Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum

Algumas coisas além do aspecto puramente literário me motivaram a resenhar este livro, talvez de modo um pouco diferente da informalidade habitual do blog, mas vamos por partes. O primeiro é que finalmente me deparo com um livro começado em O, o que me ajuda em certas questões de simetria. O segundo é que um autor bate o recorde anteriormente mantido por Haruki Murakami aqui no blog: o de mais resenhas em menos tempo de obras diferentes.

Este é o livro mais recente do autor, lançado em 2009, e que foge (ao menos em parte) da temática familiar de Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos. Talvez haja uma lacuna em sua evolução narrativa correspondida por Cinzas do Norte, seu terceiro romance que não tive ainda a oportunidade de ler, pois entre Dois Irmãos e Órfãos do Eldorado há um verdadeiro salto e a diferença é palpável. Enquanto o primeiro se vale de uma narrativa linear (temporalmente e tematicamente), o segundo se utiliza de idas e vindas pelo tempo e pelo assunto para simular a estrutura do “causo” narrado por um ancião perdido em suas memórias, que transitam entre o sonho e a realidade.

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Relato de um certo Oriente – Milton Hatoum

Toda família possui sua própria história. Aliás, citando a máxima mais conhecida de Tolstoi, todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira. Indo um pouco adiante, toda família é feliz e infeliz ao mesmo tempo, em proporções variáveis de cada sentimento, e cada uma delas constitui seu próprio romance.

Esta é a obra de estreia do autor Milton Hatoum e nela já se percebem os elementos que se repetirão em seu romance mais conhecido, Dois Irmãos: uma família de imigrantes libaneses se instala em Manaus e, apesar da aparência de sucesso e prosperidade para os olhos alheios, a desestrutura de sua profundidade marca os destinos de cada um de seus membros.

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Dois Irmãos – Milton Hatoum

A rivalidade entre irmãos, uma das coisas mais comuns nas famílias na vida real, é um tema literário desde sempre, poderia dizer que desde Caim e Abel. Quando se trata da rivalidade entre gêmeos então, poderia dizer que desde Esaú e Jacó (os bíblicos e o livro machadiano), passando pelos clássicos embates entre a gêmea boa e a má de novelas.

Mas essa não é a história de um “gêmeo bom” e um “gêmeo mau”, até mesmo porque essa dicotomia não existe na vida real, e essa é uma história do cotidiano. Trata-se dos gêmeos Yaqub e Omar, que nunca se deram bem, e que estendem essa rivalidade, com consequências catastróficas, por toda a vida.

Estamos na Manaus do início do século XX, pouco depois do apogeu do ciclo da borracha, responsável por atrair pessoas de todo o mundo para a capital do Amazonas – inclusos os ascendentes dos gêmeos, que vieram do Líbano. É um período de efervescência e riqueza para talvez uma das cidades mais isoladas do Brasil por seus fatores geográficos e um passeio por suas características: prédios, ruas, o desabrochar de uma elite econômica muito rica e a proximidade com a floresta logo ali.

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