A Lista Negra – Jennifer Brown

Não sei se o pessoal mais novo que frequenta o blog se lembra do impacto do massacre de Columbine, ocorrido nos EUA em abril de 1999. Dois amigos armados até os dentes abriram fogo contra os colegas de turma em seu colégio, matando vários deles e ferindo outros tantos, para por fim se suicidarem. Foi uma situação terrível e a pergunta subsequente e inevitável: por quê?

Alguns poucos anos depois e experiências traumáticas no colegial, um belo dia percebi que sabia, lá no fundinho da minha consciência, exatamente o porquê deles terem tomado tal atitude. O ódio que o oprimido na ambiente escolar sente, como sua resistência vai sendo minada pouco a pouco, como a rejeição e a depressão andam de mãos dadas. E mais: como os adultos se omitem, em qualquer caso, como aquele que deveria tomar uma providência não a toma. Se você é mais pirado/influenciável, em uma época difícil e numa cultura armamentista (ver o maravilhoso documentário Tiros em Columbine, por Michael Moore, para maiores detalhes sobre isso)

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O Psicopata Americano – Bret Easton Ellis

Este é um livro… difícil de se começar a falar. Um livro difícil de se ler, também, por vários motivos (o primeiro e mais óbvio deles é a estilística, o autor tem obsessão – e por tabela o narrador, mas exploraremos isso mais tarde – de dar os mínimos detalhes sobre roupas, ruas, casas, marcas, menus… absolutamente tudo, o segundo é que a falta de propriamente uma narrativa na trama acaba por tornar o livro grande demais e meio enfadonho – de acordo com meus cálculos li uns quatro ou cinco livros em concomitante com este, quando não aguentava mais – e o terceiro é que na medida em que a trama avança, a violência se torna cada vez mais explícita e exagerada). Mas, pelo amor ao desafio, vamos lá.

A psicopatia, em resumo, é um transtorno psiquiátrico que representa a falta de empatia pelas outras pessoas ao seu redor (e que leva a frieza, insensibilidade, manipulação, egocentrismo…). Como toda doença, existem gradações, claro, e só uma minoria dos psicopatas se tornam assassinos seriais. Curioso que essa falta de sentimentos, segundo pesquisas, faz com que psicopatas sejam pessoas extremamente bem-sucedidas em suas profissões, já que não tem escrúpulos para subir na carreira…

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Minha Querida Sputnik – Haruki Murakami

(Curioso. Acho que nunca antes na história desse blog um autor tinha ganhado resenhas de dois livros diferentes num espaço tão curto de tempo…).

Segundo livro do Haruki Murakami que leio (e certamente haverá muito mais, pois me apaixonei pelo autor). Novamente aqui, uma história universal sobre o desconforto de crescer e sentir-se isolado, um tema que ele retomou em After Dark (até curioso perceber a evolução narrativa de um livro para o outro. Minha Querida Sputnik é de 1999 e After Dark de 2004, então várias arestas estilísticas puderam ser aparadas). Um ponto que achei interessante nesse livro é que, apesar da trama melancólica, o cenário é colorido e agradável, partindo até mesmo para uma descrição bem vívida e real das ilhas gregas e de cidadezinhas francesas.

De certa maneira, há um liame temático entre esta resenha e a do livro anterior, por mais que as tramas e seu desenvolvimento sejam bem diferentes entre si. Ambos têm por protagonistas pessoas nos seus vinte e poucos anos, completamente perdidas, e que tem de se haver com alguns traumas do crescimento.

Aqui, conhecemos Sumire, jovem, desleixada com sua aparência, que entrou na faculdade de Letras mas largou-a por ver que aquilo não a ajudaria a realizar seu sonho: ser escritora de sucesso. Há um acordo com seus pais: eles a sustentarão até que atinja 27 anos, nem um dia a mais, então é bom que ela se encontre até essa data, mas até o ponto em que a história começa, a jovem não parece fazer muito para realizar seu próprio sonho.

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Os Magos – Lev Grossman

Meses atrás, em um desses momentos de indecisão sobre a próxima leitura e conversando sobre indicações de livros, meu correspondente gaúcho me indicou um dos seus livros preferidos, que havia lhe impactado bastante quando lido: Os Magos, de Lev Grossman.

A recomendação e a temática do livro (uma fantasia passada no mundo real, nos tempos atuais, com uma pegada mais adulta, além de estar um pouco distante da “modinha” fantástica) me convenceram a dar uma chance ao livro –  e ele acabou trazendo um conteúdo um pouco diferente daquele que eu imaginava encontrar.

Essa é a história de Quentin, um adolescente normal, com tendências nerds, solitário e dotado de inteligência acima da média que, um belo dia, graças a uma série de eventos estranhos, é convidado a frequentar a Universidade Mágica de Brakebills. Claro, até aquele presente momento, ele não sabia da existência de mágica no mundo, apesar de seu apego aos livros infantis passados no lindo, mágico e idílico mundo de Fillory que ele sempre quis visitar. (e aqui entra uma referência explícita e óbvia a Nárnia, mas também, e por que não, à Terra do Nunca, referência que fica mais clara com o subtexto em mente, mas já chegamos lá).

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After Dark (Após o Anoitecer) – Haruki Murakami

A madrugada, aquelas horas em que a agitação da cidade se foi, em que o reino da escuridão se adensa, as estrelas brilham e o silêncio impera, é uma hora do dia bastante peculiar em seus personagens e acontecimentos. É a transição entre os que dormem tarde e os que acordam cedo, musa maior dos notívagos e a guardiã de todos aqueles apreciadores das horas sem luz. É quase uma realidade paralela, onde as regras se modificam e as coisas se apresentam de formas um pouco diferente.

Este é um livro sobre a madrugada, onde ela é a personagem principal – e de algumas pessoas que, pelos mais diversos motivos, estão perdidas na noite.

Mas antes de falar da trama em si, um pouco do autor. O Haruki Murakami (que, como o nome indica, é japonês) é um dos mais incensados autores contemporâneos e a ficção dele tabém está no limiar entre o mainstream e o fantástico – e este limiar é ultrapassado com frequência, as coisas mais estranhas, na obra dele, são banais, fazem parte da realidade. Mas, ao contrário do Neon Azul, por exemplo (e leiam a resenha para saberem mais sobre onde o mainstream e a fantasia se mesclam), este livro tende mais ao mainstream mesmo. A estranheza, quando ocorre, é tão onírica que pode muito bem ter sido mesmo um sonho ou um jogo de cena, uma brincadeira narrativa.

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Neon Azul – Eric Novello

A Literatura é uma coisa só, colocando debaixo de seu guarda-chuva todos os gêneros, sem preconceito por este ou aquele. Alguns dos clássicos universais são fantásticos, outros são thrillers, outros romances psicológicos, outras narrativas simples daquilo denominado como “mainstream”.

Mainstream, nesse contexto, significa mais ou menos a linha mestra principal, geral e genérica de uma manifestação artística. É o romance que não pertence a um gênero e o que se costuma definir erroneamente como toda a literatura.

Quando se está perto do gênero, parece que existe a dicotomia entre ele e o mainstream (para ficar em minhas preferências pessoas, literatura fantástica), que são ideias imiscíveis como água e óleo, como polos iguais de um ímã que se repelem. Só que essa dicotomia não existe: mainstream e gênero se complementam, se tocam, se influenciam.

Não é apenas a boate que dá titulo ao romance Neon Azul que está no limiar entre o mundo real e o sonho: o livro também está entre o mainstream e a fantasia. É o diálogo entre o gênero e a generalidade, um romance fantástico com toques do noir e do contemporâneo – ou um romance noir e contemporâneo com toques fantásticos? Fica para o leitor decidir.

O romance tem a estrutura fix-up, ou seja, são contos independentes entre si, que podem ser lidos em qualquer ordem e que se encerram em si mesmos, mas que lidos em conjunto formam uma trama. O livro trata da história da Neon Azul, uma boate diferente perdida no centro do Rio de Janeiro, e cada conto trata da vida de uma pessoa que orbita o bar, seja funcionário ou cliente.

O Neon Azul parece atrair pessoas perdidas – tanto aquelas sem rumo quanto as que encontraram o rumo da perdição. É como se o bar estivesse naquele limiar entre o real e o sonho, onde o impossível acontece de forma natural e onde as coisas mudam de forma se você para de prestar a atenção nelas. O Neon tem a lógica dos sonhos, onde os desejos se tornam intensos e estão ao alcance de um toque – entretanto, aqui, há um preço a se pagar pela satisfação da vontade.

Os contos são noir e, ao contrário do humor irônico de Histórias da Noite Carioca, aqui a melancolia é onipresente, bem como a sensação de aniquilação e de fatalidade. Não é um livro sobre escolhas fáceis ou finais felizes e redentores, mas sobre aqueles que já perderam tudo – o orgulho, a saúde, a sanidade. Há também aqueles que querem entrar num mundo que glamourizam, mas que mostra todos os seus tons de negro à medida em que se aprofundam.

Talvez o conto de abertura seja aquele que mais destoe dos outros: a solução do conflito é uma catarse parecida com aquela do filme Dogville, solução essa que não ocorre da mesma forma nos outros contos. Não são contos para estômagos fracos e sensíveis – sexo, drogas, assassinato, desejos perdidos e encontrados.

A parte fantástica é bem sutil, apesar de onipresente (e tenho no mínimo três teorias pessoas para a identidade d’O Homem). Tempo e espaço são apenas convenções que podem ser facilmente burladas, pessoas atravessam espelhos e guardam seres mágicos em garrafas. E o fantástico aqui é real, não metáfora ou fábula. Faz parte e compõe o universo onírico do bar. Por isso talvez seja muito mais mainstream com toques fantásticos do que fantástico escrito com a contemporaneidade mainstream.

É uma leitura altamente recomendada e, sinceramente, o melhor livro que li este ano (sorry, mr. Gaiman).

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Até a próxima!

 

Morto Até O Anoitecer – Charlaine Harris

Desde que ouvi falar na série True Blood, lá pelo comecinho de 2009 quando a febre já tinha estourado – e quando eu saí do meu exílio intelectual do meu ano de formatura – fiquei interessadíssima na premissa, uma história de vampiros com doses de terror, romance e modernidade. Vi um episódio solto quando ainda tinha HBO em casa (não tenho mais, buaaaa), adorei o climão e assim que saiu o box da primeira temporada, comprei e assisti de uma vez só. Fazia tempo que não me sentia tão envolvida com a trama e os personagens de uma série, além de que HBO é HBO, né? Elenco bem escalado, produção caprichada, música boa…

E a série de TV é baseada numa série de livros, As Crônicas dos Vampiros Sulistas, da autora Charlaine Harris. A protagonista da série é Sookie Stackhouse, uma moça de 25 anos simpática, sorridente e com a pequena peculiaridade de ler a mente das pessoas, e as histórias são contadas por ela, em primeira pessoa.

Desde ano passado estava querendo comprar o primeiro volume da série, Morto Até o Anoitecer, em português, mas a primeira edição lançada pela Ediouro (com a capa original fofinha!) tinha esgotado e até em sebos estava difícil de encontrar. Só que a Ediouro lançou uma segunda edição – que também já deve estar esgotando rapidinho, porque é meio complicada de encontrar – e no meu mais recente passeio ao meu parque de diversões predileto comprei o último exemplar da loja.

Não é a primeira vez que trato de livros de vampiros e de romance sobrenatural de vampiros aqui no blog, como vocês podem relembrar aqui e aqui. Só que esse é um pouquinho diferente dos outros… Tem romance? Tem. Mas é um ponto de convergência fortíssimo entre dois subgêneros do fantástico: o romance sobrenatural e a fantasia urbana. Não entrarei em detalhes sobre ambos agora, mas basta dizer que esse é um livro para quem gosta de romances e também para quem gosta de histórias de vampiros.

Sookie é uma garçonete que mora em Bon Temps, cidadezinha do interior da Louisianna – que é o lugar mais mágico de todos os EUA – onde nada de muito interessante acontece, até o belo dia em que um vampiro aparece. Os vampiros vieram a público há dois anos, quando os japoneses desenvolveram sangue sintético engarrafado e permitiram que essa minoria revelasse para o mundo sua existência e requeresse seus direitos.

Claro, nós descobrimos que Bill Compton é um vampiro na SEGUNDA página do livro, então nada de centenas de páginas de Sookie especulando qual criatura misteriosa é aquele bonitão inesperado que apareceu na sua vida. E dá-lhe ironias e referências aos romances de vampiro e romance sobrenatural em geral, e autoras como Anne Rice em particular.

E não só a ironia: os vampiros são uma minoria social que deseja aceitação e representatividade – e quantas não são as minorias reais que desejam o mesmo? Esse ponto é mais forte na minissérie do que no primeiro livro, que só tangencia a questão da aceitação e do preconceito de levinho, mas cabe dizer que a base do desfecho é justamente essa.

Ah, dois pontos de ter visto a minissérie antes: a minha concepção dos personagens é a feição dos atores da série – a Sookie é a Anna Paquin e o Bill o Stephen Moyer – e eu já sabia mais ou menos o que aconteceria. Claro, na minissérie há detalhes a mais e a menos, algumas coisas são modificadas e outras, que só acontecem mais pra frente na série de livros, já aparecem na primeira temporada. Mas são experiências diferentes e complementares, não excludentes.

O mundo de Bon Temps é revelado aos pouquinhos e não são apenas os vampiros que o habitam, mas também outras criaturas mágicas. E os vampiros, bom que se diga, não são góticos bebedores de sangue ou criaturas pasteurizadas e boazinhas: são monstros. Claro, alguns são éticos e tentam se misturar e viver bem com os humanos, como Bill, outros são cínicos e não fazem questão de conviver com humanos fora da hora das refeições mas também não querem cometer crimes à toa,  como Eric, ou máquinas de caos e morte, como Diane e Malcolm. Quanto à caracterização deles, a autora está mais próxima de Bram Stocker e dos livros de terror e ação do que do romance sobrenatural.

Quanto ao romance… Sookie e Bill se apaixonam – ela porque não consegue ler a mente dele, e isso a deixa em paz, ele porque a acha uma criaturinha interessante -, namoram, fazem sexo, bastante sexo, trocam declarações de amor, tudo aquilo que convém a um casal de namorados, mas nada de melodramas como “esperei por você por toda a eternidade”, “você é meu amor verdadeiro”, “você é minha alma gêmea”, “nunca senti por ninguém o que sinto por você” e bombas de glicose do gênero. É um casal normal de pessoas que se atraem mutuamente e gostam da companhia uma da outra – um relacionamento mais adulto. Para mim, é um modelo de romance muito mais agradável e que faz muito mais sentido do que o clássico do romance sobrenatural.

Enfim, é um livro de leitura rápida, gostosa e divertida. Com certeza não me lembrarei dele pro resto da vida, mas recomendo enfaticamente! Um excelente conto de terror, mas situado na atualidade e em seus problemas e com uma boa e generosa pitada de erotismo!

p.s.1: Fiz uma experiência no skoob e fiz histórico de leitura desse livro. Confira o resultado aqui!

p.s.2: Os dois livros seguintes da série, Vampiros em Dallas e Clube dos Vampiros, já estão disponíveis em português!

p.s.3: Sookie lê os pensamentos de todos, menos os de Bill, a pele dos vampiros é mais brilhante do que a das demais pessoas… e Morto Até O Anoitecer foi lançado em 2000. Então decidam vocês quem inspirou quem, ou se é só uma coincidência…

p.s.4: Desde o seriado, sempre visualizei a Sookie como Olive, a protagonista do jogo Princess Maker II, dizendo “Hello, Mr. Vampire! ^^”

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Até a próxima!

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American Gods (Deuses Americanos) – Neil Gaiman

Continuando minha sina com Neil Gaiman – e com uma ligeira ajuda de Percy Jackson, vá lá, que tem uma temática um pouco tangencial – resolvi ler Deuses Americanos. Primeiro, para ver como o tema dos deuses antigos vivendo nos dias atuais nos Estados Unidos seria tratado por uma ótica mais adulta e segundo, por este ser considerado o melhor romance do autor.

Porque Neil Gaiman é um dos grandes escritores contemporâneos de ficção fantástica – e talvez o mais conhecido e popular deles. É referência obrigatória a qualquer um que queira conhecer o gênero e sua produção atual. Ele é um grande arquiteto de cenários e premissas, o que dá para reconhecer desde Sandman e em seus demais trabalhos, mas peca um pouco ao explorar todo o potencial de seus cenários, situações e personagens.

Comecei a leitura de Deuses Americanos trazendo comigo essa decepção dos trabalhos anteriores do autor: belíssimo cenário e trama inovadora e rica, mas pouco desenvolvimento.

(e, bom que se explique, “American Gods” porque li o original. O livro saiu no Brasil pela Conrad no começo da década, a edição esgotou e a editora passou por reformulação – ou seja, existe edição em português, mas rara e de difícil acesso.. Espero que alguma outra editora anime-se a comprar os direitos do Gaiman e republicar o livro, quem sabe?).

O livro narra a história de Shadow, um homem soturno que, ao sair de uma temporada na cadeia, é contratado pelo misterioso mr. Wednesday para ser seu segurança e fazer alguns outros tipos de servicinhos, pois uma Grande Tempestade se avizinha no horizonte, a luta final dos deuses novos e antigos pela posse dos Estados Unidos.

E então Shadow vai conhecendo deuses e deusas, alguns melancólicos, outros nem tanto, que saíram de suas terras natais nos corações e mentes de seus fiéis e foram para os Estados Unidos, mas agora estão sendo esquecidos e trocados por deuses mais modernos – a Televisão, a Informática, a Metrópole. À medida em que se mete com tramas celestiais e divinas, sua vida também vai sendo posta em risco e ele precisa tomar parte na batalha, tornando as coisas um pouco mais pessoais.

A reflexão da perda da tradição pelo consumismo é interessante. Não são apenas nossos deuses que trazemos conosco – e o alimento dos deuses é a prece, a lembrança, se os fiéis não oram mais e eles caem no esquecimento, são mortos – mas também nossas pequenas crenças pessoais, manias, danças, canções… Nossa cultura. Claro que a tradição cultural não é estática, cada invenção nova, ou cada contato entre povos, faz com que as coisas se alterem, mas ver sua cultura retirada de si é tão mortal quanto a retirada de uma planta do solo.

Claro, ÓBVIO que com isso não digo que a tecnologia, a mídia e a sociedade contemporânea são prejudiciais per se, mas anular a herança cultural por completo e consumir enlatados e empacotados só pode redundar em morte. O “american way of life” pode ter seus encantos, mas qual o preço a pagar pela renúncia das tradições antigas?

No decorrer da trama, há interlúdios explicando como as pessoas – e, por consequência, como os deuses – chegaram aos Estados Unidos e compuseram a nação. Imigrantes que desejam a terra nova (mesmo aqueles imigrantes que saíram da Sibéria milhares de anos atrás e foram os primeiros habitantes do continente), ladrões que desejam redenção, escravos a quem não foi dada escolha: nada muito diferente de NOSSA formação histórica, antropológica e cultural, para a qual damos tão pouco valor. Se é com desprezo que falamos que somos uma pátria de degredados, os primos do norte se orgulham dos seus fundadores, e isso é algo que deveríamos genuinamente aprender com eles.

Outra coisa bem interessante sobre o romance é que se trata de uma tradicional “road story” americana: Shadow e Wednesday caem na estrada, cruzam todo o país visitando cidades e pessoas e fugindo da perseguição dos novos deuses e de seus “agentes Smith”, até que, após alguns problemas mais sérios, Shadow é enviado para uma cidadezinha perdida no meio do nada, o que dá uma senhora paralisada na trama, que vinha num ritmo bom.

Sobre o Gaiman ser arquiteto de universos mas não explorar o potencial deles: aqui, este potencial é tão bem explorado quanto a trama permite e de uma maneira muito satisfatória. Há a presença dos deuses – a maioria deles de mitologias pouco conhecidas como a eslava ou mesmo a africana – e sua convivência com a modernidade explorada, há uma boa dose de mistérios que são desvendados ao decorrer da trama, que se não surpreendem o leitor ao menos são bem construídos e conduzidos ao longo da história.

Outro ponto que merece destaque é que Neil Gaiman é inglês e Deuses Americanos, que trata bastante do american way of life, foi escrito quando ele se mudou para os Estados Unidos, ou seja, também tem um grande trabalho de imersão do olhar estrangeiro para contar uma história local. Com sucesso.

Minha única crítica é que o livro é grande demais. Toda a parte 2 poderia ter sido limada sem dó nem piedade sem prejuízos para a trama, o que economizariam umas duzentas páginas no total. Tá, algumas passagens da vidinha comum são interessantes e acabam sendo encaixadas no resto da trama, mas a quebra de ritmo é tão forte que dá pra perceber que é silicone para o livro ficar maior (lembrando que o mercado americano de fantasia prefere obras grandes).

Mas vale a leitura, é um livro muito bem construído, história e cenário impecáveis. Livro muito bem indicado para quem lê em inglês, mas não vale as fortunas que andam cobrando pela edição em português. E Neil Gaiman, aqui, me convenceu, coisa que não tinha acontecido desde Sandman.

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Até a próxima!

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Os Perigos de Uma Única História

O vídeo é um bate-papo com a escritora nigeriana Chimamanda Adichie,  para o site TED em outubro do ano passado.

Ela fala um pouco sobre estereótipos, pré-conceitos e preconceitos, e que tudo no mundo tem mais de uma história. Vale a reflexão para nós, num país e num mundo tão cheio de assunções, lugares-comuns e ideias pré-concebidas difíceis de serem derrubadas. E devemos estar abertos para o mundo em todas as suas versões, nuances e particularidades, que vão além da história única.

http://www.ted.com/talks/view/id/652

(para ver o vídeo legendado, a opção de legendas está debaixo do play)

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Até a próxima!

Annabel e Sarah – Jim Anotsu

É difícil, depois que você passa por ela, pintar um retrato fiel da adolescência – ou os adolescentes literários são muito caricatos ou totalmente irreais. Se a personalidade é complicada de ser emulada, pior ainda é todo o clima e ambiente em que se insere a adolescência – a cada cinco anos acontece uma renovação de gerações, de gostos e de cultura, é bastante difícil, quanto mais um autor vai envelhecendo, conseguir dialogar com esse mundo sem parecer um tiozão querendo parecer legal.

Annabel e Sarah foi escrita por Jim Anotsu (o autor é brasileiro, o pseudônimo uma homenagem a heróis de infância) quando ele estava no último ano do ensino médio e é uma incursão tanto à adolescência quanto uma homenagem a autores, histórias e personagens. É um livro planejado para a leitura rápida e fluente, para ser consumido em uma tarde chuvosa ou num momento de folga.

É a obra de estreia do autor – a história de duas irmãs gêmeas, Annabel e Sarah, totalmente diferentes entre si. A Annabel faz o tipo esquentadinha e revoltada, de personalidade forte e que não faz o menor esforço para ser amiga de sua irmã, uma garota meiga, delicada e que gosta de moda.

Sarah então é tragada por uma televisão e Annabel, única pessoa capaz de ajudá-la, parte para buscar a flor de Amor Perfeito, que poderá salvá-la.

Então, a trama se parte em duas: Annabel vai para um universo baseado nos romances policias hardboiled e na literatura beat (com direito à cidade chamada Kerouac e ao encontro de um gêmeo perdido de Sal Paradise), em que os animais são os seres racionais e os humanos bichinhos de estimação ou comida, enquanto Sarah vai para uma cidade onde todos são obrigados a serem felizes o tempo todo, uma realidade distópica que tem um pouco de George Orwell, Alice No País das Maravilhas (e do RPG Paranoia, também).

E dá-lhe referências e homenagens – mas o livro não se torna refém delas ou torna indispensável seu conhecimento para que se entenda a obra. Algum nome de banda ou de programa de TV é citado aqui ou ali, mas nada que torne a obra inacessível para quem nunca ouviu falar e não sabe do que se trata. As homenagens também acabam por ficar orgânicas (exceto Annabel que acaba se perdendo um pouco na homenagem aos beats), a composição do texto, ágil e cheio de twists, faz com que a leitura flua tranquila e agradável.

O fato de ser um romance de estreia, escrito durante a adolescência do autor, se mostran a composição dos personagens – falta delinear a personalidade das gêmeas, ainda que Annabel seja um pouco desvendada nos interlúdios entre os capítulos, mas Sarah permanece uma incógnita. Também falta algo no final, falta um elemento fundamental numa história em que as personagens precisam passar por várias provações para poderem crescer – elas não mudam. Mas, sejamos justos: não é que passem incólumes pela jornada, afinal o que elas descobrem no final é algo bem bonito, um desses segredos muito valiosos os quais passamos por ele sem nos darmos conta.

Enfim, se esse é o livro de estreia do Jim, eu espero ansiosamente pelo próximo. Vale a leitura, é uma aventura bem legal, muito bem conduzida, é como ver um encontro literário entre Quentin Tarantino e Tim Burton. E quero mais histórias no universo de felicidade imposta de Sarah!

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