Histórias da Noite Carioca – Eric Novello

Inicialmente, cabe a consideração sobre o quão mais fácil é resenhar uma pessoa que esteja fisicamente e temporalmente distante de você do que uma próxima.

Não ando lendo muita coisa fora da ficção especulativa ultimamente. Para ser muito sincera, não estou por dentro da literatura “mainstream” (o termo aqui entre aspas, no seu significado literal de “corrente principal”, de literatura contemporânea sem gênero), de quem são os nomes fortes hoje e o que eles estão escrevendo. Gosto muito de ler clássicos e alguns autores consagrados do século XX, mas hesito um pouco antes de arriscar coisas novas sem saber se serão do meu gosto ou não. Talvez já tenha mencionado isso anteriormente, para quem acompanha o blog.

Recentemente, o amigo Eric Novello (honorável administrador do Fantastik e participante do Aguarrás) me enviou seu livro Histórias da Noite Carioca, literatura mainstream atualíssima, leve e de fácil leitura.

Trata-se da história de Lucas Moginie, um jovem escritor de relativo sucesso que recebe um ultimato de sua editora: ele precisa entregar o original de seu novo romance o mais rápido possível. Mas há um pequenino problema: Lucas está sofrendo de um leve e ligeiro bloqueio criativo… E, talvez por esse bloqueio ou por uma dessas grandes coincidências da vida, uma pessoa importante de seu passado bate à porta, e há alguns assuntos que ficaram com sua solução pendente.

Então o leitor acompanha através da narrativa em primeira pessoa a rotina de Lucas em sua busca pelo precioso tema e sua vida cotidiana, com personagens como os vizinhos sexualmente excêntricos, os amigos amalucados e a paisagem carioca, com suas ruas, praias, praças, parques e barzinhos.

E o ponto principal do livro, na minha opinião: tudo narrado com o mais fino humor irônico. Ironia é algo que muitos tentam, mas poucos conseguem fazer de maneira satisfatória, ainda mais quando o objetivo é auto-ironizar-se e também às pequenas coisas da vida, como relações de vizinhança ou o café da manhã.

É um relato sobre o desespero de cumprir um prazo (e qualquer um que, como eu, trabalhe com prazos fatais, sabe que beleza é isso), mas também de revisitar um passado mal-resolvido, com todas as consequências que isso pode trazer.

E tudo chega a uma conclusão: o livro, o passado, a vida. De uma forma atropelada e talvez até mesmo inusitada, mas de vez em quando todos nós somos pegos em armadilhas que não conseguimos antever.

Enfim, é um belo passeio pelas noites cariocas de Lucas Moginie, em um livro bem gostoso de ser lido.

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Nevasca – Neal Stephenson

Continuando a minha epopéia de fim de ano, resolvi escolher algum livro para comprar e me livrar do tédio dos dias chuvosos ininterruptos. Pensei que fosse reviver Atlântida – ou o Dilúvio…

Enfim, dentre a infinidade de possibilidades, resolvi levar algo para experimentar. Ouvi comentários muito bons sobre o livro Nevasca na comunidade do orkut Ficção Científica e, como estava custando um valor que eu estava disposta a pagar, acabei levando.

Antes de falar sobre o livro, uma reflexão: dizem que os artistas têm o poder de antever as tendências antes que elas se cristalizem no mundo real. Neal Stephenson faz isso de uma forma brilhante. No começo, pensei: “um jogador de Second Life que está fazendo do jogo um cenário pra sua obra”. Mas daí atinei que o livro foi escrito em… 1992. Lá, o potencial comercial da internet começava a ser conhecido, mas ainda não houvera a guerra dos navegadores, a popularização da banda larga, os avanços em tecnologia, o Google… era inimaginável. Quanto mais a viabilidade, acessibilidade e popularidade de um programa como o Second Life. Outra coisa que achei interessante é que, em determinado ponto da obra, Hiro, o protagonista, utiliza-se de um programinha bem parecido com o Google Earth…

Mas enfim. Comecei a ler o livro, achei o primeiro capítulo uma das coisas mais estranhas e confusas nas quais tive o prazer de pôr os olhos nos últimos tempos. Respirei fundo e pensei: “gastei 49 reais nesse livro, não vou me dar ao luxo de parar de ler na página 10…”.
Creio que foi a linguagem – jogada e extremamente blogueira, como uma conversa entre dois pós-adolescentes de alguma tribo urbana. No caso, como dois geeks, ou mesmo gamers. Talvez também um mundo que me causou uma estranheza extrema: a máfia entregando pizza???

Continuei a ler. Bom, a realidade, onde o Estado sofreu uma modificação brutal e agora as pessoas moram em cidades-estado franqueadas, me pareceu pueril, enquanto o Metaverso – o Second Life de lá, mas muito mais abrangente – me parecia extremamente real. Nesta realidade, acompanhamos Hiro – hacker e entregador de pizza – e Y.T. – uma menina estranha e courier, uma cruza entre office boy e skatista – na investigação sobre a Snow Crash – droga que pode trazer o colapso à civilização.

Dá para perceber que o autor pesquisou para escrever esse livro. Não apenas sobre tecnologia, mas com certeza deu uma boa pesquisada em semiótica, teoria da linguagem e história antiga também. Provavelmente também deve ter lido a teoria dos memes, de Richard Dawkins, ao elaborar sua própria teoria. E esse é um ponto que conta a favor da obra – o cuidado com a explicação ao leitor, o que a torna factível.

Achei muito interessante a associação entre a linguagem de programação de computadores com a linguagem humana, com a Babel humana. Só estranhei que ele não chegou na parte mais básica: a vida, como um programa de computador, parte da transcrição de uma linguagem quase binária – a transcrição do DNA e do RNA. São basicamente os zeros e uns onde nos escoramos para sermos nós, um cachorrinho bonitinho ou uma planta.

Mas enfim, o começo que não é muito animador – mas que logo se converte em um meio bastante animado – volta mais para o fim. O desfecho é corrido, achei de uma confusão desnecessária. Apesar do ritmo de brainstorm da história, achei algumas passagens forçadas e outras mal-aproveitadas. Quando Hiro explica os resultados de sua pesquisa, mais pra frente – ele sempre foi de poucas palavras e meio bobo para se articular e então de repente ele consegue demonstrar um conhecimento articulado e quase enciclopédico para seus companheiros? E mesmo o finalzinho, achei muito… sei lá. Jogado. O autor poderia ter trabalhado um pouquinho mais…

Só que não há como negar. Y.T. é irresistível…

Recomendo a leitura principalmente se o leitor sacar um pouco de programação E cultura geral. Vai rir bastante das referências. Fora isso, se gostar de um bom cyberpunk (apesar da obra não ser exatamente cyberpunk).

Diários de Nanny – Emma Mclaughlin e Nicola Kraus

Cometi um erro fatal neste fim de ano.
Deixei o maravilhoso romance que estava lendo em casa (não revelarei seu nome ainda, mas ele gerará uma das mais caprichadas resenhas deste blog) e trouxe para meu feriado dois livros técnicos. Só esqueci de um detalhe: ler sobre jurisdição e sobre processo civil brasileiro contemporâneo exige um certo preparo mental, não só a vontade de relaxar e viajar.
Resultado: depois de passar uma noite fazendo auditoria de um jogo de buraco (!) e ouvindo o especial do Roberto Carlos na televisão (!!!), percebi que as coisas não iam bem. Isso sem contar a longa conversa sobre teologia com o porteiro do Atlético

Minha amiga Mariana, solidária com minha situação, me emprestou alguns livros para que meus dias pudessem ser melhor preenchidos, dentre os quais Diários de Nanny. Como ela disse: “é um livro legal, foge daquele estereótipo de cinderela”.

Acredito que a literatura e a culinária se aproximam em vários pontos, então sempre recorro a analogias gastronômicas para explicar certos pontos. Pois então. Sabem aqueles dias em que tudo o que você quer jantar é o enroladinho de presunto e queijo da cantina da universidade? Pois então. Da mesma forma, há dias em que desejamos ler um livro leve e sem grandes pretensões literárias.

Nanny é uma universitária precisando de grana e, para arrecadá-la, ela se torna babá de um adorável garotinho filho de uma família de alta sociedade de Nova York. Claro, o garotinho Grayer não será a única pessoa de quem ela cuidará naquela casa, afinal sua mãe, uma madame de alta sociedade que sabe-se lá por qual razão teve um filho, também precisa de cuidados.

Não há o estereótipo da cinderela, ela não se apaixona pelo patrão (que é um ninfomaníaco safado, por sinal), mas há vários outros, como o da ricaça fútil e incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz, o do ricaço ausente e colecionador de amantes e a da pobre criança perdida no meio desses adultos. Claro, ela come o pão que o diabo amassou no emprego, e o final merecia ser melhor.

As autoras se apresentam como ex-babás e dizem que o livro é uma sátira sobre aquilo que tiveram de aguentar em seu trabalho e sobre o fato de pessoas que delegam a criação de seus filhos a outras pessoas.

Mas o livro me tocou. Fiquei pensando no pobre garotinho e seus pais que sabe-se lá porque tiveram um filho, talvez para apresentá-lo à sociedade como um brinquedo de luxo. Quase o vi adolescente virando hippie, eco-terrorista, drogado ou qualquer outra coisa apenas para chamar a atenção de seus pais, que o levariam a batalhões de psicólogos e terapeutas sem saber que o que lhe falta é o mais essencial. Pensei que infelizmente é uma realidade que também vivemos aqui, também próxima demais. Tenho muita pena dessas crianças e muito medo do que elas poderão se tornar no futuro.

Enfim, valeu a leitura, serviu ao seu propósito de entretenimento e ainda provocou reflexão, ora vejam só!

(P.S.: Caso algum dia visitem a UFV, reservem um tempo para provarem algum salgadinho do DCE. Compensa trocar alguns jantares por eles de vez em quando).