O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

o-lado-bom-da-vida-capaHá alguns livros que podem ser leves e simples, mas trazem mensagens e reflexões bem interessantes. A bem da verdade, esse livro foi uma leitura de viagem, comprado por não ser complexo e de digestão mais leve, mas nem por isso deixou de me comover, me fazer refletir ou de pensar nos personagens e suas angústias mesmo depois da página final.

 É um livro leve e bem-humorado, sim, mas que trata de um assunto nada colorido: a doença mental. Pat Peoples é bipolar e passou os últimos tempos de sua vida internado num sanatório por motivos que não se recorda. Seu maior desejo é reatar com a esposa por quem é loucamente apaixonado, Nikki, e para isso ele está se esforçando para se tornar uma pessoa melhor. Só que o mundo do lado de fora está bem diferente do que quando o deixou…

 Para alguém que já passou por algum tratamento de doença mental, a identificação é imediata: Pat não se dá conta de que passou os últimos quatro anos internado – e a noção do tempo que passa, quando você está preso nos próprios labirintos mentais, desaparece – e sua relação com as pessoas está abalada e infantilizada – o pai, envergonhado, não quer saber dele e é através da atividade familiar do futebol americano que retomam o relacionamento, todos o prendem numa bolha por medo de uma recaída e ele é bastante infantilizado, o que fica bem marcado pela narrativa em primeira pessoa.

 Tudo se torna Nikki, o objeto de sua obsessão: ele passa a ler os livros de literatura clássica sobre os quais ela leciona para que não passe por ignorante, malha a níveis compulsivos para ficar magro e agradá-la, tenta ser uma pessoa simpática para amolecer seu coração. Nikki é a razão de tudo, o ídolo, a meta a ser alcançada, mas fica cada vez mais claro ao leitor que isso não vai acontecer.

 No meio do caminho, está Tiffany, uma vizinha que também tem seus próprios problemas. Até interessante que é uma pessoa com problemas psiquiátricos vendo outra pessoa com problemas, que reagiu de forma diferente da dele à mesma angústia e que, aos poucos, com uma relação para lá de estranha, o traz de volta para o mundo. Sai Nikki, entram outras possibilidades, mas não sem alguns truques que serão revelados no momento propício.

 A viagem mental de Pat, infantilizado, frágil, à sombra do irmão mais novo e muito melhor sucedido, diante de olhares piedosos e condescendentes mas muito bem-humorada é muito interessante. Aliás, achei um retrato muito real da angústia de se perder, de não saber mais quem se é, de perder o rumo da vida e de como ajeitar as coisas se torna difícil quando certo ponto crítico foi atravessado. Que doença mental, ao contrário do que pregam, não é falta de pensamento positivo ou energia, mas um estado de consciência e percepção que se altera por completo. Mas, claro, que também não é um caminho sem volta se há algum esforço por outros rumos.

 Então me peguei pensando na dinâmica existente entre Pat, seus pais e irmão e o futebol, capaz de aglutiná-los e promover momentos de integração e relaxamento, além do espírito de grupo da torcida que os tornam iguais ainda que naqueles momentos (e que torna o título original do livro, The Silver Linnings Playbook, um pouco mais coerente – seria “o livro do jogo” dos momentos brilhantes da vida, ou algo assim), bem como a convivência com Tiffany o desperta para aspectos novos, como as aulas de dança ou mesmo conviver com uma pessoa tão cheia de suas próprias coisinhas.

 A única coisa que não gostei muito do livro foi uma forçada de roteiro no final para que Pat esbarrasse com certo personagem (certas coisas que caso aconteçam na vida real e que são estranhas, inverossímeis e coincidência demais não caem bem em obras de ficção, porque aí sim ressalta-se a estranheza, inverossimilhança, coincidência e principalmente conveniência do roteiro), mas a conclusão não muito romântica também é muito interessante, o deixar para trás as coisas que não podem ser para investir naquelas que são.

 ladobomdavida_1Quanto ao filme: claro que, como toda adaptação, algumas partes foram alteradas, outras retiradas ou acrescidas, alguns personagens ganharam contextos novos (o Danny como personagem do filme é muito mais coerente, por exemplo, e o pai, interpretado por Robert de Niro, ganha nova personalidade e mais presença, provavelmente para justificar a escalação do ator – além de que, como vemos Tiffany por um narrador neutro, a percepção dela altera-se). Ainda tem-se o peso da doença mental (e é um dos filmes comerciais hollywoodianos mais honestos sobre o tema), mas as situações encaminham-se para uma comédia romântica padrão, bem clichê, que acabam tornando o terceiro ato do filme uma derrapada morro abaixo. Não que isso o prejudique: ainda é um filme acima da média, mas tira bastante da força do livro e de seus personagens.

Ah, sim, bom ressaltar que vi o filme depois de ler o livro, então a história não me era estranha. Mas é bem legal estar diante de duas interpretações, ambas bem legais, de uma história interessante, de uma abordagem a assuntos que costumam ser deixados de lado ou vistos por lentes mais dramáticas.

***

Até a próxima!

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One Response to O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

  1. Bruno says:

    Gostei muito do filme, apesar do terceiro ato clichê e de parecer às vezes um filme do Adam Sandler (atores do Saturday Night Live inclusos =P). Mas é sim uma história bastante sincera sobre a doença mental, que alguém que já tenha passado por isso não tem como não se identificar. Concordo com toda a resenha.

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