Os Filhos do Éden – Eduardo Spohr

Um dos grandes destaques do ano passado foi, sem dúvidas, A Batalha do Apocalipse, do brasileiro Eduardo Spohr, que partiu de uma edição independente (que se esgotou num instante) para uma grande editora – e permaneceu por semanas a fio entre os livros mais vendidos, com todos os méritos.

O desafio foi o que veio depois: como seriam as coisas após um épico das proporções de A Batalha do Apocalipse?

Os Filhos do Éden parte de uma decisão ao mesmo tempo arriscada e corajosa: pegar o cenário de A Batalha do Apocalipse, mas contar outra história com outros personagens. O autor justifica-se dizendo que o Apocalipse é o grande evento de seu universo e não haveria como ser fiel ao próprio cenário concebendo um evento “maior do que o maior”. Concordo. O cenário dos anjos é riquíssimo e cobre no mínimo 10 mil anos de história da humanidade, há possibilidades de se contar uma infinidade de história nesse meio-tempo. Fora que são livros independentes: dá para ler primeiro Os Filhos do Éden sem prejuízos de compreensão de cenário e personagens, até porque falam de tempos e eventos diversos.

Há, é claro, que os leitores acostumados com Ablon e Shamira estranhem os novos protagonistas, Kaira e Denyel. Na verdade eu mesma os estranhei, demorei uma meia dúzia de capítulos para “apegar” – mas acabei gostando da anja que por uma série de razões é tão humana.

Se ABdA soava um pouco como Highlander, a inspiração cinematográfica aqui é um pouco diferente: os filmes de ação, tiroteio e explosão a la Máquina Mortífera. Dá-lhe perseguições, explosões, tiros, machucados de bala e coisa do tipo. Há referências às guerras do século XX e ao armamento da época,  também, para aumentar um pouco mais o tom belicista – e, afinal, um de nossos protagonistas é um anjo guerreiro.

A história, em comparação com ABdA, também é bem mais simples e objetiva: no Céu, há duas facções de anjos, aqueles liderados pelo arcanjo Miguel, em tese representando a vontade de Deus, que odeiam a humanidade e querem exterminá-la, e os rebeldes, liderados pelo arcanjo Gabriel, que entendem que a humanidade é a grande criação de Deus e devem protegê-la. (há também outras facções como os anjos que caíram com Lúcifer, os renegados e os que não tomaram partido, mas nenhum desses vem ao caso para efeito deste livro).  Uma das anjas mais poderosas de Gabriel, Kaira, foi enviada à Terra em missão juntamente à sua equipe, mas acabaram todos se extraviando e a missão ficou pendente. O resgate é enviado para ir atrás dela e descobrir, afinal, quais foram os resultados da missão, mas essa não vai ser uma tarefa fácil, até mesmo porque as regras do jogo mudaram.

Quando Kaira reaparece, por algumas circunstâncias ela está… mudada. Essa mudança também será a tônica do livro, pois a jogará contra seus inimigos sem que saiba muito de antemão, fará com que ela tenha uma visão muito mais humana do que angelical das coisas e abrirá espaço para o anti-herói Denyel, um anjo que já teve seus tempos de guerra e agora não está lá muito interessado em participar dela. É o tipo de personagem feito para ser amado ou odiado, sem meio-termos, e confesso que demorei um bocado para me acostumar com ele. Faltou a ele um pouco da simpatia do Ablon, mas é um personagem interessante, o estereótipo do guerreiro desiludido que cansou de lutar por uma causa que agora questiona, e que se encaixa bem no cenário.

A trama tem um tom menos épico do que o do livro anterior, mas a coisa é muito mais acelerada e acontece sem cortes. Os poucos flashbacks acontecem entre capítulos onde realmente há uma respirada, onde dá para dar uma pausa para a próxima cena, e ajudam a temperar o cenário e apresentar personagens como o Primeiro Anjo (que deve crescer em importância na saga). O problema do narrador a la National Geographic, apesar de suavizado, continua – achei que continuou faltando mostrar mais do que contar.

Outro ponto foi o esclarecimento de um ponto que tinha ficado pendente em ABdA: como assim anjos não tinham livre arbítrio? Então eles não poderiam se rebelar, correto? Errado. Aqui o autor explica o que ele quis dizer com livre arbítrio, e dou uma resumidinha: os anjos estão presos às suas castas. Um anjo guerreiro guerreará, um anjo elemental dominará elementais, um anjo estudioso estudará e um anjo da guarda guardará. Você está preso aos estereótipos da casta: não poderá ser quem quer ser, ou ao menos terá graves limitações quanto a isso. Ainda, poderá até se envolver em relações românticas, mas não poderá procriar, não entre anjos, pois anjos não têm o poder de criar novas vidas a partir de si.

Outro esclarecimento que está em Filhos do Éden: que fim levou o arcanjo Rafael. Mas isso eu não conto, hohohohoho.

Enfim, não há muito mais o que dizer, pois pelo menos para mim passou a sensação de ser um primeiro capítulo (fechado em si mesmo) de uma saga maior que será desenvolvida. Estou curiosa pelo próximo volume e certamente animada pelo que encontrei aqui. É um recomeço, é uma nova saga, mas é também um passo adiante na evolução.

P.S.: O livro tem uma página oficial bem legalzinha, com ilustrações e outras coisas legais. CLIQUE AQUI e confira 🙂

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Quer ler o livro também? (Submarino)

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Até a próxima!

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23 Responses to Os Filhos do Éden – Eduardo Spohr

  1. Diego Beneton says:

    Hum…. preciso comprar esse. O ABdA eu tenho dois, a primeira versão independente e a edição especial. E pra lhe ser sincero, ainda não comprei esse com receio de sair uma edição especial também. Não sei se vou conseguir resistir muito tempo já que tudo que inspirou o Spohr a escrever fez parte da minha adolescência tb! 🙂 E com essa resenha ainda por cima…

  2. Lucas Rocha says:

    Ainda tô devendo a leitura do ABdA, mas estou sinceramente curioso quanto a esse trabalho. Fiquei ainda mais feliz por perceber que é um universo compartilhado, mas que não necessita de leitura prévia para que se possa ler esse. Gosto de histórias épicas, mas tenho um lugar especial no meu coração para as pequenas histórias de busca. Parece que vou gostar desse livro, tenho que comprar ele o quanto antes.

    Como sempre – e nem preciso dizer, mas digo mesmo assim -, bela resenha.

  3. Mariana Ferreira says:

    Queria tempo para ler. Tô morrendo de curiosidade para saber que fim levouo Rafa…
    =P

  4. Oi! Adorei a resenha. Li ABdA e uma das coisas que mais me incomodou foi o excesso de flashbacks. Pelo seu texto, dá pra perceber que Filhos do Éden dá uma maneirada nesse ponto, que bom! Sendo assim, acho que vale a pena ler o novo livro do Spohr. =)

  5. Alex Bastos says:

    Não vou mentir que me sinto mal de não ler tanto quanto gostaria, pra poder dividir opiniões aqui, mas um dia quem sabe dou conta do recado, como sempre digo: Pouca vida, muitos livros. rs

  6. Fernando says:

    Bem para escrever ABdA e FdE o Eduardo Spohr teve várias referências, uma delas é o fantástico anime Neon Genesis Evangelion que retrata a guerra entre homens e humanos num tom quase filosófico, pois bem pra mim e pra quem assistiu ao anime fica claro a natureza de castas dos anjos. Os anjos possuem o dom da vida, portanto tem vida eterna, já os Humanos tem o dom da Sabedoria, que nada mais é do que o livre arbítrio. Quem possuir os dois dons se tornará um Deus, ou seja no Spohrverso só Yahweh…….sem revelar spoilers quem leu ABdA já sabe como Yahweh presenteia os Humanos com o dom do livre arbítrio deixando alguns anjos raivosos.

  7. Fernando says:

    No post anterior eu escrevi errado entre “homens e humanos”, o correto é entre “homens e anjos”, desculpem a falha.

  8. Juliana says:

    Eu simplesmente amei A batalha do apocalipse, achei muito interessante a história ainda por ser épica, e o personagem Ablon é simplesmente demais. Fiquei sabendo desse novo livro do Eduardo a pouco tempo, e já vou comprar esse mês, muito boa a sua resenha, me deu mais vontade ainda de ler.

  9. Douglas says:

    Qual é a diferença de ABdA idenpendente para a edição especial

  10. emmanuelle says:

    adorei

    • lucia says:

      Simplesmente amei A batalha do Apocalipse, estou começando a ler Filhos do Éden, como vc disse demora um pouco para se acostumar a esses novos personagens, mas os anjos já fazem parte de nossa vida e a curiosidade de saber o que irá acontecer com eles nos leva a ler de uma maneira frenética, mas a o mesmo tempo não querendo que ela termine.

  11. Aline Silva says:

    esse livro é muito bom tó esperando a proxima edição

  12. Gigio says:

    Essa semana já vou passar na livraria pra encomendar o meu! adorei ABdA, e quando terminei de ler fiquei com um gostinho de quero mais! bom eu achei muito instrutivo os flashbacks, eles respondiam muitas coisas de que ablon estava “pensando-relembrando” digamos assim. Entao descobriremos onde foi parar Rafael? Tenho minhas suspeitas ao lembrar do que li em ABdA…..
    bem, sucesso ao Eduardo, afinal nao é todo dia que aparece um escritor (em portugues, no brasil) que escreva ficção cientifica, ficçao, fantasia, e que além de escrever, sejá ótimo….

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