Educação sentimental

Não, ao contrário do que o título possa indicar, não se trata de uma resenha do clássico de Flaubert. É a reunião de alguns pensamentos soltos sobre alguns assuntos que perpassam todos os assuntos e a vida geral das pessoas. A busca da satisfação dentro de relacionamentos, claro. Mais especificamente… sexo.

A noção que se vende de relacionamentos e sexo é tremendamente irreal, para homens e mulheres (a abordagem é um pouco diferente). O príncipe encantado, a gostosa tesuda, o relacionamento lindo e livre de problemas com a única alma gêmea… Sinto informar, eles não existem. A potência sexual perfeita: ela também não existe. E somos tão forçados a acreditar em certas coisas que a expectativa acerca de um relacionamento se torna tão irreal e impossível de ser realizada que logo se encaminha a um profundo mar de frustração.

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A Arte de Amar – Ovídio

Se há uma coisa em comum entre os dias atuais e os das pessoas de dois mil anos atrás (aliás, desde quando a primeira bactéria resolveu que reprodução sexuada era mais divertida do que reprodução assexuada) é a dificuldade para se conseguir um@ namorad@. Ciente da dificuldade dos jovens romanos, o poeta Ovídio resolveu escrever um guia ensinando-os a encontrar uma boa companhia.

Sim, isso mesmo! Uma das coisas que acho mais legais em ler textos antigos é perceber sua dose de atualidade. As pessoas de antigamente podem parecer épicas ou bárbaras, mas somos exatamente iguais a elas. A alma humana é a mesma: queremos conforto, temos dúvidas existenciais, preocupamo-nos com as pessoas próximas, refletimos sobre a vida e nos questionamos sobre o que vem depois. E, claro, nos preocupamos em saber com quem poderemos passar momentos românticos e agradáveis.

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Alta Fidelidade – Nick Hornby

A primeira coisa a dizer é que não assisti ao filme. Pela mesma razão que me levou a ler o livro agora.

Mas hein?

Explico. E perdoem a pessoalidade, mas por motivos bastante irônicos destes que só a vida apronta, o motivo se confunde com a própria trama do livro: meu primeiro namorado, anos atrás, era um nerd (aqui, o termo empregado como para definir uma tribo com certas características em comum, jamais de forma pejorativa) aficcionado por música, cujo filme preferido era… bom, adivinhem.

A trama é a seguinte: Rob Fleming, 35 anos, dono de uma lojinha de vinis em Londres, que respira música e tem um hobby no mínimo peculiar – fazer listas de top 5 diversas – acabou de levar um fora de sua namorada, Laura. E, talvez diferente da reação que ele mesmo esperava, o chão sumiu sob seus pés e o mundo desabou.

Uma ressalva sobre o livro vem aqui: requer uma dose de maturidade para ser lido. Requer ter tido sonhos estraçalhados por algo chamado Mundo Real, requer ter cometido escolhas erradas, requer experiências com relacionamentos e corações partidos. Claro que o leitor que não passou por nada disso poderá ler e ter uma boa experiência, mas sem esse background pessoal, acredito que a mensagem da obra seja dificilmente compreendida por completo.

Não é o primeiro livro do Nick Hornby que leio – o primeiro foi Slam (que, oh a vida, está com outro ex-namorado), do qual não gostei. Foi um livro planejado para o leitor mais jovem, mas sabem aquela sensação do tiozão querer ser adolescente de novo? Foi mais ou menos isso o que senti, apesar da história do livro ser até interessante. E, claro, milhares de referências pop gratuitas, que não compõem a trama com naturalidade e estão lá só pelo ar de descolado… iuck!!!

Alta Fidelidade veio para apagar a impressão ruim causada pelo livro anterior (pois é, nesse caso a segunda chance teve um final feliz). E, ao contrário do que pode parecer depois das informaçoes da contra-capa e das orelhas do livro, não está “cheio de referências pop”. Há, é óbvio, várias referências musicais – ora, o oxigênio de Rob se chama música, então como as coisas poderiam ser diferentes? – e a alguns filmes e ícones pop, mas todos eles dentro de contexto. Nada de amálgamas referenciais que estão lá apenas para causar e constar, mas o que está lá faz muito sentido dentro do contexto e compõe a narrativa.

E então acompanhamos a narrativa em primeira pessoa de Rob, machucado pelo fim do relacionamento mas que continua com suas atividades diárias. A viagem por sua mente é bastante interessante, tanto pela vida comum observada pela ótica ácida e auto-irônica inglesa quanto por sentimentos e sensações universais – o desamparo, a auto-indulgência e a auto-piedade, as análises mentais para encontrar o que, afinal, deu errado, não apenas no relacionamento , mas em toda a sua vida.

E esta vida revela elementos tão comuns e tão reais: os diálogos que não acabam bem e que ninguém nunca diz aquilo que gostaria que acontecem depois que se termina um relacionamento, as divagações mentais que ocorrem no meio de situações que deveriam ser sérias, a convivência com as pessoas de todos os dias e também à variedade caleidoscópica na qual a vida se divide: os assuntos domésticos, o trabalho, a família, os amigos, os hobbies, os sonhos.

É também um livro sobre crescer. Sobre recusar-se a abrir portas, a emitir opiniões, a fazer escolhas, e com isso ver sua vida estagnar, ao contrário das pessoas à sua volta. É sobre fazer escolhas e tomar decisões – e sobre saber que deixar de decidir também é uma forma de escolha. É sobre refletir sobre o caminho tomado e perceber que certas decisões são irreversíveis.

Crescer, abandonar o campo seguro da infância, depois o da adolescência e depois o da pós-adolescência é difícil, é doloroso, envolve tomar decisões, fazer escolhas e determinar o rumo da vida. Rob Fleming, o protagonista, é o pós-adolescente de 35 anos que se recusou a escolher, mas que também perdeu muito não tomando posição em relação à vida. Talvez as escolhas que são mais fáceis em vários aspectos não são as mais acertadas – e é com isso que ele precisa se ver, com o ultimato que se apresenta em sua frente. E assim é com todos nós.

Só agora pude tomar fôlego para essa viagem sobre mim mesma e principalmente sobre algumas pessoas que passaram por minha vida, apenas para dizer que eu namorei Rob Fleming, em mais de uma ocasião e forma. E que também tenho muito dele em mim mesma.

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Pois é, não só de ficção fantástica vive o homem 😛

Até a próxima!

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