Azincourt – Bernard Cornwell

Como todo bom leitor, tenho uma relação bastante pessoal com os autores de livros: tem aqueles de quem gosto muito e já li grande parte da obra ou estou próxima disso, os de que gostei da experiência e posso repeti-la, mas não é uma prioridade, os autores cuja leitura de uma de suas obras basta, os que larguei um dos livros pela metade e não pretendo que entrem nunca mais em minha pilha de leitura – e os que não gostei de minha primeira experiência de leitura, mas que por curiosidade ou insistência quero dar uma segunda chance (dois exemplos notórios aqui: William Gibson e André Vianco).

E esse é o caso de Bernard Cornwell. Como vocês já tiveram a oportunidade de perceber, minha primeira leitura do autor não me agradou, mas ele é tão querido e tem tantos fãs cativos que pensei que talvez o problema fosse com o livro escolhido, ou comigo, e resolvi que lhe daria uma segunda chance quando tivesse oportunidade.

Só que como ele é um autor de sagas longas de milhares de livros cada uma – que além de tudo são meio carinhos para meus bolsos de pobre mortal – e gostaria de uma amostra com começo, meio e fim, já que as sagas sempre tem a desculpa do “fica melhor no livro 2” ou algo parecido (eu particularmente discordo deste argumento, se uma história precisa de milhares de páginas para “ficar boa”, então ela não é boa, apesar de reconhecer que há tramas que mostram ao que vieram só lá pela metade ou da metade para o fim), queria um livro-solo. Azincourt, o lançamento mais recente, parecia, então, excelente para minha empreitada.

Bernard Cornwell, para o leitor desavisado, é um autor de ficção histórica em geral e da história inglesa em particular. Suas duas sagas mais conhecidas são as Crônicas Arturianas, que sem dúvida são sua obra mais conhecida, sobre o mítico Rei Arthur e sua Távola Redonda, e as Aventuras de Sharpe, sobre um soldado inglês de mesmo nome do início do século XIX – e daí conclui-se também outra predileção temática, sobre grandes guerras, conflitos e batalhas.

Azincourt (ou Agincourt, depende do lado do Canal da Mancha) é uma das batalhas da Guerra dos Cem Anos, disputada entre Inglaterra e França no século XV (e que teve várias personalidades históricas envolvidas nos seus mais diversos momentos, do rei Henrique V a Joana D’Arc), onde os ingleses, exaustos, devastados pela doença e em desvantagem numérica, venceram uma luta dada como perdida contra os franceses.

E a trama do livro será essa: a batalha e uma série de circunstâncias que as sucederam, através dp ponto de vista do protagonista da vez, Nick Hook, um guarda-caça de nascimento plebeu que é alistado no exército por uma série de circunstâncias que incluem rixas familiares, crimes não cometidos e uma boa dose de azar. Sua habilidade como arqueiro é notória – e a sorte da batalha será definida pela destreza com o arco.

Aqui, um ponto que merece destaque: apesar dos nomes que entram na história serem os dos grandes príncipes, generais e comandantes, quem parte para matar ou morrer em uma batalha são os peões – os soldados comuns, os homens do povo arrancados de sua rotina, voluntariamente ou não, colocados para combater em guerras que não são suas. As vidas na linha de frente são as suas, bem como é seu sangue que tinge de vermelho os anais da história. A trama narrará a história de alguns destes homens, além de, é claro, alguns dos nobres que colocaram seus nomes na história, entre eles o próprio Henrique V.

Mas, voltando ao livro em si: a trama demora para engrenar. As primeiras cinqüenta ou sessenta páginas, ou melhor, todo o caminho que leva Nick até a cidade francesa de Soissons e do massacre que a consumiu, é de uma chatice sem-tamanho. Eu iria largar o livro, desagradada, lá pela página 30, mas, com pena de ter desperdiçado a quantia investida nele, prossegui.

E esse é um dos grandes problemas da trama: as coisas demoram a acontecer e lá se vão páginas e mais páginas de explicações sobre a situação política, a constituição dos exércitos, o funcionamento de seus armamentos e por aí aofra. Para quem gosta deve ser até divertido, mas me deixou entediada.

Outro grande problema do livro é algo que já tinha me saltado aos olhos em O Último Reino: o protagonista, da linhagem de Chuck Norris, é o uber-homem no meio da gente comum: uma habilidade extraordinária com o arco, ok, aceitável; estar no lugar certo na hora certa o tempo todo, até tem desculpa porque a trama precisa caminhar de alguma forma; apesar de ter nascido, crescido e vivido como um guarda-caça treinado no arco em uma roça inglesa qualquer e, após uma hesitação e resistência iniciais agir como soldado com treinamento de exército, a suspensão da descrença começa a sofrer danos; com o passar da narrativa, apesar da guerra rolando solta ao redor, ter a certeza absoluta de que NADA vai acontecer com o protagonista simplesmente porque ele é melhor do que todo o resto: parou, né? (Isso porque nem mencionei que Deus fala com nosso amigo protagonista de vez em quando para impedir que a trama fuja de sua previsibilidade).

Ou seja: um livro em que a leitura não flui de maneira tranqüila, sem personagens carismáticos e com a suspensão da descrença inoperante. Difícil, né? No balanço final, foi interessante por ter me ensinado um pouco mais sobre a história inglesa e europeia, mas decepcionante em termos de trama. A impressão ruim construída em O Último Reino continua.

Ainda estou curiosa para ler as Crônicas Arturianas (porque concluí que pela legião de fãs essa história deve ser muito boa…), mas não é nem de longe uma prioridade na minha lista de leituras…

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