Neon Azul – Eric Novello

A Literatura é uma coisa só, colocando debaixo de seu guarda-chuva todos os gêneros, sem preconceito por este ou aquele. Alguns dos clássicos universais são fantásticos, outros são thrillers, outros romances psicológicos, outras narrativas simples daquilo denominado como “mainstream”.

Mainstream, nesse contexto, significa mais ou menos a linha mestra principal, geral e genérica de uma manifestação artística. É o romance que não pertence a um gênero e o que se costuma definir erroneamente como toda a literatura.

Quando se está perto do gênero, parece que existe a dicotomia entre ele e o mainstream (para ficar em minhas preferências pessoas, literatura fantástica), que são ideias imiscíveis como água e óleo, como polos iguais de um ímã que se repelem. Só que essa dicotomia não existe: mainstream e gênero se complementam, se tocam, se influenciam.

Não é apenas a boate que dá titulo ao romance Neon Azul que está no limiar entre o mundo real e o sonho: o livro também está entre o mainstream e a fantasia. É o diálogo entre o gênero e a generalidade, um romance fantástico com toques do noir e do contemporâneo – ou um romance noir e contemporâneo com toques fantásticos? Fica para o leitor decidir.

O romance tem a estrutura fix-up, ou seja, são contos independentes entre si, que podem ser lidos em qualquer ordem e que se encerram em si mesmos, mas que lidos em conjunto formam uma trama. O livro trata da história da Neon Azul, uma boate diferente perdida no centro do Rio de Janeiro, e cada conto trata da vida de uma pessoa que orbita o bar, seja funcionário ou cliente.

O Neon Azul parece atrair pessoas perdidas – tanto aquelas sem rumo quanto as que encontraram o rumo da perdição. É como se o bar estivesse naquele limiar entre o real e o sonho, onde o impossível acontece de forma natural e onde as coisas mudam de forma se você para de prestar a atenção nelas. O Neon tem a lógica dos sonhos, onde os desejos se tornam intensos e estão ao alcance de um toque – entretanto, aqui, há um preço a se pagar pela satisfação da vontade.

Os contos são noir e, ao contrário do humor irônico de Histórias da Noite Carioca, aqui a melancolia é onipresente, bem como a sensação de aniquilação e de fatalidade. Não é um livro sobre escolhas fáceis ou finais felizes e redentores, mas sobre aqueles que já perderam tudo – o orgulho, a saúde, a sanidade. Há também aqueles que querem entrar num mundo que glamourizam, mas que mostra todos os seus tons de negro à medida em que se aprofundam.

Talvez o conto de abertura seja aquele que mais destoe dos outros: a solução do conflito é uma catarse parecida com aquela do filme Dogville, solução essa que não ocorre da mesma forma nos outros contos. Não são contos para estômagos fracos e sensíveis – sexo, drogas, assassinato, desejos perdidos e encontrados.

A parte fantástica é bem sutil, apesar de onipresente (e tenho no mínimo três teorias pessoas para a identidade d’O Homem). Tempo e espaço são apenas convenções que podem ser facilmente burladas, pessoas atravessam espelhos e guardam seres mágicos em garrafas. E o fantástico aqui é real, não metáfora ou fábula. Faz parte e compõe o universo onírico do bar. Por isso talvez seja muito mais mainstream com toques fantásticos do que fantástico escrito com a contemporaneidade mainstream.

É uma leitura altamente recomendada e, sinceramente, o melhor livro que li este ano (sorry, mr. Gaiman).

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Até a próxima!

 

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Histórias da Noite Carioca – Eric Novello

Inicialmente, cabe a consideração sobre o quão mais fácil é resenhar uma pessoa que esteja fisicamente e temporalmente distante de você do que uma próxima.

Não ando lendo muita coisa fora da ficção especulativa ultimamente. Para ser muito sincera, não estou por dentro da literatura “mainstream” (o termo aqui entre aspas, no seu significado literal de “corrente principal”, de literatura contemporânea sem gênero), de quem são os nomes fortes hoje e o que eles estão escrevendo. Gosto muito de ler clássicos e alguns autores consagrados do século XX, mas hesito um pouco antes de arriscar coisas novas sem saber se serão do meu gosto ou não. Talvez já tenha mencionado isso anteriormente, para quem acompanha o blog.

Recentemente, o amigo Eric Novello (honorável administrador do Fantastik e participante do Aguarrás) me enviou seu livro Histórias da Noite Carioca, literatura mainstream atualíssima, leve e de fácil leitura.

Trata-se da história de Lucas Moginie, um jovem escritor de relativo sucesso que recebe um ultimato de sua editora: ele precisa entregar o original de seu novo romance o mais rápido possível. Mas há um pequenino problema: Lucas está sofrendo de um leve e ligeiro bloqueio criativo… E, talvez por esse bloqueio ou por uma dessas grandes coincidências da vida, uma pessoa importante de seu passado bate à porta, e há alguns assuntos que ficaram com sua solução pendente.

Então o leitor acompanha através da narrativa em primeira pessoa a rotina de Lucas em sua busca pelo precioso tema e sua vida cotidiana, com personagens como os vizinhos sexualmente excêntricos, os amigos amalucados e a paisagem carioca, com suas ruas, praias, praças, parques e barzinhos.

E o ponto principal do livro, na minha opinião: tudo narrado com o mais fino humor irônico. Ironia é algo que muitos tentam, mas poucos conseguem fazer de maneira satisfatória, ainda mais quando o objetivo é auto-ironizar-se e também às pequenas coisas da vida, como relações de vizinhança ou o café da manhã.

É um relato sobre o desespero de cumprir um prazo (e qualquer um que, como eu, trabalhe com prazos fatais, sabe que beleza é isso), mas também de revisitar um passado mal-resolvido, com todas as consequências que isso pode trazer.

E tudo chega a uma conclusão: o livro, o passado, a vida. De uma forma atropelada e talvez até mesmo inusitada, mas de vez em quando todos nós somos pegos em armadilhas que não conseguimos antever.

Enfim, é um belo passeio pelas noites cariocas de Lucas Moginie, em um livro bem gostoso de ser lido.

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