Duplo Fantasia Heróica: O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara/A Travessia – Christopher Kastensmidt/ Roberto de Sousa Causo

Como já disse antes, esse era um livro que eu estava bastante curiosa para conferir. Meu correspondente gaúcho aproveitou para me dar de aniversário, com direito a autógrafo do autor Christopher Kastensmidt 🙂

Uma nota sobre o livro em si, antes de entrar no conteúdo, é que ele é literalmente pocket – cabe no bolso de trás das minhas calças jeans, por exemplo! É pequenininho, tem menos de um palmo de altura, com capa dura e ilustração caprichada. É um formato bem prático para se carregar na bolsa, ainda mais porque o livro tem poucas páginas, e o preço sugerido também é bem em conta. Talvez seja um formato bem legal para lançar noveletas e novelas um pouco mais curtas, coisa na qual as editoras poderiam pensar e ver se é viável.

Mas vamos ao que interessa, a resenha das duas noveletas que o compõem (já que a proposta é trazer histórias curtas de dois autores diferentes):

O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara – Christopher Kastensmidt

Já falei bastante sobre o projeto do autor no blog antes, tanto de seu site maravilhoso quanto das histórias de Gerard van Oost, holandês que vem buscar aventuras no Brasil colonial, e Oludara, guerreiro africano trazido ao Brasil contra sua vontade mas que se junta a Gerard em sua jornada. O projeto me impressionou desde o primeiro momento em que ouvi falar dele e desde então também estou curiosa para saber como a coisa se desenlaçaria…

E agora um ponto que talvez seja relevante: feita por um norte-americano, planejado em inglês.

Não que só brasileiros possam se encantar e escrever fantasia com cenário brasileiro (e MUITO MENOS o raciocínio análogo, de que só existe uma “fantasia brasileira” se ela se passa no Brasil) e é até interessante ver o olhar de alguém que não ouviu sobre índios, bandeirantes e quilombolas durante o ensino fundamental e médio sobre esses mesmos temas e cenários. E é sem dúvidas uma visão apaixonada sobre uma terra mágica e cheia de desafios e mistérios.

E todas as minhas expectativas foram cumpridas com louvor por essa noveleta que conta como Gerard van Oost e Oludara se encontraram e estabeleceram sua parceria. É uma aventura de tirar o fôlego, que me lembrou meus tempos de criança leitora da Coleção Vagalume, que assaltava a biblioteca da escola.

Gerard ouviu histórias sobre as terras cheias de monstros a serem desbravadas e, ao chegar no Brasil, descobriu-se tomado por uma paixão tão forte pela aventura que decidiu ficar de qualquer forma (achei  um eco interessante do próprio autor, residente em Porto Alegre e que resolveu mergulhar de cabeça num mundo desbravado e com seres fantásticos). Só que ele tem alguns problemas para fundar sua própria bandeira até conhecer Oludara, guerreiro africano trazido como escravo ao Brasil – e através dos olhos dele, conhecemos uma terra ainda mais mágica e fantástica (e esquecida) do que o Brasil: a África. O que Oludara tem de habilidoso, tem também de astuto e pragmático, o que é um balanço necessário para o idealismo de Gerard. Também temos encontros inesperados com criaturas mágicas vistas de uma forma bem diferente da ufanista-usual – e uma introdução que dá gosto de quero mais ao mundo do autor.

Ah, por última nota, a noveleta, em sua versão original em inglês (“The Fortuitous Meeting”) está concorrendo ao Nebula 2010, que é um dos prêmios mais importantes da ficção especulativa do mundo. O blog está torcendo muito pela premiação 🙂

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A Travessia – Roberto de Sousa Causo

O Roberto de Sousa Causo é autor de ficção científica e é interessante ver um trabalho dele com um tom diferente, uma ficção fantástica passada no Brasil muitos séculos atrás, numa pré-história próxima da Era Hiboriana do Conan, onde o reino das amazonas acabou de cair e o nativo Tajerê, bem como sua consorte Sjala, que veio dos povos nórdicos, precisam se ver com tribos inimigas, monstros e criaturas fantásticas.

Tajerê é um super-herói da época: alto, forte, destemido e escolhido para a missão de unir povos dispersos. Só que, evidentemente, essa não será uma tarefa fácil, e as mais fantásticas criaturas habitam as matas densas e selvagens que lhe servem de cenário.

A narrativa divide-se entre as impressões de Tajerê e de sua esposa, a nórdica Sjala que já há tempos o acompanha. A linguagem do ponto de vista do índio é mais dura, com construções verbais mais cruas – o que, ao meu ver, traz a implicação de que a estrangeira, por usar o português usual, está muito mais próxima do leitor e se comunica de forma mais clara do que o índio, que tem toda uma aura de exotismo e também acaba por ser o elemento diferente, estranho.

Dizer mais seria spoiler, mas prepare-se para criaturas graaaaaaaaandes… E para mágica, também 🙂

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Também saiu o Papo na Estante 25, sobre blogs literários e um pouco da visão das editoras sobre o tema. Clique e confira, ficou bem interessante 🙂

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NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!!!!!! A data de lançamento de A Dance With Dragons foi anunciada hoje: 12 DE JULHO!!!!!!!!!!

YAY!!!!!!!!!!!!!! O inverno _ESTÁ_ chegando!!!!! \o/

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Até a próxima!

Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário – Vários Autores

O Brasil, feliz ou infelizmente, é o “país do futuro”, que jamais chega. Tivemos várias oportunidades históricas de saltos de desenvolvimento, mas acabamos por ficar para trás. Nós, mais do que a grande maioria das nações, temos na pele o sentimento do que poderia ter sido, mas por várias razões não foi. Agora vivemos um período de crescimento e prosperidade, mas estaremos escolhendo os rumos certos? Será que finalmente viraremos o país do presente?

Mas quantos planos não foram frustrados, embriões de bonança abortados, sonhos partidos? Quantos futuros não poderíamos ter tido, não fossem os mais diversos fatores?

O steampunk lida, como já dito antes, com um futuro que não foi. Como nós, brasileiros, enxergaríamos então um passado glorioso que poderia ter sido?

Bom, primeiro é preciso dizer que o steampunk demorou a pegar no Brasil, tendo sido mais divulgado só a partir da segunda metade da década de 2000 (apesar de já existir como gênero desde 1990). Não saíram muitas obras steampunk estrangeiras no Brasil, dá para destacar principalmente o RPG Castelo Falkenstein e os quadrinhos d’A Liga Extraordinária, mas não muito mais do que isso.

O primeiro livro genuinamente nacional a tratar do steampunk foi a coletânea Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, lançada pela Tarja Editorial em 2009. A Tarja, como quem acompanha o blog já sabe, é uma editora voltada principalmente para a ficção especulativa nacional e vem lançando trabalhos bem interessantes de nossos autores.

A edição é muito bem cuidada, o projeto editorial é bem legal, é um livro bonito de se ter em mãos. Foram convidados para compô-los vários autores, de vários estilos, mostrando sua visão do steampunk.

Interessante perceber também que a coletânea teve repercussão internacional, ganhando resenha do crítico literário estadunidense Larry Nolan, em seu blog, que dá destaque à obra dentro do cenário da ficção especulativa latino-americana.

Agora, vamos ao que interessa, uma análise pequenina de cada conto:

O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli – Uma introdução aos demais contos e ao steampunk. É um conto policial, com uma boa dose de teoria da conspiração, passado em um cenário steampunk. Só que é um conto onde… falta algo. A narrativa e o desenvolvimento fluem muito bem, mas falta sal e pimenta, falta empolgação e empatia. Mas cumpre bem seu papel como introdutor do steampunk, o que faz muito bem, e sai como abre-alas dos contos que virão :).


Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes
– O conto, em formato de relato histórico, trata das consequências e mudanças que a humanidade sofreria caso o projeto de determinado cientista ficcional tivesse resultados mais positivos. Se uma borboleta que bate asas em Manhattan gera uma tempestade em Pequim, da mesma forma uma engrenagem bem-montada na Inglaterra vitoriana tem o poder de alterar guerras e revoluções. O desenvolvimento é bem interessante e factível, caso houvesse a mesma tecnologia, é bem provável que os fatos ocorressem como sugeridos no conto.
E, é claro, o final é de arrepiar.

A Flor do Estrume, de Antonio Luiz M. C. Costa – Steampunk no Brasil, uma ficção alternativa utilizando dois personagens bem conhecidos aos olhos do leitor em uma situação inédita, mas bem plausível pela personalidade de ambos. Uma história alternativa em que a história colonial foi um bocado diferente – mas, uma grande falha no conto, apesar de que a compreensão de que se trata de uma realidade alternativa estar implícita, faltaram “porquês” para o leitor: como existe um Instituto Butantã alternativo no mesmo lugar de nossa realidade, que trata de matérias semelhantes e tem o mesmo nome do nosso, por exemplo. Depois vim a saber que o universo alternativo do autor já tinha sido trabalhado antes e possui suas próprias regras internas, mas a reação à leitura foi um “hã?” inevitável.
Mas é bem interessante o enfoque às ciências biológicas, ao invés do combo física-química-engenharia tão comum ao gênero – e, é claro, pelo bom uso dos personagens consagrados.


A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster
– Este é um conto que tem uma pegada diferente de todos os demais do livro: é uma aventura juvenil ocorrida no Brasil Império, sob o reinado de D. Pedro II (ele mesmo, na nossa realidade, era um amante das ciências), com um clima bem próximo ao de desenhos antigos e das séries que acompanhávamos na infância e adolescência. Se o espírito steampunk diz respeito ao saudosismo de algo que poderia ter sido e não foi, é este também o espírito do conto, tanto na história principal quanto nas entrelinhas. O protagonista, um gênio adolescente cheio de sonhos, pode ter a capacidade de realizá-los, mas será que seu ambiente cheio de restrições, burocracias e politicagens permitirá?
O conto tem algumas falhas – um dos personagens me parece ingênuo demais em relação ao mundo em que vive e a “costura” do clímax da trama me pareceu um bocado frágil – mas sua diferença temática em relação aos demais é digna de nota.


O Plano de Robida: Une Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo
– o maior conto da coletânea e, justificando seu tamanho, várias twists. Piratas espaciais ameaçam o Brasil imperial, num ar meio Capitain Sky and the World of Tomorrow, para logo passar para todo um planejamento de guerra e mergulhar em uma aventura com arzinho de pulp fiction. Algumas passagens, principalmente as da guerra, ficaram arrastadas e o desenvolvimento lento. Inclusive, um personagem da primeira parte do conto poderia ter rendido mais na segunda, ele praticamente desaparece, absorvido pelos acontecimentos. E o final, apesar da extensão do conto, não é em aberto – o conto termina mais como o prelúdio de algo maior do que uma ideia que se encerra em si mesma.


O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa
– Um conto muito bem construído, homenagem sincera e bem elaborada ao horror lovecraftiano. Só tem um pequeno probleminha: não é steampunk. Não é porque aparece um navio a vapor que a obra se caracteriza como o gênero.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia – Provavelmente é o melhor conto do livro. Três coisas em especial chamam a atenção: a primeira, a ambientação. Estamos na Era Vitoriana sim, mas na parte suja dela, a do trabalhador explorado que luta pelos seus direitos. No caso de alguns deles, autômatos domésticos, a luta também é pelo seu reconhecimento como pessoas. A segunda, o new weird. O conto é estranho, os termos são propositadamente esquisitos e malexplicados, é proposital a busca de um ambiente em que pouco é óbvio, mas onde o principal, como a trama e o desenvolvimento de personagens salta aos olhos. A terceira… a trama. Apesar da estranheza proposital, em nenhum momento o leitor se perde nos acontecimentos ou nos desejos e intenções dos personagens, a trama é conduzida de forma tranquila e segura para onde o autor quer que ela chegue.
É uma aula de conto, de narrativa e de estilo – além da história ser bem interessante e envolvente.


Cidade Phantástica, de Romeu Martins
– Uma aventura steampunk no Rio de Janeiro imperial, onde alguns fatos políticos ocorreram de maneira diferente de nossa realidade, como a ausência da Guerra do Paraguai e uma abolição décadas antes da real, além da aparição de personagens ficcionais brasileiros, como o pai da Sinhá Moça, que faz uma participação especial, e certo vilão muito conhecido. Aqui acontece algo inverso ao primeiro conto do livro: o conto tem pegada, tem empatia… mas tem alguns probleminhas de desenvolvimento. A trama é um bocadinho confusa, como se três histórias estivessem fundidas em uma só e fossem contadas em conjunto, mas sem delineamento. Achei uma pena, porque faltou só uma acertadinha de pilares para termos aqui um conto muito bom.

Por Um Fio, de Flavio Medeiros – A configuração política mundial alterou-se graças à tecnologia do vapor e o Império Britânico acabou por ter uma configuração bem diferente daquele de nossa realidade – e a guerra entre as três superpotências deste mundo está em curso. Dois personagens clássicos de Júlio Verne, o Capitão Nemo e Nobur, o Conquistador. O que poderia tornar-se um mero conto de fetiche tecnológico se torna um texto tenso sobre a guerra, sobre as razões de guerrear e sobre a honra que se espera do adversário respeitado. É uma bela homenagem ao autor e aos seus personagens e uma experiência de leitura cheia de tensão e reflexão.

Enfim, são visões bem diferentes do steampunk, da ciência, da tecnologia e até mesmo de alguns personagens e figuras clássicas, usados mais de uma vez por autores diferentes ao longo da obra. Vale como leitura tanto pela introdução ao universo do vapor quanto pela variedade dos temas. Tire seu óculos de aviador do armário e desenferruje as engrenagens para curtir um pouco de agitação vitoriana!

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Até a próxima!

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A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte III: A Análise

Continuando com a última parte do especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, aqui vão os links para a PARTE I e para a PARTE II do especial.

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As Referências

Claro que é impossível determinar todo o caldo referencial de onde uma série surge, ainda mais se a bagagem literária e cultural do autor é extensa. Às vezes o personagem X surgiu da observação de uma pessoa conhecida, ou o evento Y surgiu de uma “digestão inconsciente” de vários dados dispersos entre si. A fonte da inspiração acaba sendo essa, no fim das contas, a absorção ao longo da vida de fatos, eventos, leituras, personagens reais ou não, sensações pessoais, enfim, da vivência.

Não existe criatividade sem alimentação, não há como construir um cenário convincente para uma história sem alimentar-se de sua própria história (às vezes me dá desgosto em perceber o quanto algumas pessoas que querem seguir o caminho de escritoras desconhecem a história brasileira, que deveria ser o mínimo), geografia, um pouquinho de ciências naturais para não cair no física, quimica ou biologicamente impossível e muita literatura. Ler os clássicos é uma exigência “para ontem” – afinal, tem muita gente por aí querendo reinventar a roda, por que não descobrir e apreciar aquilo que foi feito?

Seria impossível para mim analisar todas as referências de George R. R. Martin ou de quem quer que seja, mas tem algumas bem interessantes e dignas de nota.

A primeira, e mais óbvia de todas, é a referência à Guerra das Duas Rosas e aos eventos históricos ingleses ocorridos do século XII até mais ou menos o século XVII. Para os desavisados, a Guerra das Duas Rosas foi uma guerra civil ocorrida no século XV entre as famílias York e Lancaster, que disputavam o trono inglês. Bom, o símbolo dos York era a rosa branca e o dos Lancaster a rosa vermelha, então aí está a origem do nome do conflito – e se pararmos para pensar, além da inspiração dos nomes, uma das cores dos Stark é o branco e uma dos Lannister é o vermelho 😉

Há também várias referências a nobres ingleses (a mais notória, a Ricardo III, que tem seu espectro dividido em dois personagens: o Ricardo III real inspirou Stannis Baratheon, enquanto o Ricardo III concebido por Shakespeare inspirou Tyrion Lannister) e a eventos ocorridos no período acima destacado.

Mas, claro, não apenas aos ingleses. Alguns outros personagens históricos europeus dão o ar de sua graça, bem como a inspiração das ricas famílias italianas renascentistas (dá para ver um eco bem grande dos Bórgias, na concepção da família Lannister, pelo poder, riqueza e devassidão moral. A própria Cersei tem muito de Lucrezia Borgia em si).

E também a visão de outros povos. Os Dothraki, o povo dos cavalos, tem muito dos hunos/mongóis históricos, assim como os Ironborn são uma mistura de vikings com os navegadores portugueses. As cidades-estado do outro lado do mar lembram a dinâmica das cidade-estado gregas e Braavos é inspirada em Veneza e seus canais.

E as referências ficcionais? As histórias de cavalaria do século XIX – se procurarem direitinho, vão encontrar o Ivanhoé lutando justas em Westeros, assim como uma versão dark do Robin Hood e de seus foras-da-lei. Dom Quixote está lá – como referência a personagens (dá para encontrar no mínimo dois Quixotes e dois Sanchos na série), ao cenário e até mesmo certa personagem que vai assistir a uma peça chamada Knight of the Woeful Contenance (“O Cavaleiro da Triste Figura”) 😉

Os clássicos, como Crime e Castigo e Moby Dick, marcam presença – e também a fantasia e a ficção científica clássicas. As referências a Tolkien, em temática e até mesmo em alguns nomes são tão claras que não precisam de comentários. Os Ironborn e sua cultura também são uma clara homenagem a H. P. Lovecraft – desde seu símbolo, o Kraken, passando por sua religião, que cultura o Deus Submerso, até Dogon, um de seus ancestrais 😉

Outra obra que é referência claríssima é Duna – tanto pelo papel assumido pela política e pela intriga social em uma obra ficcional quanto por pontos específicos, como uma releitura dos dançarinos faciais e dos mentats.

A fantasia mais contemporânea, como Black Company do Gleen Cook – em que o desenvolvimento dos personagens é forte e onde os personagens cinza começam a ter lugar de destaque – a obra de Jack Vance e, porque não, a saga Wheel of Time do amigo pessoal Robert Jordan também estão lá.

Partindo para a mitologia, talvez a primeira e mais clara das lendas referencias seja o ciclo arturiano – tanto as lendas quanto um bocadinho de Once and a Future King, do T. H. White – e, por que não, do meu “querido” Bernard Cornwell. Alguns dos personagens lembram Lancelot, Galahad, Merlin, Mordred e todos os outros. E, inclusive, o próprio rei Arthur – o filho bastardo do Uthred e único e oculto herdeiro de um trono vago.

Também há várias referências mitológicas gregas e celtas – quanto às gregas, não apenas as mitológicas, mas também os das tragédias, como a tentativa vã de escapar de profecias.

Enfim, essa foi só uma pincelada. Leiam vocês também e coloquem aí nos comentários as referências que vocês encontrarem ^^

A Resenha

O grande mérito de George R. R. Martin e de A Song of Ice and Fire é dar um passo adiante no cânon da fantasia contemporânea. Enquanto muitos repetem fórmulas – ou mesmo avançam pouco dentro do pré-estabelecido mas não conseguem ir além – essa é a inauguração do novo dentro da fantasia.

J. R. R. Tolkien é um dos cânons da fantasia moderna (e a utilização de “moderna” e “contemporânea” aqui é proposital). Não dá para negar sua influência em tudo aquilo o que veio depois – desde a alta fantasia de Gary Gygax e Dave Arneson (os criadores do Dungeons and Dragons – o RPG -, apesar de sua inspiração alegada ser Robert Howard e o sword and sorcery) até a fantasia urbana de Neil Gaiman.

Mesmo as séries mais contemporâneas, como Wheel of Time, tem uma raiz tolkeniana arraigada, por mais que os anões, elfos e fireballs – ou seja, o clichê e o lugar comum da alta fantasia – estejam distantes. São passos que caminham para a evolução e para a revolução.

Os personagens cinza – ou seja, aqueles em que o bem e o mal convivem igualmente – não são novidades na ficção fantástica, vide a série Black Company – do início da década de 1980 e que traz como protagonistas um grupo de anti-heróis. Como já disse antes, a política ter papel pivotal em uma trama, tendo suas nuances exploradas, também não é novidade, vide Duna – que também é uma obra-prima, um divisor de águas e um cânon dentro da ficção científica – que é de 1965. Então, A Song of Ice and Fire representa inovação temática? Não. Mas representa um modo de fazer inovador.

O que faz a saga funcionar – e destacar-se das várias similares – é a junção dos elementos na contagem da história: o cenário fantástico detalhado e profundo, a trama política que se assemelha a um romance histórico e os personagens humanos e carismáticos. Meu conselho hoje para alguém que quer escrever fantasia – ou entender os contornos do gênero: leia Tolkien. E leia Martin.

É fácil encontrar na obra vários dos clichês de fantasia: o príncipe prometido, a profecia, o cavaleiro andante, a linda princesa que se apaixona pelo guerreiro rude, a menina que se veste de homem para poder lutar… Só que a grande maioria deles vem com uma roupagem nova e não óbvia. É a inovação e a criação, não a mera repetição vazia do que se viu em obras anteriores. (para uma lista bem interessante E CHEIA DE SPOILERS dos clichês de A Song of Ice and Fire – e uma boa amostragem de como alguns foram subvertidos – clique AQUI)

Não posso fazer ainda uma análise completa da saga – principalmente porque ainda faltam no mínimo mas três livros para serem lançados e há alguns desenvolvimentos de personagem que precisam ser esclarecidos, mas mesmo que nunca haja uma conclusão, é leitura obrigatória.

E as falhas? A principal delas são algumas incongruências narrativas ocorridas no livro três (e que infelizmente não dá para explorar sem esbarrar em milhares de spoilers, mas se alguém tiver lido e desejar MESMO a explicação, cutuque), que culminaram no lançamento, em uma década, apenas do quarto livro, mas não sei se elas serão corrigidas nos próximos livros, então este ponto fica em aberto.


A Game of Thrones, o Seriado

Agora é oficial!

A HBO anunciou a produção da série A Game of Thrones, a adaptação de A Song of Ice and Fire, que deve estreiar no início de 2011. O elenco conta com nomes como Sean Bean (o Boromir de Senhor dos Anéis, entre outros) como Eddard Stark, Lena Headey (a Rainha Gorgo de 300, a Sarah Connor de The Sarah Connor Chronicles, entre outros) como Cersei Lannister e muitos outros. Bom, aqui fica o registro, falo mais sobre o seriado no futuro (ainda mais porque sou fã de Rome, Band of Brothers, True Blood… :P)


Westeros sob outros olhares

Aqui, duas resenhas nacionais sobre A Song of Ice and Fire, feitas por Ana Cristina Rodrigues e Rober Pinheiro.

Internacionalmente, indico a Westeros.Org, que é um fansite com as bênçãos do autor da série, bem como o Tower of the Hand, para informações mais rápidas. Sobre a produção do seriado, tem o Winter is Coming, com informações quentes.

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E com isso, acabamos nosso especial A Song of Ice and Fire e retomamos a programação normal! Caso vocês queiram ver mais informações sobre a série, análises e personagens, peçam, que terei prazer em atender 😛

O link de comentários está aberto, acima.

E até a próxima!

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Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte II: Os Alicerces

Continuando o especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, a Parte I do especial está AQUI.

E peço mais uma vez desculpas mas, como já havia dito, o post anterior teve um quê de “edição extraordinária”. Continuo bastante ocupada com os compromissos acadêmicos – e com algumas novidades que vocês logo logo ficarão sabendo 🙂 Desculpem mesmo pela demora, mas haverá compensação 🙂

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É difícil falar de uma “grande obra grande” em o poucas palavras, ainda mais quando há um imenso volume de informação a ser tratada: textual, intertextual, contextual… Então, para que essa seja uma leitura um pouco mais agradável para você que acompanha este blog, continuamos o especial A Song of Ice and Fire.

O Autor

George R. R. Martin, o autor da obra, não é nenhum iniciante na arte da escrita. Ele despontou para o meio da ficção especulativa dos EUA no inicinho da década de 1970, com publicações de contos na Isaac Asimov Magazine e em outras mais. Seus primeiros romances foram publicados no finalzinho da década de 1970 e início da década de 1980 – onde ele foi trabalhar como roteirista em Hollywood. Lá, roteirizou a série A Bela e a Fera (que passou no Brasil numa dessas sessões aventura da vida).

Cansado da pressão hollywoodiana e após sofrer alguns reveses, como séries não produzidas, George R. R. Martin resolveu dedicar-se àquela que se tornaria sua obra-prima, A Song of Ice and Fire. O primeiro livro foi lançado em 1996, já com muito sucesso.

Mas por que eu estou falando do autor, já que quase sempre as resenhas do blog se limitam às obras: por algumas atitudes muito interessantes que ele tem em sua profissão. A primeira delas é o incentivo à publicação de antologias – tão comuns lá fora e uma moda que queremos que pegue aqui no Brasil também – que reunem autores veteranos e novatos e algumas delas que ele mesmo organiza (inclusive, o outro projeto corrente dele, Wildcards, diz respeito a um universo de ficção científica compartilhado por vários autores. Muitos livros já foram lançados e por ser um universo grande, continuam sendo).

A segunda diz respeito à interação com o público. Ao contrário de alguns autores que vivem em torres de marfim e têm nojinho de seus leitores, George Martin gosta da proximidade do público, com direito a um blog até bem divertido e participações constantes em eventos. Inclusive é interessante dizer que sua companheira, Parris, é ativa e atuante no fandom de A Song of Ice and Fire!

E tudo isso é interessante pela humanização do autor – tanto quanto produtor de texto como quanto incentivador. Eu escrevo e tem muitos leitores daqui que escrevem também e essa postura de ser mais do que autor, mas também incentivador e agitador é muito interessante. Outra coisa que fica clara também: são raríssimos os casos dos autores que farão sua obra-prima aos 20 anos de idade, sem uma alimentação cultural intensa ou muito trabalho anterior e que mesmo um autor experiente sofre por percalços para terminar seus escritos de maneira satisfatória.

O Narrador

O narrador da saga tem uma peculiaridade interessante, que vale a pena ser destacada: ele é muitos, que correspondem aos pontos de vista dos personagens da trama.

Como assim?

Cada capítulo é narrado por esse narrador pessoal, em terceira pessoa, mas que acompanha os olhos e a perspectiva de determinado personagem. Vamos ver o que ele enxerga, sentir o que ele sente, saber o que ele sabe. As impressões do mundo serão ditadas por ele e não por um observador externo, as pessoas terão faces diferentes dependendo de por quem elas são observadas – um dos exemplos mais óbvios aqui são os Lannister em geral e Jaime Lannister em particular – para a maioria das pessoas, um monstro, para Tyrion, seu irmão mais velho que resolve tudo na força bruta.

E claro, veremos a percepção do pater familiae, da mãe zelosa, de uma menina de onze anos e pouca coisa na cabeça, de um menino de oito, de um excluído social… São, como se pode perceber, perspectivas diferentes, que gerarão pontos de vista diferentes para os mesmos fatos.

O narrador, por óbvio, não é onisciente. Mais ainda: o leitor conhece mais da trama e de seus desdobramentos do que o narrador – e a construção dessa dinâmica é algo muito interessante de se notar.

Os Personagens e o Cenário

Não há como dissociar os dois elementos, tanto pela história ser narrada de forma intimista através de pontos de vista, como já discutido acima, quanto por serem esses os dois elementos que levam muitos a rotular A Song of Ice and Fire como fantasia realista – ou seja, a ambientação e os personagens são tão críveis que, tirante o fator pirlimpimpim, a série poderia ser facilmente confundida com um romance histórico. Inclusive, os dois primeiros terços de A Game of Thrones pendem muito mais ao romance histórico do que ao fantástico. Se a história se passasse na Inglaterra na época da Guerra das Duas Rosas ou na França mais ou menos do mesmo período, tudo permaneceria igualmente factível.

E os personagens… A narração em pontos de vista casa tão bem com a saga pela maneira como os personagens são elaborados. São pessoas reais transpostas em papel, com os acertos, erros e idiossincrasias que tornam cada um aquilo que é.

Trata-se basicamente de seres humanos: são pessoas que não podem ser qualificadas como boas ou más, com qualidades, defeitos e imperfeições. Há aqueles que possuem uma ética pessoal fortíssima, outros que não se importam em mentir e dissimular. Há os simpáticos, há os patéticos. É impossível não se apegar aos personagens, seja para amá-los, seja para amar odiá-los.

E sobre eles paira risco real: sim, personagens podem morrer para o bem da história, mesmo que eles estejam entre o rol dos principais. Sim, personagens podem tomar decisões erradas, ser vítimas de armadilhas sem que a armada os salve de última hora, ver suas ações gerarem as piores consequências possíveis, ficarem no chão – e também verem planos darem certo, verem planos darem mais certo do que o esperado, darem a volta por cima. Algo que costumo criticar muito a falta em outras obras está presente aqui: existe perigo, angústia, pode ser que o personagem em questão sobreviva, mas física e mentalmente abalado.

Voltando ao cenário (alguns aspectos mais referenciais serão deixados para a Parte III do especial), a construção prima pelo realismo e pela factibilidade. Não basta ao escritor criar um mundo paralelo sem alma para que haja uma história de fantasia consistente. Como Tolkien deixa bem claro, não se pode chamar um cenário de papelão de “mundo” – é preciso começar dos alicerces.

Claro, ao contrário de Tolkien, aqui não se começa de uma teogonia – até porque, apesar da existência explícita do sobrenatural, não há certeza nenhuma de que realmente exista algum deus – mas dos detalhes sobre a geografia, a história, a cultura.

Somos apresentados a fatos históricos de Westeros, como a ascensão e queda da dinastia Targaryen, rebeliões bem e mal-sucedidas, personagens históricos, antigas rixas que geram consequências até o tempo presente. Sabemos, por referências textuais automáticas, que não caem no enciclopedismo, que Dorne não é totalmente integrada ao resto de Westeros, ou que existem cidades-estado além-mar com culturas misteriosas e envoltas em lendas e mistérios mil.

Além das lendas e geografia, o mundo tem gostos, como os bolos de limão da Sansa, o vinho Redwyne, os pêssegos de Renly, os ricos e fartos banquetes festivos, os pratos repulsivos que se tornam verdadeiros manjares no momento da fome. Os rituais religiosos, seja da Fé dos Sete, de R’hlorr ou do Deus Submerso, estão lá, bem como os pequenos ritos comuns de cada dia. Aspectos práticos da política e a forma como os julgamentos são feitos também estão lá.

Uma regra social que acaba por se tornar importante: os sobrenomes dos bastardos. Bastardos não são oficiais, então não terão direito ao sobrenome oficial de sua família a menos que haja um reconhecimento régio. Então, além do estigma, carregarão ainda um sobrenome, cada um relativo à sua região de nascimento. Os bastardos do norte, por exemplo, se chamam Snow – “Neve”, combinando com o mundo de neve onde vivem.

E é isso o que faz um mundo ser palpável: o macrocosmo e o microcosmo, juntos, naturais, orgânicos.

E para não dizer que falei de um dos pontos que mais chamam a atenção: os nomes. Jon ao invés de John, Eddard ao invés de Edward, Catelyn ao invés de Catherine – nomes que soam como os equivalentes em inglês, mas recendem a tempos antigos – junto aos inventados, como Cersei, Tyrion ou Daenerys. É uma síntese de Westeros: um mundo que soa familiar a nossos ouvidos e olhos, mas que tem suas próprias particularidades e apropriações do real. É um mundo diferente, mas que guarda similaridades demais com o nosso para ser totalmente estranho.

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E aguardem a parte 3 e final do especial, que não vai demorar tanto, eu juro! 🙂

E LEMBRETE: o blog (e eu) está concorrendo ao Prêmio Melhores do Ano!!! Para votar, clique AQUI! 🙂

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Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

O Nome do Vento – Patrick Rothfuss

Após ler os quatro primeiros livros da série A Song of Ice and Fire, do George R.R. Martin, como já mencionei aqui antes, queria dar um tempo da literatura de fantasia. Por quê? A já citada série me impactou de uma maneira tão profunda que qualquer coisa do gênero que eu lesse a seguir seria eclipsada. Então, claro, procurei ler coisas que não fossem relacionadas ao gênero fantástico ou que tivessem alguma variedade temática grande o suficiente para evitar comparações.

Só que acabei esbarrando com O Nome do Vento, que veio bem recomendado por vários amigos e conhecidos. O livro (não confundir com A Sombra do Vento, por favor :P) é o primeiro volume de uma trilogia, chamada Crônicas do Matador do Rei – e, claro, também se trata de um romance de high fantasy, com um mundo fantástico em que a magia e criaturas mágicas existem e atuam.

Bom dizer também que, como Jonathan Strange & Mr. Norrell, é uma obra que sai no Brasil quase que por engano, já que não vem seguida nem de filme e nem de hype – e ela foi lançada originalmente em 2007, ou seja, recentíssima (ainda mais se parar pra pensar que Eye of the World, o primeiro volume da série Wheel of Time, de Robert Jordan, que é escorada no hype lá fora, tendo inclusive um fandom bem ativo, só saiu no Brasil esse ano, com quase 20 anos de diferença do lançamento original…). Ponto para a editora Sextante – e espero que tragam mais livros recentes também!

Outro ponto forte da edição é a capa: um belo trabalho gráfico, uma ilustração bem caprichada, bem coerente com a proposta da trama e que chama a atenção.

Só que entramos aqui em um ponto fraco, pois nem tudo são flores: a tradução deixou um pouco a desejar. Há um erro bobo e que muda bastante o sentido da trama, mas a escolha lexical utilizada na edição brasileira não foi das mais felizes. Não é nada que prejudique a leitura, mas eu acho que poderia ter sido melhorado.

Ah, sobre a política de spoilers: o grande spoiler que o leitor encontrará abaixo está na orelha do livro, então não achei nenhum crime mencionar o fato.

Ultrapassadas as preliminares, vamos ao livro: somos apresentados a um mundo de fantasia, onde a magia e espécies mágicas pulsam, e também a Kote, um taverneiro de uma vilazinha do interior, que na verdade é um aventureiro aposentado. Não apenas um aventureiro: um guerreiro, bardo, cientista, que esteve envolvido em grandes eventos de seu mundo, que tornou-se uma lenda entre os vivos. Claro, no momento tudo o que ele deseja é paz e sossego, até ser surpreendido por um cronista renomado, que está interessado em conhecer sua história através de seu próprio relato e não vai desistir antes de consegui-lo.

Kote, após alguma insistência, concorda em contar sua história, mas afirma que precisará de três dias para isso – e aqui está o sentido da trilogia, cada dia correspondendo a um livro.

Então começamos do começo: a infância, quando ainda se chamava Kvote e era o filho do líder de um povo nômade e ligado às artes, espalhando suas canções e danças por todo o mundo. Ele, uma criança superdotada e bastante curiosa pelos mistérios do mundo ao seu redor, com uma facilidade impressionante de aprendizado.

Em uma das andanças de seu povo, acabam esbarrando com um latoeiro, que na verdade é um estudioso arcano que, dentre outras coisas, conhece o nome do vento. E, Kvote, como boa criança precoce, vai adotá-lo como mestre, e ouvir pela primeira vez sobre a Universidade, onde os conhecimentos são distribuídos e propagados.

Nessa hora, o pensamento foi irresistível: “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?”. Mas resolvi insistir um pouco na leitura para ver no que daria…

…e a vida do menino vira do avesso depois que seu povo é dizimado pelo Chandriano, uma organização mística que habita as lendas e superstições do mundo.

Aqui, cabe um parêntesis: como Kvote vem de um povo imerso em músicas e contos, as músicas e contos do mundo aparecem na narrativa, e são bem trabalhados e rítmicos. A rima do Chandriano, em especial, merece destaque: dá arrepios seja no original, seja em português. Fica a palhinha, no original:

when the hearthfire turn to blue,
what to do? what to do?
run outside, run and hide.
when his eyes are black as crow?
where to go? where to go?
near and far. here they are
see a man without a face?
move likes ghosts from place to place
what’s their plan? what’s their plain?
chandrian. chandrian

E o mundo de O Nome do Vento é bastante sombrio e cínico. É o mundo de um deus morto, onde a magia arcana foi proibida e até os dias atuais continua sendo vista com reservas, onde a diferença social existe e está latente. É um mundo onde mazelas existem, onde o vício e venda de drogas ocorrem à luz do dia, onde a degradação é visível e latente.

E Kvote tem a obrigação de enfrentar um mundo sombrio e cínico e sobreviver. E sobrevive, aos trancos e barrancos mas sobrevive (e essa parte da trama lembra bastante o Charles Dickens e seus órfãos). Até que, por alguns lances de sorte, acaba tendo a oportunidade de ir para a Universidade.

E a Universidade, não posso deixar de comentar, é uma versão sombria e cínica de Hogwarts, com as diferenças sociais exacerbadas e Kvote, inteligente mas tornado arrogante pela consciência de tal capacidade, desafiando as regras do lugar. Claro, ele não é o protagonista bonzinho, está ali para cometer pecados e pecadilhos, a tropeçar nas próprias pernas mas também ser vítima de injustiças alheias. E é interessante ver suas escolhas e atos por sua perspectiva e não por a de uma outra pessoa.

Um dos pontos interessantes do livro é ter vários dos clichês de fantasia revisitados, mas dentro de lugar. O choque de realidade do órfão precoce, a escola mágica que é tudo, menos um lugar amigável, as tavernas e bardos, tudo isso está lá. Inclusive, uma das melhores e mais criativas caçadas a um dragão que me lembro de ter visto ocorre neste livro, ao decorrer da trama.

Enfim, o primeiro dia da vida de Kvote é animado – e, por ser uma história narrada em primeira pessoa, sabemos que ele sobreviverá a todos os apertos -, é interessante ver as memórias de um personagem tão fantástico expostas e exploradas. Foi uma bela surpresa, valeu a pena tê-lo conhecido e a seu mundo esse ano e espero continuar a ouvir seu relato sobre sua própria vida em breve!

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Quer tirar suas próprias conclusões? Compre o livro! (Submarino)

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Os comentários estão abertos, acima!

Gostaria de ver algum livro por aqui? Deixe AQUI sua sugestão!

Espelhos Irreais – Vários

Capa do Espelhos Irreais

Capa do Espelhos Irreais

Espelhos Irreais é um livro sobre cinco diferentes visões da realeza fantástica, em contos de cinco autores: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues, Daniel Abreu e Roderico Reis. Há a visão da realeza em uma fábula, no tênue limite entre o real e a imaginação, na alta fantasia clássica, na ficção científica… São abordagens diferentes, histórias diferentes entre si, autores diferentes, narrativas diferentes. Como uma degustação literária de estilos e autores.

É também a primeira publicação de papel da Fábrica dos Sonhos, organização que há quatro anos reune autores, escritas e projetos. Uma estreia, uma forma de demonstrar o que andamos fazendo neste tempo todo e também nos apresentar, como autores e como grupo.

Declaro-me suspeita para fazer uma resenha. 🙂 Mas podem ficar com a feita pelo Eric Novello e pelo Fernando Trevisan. 🙂

A Game of Thrones – George R. R. Martin

Toda a época – e todo o grupo – possui os seus modismos.
Se pararmos pra pensar na literatura de fantasia, podemos ver com clareza a “onda Tolkien”, bem como a “onda RPGista”: anões, elfos – que são inimigos entre si -, fireballs explodindo, um guerreiro que precisa salvar o mundo de uma ameaça maligna… Essas temáticas vão além do clichê, chegam a um ponto de recorrência que praticamente anula o processo criativo. E, a bem da verdade, o autor que se utiliza desses elementos não está mesmo criando nada.

A influência de Tolkien na literatura, explodida pelo hype dos filmes da trilogia O Senhor dos Anéis, parece exacerbada hoje. Se o caro leitor parar para pensar, quantos livros poderá dizer que são filhos ou netos diretos dessa geração tolkeniana, principalmente de nossos autores pátrios? Ou mesmo se pensar em outras mídias, como filmes e quadrinhos?

Ainda, depois do sucesso da série de filmes Senhor dos Anéis, os estúdios cinematográficos contribuiram um pouco, mesmo que indiretamente, para a propagação de clichês. Alguns livros de fantasia, de qualidade questionável ou não, viraram filmes e viram seus exemplares, em novas edições caprichadas, pipocarem em terras brasileiras. Posso citar de cabeça o clássico Crônicas de Nárnia, os recentes Fronteiras do Universo, Eragorn e Coração de Tinta, o acachapante Crepúsculo – e ele, o maior de todos, Harry Potter. Todos eles vão do infantil ao infanto-juvenil, ressalte-se.

Só que a fantasia não é apenas feita de Tolkien, Harry Potter e da prateleira do infanto-juvenil das livrarias. Essa é apenas a pontinha da pontinha da pontinha do iceberg – e, infelizmente, é a pontinha que chega ao leitor brasileiro. Salvo algumas editoras que se arriscam a publicar o diferente, como Conrad e Aleph, e algumas gratas surpresas como a publicação de um livro como Jonathan Strange & Mr. Norrell pela Cia. das Letras, a fantasia que não vem escorada em sucessos de cinema, em autores consagrados como Neil Gaiman ou Anne Rice, ou que vai direto para a prateleira do infanto-juvenil chega ao Brasil quase que por engano.

Enfim, uma dessas séries que vai além da pontinha do iceberg – e se revela quase um novo paradigma literário, como o próprio Senhor dos Anéis ou Fundação, para ficar em exemplos próximos – é A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin. A série está planejada para ter sete livros, os quatro primeiros já lançados, o quinto por sair ainda este ano e os outros dois em produção. A Game of Thrones é o livro inaugural da série.

Esqueçam os anões, elfos, bruxinhos, bolas de fogo, varinhas mágias e guerreiros salvando o mundo enquanto vivem a jornada do herói. A magia é óbvia, evidente, ululante, mas não faz uso de nenhum desses estratagemas para aparecer. Aliás, o prólogo já traz de imediato a certeza de que estamos diante de um livro de fantasia, sim, senhor!

Era uma vez o continente dos Sete Reinos de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno uma vida toda. O último verão durou mais de uma década, o que significa que um longo inverno se aproxima, e ele está chegando. Há uma barreira (“the Wall”) que separa o mundo civilizado do mundo selvagem dos Outros, e eles parecem se agitar quando o inverno chega.

Enquanto isso, a vida segue pacífica em Winterfell, castelo da família Stark, liderada pelo patriarca Eddard e por sua esposa Catelyn, até o dia em que são surpreendidos pelo rei Robert Baratheon, que faz uma proposta irrecusável a Eddard: ser a Mão do Rei – aquele que governa o reino de fato, enquanto o rei caça, bebe e se diverte.

Robert e Eddard são amigos de infância e lutaram juntos quando da tomada do reino das mãos de seu antigo monarca, Aerys II, o que torna o convite ainda mais difícil de ser declinado, e que obriga o patriarca Stark a mudar-se de sua casa para o palácio real, e a ser mais um personagem dentro das intrigas palacianas. Além da vida de Eddard, as mudanças na vida de sua família e das pessoas que se interligam com sua vida também estão em foco, com a criação de várias tramas paralelas que interferem nos acontecimentos principais.

Há ainda uma trama paralela que funciona bem como história à parte: é o destino de Daenerys Targaryen, última descendente de Aerys II, princesa exilada em uma terra distante. Inclusive, os capítulos que estão sob seu ponto de vista foram lançados como noveleta à parte, chamada Blood of the Dragon.

A história é formada por pequenos capítulos que correspondem ao ponto de vista dos mais diversos personagens. Em A Game of Thrones, são cerca de dez os personagens contemplados. E, sobre os personagens: o autor teve o dom de criar personagens reais: carismáticos, humanos com acertos e erros, críveis, que o leitor tem o dom de amar ou odiar se quiser.

Quanto ao ambiente, os Sete Reinos são em tudo um mundo em tudo parecido com o nosso. Sua tecnologia remonta à Baixa Idade Média no comecinho da transição para o Renascimento, mas com culturas e regras próprias condizentes a um universo particular. Há também inúmeras referências à nossa realidade, como a rixa entre as famílias Stark e Lannister – e que, devido a vários acontecimentos, só faz crescer – que é uma referência óbvia à dísputa de poder entre as famílias York e Lancaster, na Inglaterra, que culminou na Guerra das Rosas.

Bom, o leitor deve ter percebido que alguns termos estão em inglês. Pois é. O livro não foi publicado no Brasil, então as leituras possíveis são no idioma original ou em alguma tradução – a série está sendo lançada em Portugal, a quem interessar possa. Uma série no universo de A Song of Ice and Fire está em fase de pré-produção pela HBO e eu realmente espero que com o advento da série – como com o advento dos filmes impulsionou a tradução e o lançamento de livros – os livros possam ser publicados no Brasil. E, se há alguma editora me lendo: olhem com carinho para essa série, é uma grande história que merece ser publicada.

Ah! Me perguntaram nos comentários e achei interessante responder: você pode encomendar os livros na Amazon ou outros sites internacionais, mas há lojas nacionais que importam, como a Livraria Cultura. É também um livro relativamente fácil de ser encontrado em sebos, comprei meu exemplar por R$7,00 (sete reais).

Dia 23 de abril – Dia Internacional do Livro

Hoje (?) é o dia dele!!!!

Daquele que motivou a existência deste blog!
Do companheiro de aventuras de todas as horas!
Do companheiro de trabalho, por que não, de todas as horas!
Do amigo inseparável, do contador de histórias, do receptáculo de conhecimento.
Dia do livro!!!!

A data parte de uma coincidência: em 23 de abril de 1616, faleceram Miguel de Cervantes e William Shakespeare, dois dos maiores escritores de toda a história da humanidade. Esse dia foi escolhido como Dia do Livro na Inglaterra e na Espanha e, em 1996, a Unesco escolheu esta data para celebrar o Dia Internacional do Livro.

Vamos comemorar, porque ele merece!

São Jorge dos Livros e das Rosas

São Jorge dos Livros e das Rosas

São Jorge dos Livros e das Rosas

São Jorge da Capadócia e da Catalunha. O santo guerreiro tão controverso, tão debatido, tão comentado!

O santo escolhido como avatar para Oxossi e Ogum para aqueles impedidos de demonstrar em público sua fé.

Não vou conseguir expressar tão bem a história do santo e sua relação com a Catalunha melhor do que neste link, então cliquem e acessem para saberem um pouco mais!

Mas é dia de celebrar a cultura dos livros, da cavalaria, do candomblé, da Catalunha! É dia de distribuir rosas e livros! Salve Jorge!

A Leitura Acessível – Sebos e a Internet

Novamente falando sobre a acessibilidade da leitura. Então você, caro leitor, continua sem dinheiro para adquirir os mais recentes lançamentos que pululam nas estantes todos os dias? Há mais opções além da reclamação. Semana passada já tratei dos pocket books, agora é a hora de tratar de outras duas formas de conseguir bons livros por um precinho camarada.

A primeira delas pode estar perto de você, quem sabe até na próxima esquina. É um dos melhores ambientes para um amante dos livros e leituras: os sebos! Existem desde aqueles decadentes, em que o auge é o cheiro de mofo, aos mais modernos, organizados e criteriosos com suas seleções.

Um passeio em um sebo é um passeio por um mundo de imagens, cheiros e sabores. São livros de várias edições, algumas delas datadas de quase século de vida – e por que não mais de século? -, de várias partes do mundo, de todo o tipo de origem espacial e temporal. É possível encontrar até mesmo os lançamentos por preços bem menores dos que os praticados nas livrarias. Por um detalhe: todos os livros já pertenceram a outra(s) pessoa(s) antes.

Devido a este fato, o estado de conservação dos livros é variável: há aqueles que parecem recém-impressos, há outros que sofrem com a passagem do tempo e com a mão de donos pouco cuidadosos. Particularmente, nunca tive grandes problemas com livros comprados em sebos, mas ao conversar com o dono de um, ele me alertou sobre livros que chegam rabiscados à loja, o que é sem dúvida uma experiência desagradável.

Onde estão os sebos? Em todas as esquinas, ruas, cidades, basta procurar. Alguns deles, não sei se por falta de noção de raridade ou cotação de mercado, vendem relíquias por uma ninharia, é só conferir.

Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas na sua cidade não tem um sebo. Então é hora de conhecer o site Estante Virtual – é uma rede de sebos por todo o Brasil, basta buscar o livro desejado e pesquisar o melhor preço e localização. É um site bastante confiável, compro bastante nele, em diversos sebos diferentes e não tive más experiências. Outra opção é o Mercado Livre, de onde também já adquiri livros, sempre tendo o cuidado de observar as qualificações do vendedor.

O que abre também outra discussão: a internet e o e-commerce. Conforme comprovam as pesquisas (aqui e aqui, por exemplo), a resistência inicial em relação a comprar via internet vai sendo superada e o comércio eletrônico vem crescendo a passos largos a cada ano. No que isso pode nos beneficiar?

Além dos grandes magazines e supermercados, as grandes livrarias conquistam seu espaço on-line. “Mas o preço dos lançamentos e livros mais cotados é o mesmo das lojas físicas!”, vocês poderão me dizer. Sim, mas a loja on-line traz uma vantagem sobre a loja física: as promoções. Com um pouco de paciência, é possível comprar livros com 50, 60 ou 70% de desconto através dessas promoções, o que é sempre uma ótima e agradável experiência. Basta ficar alerta a essas promoções e, claro, também estar atento ao cálculo do frete de envio – há sites que não cobram frete para compras a partir de determinado valor.

E uma nota importante sobre a internét é a de que você pode ler ótimos livros de graça! Através do site Domínio Público, é possível baixar, inteiramente de graça, e-books de obras que já tem seus direitos em domínio público. É uma ótima pedida para os grandes clássicos!

Como já disse anteriormente, basta procurar para que a atividade de leitura possa ser possível e não muito cara!

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. LeGuin

O meu primeiro contato com este livro foi o famoso “ouvir falar”. Trata-se de um clássico da literatura de ficção científica, aonde a autora cria um planeta de seres que podem assumir ambos os sexos em seu período reprodutor. Foram exatamente estes os elementos que me apresentaram sobre o livro.

Ao comprá-lo, pensei: “mas e agora, sei dos seres ambissexuais, mas qual é a trama desse livro?”. Pois é. Ela é muito simples e muito sutil: a chegada à Gethen, o Planeta Inverno, de Genly Ai, terráqueo, embaixador da Comunidade Ecumênica, órgão paraplanetário que reune a humanidade dispersa pelo espaço. Lá, ele envolve-se com Estraven, político influente. A trama desenvolve-se então em torno da missão do Enviado, em fazer com que Gethen adera à Comunidade, e em seu relacionamento com Estraven.

Muito simples. Não é épico, nenhum acontecimento emocionante (exceto toda a parte final do livro). Trata-se de uma descrição, tanto ambiental quanto antropológica, tanto de um planeta gelado quanto de sua sociedade e cultura particulares. E, principalmente, de como seria uma humanidade em que a dualidade do masculino/feminino não existisse. Onde sexo só ocorreria em determinado período do mês e qualquer um tenha o potencial de ser macho ou fêmea.

O título do livro refere-se justamente a dualidades. No caso, a dualidade entre luz e sombra, mas que se aplica em várias outras: quente/frio, bem/mal, certo/errado… E as duas últimas são tão maleáveis… E ainda em uma sociedade em que a dualidade primária a qual um humano se submete não existe: a do masculino/feminino. O yin-yang que se mistura e se torna cinza.

Agora, o subtexto, que na minha visão se mostrou bastante óbvio. Nem é tanto a questão de gênero, porque a indagação sobre a eliminação de gênero é textual, mas sim a de se lidar com aquilo que é diferente. Com alguém que seja diferente. Como nos tornamos hostis ao diferente, ou mesmo como nos sentimos curiosos a desvendá-lo – e como precisamos nos utilizar de nossos próprios parâmetros e medidas para tentar encaixar a diferença. É a relação entre dois alienígenas que se encaram e julgam pelos seus próprios parâmetros.

Também, dos sentimentos humanos que transcendem o gênero, como os jogos políticos e de interesse – e, principalmente, a amizade, apesar de que um getheniano pode se reproduzir com seu melhor amigo.

Ainda, levando em consideração em que o livro foi escrito na década 1960, quando o mundo era bipolar, é interessante notar que em Gethen existem duas grandes potências rivais e alguns países periféricos – e que tanto faria para algum alienígena entrar em contato com EUA ou URSS – o outro lado logo também faria uma aliança que se estenderia pelo mundo. Fica aí a pergunta.

Outro ponto que achei curioso e que não sei se a autora estava consciente disso é quanto ao nome de Genly Ai. Em determinado ponto, um personagem afirma que “ai” parece quase um lamento de dor. Mas eu, imediatamente, lembrei-me que “ai”, em japonês, significa “amor”. Dentro do contexto da história, cai como uma luva.