Alta Fidelidade – Nick Hornby

A primeira coisa a dizer é que não assisti ao filme. Pela mesma razão que me levou a ler o livro agora.

Mas hein?

Explico. E perdoem a pessoalidade, mas por motivos bastante irônicos destes que só a vida apronta, o motivo se confunde com a própria trama do livro: meu primeiro namorado, anos atrás, era um nerd (aqui, o termo empregado como para definir uma tribo com certas características em comum, jamais de forma pejorativa) aficcionado por música, cujo filme preferido era… bom, adivinhem.

A trama é a seguinte: Rob Fleming, 35 anos, dono de uma lojinha de vinis em Londres, que respira música e tem um hobby no mínimo peculiar – fazer listas de top 5 diversas – acabou de levar um fora de sua namorada, Laura. E, talvez diferente da reação que ele mesmo esperava, o chão sumiu sob seus pés e o mundo desabou.

Uma ressalva sobre o livro vem aqui: requer uma dose de maturidade para ser lido. Requer ter tido sonhos estraçalhados por algo chamado Mundo Real, requer ter cometido escolhas erradas, requer experiências com relacionamentos e corações partidos. Claro que o leitor que não passou por nada disso poderá ler e ter uma boa experiência, mas sem esse background pessoal, acredito que a mensagem da obra seja dificilmente compreendida por completo.

Não é o primeiro livro do Nick Hornby que leio – o primeiro foi Slam (que, oh a vida, está com outro ex-namorado), do qual não gostei. Foi um livro planejado para o leitor mais jovem, mas sabem aquela sensação do tiozão querer ser adolescente de novo? Foi mais ou menos isso o que senti, apesar da história do livro ser até interessante. E, claro, milhares de referências pop gratuitas, que não compõem a trama com naturalidade e estão lá só pelo ar de descolado… iuck!!!

Alta Fidelidade veio para apagar a impressão ruim causada pelo livro anterior (pois é, nesse caso a segunda chance teve um final feliz). E, ao contrário do que pode parecer depois das informaçoes da contra-capa e das orelhas do livro, não está “cheio de referências pop”. Há, é óbvio, várias referências musicais – ora, o oxigênio de Rob se chama música, então como as coisas poderiam ser diferentes? – e a alguns filmes e ícones pop, mas todos eles dentro de contexto. Nada de amálgamas referenciais que estão lá apenas para causar e constar, mas o que está lá faz muito sentido dentro do contexto e compõe a narrativa.

E então acompanhamos a narrativa em primeira pessoa de Rob, machucado pelo fim do relacionamento mas que continua com suas atividades diárias. A viagem por sua mente é bastante interessante, tanto pela vida comum observada pela ótica ácida e auto-irônica inglesa quanto por sentimentos e sensações universais – o desamparo, a auto-indulgência e a auto-piedade, as análises mentais para encontrar o que, afinal, deu errado, não apenas no relacionamento , mas em toda a sua vida.

E esta vida revela elementos tão comuns e tão reais: os diálogos que não acabam bem e que ninguém nunca diz aquilo que gostaria que acontecem depois que se termina um relacionamento, as divagações mentais que ocorrem no meio de situações que deveriam ser sérias, a convivência com as pessoas de todos os dias e também à variedade caleidoscópica na qual a vida se divide: os assuntos domésticos, o trabalho, a família, os amigos, os hobbies, os sonhos.

É também um livro sobre crescer. Sobre recusar-se a abrir portas, a emitir opiniões, a fazer escolhas, e com isso ver sua vida estagnar, ao contrário das pessoas à sua volta. É sobre fazer escolhas e tomar decisões – e sobre saber que deixar de decidir também é uma forma de escolha. É sobre refletir sobre o caminho tomado e perceber que certas decisões são irreversíveis.

Crescer, abandonar o campo seguro da infância, depois o da adolescência e depois o da pós-adolescência é difícil, é doloroso, envolve tomar decisões, fazer escolhas e determinar o rumo da vida. Rob Fleming, o protagonista, é o pós-adolescente de 35 anos que se recusou a escolher, mas que também perdeu muito não tomando posição em relação à vida. Talvez as escolhas que são mais fáceis em vários aspectos não são as mais acertadas – e é com isso que ele precisa se ver, com o ultimato que se apresenta em sua frente. E assim é com todos nós.

Só agora pude tomar fôlego para essa viagem sobre mim mesma e principalmente sobre algumas pessoas que passaram por minha vida, apenas para dizer que eu namorei Rob Fleming, em mais de uma ocasião e forma. E que também tenho muito dele em mim mesma.

***

Pois é, não só de ficção fantástica vive o homem 😛

Até a próxima!

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9 Responses to Alta Fidelidade – Nick Hornby

  1. Piaza says:

    Tem filme? Nem sabia. Mas o livro parece muito bom, vou procurá-lo pra ler.

  2. Pedro Vieira says:

    Pô, que bom q vc gostou. O Hornby é um dos meus escritores preferidos. Recomendo efusivamente o A Long Way Down e (pra espairecer) o Polysillabic Spree.

    (Certamente não dá pra viver só de ficção fantástica. É bom lembrar q tem muita coisa foda sendo escrita pelo mainstream afora) 😛

    • Ana Carolina Silveira says:

      Gostei tanto de Alta Fidelidade que fiquei louca para ler os outros livros dele, lerei assim que der.
      E não é que eu não leia mainstream – eu até leio e se for fazer meu top 5 livros preferidos de todos, tem dois ou três mainstreams no meio – é que leio mais ficção fantástica mesmo. Ate preciso de umas indicações de uns mainstreams danados de bons, pq tenho medo de arriscar 😛 🙂

  3. Pingback: Retrospectiva 2010 | Leitura Escrita

  4. Pingback: Top 5: Músicas baseadas em livros | Leitura Escrita

  5. Luca says:

    Ana,

    Descobri seu blog hj.. e fiquei tão viciada quem já estou no mês 05!!
    Tenho uma dica, não sei se você já leu, mas vi referências a ele até agora: A solidão dos números primos, o qual eu nunca havia ouvido falar e comprei por que achei o título absurdamente inteligente.
    Triste, já vou avisando… mas sabe aqueles livros que fazem você de vaca? Ruminando todos os pedaços da sua vida, pra fazer uma auto-analise? Exatamente isso.

    Sem mais… rs

  6. Pingback: Retrospectiva 2011 « Leitura Escrita

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