Jogador nº1 – Ernest Cline

Na minha época (tudo bem, essa história de “na minha época” é coisa de velho saudosista, mas não sei começar de outra forma) nerd era xingamento. Aquelx menininhx meio esquisitinhx que sentava no fundo da sala e tinha gostos extravagantes era um risco de contaminação para todo um grupo de playboys praieiros e guerreiros. Lembro uma vez, eu com meus 16 aninhos na saída do colégio, conversando com duas coleguinhas: “gosto da Lisa Simpson, faria uma camiseta com a foto dela, escrito ‘nerd’”, para o olhar horrorizado de ambas. Só que os anos mudaram, veio a internet, veio The Big Bang Theory, os filmes de super-heróis e ser nerd virou bonito, cool. Virou uma tribo urbana com vestuário, linguajar e gostos próprios, como várias outras.

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O Baronato de Shoah: A Canção do Silêncio – José Roberto Vieira

Os videogames, como diversão eletrônica acessível, agradável e cativante, começaram a ser popularizados no inicinho da década de 80, com o primeiro console doméstico, o Atari. De lá para cá, os jogos foram ganhando em complexidade – gráfica e temática – e deixam, aos poucos, de ser vistos apenas como “diversão para crianças” para serem vistos como peças de narrativa em que o jogador pode participar do rumo da trama (bom, acho que já falei sobre isso antes…)

Uma geração inteira cresceu com os dedos apertando botões nos joysticks, acompanhando as histórias nas quais podiam interferir e se apegando aos personagens, dramas e desafios dos jogos. Esta geração, que já se aproxima dos 30 anos, cresceu, apareceu e agora afirma seu lugar como adulta e como parte do mundo e da construção cultural geral. E, logicamente, tendo crescido salvando Zelda, isso influenciaria também a forma de expressão do mundo (e o que é a literatura senão uma forma de se expressar?)

O Baronato de Shoah é um livro cuja inspiração explícita é o videogame, em especial os RPGs de console e mais especialmente ainda a série Final Fantasy (da qual voltarei a falar aqui algum dia). Também dá para ver uma grande influência dos animes (em especial Full Metal Alchemist, que você pode ter uma palhinha de como é AQUI e AQUI), o que demonstra bem as influências de um autor que cresceu nas décadas de 80 e 90.

Mas deixando as referências de lado, vamos falar da história.

Era uma vez o continente de Nordara e o Baronato de Shoah, terra onde, séculos atrás, os Titãs foram vencidos pelos bnei shoah, guerreiros de elite, em oposição aos ggoym, que não lutaram e nos dias atuais carregam uma pecha de covardia por isso. Os bnei shoah tornaram-se então uma espécie de aristocracia e vários de seus jovens são treinados, desde a tenra idade, para a manutenção do exército, encaminhado de acordo com cada um de seus dons (os dons e seus nomes são livremente inspirados na Cabala e mitologia hebraica em geral – então esperem por um tempero bastante diferente para essa aventura. Na verdade, “Kabalah” é até mesmo o nome da tropa de elite do Baronato).

E segue a história de Sehn Hadjakkis, cujos pais são guerreiros extraordinários da Kabalah, fazendo com que as expectativas sobre ele fossem altíssimas. Ele namora Maya, que apesar de ggoym vem de uma família bastante rica, mas a diferença de “castas” os impede de ficarem juntos. Ambos os adolescentes juram amor eterno e partem para seus destinos, ele para o treinamento para ingressar a Kabalah, ela para se casar com algum noivo escolhido pela sua família.

Sehn conhece então o grupo de amigos que fará parte integrante de sua vida, em especial Edgar – que também terá papel importantíssimo no decorrer da história.  Nessa primeira parte da história, talvez pela quantidade de termos exóticos e de personagens que precisam ser apresentados, além da inevitável infodump sobre o cenário e suas peculiaridades, a linha narrativa do Sehn ficou bastante confusa – e a da Maya muito mais interessante (já que ela não é o tipo de moça que ficará sentada esperando os desígnios de sua família sobre seu futuro, – apesar de que a personagem, balanceada no começo da história, pende para o caricatural em seu desenvolvimento). Isso é corrigido na segunda parte da história, principalmente depois que os planos dos vilões são revelados, os personagens são melhor integrados e a linha narrativa de Sehn ganha agilidade.

Quanto à terceira parte, dá para sentir alguns problemas, como a pequena passagem da personagem Minerva – que não acrescenta em nada à trama – e alguma confusão no capítulo final  – onde achei que se as coisas se estendessem por mais umas 10 ou 15 páginas, a situação se desenrolaria de forma menos atropelada. É de se levar em consideração que é o primeiro livro do autor e que o livro é o primeiro volume de uma série (o que perdoa a necessidade de bastante infodump para ambientação)

Claro, essas são falhas que me saltaram aos olhos, mas nenhuma delas prejudica o bom desenvolvimento da leitura ou a compreensão global dos eventos. Além disso, ainda mais se você jogou Final Fantasy, todo o clima de videogame traz um bônus a mais e um sorriso no rosto da narrativa (ainda mais levando em consideração que a dinâmica Sehn-Edgar lembra BASTANTE a dupla abaixo, e Tesla também tem um tempero de vilões loucos da série como Kefka ou Kuja)

E tem, é claro, o cenário steampunk fantástico, bem legal de se ver. Porque a estética steampunk (e mesmo a parte política/crítica social) não precisa estar atada ao planeta Terra, não é mesmo? 🙂 E dá-lhe dirigíveis voadores, espadarmas, um combustível alternativo (a Névoa) e até mesmo robôs gigantes 😀  A construção de mundo, bem diferente do high fantasy clássico, é algo bem legal de se ver.

Enfim. Excelente homenagem aos videogames, aos animes e amostras de uma fantasia que pode ter temperos diferentes e também ser o reflexo de novas mídias e histórias.

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Até a próxima!

Estão preparados para o presente? – Videogames e narrativa

Hoje, vamos a um post que difere um pouco das resenhas do blog, bem como sobre a temática principal, que é a literatura, mas que vai para uma arte que a tange, a dá substância e sentido: contar histórias.

Qual é uma das formas mais atuais – e subestimada, no mais das vezes! – de se contar uma história nos dias de hoje? Através, é claro, dos jogos eletrônicos. Aqui, primeiramente, antes de prosseguirmos, gostaria de fazer algumas ressalvas. Primeiro: a função precípua de um videogame, obviamente, é o entertenimento. Ou alguém aí enxerga algo além disso em jogos como Space Invaders ou Winning Eleven, dentre muitos outros?

Segundo: não estou querendo aqui igualar literatura e videogame. É tão sem pé nem cabeça quando igualar literatura e cinema, literatura e música ou mesmo literatura e quadrinhos. São mídias diferentes, formatos diferentes, sentidos diferentes a serem despertados, reações diferentes a serem alcançadas.

E, terceiro, vocês, meus leitores, são pessoas cultas o suficiente para estarem cientes que videogames não são coisa só para crianças. De forma alguma. A indústria de jogos é tão segmentada quanto qualquer outra, existem jogos planejados tanto para crianças quanto para adultos (claro, se você acha que jogos como GTA foram feitos para crianças de oito anos jogarem… Sei lá, também não teriam problemas em deixar seus filhos de oito anos lerem Anais Nin, Clive Barker ou Thomas Harris… )

Videogame é uma das formas modernas e populares de entretenimento. É possível ver consoles, dos mais antigos aos mais atuais – e mesmo jogos para computador, por que não? – em todas as classes sociais e em todas as faixas de idade. É uma forma de diversão inteligente – pois é, saudosistas, quebrar a cuca às vezes por dias para resolver um mistério ou procurar um caminho para passar de uma determinada fase pode ser tão ou mais desafiante, desenvolver tão e mais conexões cerebrais, criatividade, imaginação e jogo de cintura do que fazer um boizinho de chuchu ou um telefone de latas…

E qual é a base do videogame? Você, jogador, é o protagonista da história, e a partir de seus olhos comandará a história. Pode ser algo bem simples, como derrotar todos os monstros e salvar a princesa da torre, mas também pode envolver uma trama complexa, com vários quebra-cabeças e reviravoltas, nas quais você pouco sabe sobre si mesmo, sobre seu mundo e sua missão, que se desvelarão aos poucos.

Para que toda a trama se desvende, será necessário a você, protagonista, buscar pelas pistas, conversar com as pessoas corretas, procurar aliados, evitar inimigos e vencer desafios que levarão à conclusão da missão. Em um mundo sob sua perspectiva, onde suas ações determinarão, sob certos parâmetros, quais serão os rumos da trama. Onde há tramas paralelas que estão ali para serem resolvidas, em que o cenário pode ser explorado, onde há trilha sonora. O jogador, certamente, tem um papel muito mais ativo na construção da trama do que se estivesse meramente lendo ou assistindo. O protagonista vivencia a trama.

E aqui fica a questão para quem se propõe a escrever: como ser tão interessante a um jovem leitor do que um jogo que ele possa protagonizar? Claro, novamente, a experiência de ler um livro é totalmente diferente daquela de jogar um jogo, não são mutuamente exclusivas, mas como atrair alguém para a leitura, em um mundo de interatividade?

Onde cada mínimo passo do protagonista pode ser acompanhado, onde sua arma pode ser forjada, onde o desafio de matar um dragão (ou qualquer outro adversário trazido pela trama) não está descrito, mas deve ser executado ali para que a trama se desenvolva, o enigma que deve ser resolvido para que tudo avance… Talvez por isso um jogo seja tão envolvente, pela oportunidade de ser, você mesmo, o centro de toda a ação e o catalisador dos acontecimentos.

Essa consciência do “contar e construir uma história” está presente em vários jogos, dos mais diferentes estilos. Inclusive, alguns jogos possuem tramas mais complexas e bem-trabalhadas do que muitos livros. Cito como exemplo aqui Final Fantasy VI – uma das melhores tramas e construção de personagens que já vi em qualquer mídia. Enfim, uma das histórias mais bem-trabalhadas e contadas que já vi.

Autores, não desprezem a narrativa dos videogames, como não devem desprezar o cinema e os quadrinhos. Há muito a ser ensinado e aproveitado em termos de narrativa, temática e dinâmica. Leitores-jogadores: saibam apreciar uma boa história onde quer que a encontrem, dispam-se de seus preconceitos. Jogar um bom jogo pode ser uma experiência tão recompensadora quanto ler um bom livro.

Há muito que ainda poderia ser dito para o tema mas, por hoje, encerrarei com dois vídeos, da cena mais tocante que já vi em um videogame, em sua versão original e no remake feito em computação gráfica.

Até a próxima! E os comentários estão livres, lá em cima!

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