Good Omens – Neil Gaiman e Terry Pratchett

good-omens-capaUm dos assuntos mais culturalmente instigantes é o apocalipse, o fim de tudo, a chuva de fogo e o ranger de dentes eternos que marcará o ponto final. Como será o dia final? Trará terremotos, meteoritos, renúncias papais? Como será o choro e ranger de dentes definitivos?

 Essa é a versão dos maiores nomes da fantasia inglesa contemporânea, numa parceria feita para dar certo. O humor mordaz de Pratchett misturado com a riqueza dos cenários de Gaiman encaixam-se como uma luva, a fusão de estilos fica bem concisa, apesar de conseguirmos enxergar bem as marcas registradas de cada autor, o recado de que eles estão ali.

 O mundo está marcado para acabar desde o momento em que ele começou, então as legiões de Céu e Inferno estão se preparando para o Armageddon, a batalha final, desde então. Não que todos anjos e demônios concordem com isso: Crowly, demônio, e Aziraphale, anjo, têm lá seus motivos para gostar da humanidade e não estão muito a fim de duelos com espadas com lâminas de fogo, bestas-fera e nem nada disso. Querem é seguir a vida de sempre e deixarem como está, mas os chefes não parecem concordar muito.

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Cinquenta Tons do Sr. Darcy – Emma Thomas

50-tons-darcyÉ uma verdade universalmente reconhecida que um clássico gera o desejo da iconoclastia. Aliás, essa iconoclastia é até mesmo saudável, pois obras e conceitos intocáveis não são nada saudáveis – e para que a quebra seja eficiente, quem a faz deve conhecer a obra original para tal.

Orgulho e Preconceito é uma das obras mais importantes da literatura inglesa. Um jovem provavelmente lerá o livro no colégio em países de língua inglesa, inclusive (e será que pegarão a ojeriza aos clássicos tão comum entre os alunos pátrios?). É muito mais do que um romance: é o retrato e crítica social de uma época que aparenta ser tão glamourosa, mas que continua se aplicando aos dias atuais, como o peso da conta bancária de alguém, prestígio social, preconceitos à primeira vista e mal-entendidos.

E como todo clássico, é constantemente renovado, tanto pela adaptação para outras mídias (tem ao mínimo três versões em filmes/séries de TV, incluindo uma muito clássica da BBC) quanto por recontagens (por incrível que pareça O Diário de Bridget Jones é uma versão moderna da obra) e paródias (como a precursora da onda de mashups Orgulho e Preconceito e Zumbis). Acho todos os casos válidos, pois é assim que o clássico se mantém vivo, não imutável e encostado na parede pegando poeira, traça e teia de aranha.

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O Jardim do Diabo – Luis Fernando Veríssimo

o-jardim-do-diaboA associação mental imediata entre Luis Fernando Veríssimo e um texto é obviamente o humor. Não o humor rasteiro das falsas mensagens na internet atribuídas a ele, mas o humor sutil do ridículo da realidade, aquele pontual e direto ao alvo. Suas crônicas são clássicas, algumas impagáveis, e poucos em nosso idioma conseguem uma sátira do cotidiano tão certeira. O Jardim do Diabo foi seu primeiro romance, será que ele conseguiria replicar o efeito de suas crônicas?

(e sobre o Luis Fernando Verissimo, uma coisa que me deixa intrigada: taí um autor que em todas discussões de “brasileiro não lê autor nacional”/”brasileiro não lê os autores que quero que ele leia”, ele passa ignorado. Não achincalhado como Paulo Coelho, mas ignorado completamente. Curioso, não?)

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Cinquenta Tons de Cinza – E. L. James

Minha curiosidade literária me coloca em roubadas de vez em quando. Aliás, se forem pegar a lista de resenhas do site, dá pra ver algumas dúzias dessas roubadas, com resultados diversos. Quando comecei a ouvir falar de Cinquenta Tons de Cinza, pensei algo como: “corra, Bino, é uma cilada!”. Só que daí a febre foi crescendo, as pessoas foram falando mais, fui tendo mais informações e o bichinho da curiosidade começou a me picar. Ui.

Pensei que estivesse embarcando em mais um roubada, mas não: o livro é UMA DELÍCIA. Só que por motivos muito, muito errados (e nem tou falando da parte erótica, afinal, o repórter gostosinho tem lá sua razão).

Para quem não sabe ainda sobre o que se trata esse novo fenômeno editorial, é a história de Anastasia Steele, estudante, 21 anos, virgem, insegura e de baixa autoestima, que, às vésperas de sua formatura conhece o bonitão, gostosão e ricaço Christian Grey. Surge uma tensãozinha recíproca que evolui para romance, mas o sr. Grey é um camarada esquisito, desses que exigem que as pretendentes assinem um termo de confidencialidade antes de se entregarem aos seus encantos. Só que, ao contrário do que o leitor possa suspeitar, não se trata de uma ereção de 5cm – mas uma predileção por sexo sujo. E outras feridas emocionais que conheceremos, juntos de nossa inocente protagonista, que descobre ter uma periquita em chamas.

O livro é kitsch até a medula e um poço de humor involuntário. Sério, é o antídoto perfeito contra qualquer mau humor. A narrativa é ruim, o livro é mal escrito mesmo e a autora parece não estar nem aí, pelo contrário, é a lei do lulz. E pelo lulz, não dá para largar o livro até o final.

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O Centésimo Em Roma – Max Mallmann

Todos os caminhos levam a Roma. A frase, um ditado quase tão antigo como a Cidade Eterna, surgiu da observação de que todas as estradas do Império tinham por destino último a capital.

A frase hoje também pode ser interpretada de outro jeito: nossa civilização tem raízes tão fortes em Roma que qualquer aspecto dela pode facilmente chegar lá. As instituições como conhecemos nasceram em Roma, o idioma surgiu do latim, o cristianismo desenvolveu-se em Roma… Mesmo os povos asiáticos, sub-saarianos e americanos foram imiscuidos por Roma, então hoje a Cidade Eterna vive em cada um de nós.

Tudo isso para dizer que tratar do Império Romano é tratar de nossos avôs, antecessores e professores, então não existe lugar na Antiguidade Clássica – e nem nos períodos posteriores – que nos seja tão familiar como o antigo império.

O  autor brasileiro Max Mallmann se aproveita dessa familiaridade para situar seu novo romance em Roma, no século I, no ano conhecido como “o ano dos quatro imperadores”, período de turbulência política que quase culminou numa guerra civil sangrenta.

O romance conta a história de Desiderius Dolens, legionário romano plebeu que sonha em galgar a hierarquia da profissão e se tornar cavaleiro, mas sabe que isso é complicado para uma pessoa endividada e sem um mínimo de QI (Quem Indica, no caso). Por meio de seus contatos, ele acaba chefiando uma das divisões das coortes urbanas de Roma (uma espécie de guarda municipal), que possuem menos prestígio mas já são um passo até seu objetivo de vida.

A história possui dois narradores: parte dela é contada como um livro de crônicas, as memórias de Dolens escritas por Nepos, seu braço direito. E, como livro de crônicas, traz apenas o relato rápido, feito anos depois, das lutas, crimes, viradas políticas e eventos ocorridos naqueles tempos em que se passa a trama. É um bom recurso para acelerar cenas que de outra forma seriam lentas e inserir detalhes históricos, alguns deles até mesmo reais, de forma sutil e não maçante. O outro narrador onisciente acompanha Dolens e as pessoas que o cercam em tempo real, observando todos os seus passos, olhares, palavras e ações apócrifas que não ficariam bonitas num livro de relato histórico. Os dois narradores se alternam e a transição de um para o outro é bem dinâmica: o leitor não se confunde ou se cansa, inclusive em alguns momentos as formas diferentes de narrativa servem para injetar oxigênio na leitura e fazer o leitor dar uma acalmada após uma cena mais intensa.

A trama é simples ao ponto da banalidade: a vida de Dolens e sua tentativa frustrada (ou nem tanto) de ascensão social. Há intrigas políticas nas quais o protagonista acaba se metendo e um assassinato a ser investigado (e que serve de pretexto para mostrar um grupo anárquico e subversivo que assolava Roma naqueles tempos, os cristãos – e a melhor cena de todo o livro é o culto cristão, disparado), mas a grande maioria dos fatos são acontecimentos cotidianos na vida de Dolens e das pessoas que o orbitam. Inclusive, apesar de ocorrer o assassinato, não faria a mínima diferença para o romance se a identidade do assassino fosse desvendada ou não, pois em quase nada influi na vida dos personagens.

Só que o livro também é uma aula sobre como transformar uma história banal em algo atrativo e interessante utilizando-se de dois elementos, quesão os pontos fortes do livro.

O primeiro é a reconstrução histórica. O autor estudou para falar sobre Roma, leu material histórico, clássico e tudo o que estivesse ao seu alcance para ambientar a trama numa Roma viva e pulsante, habitada por pessoas de carne e osso que passeiam por lugares reais. Verossimilhança, para mim, está muito mais ligada às pequenas coisas do que aos grandes eventos,e os personagens do livro falam, agem e pensam de maneira muito convincente para romanos da época.

E os personagens? São extremamente carismáticos, do idiossincrático Dolens, que deve ser ancestral de um pater familiae moderno até muito conhecido, que ao mesmo tempo em que é inábil para fazer as coisas certas para sua promoção, tem o raciocínio um pouco obtuso e não mede esforços para se dar bem, até consegue agir sem querer da melhor forma para si mesmo. Nepos, seu braço-direito, é um idealista romântico e uma espécie de nerd da idade antiga, o que serve de motivo para Dolens humilhá-lo constantemente aproveitando da prerrogativa de ser seu superior hierárquico. Aqui, as posições de Dom Quixote e Sancho Pança estão trocadas, além da dinâmica entre eles lembrar muito a de Holmes e Watson. Os outros personagens também tem seus momentos, todos eles tem a chance de brilhar ao menos uma vez.

E o humor? Ironia, escracho, nonsense… É um livro engraçadíssimo! As peripécias de Dolens, tanto as que dão certo quanto a grande maioria que dá errado, são observadas através dessas lentes, com resultados muito satisfatórios. Esse foi um dos poucos livros que tive de parar de ler, marcar, deixar de lado e rir à vontade até me recompor! E é o humor na medida, que não se torna cansativo pela alternância narrativa, responsável por delimitar as gags e dar oportunidade para o leitor respirar. Não que isso torne o romance uma comédia, de jeito nenhum, mas foi um ótimo tempero encontrado pelo autor para dar sabor ao seu retrato cotidiano.

Enfim, foi uma experiência recompensadora e é um livro recomendadíssimo, nem que pela reflexão de que Roma é eterna, assim como algumas coisas, como a odisseia para qualquer um sem berço e sem dinheiro se dar bem na vida, não mudam nem no período de dois mil anos.

***

Até a próxima!

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E se meu namorado fosse um movimento literário?

Às vezes ficamos pensando sobre nossos namorados, sobre como eles poderiam ser. Árvores, CD’s, livros… Mas e se meu namorado fosse um movimento literário? Uma pequena piadinha de minha autoria (então favor darem os devidos créditos se forem replicar esse texto).

E se meu namorado fosse um movimento literário? – por Ana Carolina Silveira

Classicismo: Ele possui um quê épico, apreciando grandes combates e navegações, até mesmo de descobrir terras novas. Pode ser também que ele goste de introspecção, e de conversar com uma caveira sobre os dilemas da existência.

Barroco: Ele se veste de preto, seu músico predileto é Bach. Passa os dias se questionando sobre a existência ou não do inferno e, em caso positivo, se vai direto para lá ou não.

Arcadismo: Ele largou a agitada vida na cidade grande pela vida bucólica do campo. Gosta de passar feriados em Ouro Preto, de novelas das seis e de música sertaneja de raiz. Flerta com a política.

Romantismo: Ele é um cara lindo, maravilhoso e sensível, que monta um cavalo branco e pega onça na unha só para me agradar. Há o risco que ele se vista de preto, fique pelos cantos de madrugada bebendo cachaça e vendo fantasmas, e morra cedo por causa disso.

Realismo: Eu não presto. Ele é um idiota. Eu o traio com um cara bonitinho e gostosinho, e me ferro gostoso por isso.

Naturalismo: Sexo. Sexo sexo sexo sexo sexo.

Parnasianismo: Ele é tão lindo!!! E é só isso o que importa.

Simbolismo: Ele busca explicar com a ciência as suas angústias interiores. Nem sempre consegue. Às vezes ele fala coisas estranhas e incompreensíveis, algumas até mesmo repugnantes.

Modernismo: Teve uma adolescência agitada, quando se vestiu de mulher e andou pelado na rua apenas para chocar os seus pais. Na época de faculdade, consciente dos problemas sociais do país, estudou as diferenças regionais brasileiras. Após a formatura, sentiu vergonha das estripulias adolescentes, e passou a escrever um diário.

Pós-modernismo contemporâneo: Ninguém se importa que meu namorado more na China, ou que ele na verdade seja ela. Há a possibilidade de que ele/ela goste de autoajuda. E de varinhas mágicas.

Aposto que sua professora de literatura nunca explicou assim!

Diários de Nanny – Emma Mclaughlin e Nicola Kraus

Cometi um erro fatal neste fim de ano.
Deixei o maravilhoso romance que estava lendo em casa (não revelarei seu nome ainda, mas ele gerará uma das mais caprichadas resenhas deste blog) e trouxe para meu feriado dois livros técnicos. Só esqueci de um detalhe: ler sobre jurisdição e sobre processo civil brasileiro contemporâneo exige um certo preparo mental, não só a vontade de relaxar e viajar.
Resultado: depois de passar uma noite fazendo auditoria de um jogo de buraco (!) e ouvindo o especial do Roberto Carlos na televisão (!!!), percebi que as coisas não iam bem. Isso sem contar a longa conversa sobre teologia com o porteiro do Atlético

Minha amiga Mariana, solidária com minha situação, me emprestou alguns livros para que meus dias pudessem ser melhor preenchidos, dentre os quais Diários de Nanny. Como ela disse: “é um livro legal, foge daquele estereótipo de cinderela”.

Acredito que a literatura e a culinária se aproximam em vários pontos, então sempre recorro a analogias gastronômicas para explicar certos pontos. Pois então. Sabem aqueles dias em que tudo o que você quer jantar é o enroladinho de presunto e queijo da cantina da universidade? Pois então. Da mesma forma, há dias em que desejamos ler um livro leve e sem grandes pretensões literárias.

Nanny é uma universitária precisando de grana e, para arrecadá-la, ela se torna babá de um adorável garotinho filho de uma família de alta sociedade de Nova York. Claro, o garotinho Grayer não será a única pessoa de quem ela cuidará naquela casa, afinal sua mãe, uma madame de alta sociedade que sabe-se lá por qual razão teve um filho, também precisa de cuidados.

Não há o estereótipo da cinderela, ela não se apaixona pelo patrão (que é um ninfomaníaco safado, por sinal), mas há vários outros, como o da ricaça fútil e incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz, o do ricaço ausente e colecionador de amantes e a da pobre criança perdida no meio desses adultos. Claro, ela come o pão que o diabo amassou no emprego, e o final merecia ser melhor.

As autoras se apresentam como ex-babás e dizem que o livro é uma sátira sobre aquilo que tiveram de aguentar em seu trabalho e sobre o fato de pessoas que delegam a criação de seus filhos a outras pessoas.

Mas o livro me tocou. Fiquei pensando no pobre garotinho e seus pais que sabe-se lá porque tiveram um filho, talvez para apresentá-lo à sociedade como um brinquedo de luxo. Quase o vi adolescente virando hippie, eco-terrorista, drogado ou qualquer outra coisa apenas para chamar a atenção de seus pais, que o levariam a batalhões de psicólogos e terapeutas sem saber que o que lhe falta é o mais essencial. Pensei que infelizmente é uma realidade que também vivemos aqui, também próxima demais. Tenho muita pena dessas crianças e muito medo do que elas poderão se tornar no futuro.

Enfim, valeu a leitura, serviu ao seu propósito de entretenimento e ainda provocou reflexão, ora vejam só!

(P.S.: Caso algum dia visitem a UFV, reservem um tempo para provarem algum salgadinho do DCE. Compensa trocar alguns jantares por eles de vez em quando).