera um épico mitológico, vai se decepcionar, mas quem quiser uma história leve de cenário mitológico grego, é uma excelente pedida!

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Quer tirar suas próprias conclusões? Leia o livro! Compre em: (Submarino: Livro 1/A coleção completa)

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Já li o resto da saga publicado no Brasil (tudo em menos de um mês!), quando sair O Último Olimpiano, se vocês quiserem posso retomar a série como um todo (tem gente me pedindo a continuação de Eragon, um dia sairá!)

Até a próxima!

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A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte III: A Análise

Continuando com a última parte do especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, aqui vão os links para a PARTE I e para a PARTE II do especial.

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As Referências

Claro que é impossível determinar todo o caldo referencial de onde uma série surge, ainda mais se a bagagem literária e cultural do autor é extensa. Às vezes o personagem X surgiu da observação de uma pessoa conhecida, ou o evento Y surgiu de uma “digestão inconsciente” de vários dados dispersos entre si. A fonte da inspiração acaba sendo essa, no fim das contas, a absorção ao longo da vida de fatos, eventos, leituras, personagens reais ou não, sensações pessoais, enfim, da vivência.

Não existe criatividade sem alimentação, não há como construir um cenário convincente para uma história sem alimentar-se de sua própria história (às vezes me dá desgosto em perceber o quanto algumas pessoas que querem seguir o caminho de escritoras desconhecem a história brasileira, que deveria ser o mínimo), geografia, um pouquinho de ciências naturais para não cair no física, quimica ou biologicamente impossível e muita literatura. Ler os clássicos é uma exigência “para ontem” – afinal, tem muita gente por aí querendo reinventar a roda, por que não descobrir e apreciar aquilo que foi feito?

Seria impossível para mim analisar todas as referências de George R. R. Martin ou de quem quer que seja, mas tem algumas bem interessantes e dignas de nota.

A primeira, e mais óbvia de todas, é a referência à Guerra das Duas Rosas e aos eventos históricos ingleses ocorridos do século XII até mais ou menos o século XVII. Para os desavisados, a Guerra das Duas Rosas foi uma guerra civil ocorrida no século XV entre as famílias York e Lancaster, que disputavam o trono inglês. Bom, o símbolo dos York era a rosa branca e o dos Lancaster a rosa vermelha, então aí está a origem do nome do conflito – e se pararmos para pensar, além da inspiração dos nomes, uma das cores dos Stark é o branco e uma dos Lannister é o vermelho 😉

Há também várias referências a nobres ingleses (a mais notória, a Ricardo III, que tem seu espectro dividido em dois personagens: o Ricardo III real inspirou Stannis Baratheon, enquanto o Ricardo III concebido por Shakespeare inspirou Tyrion Lannister) e a eventos ocorridos no período acima destacado.

Mas, claro, não apenas aos ingleses. Alguns outros personagens históricos europeus dão o ar de sua graça, bem como a inspiração das ricas famílias italianas renascentistas (dá para ver um eco bem grande dos Bórgias, na concepção da família Lannister, pelo poder, riqueza e devassidão moral. A própria Cersei tem muito de Lucrezia Borgia em si).

E também a visão de outros povos. Os Dothraki, o povo dos cavalos, tem muito dos hunos/mongóis históricos, assim como os Ironborn são uma mistura de vikings com os navegadores portugueses. As cidades-estado do outro lado do mar lembram a dinâmica das cidade-estado gregas e Braavos é inspirada em Veneza e seus canais.

E as referências ficcionais? As histórias de cavalaria do século XIX – se procurarem direitinho, vão encontrar o Ivanhoé lutando justas em Westeros, assim como uma versão dark do Robin Hood e de seus foras-da-lei. Dom Quixote está lá – como referência a personagens (dá para encontrar no mínimo dois Quixotes e dois Sanchos na série), ao cenário e até mesmo certa personagem que vai assistir a uma peça chamada Knight of the Woeful Contenance (“O Cavaleiro da Triste Figura”) 😉

Os clássicos, como Crime e Castigo e Moby Dick, marcam presença – e também a fantasia e a ficção científica clássicas. As referências a Tolkien, em temática e até mesmo em alguns nomes são tão claras que não precisam de comentários. Os Ironborn e sua cultura também são uma clara homenagem a H. P. Lovecraft – desde seu símbolo, o Kraken, passando por sua religião, que cultura o Deus Submerso, até Dogon, um de seus ancestrais 😉

Outra obra que é referência claríssima é Duna – tanto pelo papel assumido pela política e pela intriga social em uma obra ficcional quanto por pontos específicos, como uma releitura dos dançarinos faciais e dos mentats.

A fantasia mais contemporânea, como Black Company do Gleen Cook – em que o desenvolvimento dos personagens é forte e onde os personagens cinza começam a ter lugar de destaque – a obra de Jack Vance e, porque não, a saga Wheel of Time do amigo pessoal Robert Jordan também estão lá.

Partindo para a mitologia, talvez a primeira e mais clara das lendas referencias seja o ciclo arturiano – tanto as lendas quanto um bocadinho de Once and a Future King, do T. H. White – e, por que não, do meu “querido” Bernard Cornwell. Alguns dos personagens lembram Lancelot, Galahad, Merlin, Mordred e todos os outros. E, inclusive, o próprio rei Arthur – o filho bastardo do Uthred e único e oculto herdeiro de um trono vago.

Também há várias referências mitológicas gregas e celtas – quanto às gregas, não apenas as mitológicas, mas também os das tragédias, como a tentativa vã de escapar de profecias.

Enfim, essa foi só uma pincelada. Leiam vocês também e coloquem aí nos comentários as referências que vocês encontrarem ^^

A Resenha

O grande mérito de George R. R. Martin e de A Song of Ice and Fire é dar um passo adiante no cânon da fantasia contemporânea. Enquanto muitos repetem fórmulas – ou mesmo avançam pouco dentro do pré-estabelecido mas não conseguem ir além – essa é a inauguração do novo dentro da fantasia.

J. R. R. Tolkien é um dos cânons da fantasia moderna (e a utilização de “moderna” e “contemporânea” aqui é proposital). Não dá para negar sua influência em tudo aquilo o que veio depois – desde a alta fantasia de Gary Gygax e Dave Arneson (os criadores do Dungeons and Dragons – o RPG -, apesar de sua inspiração alegada ser Robert Howard e o sword and sorcery) até a fantasia urbana de Neil Gaiman.

Mesmo as séries mais contemporâneas, como Wheel of Time, tem uma raiz tolkeniana arraigada, por mais que os anões, elfos e fireballs – ou seja, o clichê e o lugar comum da alta fantasia – estejam distantes. São passos que caminham para a evolução e para a revolução.

Os personagens cinza – ou seja, aqueles em que o bem e o mal convivem igualmente – não são novidades na ficção fantástica, vide a série Black Company – do início da década de 1980 e que traz como protagonistas um grupo de anti-heróis. Como já disse antes, a política ter papel pivotal em uma trama, tendo suas nuances exploradas, também não é novidade, vide Duna – que também é uma obra-prima, um divisor de águas e um cânon dentro da ficção científica – que é de 1965. Então, A Song of Ice and Fire representa inovação temática? Não. Mas representa um modo de fazer inovador.

O que faz a saga funcionar – e destacar-se das várias similares – é a junção dos elementos na contagem da história: o cenário fantástico detalhado e profundo, a trama política que se assemelha a um romance histórico e os personagens humanos e carismáticos. Meu conselho hoje para alguém que quer escrever fantasia – ou entender os contornos do gênero: leia Tolkien. E leia Martin.

É fácil encontrar na obra vários dos clichês de fantasia: o príncipe prometido, a profecia, o cavaleiro andante, a linda princesa que se apaixona pelo guerreiro rude, a menina que se veste de homem para poder lutar… Só que a grande maioria deles vem com uma roupagem nova e não óbvia. É a inovação e a criação, não a mera repetição vazia do que se viu em obras anteriores. (para uma lista bem interessante E CHEIA DE SPOILERS dos clichês de A Song of Ice and Fire – e uma boa amostragem de como alguns foram subvertidos – clique AQUI)

Não posso fazer ainda uma análise completa da saga – principalmente porque ainda faltam no mínimo mas três livros para serem lançados e há alguns desenvolvimentos de personagem que precisam ser esclarecidos, mas mesmo que nunca haja uma conclusão, é leitura obrigatória.

E as falhas? A principal delas são algumas incongruências narrativas ocorridas no livro três (e que infelizmente não dá para explorar sem esbarrar em milhares de spoilers, mas se alguém tiver lido e desejar MESMO a explicação, cutuque), que culminaram no lançamento, em uma década, apenas do quarto livro, mas não sei se elas serão corrigidas nos próximos livros, então este ponto fica em aberto.


A Game of Thrones, o Seriado

Agora é oficial!

A HBO anunciou a produção da série A Game of Thrones, a adaptação de A Song of Ice and Fire, que deve estreiar no início de 2011. O elenco conta com nomes como Sean Bean (o Boromir de Senhor dos Anéis, entre outros) como Eddard Stark, Lena Headey (a Rainha Gorgo de 300, a Sarah Connor de The Sarah Connor Chronicles, entre outros) como Cersei Lannister e muitos outros. Bom, aqui fica o registro, falo mais sobre o seriado no futuro (ainda mais porque sou fã de Rome, Band of Brothers, True Blood… :P)


Westeros sob outros olhares

Aqui, duas resenhas nacionais sobre A Song of Ice and Fire, feitas por Ana Cristina Rodrigues e Rober Pinheiro.

Internacionalmente, indico a Westeros.Org, que é um fansite com as bênçãos do autor da série, bem como o Tower of the Hand, para informações mais rápidas. Sobre a produção do seriado, tem o Winter is Coming, com informações quentes.

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E com isso, acabamos nosso especial A Song of Ice and Fire e retomamos a programação normal! Caso vocês queiram ver mais informações sobre a série, análises e personagens, peçam, que terei prazer em atender 😛

O link de comentários está aberto, acima.

E até a próxima!

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Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte II: Os Alicerces

Continuando o especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, a Parte I do especial está AQUI.

E peço mais uma vez desculpas mas, como já havia dito, o post anterior teve um quê de “edição extraordinária”. Continuo bastante ocupada com os compromissos acadêmicos – e com algumas novidades que vocês logo logo ficarão sabendo 🙂 Desculpem mesmo pela demora, mas haverá compensação 🙂

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É difícil falar de uma “grande obra grande” em o poucas palavras, ainda mais quando há um imenso volume de informação a ser tratada: textual, intertextual, contextual… Então, para que essa seja uma leitura um pouco mais agradável para você que acompanha este blog, continuamos o especial A Song of Ice and Fire.

O Autor

George R. R. Martin, o autor da obra, não é nenhum iniciante na arte da escrita. Ele despontou para o meio da ficção especulativa dos EUA no inicinho da década de 1970, com publicações de contos na Isaac Asimov Magazine e em outras mais. Seus primeiros romances foram publicados no finalzinho da década de 1970 e início da década de 1980 – onde ele foi trabalhar como roteirista em Hollywood. Lá, roteirizou a série A Bela e a Fera (que passou no Brasil numa dessas sessões aventura da vida).

Cansado da pressão hollywoodiana e após sofrer alguns reveses, como séries não produzidas, George R. R. Martin resolveu dedicar-se àquela que se tornaria sua obra-prima, A Song of Ice and Fire. O primeiro livro foi lançado em 1996, já com muito sucesso.

Mas por que eu estou falando do autor, já que quase sempre as resenhas do blog se limitam às obras: por algumas atitudes muito interessantes que ele tem em sua profissão. A primeira delas é o incentivo à publicação de antologias – tão comuns lá fora e uma moda que queremos que pegue aqui no Brasil também – que reunem autores veteranos e novatos e algumas delas que ele mesmo organiza (inclusive, o outro projeto corrente dele, Wildcards, diz respeito a um universo de ficção científica compartilhado por vários autores. Muitos livros já foram lançados e por ser um universo grande, continuam sendo).

A segunda diz respeito à interação com o público. Ao contrário de alguns autores que vivem em torres de marfim e têm nojinho de seus leitores, George Martin gosta da proximidade do público, com direito a um blog até bem divertido e participações constantes em eventos. Inclusive é interessante dizer que sua companheira, Parris, é ativa e atuante no fandom de A Song of Ice and Fire!

E tudo isso é interessante pela humanização do autor – tanto quanto produtor de texto como quanto incentivador. Eu escrevo e tem muitos leitores daqui que escrevem também e essa postura de ser mais do que autor, mas também incentivador e agitador é muito interessante. Outra coisa que fica clara também: são raríssimos os casos dos autores que farão sua obra-prima aos 20 anos de idade, sem uma alimentação cultural intensa ou muito trabalho anterior e que mesmo um autor experiente sofre por percalços para terminar seus escritos de maneira satisfatória.

O Narrador

O narrador da saga tem uma peculiaridade interessante, que vale a pena ser destacada: ele é muitos, que correspondem aos pontos de vista dos personagens da trama.

Como assim?

Cada capítulo é narrado por esse narrador pessoal, em terceira pessoa, mas que acompanha os olhos e a perspectiva de determinado personagem. Vamos ver o que ele enxerga, sentir o que ele sente, saber o que ele sabe. As impressões do mundo serão ditadas por ele e não por um observador externo, as pessoas terão faces diferentes dependendo de por quem elas são observadas – um dos exemplos mais óbvios aqui são os Lannister em geral e Jaime Lannister em particular – para a maioria das pessoas, um monstro, para Tyrion, seu irmão mais velho que resolve tudo na força bruta.

E claro, veremos a percepção do pater familiae, da mãe zelosa, de uma menina de onze anos e pouca coisa na cabeça, de um menino de oito, de um excluído social… São, como se pode perceber, perspectivas diferentes, que gerarão pontos de vista diferentes para os mesmos fatos.

O narrador, por óbvio, não é onisciente. Mais ainda: o leitor conhece mais da trama e de seus desdobramentos do que o narrador – e a construção dessa dinâmica é algo muito interessante de se notar.

Os Personagens e o Cenário

Não há como dissociar os dois elementos, tanto pela história ser narrada de forma intimista através de pontos de vista, como já discutido acima, quanto por serem esses os dois elementos que levam muitos a rotular A Song of Ice and Fire como fantasia realista – ou seja, a ambientação e os personagens são tão críveis que, tirante o fator pirlimpimpim, a série poderia ser facilmente confundida com um romance histórico. Inclusive, os dois primeiros terços de A Game of Thrones pendem muito mais ao romance histórico do que ao fantástico. Se a história se passasse na Inglaterra na época da Guerra das Duas Rosas ou na França mais ou menos do mesmo período, tudo permaneceria igualmente factível.

E os personagens… A narração em pontos de vista casa tão bem com a saga pela maneira como os personagens são elaborados. São pessoas reais transpostas em papel, com os acertos, erros e idiossincrasias que tornam cada um aquilo que é.

Trata-se basicamente de seres humanos: são pessoas que não podem ser qualificadas como boas ou más, com qualidades, defeitos e imperfeições. Há aqueles que possuem uma ética pessoal fortíssima, outros que não se importam em mentir e dissimular. Há os simpáticos, há os patéticos. É impossível não se apegar aos personagens, seja para amá-los, seja para amar odiá-los.

E sobre eles paira risco real: sim, personagens podem morrer para o bem da história, mesmo que eles estejam entre o rol dos principais. Sim, personagens podem tomar decisões erradas, ser vítimas de armadilhas sem que a armada os salve de última hora, ver suas ações gerarem as piores consequências possíveis, ficarem no chão – e também verem planos darem certo, verem planos darem mais certo do que o esperado, darem a volta por cima. Algo que costumo criticar muito a falta em outras obras está presente aqui: existe perigo, angústia, pode ser que o personagem em questão sobreviva, mas física e mentalmente abalado.

Voltando ao cenário (alguns aspectos mais referenciais serão deixados para a Parte III do especial), a construção prima pelo realismo e pela factibilidade. Não basta ao escritor criar um mundo paralelo sem alma para que haja uma história de fantasia consistente. Como Tolkien deixa bem claro, não se pode chamar um cenário de papelão de “mundo” – é preciso começar dos alicerces.

Claro, ao contrário de Tolkien, aqui não se começa de uma teogonia – até porque, apesar da existência explícita do sobrenatural, não há certeza nenhuma de que realmente exista algum deus – mas dos detalhes sobre a geografia, a história, a cultura.

Somos apresentados a fatos históricos de Westeros, como a ascensão e queda da dinastia Targaryen, rebeliões bem e mal-sucedidas, personagens históricos, antigas rixas que geram consequências até o tempo presente. Sabemos, por referências textuais automáticas, que não caem no enciclopedismo, que Dorne não é totalmente integrada ao resto de Westeros, ou que existem cidades-estado além-mar com culturas misteriosas e envoltas em lendas e mistérios mil.

Além das lendas e geografia, o mundo tem gostos, como os bolos de limão da Sansa, o vinho Redwyne, os pêssegos de Renly, os ricos e fartos banquetes festivos, os pratos repulsivos que se tornam verdadeiros manjares no momento da fome. Os rituais religiosos, seja da Fé dos Sete, de R’hlorr ou do Deus Submerso, estão lá, bem como os pequenos ritos comuns de cada dia. Aspectos práticos da política e a forma como os julgamentos são feitos também estão lá.

Uma regra social que acaba por se tornar importante: os sobrenomes dos bastardos. Bastardos não são oficiais, então não terão direito ao sobrenome oficial de sua família a menos que haja um reconhecimento régio. Então, além do estigma, carregarão ainda um sobrenome, cada um relativo à sua região de nascimento. Os bastardos do norte, por exemplo, se chamam Snow – “Neve”, combinando com o mundo de neve onde vivem.

E é isso o que faz um mundo ser palpável: o macrocosmo e o microcosmo, juntos, naturais, orgânicos.

E para não dizer que falei de um dos pontos que mais chamam a atenção: os nomes. Jon ao invés de John, Eddard ao invés de Edward, Catelyn ao invés de Catherine – nomes que soam como os equivalentes em inglês, mas recendem a tempos antigos – junto aos inventados, como Cersei, Tyrion ou Daenerys. É uma síntese de Westeros: um mundo que soa familiar a nossos ouvidos e olhos, mas que tem suas próprias particularidades e apropriações do real. É um mundo diferente, mas que guarda similaridades demais com o nosso para ser totalmente estranho.

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E aguardem a parte 3 e final do especial, que não vai demorar tanto, eu juro! 🙂

E LEMBRETE: o blog (e eu) está concorrendo ao Prêmio Melhores do Ano!!! Para votar, clique AQUI! 🙂

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A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte I: Um Breve Resumo da Trama

Hoje é um desses dias em que estava eu tranquila, abrindo meu e-mail sossegadamente e resolvendo pendências acadêmicas, examinando bem de perto alguns prazos que tenho para cumprir quando a amiga Ana Cristina Rodrigues me cutucou via gtalk me mandando uma notícia que segundo ela eu iria gostar MUITO de saber…

E então eu me senti como se trabalhasse no editorial de alguma revista, em um dia tranquilo e nada promissor, preparando alguma matéria sem muito gosto até que um grande evento ocorre e tudo o mais precisa parar para dar atenção a uma notícia quente e bombástica.

E a notícia que fez parar tudo foi bem essa: A EDITORA LEYA ANUNCIA O LANÇAMENTO DA SÉRIE A SONG OF ICE AND FIRE NO BRASIL.

O título da série no Brasil passou a ser Crônicas de Gelo e Fogo e o primeiro livro se chamará A Guerra dos Tronos.

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Não é segredo para ninguém que a série A Song of Ice and Fire, do George R. R. Martin, é uma de minhas sagas literárias prediletas. Já tive a oportunidade de resenhar aqui, anteriormente, A Game of Thrones e A Clash of Kings, os dois primeiros livros da série. Pensei em resenhar os outros dois, mas pelo risco de esbarrar e não conseguir evitar alguns spoilers, o que não seria desejável, achei mais conveniente um texto que tratasse de toda a saga em si mesmo, de forma geral, pois sem dúvidas há muito a ser dito.

Só que farei este post EM PARTES. A saga é muito extensa e bastante rica em detalhes. Até agora, são mais de quatro mil páginas de texto riquíssimo em detalhes e informações. Então, primeiramente, algumas palavras sobre o enredo da saga. Claro, aqui está em resumo, com o mínimo de spoilers possível – e com direito a ilustrações bonitinhas que achei internet afora. 🙂

Então, vamos lá:

Uma Breve História de Westeros

Era uma vez o continente de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno toda uma vida. O descompasso entre as estações do ano acaba por trazer alguns inconvenientes, como, por exemplo, o ataque de criaturas míticas conhecidas como Os Outros (nenhuma referência a Lost aqui), que vivem no extremo norte do mundo onde a neve é eterna. Para evitá-los, há alguns milênios foi construída, com gelo, pedra e magia, pelos primeiros habitantes do continente (the First Men e the Children of the Forest – os Primeiros Homens e os Filhos das Matas) uma barreira (“the Wall”) para impedir seus ataques. Uma das principais famílias do norte, os Stark, desde então, vem sendo um dos principais mantenedores da barreira, esforçando-se para mantê-la.

Com o tempo, outros povos do mundo, como os Andals e os Rhoynar, migraram para o continente de Westeros, formando, com os povos que já o habitavam, sete reinos, que viviam em constante guerra entre si.

Até que, fugindo da poderosa cidade-estado de Valyria – que pouco depois foi destruída por um cataclisma conhecido como The Doom – Aegon Targaryen, acompanhado de suas duas irmãs e de seus três dragões, conquistou Westeros. Após alguns entraves políticos que duraram poucas gerações, os Sete Reinos estavam submetidos à Dinastia Targaryen, os reis de toda Westeros.

Porém há uma particularidade entre os Targaryen: para manter a linhagem “pura”, ou mesmo evitar conflitos de poder, os irmãos se casam entre si – talvez por isso a manutenção de características como cabelos prateados e olhos roxos e violetas – e há algo sobre eles digno de nota: “toda vez que nasce um Targaryen, os deuses jogam uma moeda: ou ele será brilhante, ou será um maníaco”.

Por trezentos anos os Targaryen governaram pacificamente, enfrentando apenas algumas rebeliões de fácil controle e eventos trágicos como a morte de todos os seus dragões, até o advento do rei Aerys II, the Mad King – que era, bom, louco. Seu filho mais velho e herdeiro, Rhaegar Targaryen, raptou Lyanna Stark, única filha da tradicional família do norte, o que acabou por desencadear uma violenta guerra civil.

Dentre os principais líderes dos rebeldes estavam Eddard Stark, irmão de Lyanna e herdeiro da Casa Stark, e Robert Baratheon, seu amigo de infância. Quando a guerra estava quase decidida, os Lannister, a família mais rica de Westeros, juntaram seus esforços às forças rebeldes para pôr um fim na dinastia Targaryen. Sobraram apenas a rainha, grávida de uma menina que se chamou Daenerys, e Viserys, seu filho pequeno, mandados para o exílio.

E assim começou o reinado de Robert Baratheon I…

Os Livros da Série

A série A Song of Ice and Fire tem previsão, no momento, de ser composta por sete livros (há também um spin-off, chamado Os Contos de Dunk e Egg, compostos até agora por três contos soltos – The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante), The Sworn Sword (A Espada Jurada) e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso), que também se passam em Westeros, mas com personagens diferentes e cerca de setenta anos antes dos eventos da saga principal). Já foram lançados quatro livros – A Game of Thrones (1996), A Clash of Kings (1998), A Storm of Swords (2000) e A Feast for Crows (2004). O quinto livro, A Dance with Dragons, está previsto para sair “em breve” – um “em breve” que vem se estendendo desde 2005, mas enfim…

1. O Jogo de Tronos

1.1. O Jogo de Tronos

O primeiro livro da série, após um prólogo eletrizante que vem afirmar para os quatro ventos que esta é sim uma saga fantástica, nos apresenta Eddard Stark, o austero patriarca de Winterfell, o castelo do norte, que segue sua rotina normal juntamente de sua esposa, Catelyn, e de seus cinco filhos legítimos e seu bastardo. Um belo dia, recebe a notícia que Jon Arryn, o homem que o criou e que ocupava o cargo de Mão do Rei – uma espécie de primeiro-ministro, que faz o serviço pesado de administração do reino enquanto o rei bebe, caça e se diverte – está morto. Além disso, o rei Robert está a caminho, pois quer convidá-lo para ser a nova mão do rei.

Logo, chegam a Winterfell o rei Robert, sua esposa, a bela e arrogante Cersei Lannister, seus três filhos e os dois irmãos dela – Jaime, o belo e cruel guarda real, e Tyrion, o anão, que não é belo como seus irmãos, mas possui uma notável capacidade de raciocínio. Eddard – ou Ned, para os íntimos – enxerga a família Lannister com desconfiança, afinal o patriarca Tywin Lannister escolheu apoiar os rebeldes apenas quando a guerra já estava decidida e, principalmente, por Jaime Lannister, da guarda real, que jurara proteger o rei, ter matado Aerys II, e estava sentado no Trono de Ferro, com sua espada ainda suja de sangue – o que rendeu a ele a alcunha de Kingslayer (o Matador de Reis, o Matarreis) e o desprezo profundo por parte das demais pessoas.

Ned não está inclinado a aceitar o convite, mas uma carta recebida por sua esposa, Catelyn, com a indicativa de que na verdade Jon Arryn não morreu de causas naturais, mas foi assassinado, juntamente com uma tragédia familiar repentina, mudam toda a situação. O patriarca Stark vai para a Corte, conhecendo suas figuras boas e ruins, honradas e desonradas, e acaba, mesmo que sem querer, participando do Jogo de Tronos – o eterno jogo de manipulações e intrigas que tem a capacidade de retirar ou pôr este ou aquele rei no trono.

E, como diria a rainha Cersei, “No jogo de tronos, você ganha ou morre. Não há meio termo”. Há vários jogadores, vários trunfos, várias cartas na manga. E não são todos os participantes que jogam limpo ou de maneira honrada na grande parte do tempo. Agora, Ned vai ter de confiar nos seus instintos para fazer as melhores jogadas, ou confiar ou desconfiar das pessoas certas no momento certo.

1.2. A Muralha

Enquanto a trama na corte se sucede, temos também a história de Jon Snow. Ele é o filho bastardo de Ned Stark, criado com bastante amor e carinho por seu pai, juntamente a seus irmãos e irmãs. Todavia, a madrasta, Catelyn, sempre se ressentiu do bastardo que o marido trouxe para casa, de mãe desconhecida, que representa sua traição, um risco para seu primogênito, Robb – ambos regulam idade e são os melhores amigos um do outro – e que, golpe de misericórdia, é o único filho homem que herdou os traços físicos da família Stark.

Jon então cresce consciente que está em uma posição diferente e inferior à dos irmãos e que nunca poderá herdar Winterfell. Cresce também com um código de conduta quase tão rígido quanto o do seu pai e, encantado pelas histórias que ouviu durante a infância e também pelas contadas por seu tio Benjen Stark, além de consciente de que a bastardia não é o melhor cartão de visitas, parte para se juntar à Night’s Watch (Patrulha Noturna), que guarda a Muralha desde seus primórdios.

Como as histórias dos Outros viraram lendas, a Night’s Watch encontra-se em um momento de baixa. Salvo um ou outro membros de famílias tradicionais do norte, como o próprio Benjen Stark e alguns outros, é o perfeito lugar para “desovar” bastardos, criminosos e indesejáveis sociais diversos. A falta de recursos por parte do Rei também é evidente, e os homens devem matar um leão por dia para se manterem vivos e cumprirem suas funções de vigilância. Além disso, a ordem funciona como uma irmandade – seus membros precisam renunciar à antiga vida, bem como fazer votos de castidade e pobreza.

Então, o Bastardo de Winterfell, criado no conforto da casa grande, precisa aprender que nem todos saíram do mesmo berço nobre, perder resquícios de arrogância e aprender a levar sua nova vida gélida e dura da melhor maneira possível.

Acontece que coisas estranhas estão acontecendo Além da Muralha e Jon precisa manter todos os seus sentidos alertas…

1.3. A Rainha Do Outro Lado do Mar

Mas Aerys deixou uma herdeira, Daenerys, nascida após a morte de seu pai e enquanto sua mãe e irmão estavam no exílio. Ela nasceu durante a maior tempestade que assolou Westeros, ganhando assim o epíteto de Stormborn (Filha da Tormenta), que será apenas o primeiro de muitos que ganha ao longo da trama. A mãe acaba por morrer no parto, deixando-a sozinha no mundo, junto a seu irmão Viserys.

Os dois vivem a infância de cidade a cidade em seu exílio fora de Westeros, até que Viserys se aproveita do fato de ter uma irmã princesa, de sangue real valyriano e, quando ela entra na puberdade, a vende como esposa para Khal Drogo, o líder de uma tribo nômade de guerreiros criadores de cavalos em troca de um exército. Só que a moeda que os deuses jogaram para Viserys foi a da demência, tornando todos os seus planos de conquista infrutíferos.

Então, Dany precisa juntar força dentro de si para deixar os tempos de menina e tornar-se uma mulher, guerreira e estrategista, pronta para tomar para si seu reino de direto. Para isso, ela terá aliados – alguns deles, hmm… especiais, digamos assim – e inimigos, mas terá de contar principalmente com sua perseverança e força de vontade.

Mas o caminho do crescimento não é assim tão fácil…

2. O Choque de Reis

Conforme se torna previsível pela leitura do primeiro livro, o jogo de tronos se torna mais ativo do que nunca. Novos participantes interessados no Trono de Ferro se anunciam e uma guerra civil se avulta no horizonte, de proporções até mesmo fratricidas. Aqui, as ações de Robert e Eddard mostram suas consequências, e nem todas serão agradáveis para todas as pessoas.

São apresentados com maior vagar os outros irmãos Baratheon: Stannis e Renly, cada um deles aliado a uma das facções conflitantes. Stannis, por sua vez, associou-se com uma feiticeira, Melisandre, o que dá o gancho para um dos pontos que permeiam a saga: o conflito religioso entre a Fé dos Sete, seguida pela maioria do reino – e que em muito se assemelha com o catolicismo, desde analogia a dogmas como o Mistério da Santíssima Trindade até mesmo a forma de organização monástica, com “padres”, “freiras”, “monges” e até mesmo um “Papa” – e a crescente religião de R’hlorr, o deus da luz, em sua eterna batalha contra O Grande Outro, o deus das trevas.

Também são apresentados os Ironborn (“Filhos do Ferro” que, bom, não são Starks), residentes nas Ilhas de Ferro e uma espécie de piratas, que teve sua rebelião alguns anos atrás, de onde saíram perdedores, mas que agora tem sua oportunidade perfeita para vingança.

É também o início da ascensão de Tyrion Lannister como um grande jogador do Jogo de Tronos. É alguém que possui tudo contra – a aparência repulsiva aos olhos alheios, a desconfiança dos demais jogadores, a oposição explícita de sua irmã Cersei – mas uma capacidade de raciocínio e de leitura dos acontecimentos ímpar. É graças a ele que grandes alianças se firmam, grandes tragédias são evitadas e que a corte se move. E, graças à sua sagacidade e agudez mental, conquista aliados fiéis – e inimigos sedentos por seu sangue.

E o destino das duas filhas de Eddard, Sansa e Arya, começa a se delinear aqui: a primeira, criada para ser uma dama da corte, romântica e adoradora de livros e cañções, começa a duras penas aprender que o mundo real não é bonito, cor-de-rosa e cheio de nuvenzinhas. Pelo contrário: vai se tornando uma adolescente em uma bela prisão de ouro, abusada fisicamente e psicologicamente, esperando pelo cavaleiro andante belo, garboso e cheiroso que a salvará de seus fantasmas (minor spoiler, mas o único cavaleiro bonitão, garboso, cheiroso e sex symbol da trama gosta é de um outro cavaleiro bonito, garboso e conhecido como “o homem mais bem-vestido da corte”). Mas “o mundo não é uma canção” e atrás de faces bonitas há a injúria, e talvez o consolo esteja encoberto por uma camada de rudez e selvageria.

Já Arya, a mais nova, que sempre detestou as coisas de menina e que gostava mesmo era de lutas de espadas, perseguição a gatos e outras brincadeiras de meninos, também se perde em um mundo sujo, sangrento e desagradável, para também sofrer abusos físicos e psicológicos. Ao contrário de sua irmã, um passarinho frágil, ela cresce para se tornar um cão vira-lata e faminto, que não tem pudores para lutar por sua própria sobrevivência. Valar morghulis.

E neste livro, também, a magia do mundo de Westeros vai se intensificando mais e mais. Vai se tornando cada vez menos sutil e mais atuante, mas nem sempre será uma coisa boa, limpa e bonita de se ver, além de custar, às vezes, preços mais caros do que as pessoas estão dispostas a pagar.

E, claro, a guerra civil se inicia. Para quem gosta de batalhas, um prato cheio, que dura uma boa dezena de capítulos e é mostrada por vários ângulos: dos lados envolvidos no conflito e do lado inocente, que deseja apenas estar vivo para ver o sol do dia seguinte.

3. A Tempestade de Espadas

Este é o maior livro e também aquele onde mais coisas acontecem. Aqui, pode-se esperar twists diversos, cenas de efeito e impacto diversos, todas as plotlines e personagens atingindo pontos críticos de conflito e posicionamento. É o ápice dos quatro livros já lançados, também o preferido dos fãs e ganhador de prêmios. A ação ocorre do princípio ao fim, com muitas batalhas, traições, golpes certeiros, vitórias, derrotas, lágrimas e sangue.

É difícil falar sobre este livro por uma razão simples: a história toda – todinha – sofre alterações pelos acontecimentos deste volume. Várias tramas encontram seu fim aqui, com direito a uma das maiores traições literárias que eu me lembre, comparável ao cavalo de Troia, e que também é uma das sequências mais eletrizantes e inesquecíveis de toda a série.

Batalhas são vencidas, batalhas são perdidas, oportunidades aparecem e são aproveitadas, traições se revelam, acertos de contas acontecem, personagens aparentemente desconectados se encontram, conchavos são armados com sucesso, blefes são armados com sucesso e o balanço de poder é alterado de maneira definitiva.

Para não cair em spoilers, só digo que aqui temos a oportunidade de conhecer Jaime Lannister um pouco mais a fundo, saber suas motivações e sentimentos. É uma excelente oportunidade para enxergar um personagem que só foi visto pelos olhares dos outros personagens até agora, a maioria deles realçando seus defeitos, mas de dentro de sua própria cabeça e através de sua interação com Brienne, que é seu oposto polar em qualquer sentido ou direção que se olhe – e que é chave fundamental para entendê-lo.

Um Pequeno Interlúdio: Salto de Cinco Anos?

Era a intenção de George R. R. Martin que houvesse um salto de cinco anos entre o terceiro e o quarto livros da série, para que os personagens crianças pudessem crescer, algumas situações pudessem ficar melhor cimentadas, alguns desenvolvimentos óbvios pudessem ocorrer com calma.

Inclusive, no final do livro 3 alguns personagens foram colocados em locais estratégicos, onde poderiam passar cinco anos sem serem incomodados, com suas plotlines aparentemente resolvidas até ali, todo o caminho traçado para a pausa e amadurecimento. O autor falou várias vezes sobre seu arrependimento de ter colocado protagonistas tão jovens e essa parecia ser a maneira mais simples de fazer com que todo mundo envelhecesse um bocadinho – e também treinasse e desenvolvesse um bocadinho também.

SÓ QUE… Algumas plotlines, até primordiais, não ficariam em suspenso por cinco anos, não sem rios de flashbacks e explicações furadas. Alguns fatos que ocorreram no final de A Storm of Swords demandavam uma solução imediata em termos de continuidade e coerência. Simplesmente não havia a possibilidade de avançar o tempo cinco anos sem prejuízos irreparáveis à toda malha ricamente construída até então.

(e, claro, retcons, que são a coisa mais detestável do mundo, estão e sempre estiveram fora de questão).

Qual a solução, então? Dividir o quarto livro em duas partes, correspondendo ao quarto e quinto livros da saga, para resolver os assuntos pendentes, movimentar as peças no tabuleiro narrativo e servir de interlúdio para a segunda parte da trama, ainda a vir. Os dois livros preenchem o mesmo espaço de tempo, sendo que o primeiro trata dos fatos ocorridos na corte e terras próximas, no sul e na cidade de Braavos, enquanto o quinto tratará do Norte e das terras de Além-Mar.

Então, em 2004, após quatro anos de árdua espera, foi lançado o quarto livro da saga, A Feast for Crows…

4. Um Festim para Corvos

Este é, até então, o livro mais intimista da série.

A guerra civil acabou e uma pretensa e relativa paz começa a se estender por Westeros. Os mortos são contados e enterrados, o poder é reorganizado após sua mudança de mãos, mas o drama de quem realmente perde com a guerra é mostrado: as famílias que perderam seus pais e suas mães, as plantações que não foram colhidas, as terras que não foram semeadas, os milhares de desabrigados e desamparados que enchem os campos. Essas são as vítimas dos jogos de poder, são quem morrerá de fome porque a comida acabou, morrerá de frio porque não há mais casa, será morto porque a lei se foi e os criminosos e enlouquecidos pelas batalhas estão à solta.

É pelos olhos de Brienne, a moça pura e sensível, mas olhada com deprezo por sua aparência e modo de ser, que veremos as pessoas comuns lutando pelo seu restinho de dignidade e pela chance de lutarem por sua sobrevivência.

Mas mais do que isso, há um ponto comum em todas as plotlines deste livro: a identidade. Em metade deles, a busca pela identidade, tenha sido ela perdida muitos anos atrás e que precisa ser recuperada ou que precisa ser construída após uma vida de rejeição. Nos outros três, a perda da identidade – seja ela subtraída voluntariamente, por força das circunstâncias ou por um turbilhão mental de confusão e loucura. E essa privação da identidade também gera e gerará consequências.

São personagens que se procuram, que se opõem. Seja a feia, porém de coração nobre Brienne, que se opõe a belíssima e cada vez mais descolada da realidade Cersei, o destino cada vez mais cruel de Sansa e Arya, as jornadas de Samwell e Jaime, que em última análise buscam a mesma coisa.

Por fim, os Ironborn são revisitados, bem como o povo de Dorne, a província mais ao sul e mais isolada de Westeros. São os últimos jogadores para completar o Jogo de Tronos e esta é a hora de colocar as cartas na mesa. É bom ressaltar que a conclusão dos capítulos de Dorne é uma das mais arrepiantes de toda a série.

Neste livro estão os capítulos mais belos da saga, com ênfase naquele chamado Cat of Cannals e um dos capítulos de Brienne onde o religioso discursa sobre os homens destruídos pela guerra. Aqui, a prosa de George Martin encontra sua forma mais bela. Não é apenas a trama que é contada, mas também é possível saborear vagarosamente todos os detalhes, a escolha de palavras, cenas e sensações do leitor. É fazer da leitura prazerosa e saborosa.

Por não ser um livro agitado e cheio de reviravoltas como anterior – além da expectativa dos quatro anos de espera – este é um livro visto pelo rabo dos olhos de alguns fãs, mas a leitura é belíssima. E, claro, é uma leitura que vale a pena ser apreciada e degustada com carinho.

E agora estamos esperando o quinto livro, que está prometido desde 2005. Entramos no sexto ano de espera: será que desse ano não passa? Eu pressinto que sim. Espero estar certa para logo poder trazer a resenha de A Dance with Dragons para vocês 🙂

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Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

Eragon – Christopher Paolini

Tenho pé atrás confesso com modinhas, ainda mais quando escuto opiniões divergentes e a própria proposta da coisa não me chama a atenção. No auge do Harry Potter, muito se questionou qual seria seu sucessor. Um dos “prováveis sucessores do Harry Potter” da vez foi Eragon – que saiu no Brasil mais ou menos na época em que foi anunciado a produção de um filme baseado na obra.

A história simplesmente não me interessou a princípio e continuou a não me interessar. Sempre torci o nariz, achando que não seria uma história de meu agrado, que o tempo gasto para lê-la poderia ser investido de maneira mais útil lendo coisas que fossem mais ao meu gosto. Só que alguns amigos, surpresos por eu ter lido Crepúsculo – e não desgostado -, alguns até com experiência de leitura, me disseram: “Por que não ler Eragon? É divertido e descompromissado – e mais satisfatório do que Crepúsculo”. Um dia, passeando pelos sites online, vi uma oferta imperdível: a saga inteira por R$29,90. Pareceu um preço justo pela curiosidade, então encomendei.

Resolvi ler Eragon, o primeiro da saga, de coração aberto, não esperando uma obra genial e revolucionária, mas diversão leve e despretensiosa.

Então comecei a ler a história de um mundo onde humanos, elfos (que vieram do… oeste, oh god), anões, orcs e nazgûls urgals e raz’acs convivem entre si. O mapa traz indicações a lugares como Eldor, Ardwen, Melian… Bom, sinto que já ouvi algo parecido em algum lugar, alguma vez…

Este é o mundo de Alagaësia, onde um anel foi forjado e agora precisa ser destruído nas montanhas de Mordor anos atrás, havia uma ordem de cavaleiros jedi místicos que controlavam seus dragões, detentores de um grande poder. Só que um destes cavaleiros, Galbatorix, perdeu seu dragão e, com a ajuda de um desertor, eliminou todos os demais cavaleiros-dragões, tornando-se o Imperador tirânico e despótico.

(a partir daqui, spoilers, ok?)

Entretanto, alguns ovos de dragão escaparam do massacre e um deles conseguiu ser enviado para um lugar seguro. Eragon, um jovem garoto órfão, criado pelos tios em uma fazenda, que desconhece seu próprio passado, encontra o ovo, que choca, revelando a existência de Saphira, uma dragoa azul que acabou de nascer mas tem personalidade de adolescente. Suas mentes se ligam e Eragon é revelado como um cavaleiro-dragão, o primeiro em séculos.

Então, guiado por Brom, aparentemente um bardo, mas um mago experimentado e repleto de conhecimentos, começa sua jornada do herói através do mundo de Alagaësia, para se encontrar com os Varden, uma facção rebelde que desafia o Imperador.

Lá pelas tantas, o destino de Eragon se cruza com o de uma bela princesa elfa que está aliada aos rebeldes. Acaba ganhando um aliado amigo, que o salva de poucas e boas, e acabam formando um trio até encontrarem o QG dos Varden.

Murtagh, o amigo (?) de Eragon, ressalte-se, é emo sorumbático, com dificuldades de relacionar-se ou relaxar, sendo perseguido por seu sharingan por sua origem. E, claro, Eragon e Arya, a elfa, se apaixonam, o que nunca é fácil nessas circunstâncias

E assim começam as aventuras de Eragon, cavaleiro dragão, no primeiro livro de sua (NOSSA, JURA?) trilogia. Ok, não é uma trilogia, virou tetralogia, jocosamente uma trilogia de quatro.

Toda a parte anterior dessa resenha foi para apontar, de forma irônica, sarcástica e ácida o que considero o maior e principal ponto fraco do livro: ele é um amálgama de várias sagas famosas. É quase um Senhor dos Anéis encontra Star Wars, com uma boooa pitada dos dragões de Pern por cima (que é uma série que nunca saiu no Brasil mas é um grande sucesso nos EUA).

Para deixar bem claro aqui: eu não chamaria de plágio, pois os elementos de várias histórias estão misturados entre si e não há cópia de nenhuma delas. Mas, também, não há nenhuma originalidade, nenhuma criação em cima de fórmulas já conhecidas, testadas e aprovadas. São elas reunidas, batidas no liquidificador e servidas ao público. É uma espécie de “roteiro-miojo” – bem menos complexo do que o arroz-com-feijão, só jogar a jornada do herói na água por três minutos e pôr temperinhos por cima.

A jornada do herói, ou monomito (algum dia volto ao tema com mais calma), é um roteiro basilar para se contar uma história e muito está relacionado ao processo de crescimento pessoal do indivíduo, mas colocá-la da forma mais linear possível em uma história, de forma que dê para identificar facilmente cada uma de suas etapas, está para lá de batido. É uma maneira fácil e prática de montar uma história, sim, quase com o preenchimento de lacunas, mas não traz nenhuma surpresa para o leitor com algum experimentalismo.

O que é outro ponto importante: eu não sou da faixa etária planejada para o livro, de jeito nenhum. Mas daí lembro que li o Senhor dos Anéis com 15 anos, sem maiores problemas – e, antes disso, já tinha lido Admirável Mundo Novo ou a Odisseia. Tudo bem, eu reconheço que essa é a exceção e não a regra, mas fica complicado não comparar Eragorn com toda a minha carga anterior de leitura – e que a total falta de originalidade do roteiro salte aos olhos.

O que é uma pena, porque a prosa do autor é até gostosa de se ler. Imagino o que ele faria com uma história que fosse um pouco mais dele…

E aqui outro ponto de esclarecimento: como já disse, a jornada do herói é uma das formas mais clássicas de se contar uma história. Há quem diga, inclusive, que todas as histórias já foram contadas. Não estou pregando aqui uma originalidade total – difícil, quase impossível, somos humanos, se formos buscar, todos os nossos dilemas possuem a mesma raiz – mas a utilização de elementos clássicos de uma forma original, de uma maneira nova. As próprias comparações que saltam aos olhos quando se lê Eragon: Star Wars não é um primor de originalidade, mas conseguiu reunir elementos antigos em algo novo. Mesmo o Senhor dos Anéis: trata-se de um paradigma do gênero fantástico, mas algumas das referências são óbvias (como O Anel dos Nibelungos, p. ex.). E, nunca é demais ressaltar, toda obra parte de uma série de referências anteriores – mas para que ela se torne algo novo, deve transcendê-las.

Eragon é um livro divertido, bom para passar o tempo, de leitura rápida. Há alguns problemas de suspensão da descrença – mais para o final, principalmente. Eu deixei de levar o livro a sério depois de uma passagem em que os personagens atravessam um deserto durante o dia (!!!) e praticamente a jato com seus cavalos. Um pouco de lógica básica, no caso, não faria nenhum mal à trama.

Outro ponto é que, pelo menos para mim, Eragon, Saphira e amigos próximos nunca estiveram realmente em perigo – exceto aqueles que, para qualquer um que já viu Star Wars, precisam ser eliminados para o bem da história. Essa sensação de que não interessa o que aconteça, o personagem vai se dar bem – não estou nem falando de morte, mas de ver planos darem redondamente errado, de perigos iminentes, de separações dolorosas, de ver o personagem “por baixo” para poder se reerguer.

Enfim, valeu a leitura, foi leve e divertida. Mas a satisfação foi a mesma de almoçar um miojo porque não tem mais nada em casa…

(e um p.s. inevitável: lá pelas tantas tem um figurante chamado Korgan. Não pude deixar de imaginar Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur, Elessar, de espada na mão dizendo “there can be only one“).

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O Nome do Vento – Patrick Rothfuss

Após ler os quatro primeiros livros da série A Song of Ice and Fire, do George R.R. Martin, como já mencionei aqui antes, queria dar um tempo da literatura de fantasia. Por quê? A já citada série me impactou de uma maneira tão profunda que qualquer coisa do gênero que eu lesse a seguir seria eclipsada. Então, claro, procurei ler coisas que não fossem relacionadas ao gênero fantástico ou que tivessem alguma variedade temática grande o suficiente para evitar comparações.

Só que acabei esbarrando com O Nome do Vento, que veio bem recomendado por vários amigos e conhecidos. O livro (não confundir com A Sombra do Vento, por favor :P) é o primeiro volume de uma trilogia, chamada Crônicas do Matador do Rei – e, claro, também se trata de um romance de high fantasy, com um mundo fantástico em que a magia e criaturas mágicas existem e atuam.

Bom dizer também que, como Jonathan Strange & Mr. Norrell, é uma obra que sai no Brasil quase que por engano, já que não vem seguida nem de filme e nem de hype – e ela foi lançada originalmente em 2007, ou seja, recentíssima (ainda mais se parar pra pensar que Eye of the World, o primeiro volume da série Wheel of Time, de Robert Jordan, que é escorada no hype lá fora, tendo inclusive um fandom bem ativo, só saiu no Brasil esse ano, com quase 20 anos de diferença do lançamento original…). Ponto para a editora Sextante – e espero que tragam mais livros recentes também!

Outro ponto forte da edição é a capa: um belo trabalho gráfico, uma ilustração bem caprichada, bem coerente com a proposta da trama e que chama a atenção.

Só que entramos aqui em um ponto fraco, pois nem tudo são flores: a tradução deixou um pouco a desejar. Há um erro bobo e que muda bastante o sentido da trama, mas a escolha lexical utilizada na edição brasileira não foi das mais felizes. Não é nada que prejudique a leitura, mas eu acho que poderia ter sido melhorado.

Ah, sobre a política de spoilers: o grande spoiler que o leitor encontrará abaixo está na orelha do livro, então não achei nenhum crime mencionar o fato.

Ultrapassadas as preliminares, vamos ao livro: somos apresentados a um mundo de fantasia, onde a magia e espécies mágicas pulsam, e também a Kote, um taverneiro de uma vilazinha do interior, que na verdade é um aventureiro aposentado. Não apenas um aventureiro: um guerreiro, bardo, cientista, que esteve envolvido em grandes eventos de seu mundo, que tornou-se uma lenda entre os vivos. Claro, no momento tudo o que ele deseja é paz e sossego, até ser surpreendido por um cronista renomado, que está interessado em conhecer sua história através de seu próprio relato e não vai desistir antes de consegui-lo.

Kote, após alguma insistência, concorda em contar sua história, mas afirma que precisará de três dias para isso – e aqui está o sentido da trilogia, cada dia correspondendo a um livro.

Então começamos do começo: a infância, quando ainda se chamava Kvote e era o filho do líder de um povo nômade e ligado às artes, espalhando suas canções e danças por todo o mundo. Ele, uma criança superdotada e bastante curiosa pelos mistérios do mundo ao seu redor, com uma facilidade impressionante de aprendizado.

Em uma das andanças de seu povo, acabam esbarrando com um latoeiro, que na verdade é um estudioso arcano que, dentre outras coisas, conhece o nome do vento. E, Kvote, como boa criança precoce, vai adotá-lo como mestre, e ouvir pela primeira vez sobre a Universidade, onde os conhecimentos são distribuídos e propagados.

Nessa hora, o pensamento foi irresistível: “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?”. Mas resolvi insistir um pouco na leitura para ver no que daria…

…e a vida do menino vira do avesso depois que seu povo é dizimado pelo Chandriano, uma organização mística que habita as lendas e superstições do mundo.

Aqui, cabe um parêntesis: como Kvote vem de um povo imerso em músicas e contos, as músicas e contos do mundo aparecem na narrativa, e são bem trabalhados e rítmicos. A rima do Chandriano, em especial, merece destaque: dá arrepios seja no original, seja em português. Fica a palhinha, no original:

when the hearthfire turn to blue,
what to do? what to do?
run outside, run and hide.
when his eyes are black as crow?
where to go? where to go?
near and far. here they are
see a man without a face?
move likes ghosts from place to place
what’s their plan? what’s their plain?
chandrian. chandrian

E o mundo de O Nome do Vento é bastante sombrio e cínico. É o mundo de um deus morto, onde a magia arcana foi proibida e até os dias atuais continua sendo vista com reservas, onde a diferença social existe e está latente. É um mundo onde mazelas existem, onde o vício e venda de drogas ocorrem à luz do dia, onde a degradação é visível e latente.

E Kvote tem a obrigação de enfrentar um mundo sombrio e cínico e sobreviver. E sobrevive, aos trancos e barrancos mas sobrevive (e essa parte da trama lembra bastante o Charles Dickens e seus órfãos). Até que, por alguns lances de sorte, acaba tendo a oportunidade de ir para a Universidade.

E a Universidade, não posso deixar de comentar, é uma versão sombria e cínica de Hogwarts, com as diferenças sociais exacerbadas e Kvote, inteligente mas tornado arrogante pela consciência de tal capacidade, desafiando as regras do lugar. Claro, ele não é o protagonista bonzinho, está ali para cometer pecados e pecadilhos, a tropeçar nas próprias pernas mas também ser vítima de injustiças alheias. E é interessante ver suas escolhas e atos por sua perspectiva e não por a de uma outra pessoa.

Um dos pontos interessantes do livro é ter vários dos clichês de fantasia revisitados, mas dentro de lugar. O choque de realidade do órfão precoce, a escola mágica que é tudo, menos um lugar amigável, as tavernas e bardos, tudo isso está lá. Inclusive, uma das melhores e mais criativas caçadas a um dragão que me lembro de ter visto ocorre neste livro, ao decorrer da trama.

Enfim, o primeiro dia da vida de Kvote é animado – e, por ser uma história narrada em primeira pessoa, sabemos que ele sobreviverá a todos os apertos -, é interessante ver as memórias de um personagem tão fantástico expostas e exploradas. Foi uma bela surpresa, valeu a pena tê-lo conhecido e a seu mundo esse ano e espero continuar a ouvir seu relato sobre sua própria vida em breve!

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