Ela

ela-filmeUm dos maiores paradoxos da modernidade é que, apesar de termos inúmeros gadgets, conexões e artefatos que eliminam as distâncias, estamos cada vez mais solitários. Vamos para o trabalho (e hoje qual profissão não precisa de um computador para executar as atividades?), chegamos em casa, nos atualizamos das notícias e jogamos videogame antes de dormirmos e começarmos tudo de novo – e isso tudo com poucas interações sociais pelo caminho.

Theodore, o protagonista do filme, é um homem solitário ainda não recuperado do recente divórcio com a mulher que conhecia desde a infância. Apesar dele ter amigos, conhecidos, um chefe legal com quem tem um bom relacionamento (e com quem aparece interagindo ao longo de todo o filme) e até mesmo encontros românticos, internamente é uma pessoa solitária, que interage mais com eletrônicos ou pela internet com desconhecidos para tentar preencher o vazio interno. Até o dia em que descobre um novo sistema operacional, Samantha, última tecnologia, programada para reagir à personalidade de seu dono e para aprender e evoluir. Eventualmente, Theo acabará se apaixonando pela voz em seu telefone.

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Erótica Fantástica 1 – Vários Autores

capa_erotica-fantasticaDepois de várias digressões sobre tons de cinza e coisas do gênero, tá na hora de falar de coisa boa, de iogurteira top therm de outras propostas em erotismo que possuem o potencial para serem muito interessantes. Afinal, sexo é bom, divertido e a grande maioria das pessoas gosta. Há os clássicos do tema, claro, até tem resenha aqui de um deles, mas nada impede de sabores novos, pessoas novas… de haver diversidade.

Então por que não trazer o erotismo para os domínios do fantástico? Essa é a proposta da antologia Erótica Fantástica 1 (haverá um volume 2 a ser lançado em 2013): contos eróticos em cenários fantásticos (sejam eles de fantasia ou ficção científica). Dezesseis autores, dezesseis estilos, dezesseis universos diferentes para exploração e apreciação. Uma ótima pedida, não?

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Flashforward – Robert J. Sawyer

Dois dos temas mais instigantes em qualquer ficção são as viagens no tempo e a questão do livre-arbítrio ou do destino determinado pelas profecias. Está tudo escrito ou tudo pode ser modificado? E, mais do que isso, tentar evitar a profecia vai fazer seu destinatário caminhar diretamente para sua concretização? (esse é um dilema presente na literatura desde sempre – na verdade, os gregos entendiam que o pior dos pecados era justamente tentar burlar o destino, com consequências trágicas).

No livro de hoje, o tema das profecias vêm através da ficção científica e de uma viagem no tempo coletiva involuntária. Como em nossa realidade, o CERN construiu um acelerador de partículas capaz de replicar as condições do início do universo e detectar o bóson de Higgs, partícula presente em modelos teóricos e cuja detecção os confirmaria. Então, um pouco diferente de nós, em 2009, liderados por Lloyd Simcoe e Theo Procopides, o experimento é feito, mas acaba tendo um efeito colateral para lá de inesperado: a humanidade inteira “apagou” por cinco minutos e teve a consciência lançada para 21 anos no futuro, podendo assistir à sua vida por lá por este tempo.

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Never Let Me Go – Kazuo Ishiguro

O reino das lembranças, ainda que sejam doces lampejos de uma infância feliz, são também carregados do peso daquilo que já foi e não será mais. De sentimentos e lugares que não voltarão, de dias que ficaram para trás, de coisas que só existem agora como memórias. Quando esses dias parecem mais luminosos do que o presente, ou quando você sabe que certas escolhas e atitudes que pareciam bobas na época te colocaram na exata situação onde você está hoje – e ela não é assim tão boa – essas lembranças se tornam ainda mais dramáticas.

Never Let Me Go (ou Não Me Abandone Jamais, no título do livro lançado no Brasil) é um romance do escritor inglês nascido no Japão Kazuo Ishiguro, que recentemente ganhou adaptação cinematográfica. Falando do autor (e depois de descobrir que há inúmeras análises literárias sobre ele publicadas fico até com medo de continuar essa resenha), é bom mencionar que os pais emigraram quando ele tinha seis anos de idade para a Inglaterra, fazendo com que crescesse num ambiente em que as duas culturas se mesclam. Seus trabalhos versam muito sobre as lembranças e a retomada delas para justificar as escolhas de uma vida, como pode ser observado em seu romance mais famoso, Remains of the Day (sou apaixonada pelo filme, Vestígios do Dia, e é um desses livros que quero MUITO ler). Ah, uma nota importante: o título tem tudo a ver com o romance.

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Jogos Vorazes – Suzanne Collins

Um lugar-comum (que não foge muito da realidade) é o de que todas as histórias já foram contadas. A originalidade absoluta não existiria e seria impossível de ser alcançada, portanto, não seria possível exigi-la, e o que faria diferença em uma história seria muito mais a forma como ela é contada do que seu conteúdo. Claro que essa falta de originalidade diz respeito às linhas gerais de uma obra, pois se formos analisar em nível de detalhes, o incômodo passa a aparecer com força.

E isso foi o que me incomodou da primeira vez que ouvi falar em Jogos Vorazes: a sinopse do livro é exatamente a mesma de outra obra, um pouco mais antiga, chamada Battle Royale. Vejamos: em um futuro distópico, um grupo de jovens é levado para disputar um jogo mortal em frente às câmeras, exibido por toda a nação, e eles devem se matar entre si até que surja o vencedor, aquele que sobreviverá a todos os outros. E, claro, o protagonista vai se rebelar contra o sistema, mas o que está em jogo é a sua própria vida, então as coisas não serão fáceis e nem facilitadas para ele. (tudo bem, nenhum dos dois também inaugurou esse tipo de história – desde o início da humanidade existem ritos sacrificiais de jovens levados a morrer pelo bem da sociedade, como podemos ver no mito de Teseu e do Minotauro, e mais recentemente nos survival movies, mas as linhas gerais das duas obras supracitadas são semelhantes demais).

Vencida minha resistência inicial, com a ajuda de comentários enfáticos como os desta blogueira (fãzona da série) e também de comentários em blogs e sites internacionais voltados mais para ficção científica/fantasia e menos para young adult, fui fisgada pela curiosidade e resolvi ler o livro, até mesmo para saber até que ponto era mesmo parecido com Battle Royale.

E o resultado foi muito superior ao esperado. Encontrei um livro envolvente e cativante – e que, apesar de ter a mesma sinopse de Battle Royale, tem um enfoque bem diferente.

A protagonista aqui é Katniss, menina pobre do distrito mais pobre da grande nação de Panem, erguida sobre o que restou daquilo que um dia foi a América do Norte. Pela fome, miséria, repressão e pouca esperança de melhorar de vida, além da responsabilidade de ter de sustentar a mãe e a irmã mais nova, é uma garota que sabe o mínimo de sobrevivência em ambientes perigosos, além de ter sido endurecida pelas circunstâncias. Toma o lugar da irmã, sorteada para ser a representante daquele ano do distrito nos Jogos Vorazes – o survival-reality-show- game da vez, uma versão para valer do Survivor (ou Big Brother), em que os eliminados da semana… bom, foram eliminados para sempre – e se pretende sobreviver, não pode ter pudores para sobreviver. Seu par, o representante masculino do distrito, é Peeta, um rapaz de sua idade, filho do padeiro, gentil e bem menos cingido pela vida do que a protagonista.

(e é curioso pensar sobre a concepção dos dois personagens: Katniss é durona, decidida, dona de uma personalidade forte e que não tem medo de pegar em armas – e Peeta é o garoto gentil, que decora os bolos da padaria de seu pai e que nunca precisou sair de sua atmosfera pacífica. O clichê comum de “mocinha frágil-mocinho forte” aqui é quebrado e invertido – Katniss é a senhora da ação e Peeta é puro sentimento. Dá até pra fazer uma reflexãozinha sobre gênero, mas só “inha”).

Os dois devem ser preparados – há uma equipe de preparação com uma relações-públicas e um “mentor”, um antigo ganhador dos Jogos do mesmo distrito que eles, Haymitch, que tem o papel de treiná-los e traçar as melhores estratégias para que, no mínimo, não façam um papelão na hora em que o show começar.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção no livro foi todo o clima – apesar da minha birra em ler narrativa no tempo presente, dá para se acostumar rápido, bem como com Katniss, a narradora* – apesar de que eu a achei obtusa demais. Tá, ela teve uma vida de merda e tá numa situação de enlouquecer qualquer um, mas ela não se permite simplesmente SER de vez em quando? Sempre tem de ser tão séria e sisuda? Não pode relaxar nunca?. A opressão do mundo, de recursos naturais escassos, possibilidade remota de ascensão social, grades, vigias e o sacrifício anual de jovens para que toda a população saiba que qualquer tentativa de revolta é inútil ficou muito forte – CLARO, não chega no nível de um 1984, mas a ambientação é bem reforçada.

Outro ponto que merece destaque: o tom de crítica. Geralmente, a YA que chega ao topo das paradas não é exatamente crítica, ou tal ponto não é tão forte – ou é tão forte que acaba se desgastando, como a série “Feios”, em que está na cara qual lição o autor quer passar e você nem precisa ler o livro para saber do que se trata. O convite à reflexão aqui é mais sutil – e talvez mais profundo: a violência entre nós também não é banal e a vida não vira produto?

Isso fica bem claro para mim na passagem em que Katniss chega à Capital para ser preparada para os Jogos Vorazes – é um programa televisivo que todos assistirão, então ela precisa ser limpa, receber tratamentos estéticos e ser vestida como recomenda a moda para ser um belo produto a ser ofertado ao público e anunciantes. E isso é deixado claro a todo momento: ela é uma peça do espetáculo e deverá se comportar como tal. A vida dela – e dos demais participantes – é irrelevante.

Outra é como a nossa própria mídia também tem seus jogos vorazes e não estou falando dos realities shows. Qual o valor da vida para os programas policiais de fim de tarde que fazem questão de explorar um crime ao máximo? Ou para todo circo midiático que cercou o caso Eloá, por exemplo, onde só faltaram instalar câmeras no cativeiro?  Para nem lembrar do caso da menina Isabella… – e qual o valor que cada vida ganha. Isso também para não lembrar as revoluções e guerras transmitidas ao vivo e minuto a minuto via satélite para todo o mundo – é até curioso ver numa sociedade em que a morte é tabu a vida valer tão pouco.

E, claro, nada aqui pode acabar bem. Mortes ocorrerão – e a autora até  tem a mão pesada para uma obra juvenil – e também momentos de empatia extrema com os personagens, mesmo com aqueles antipáticos em um primeiro momento – e o final, apesar de ser de certa forma previsível, tem sua boa dose de agridoce.

Não dá para passar por esse livro sem envolver-se, ainda que o mesmo tema já tenha sido explorado outras vezes e com outras nuances. Me surpreendeu muito positivamente, se você não tem preconceitos ou barreiras em relação a young adult, pode ler esse sem medo. Recomendado.

E achei engraçado que mais para o fim das contas, o tom do livro me lembrou demais o tom de Ender’s Game (O Jogo do Exterminador) – sobre a melancolia de ver uma criança (ou adolescente, no caso) ser obrigada a perder ainda mais sua inocência em um mundo em que é obrigada a matar. Recomendo a leitura para quem gostou de Jogos Vorazes.

*Notinha para o leitor avançado que não afeta muito a resenha: a autora utilizou a primeira pessoa no texto, sob o ponto de vista da Katniss, mas, apesar de em tese a primeira pessoa ser mais fácil de ser trabalhada, a autora aqui mostrou que também dá para trabalhar um pouco em cima disso. Katniss narra, mas deixa MUITO sub-entendido e para que o leitor conclua por si mesmo. Tem até um ponto onde achei que a autora jogou muito bem em relação a isso – estamos ouvindo a versão de Katniss, não significa que ela interprete tudo da maneira correta ou que não existam outras coisas acontecendo ao mesmo tempo. A primeira pessoa é um fio condutor para o leitor, sim, mas dá para deixar pontas soltas e muita coisa implícita. Achei bem legal esse uso – e também foge bastante das autoras pouco experientes de outros young adult que utilizam-se do mesmo recurso.

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Gostou? Quer conferir o livro também? Então compre aqui! (Submarino / Livraria Cultura)

Aproveite e leve também o 1984 (Submarino/Livraria Cultura) e o O Jogo do Exterminador (Submarino/Livraria Cultura)

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P.S.: Não resisti e fiz um post com spoilers do livro. Para que ninguém veja aquilo que não quer ver, está protegido com senha: resenhacomspoiler . Clica lá, digita a senha e veja os apontamentos, agora com spoilers 😀

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Até a próxima!

Lançamento: Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009

ANUÁRIO BRASILEIRO DE LITERATURA FANTÁSTICA 2009

Cesar Silva e Marcello Simão Branco

Numa iniciativa dos jornalistas e pesquisadores de ficção científica e fantasia Cesar Silva e Marcello Simão Branco, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica foi publicado pela primeira vez em 2005. Apresenta um amplo e profundo panorama do cenário fantástico nacional, em suas três manifestações principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de “fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.

Contém notícias sobre prêmios e personalidades, listas dos livros lançados durante o ano, artigo sobre o mercado editorial, com dados estatísticos e tabelas. Resenhas de vários dos principais livros de autores brasileiros e estrangeiros, entrevista com a “Personalidade do Ano”, ensaio de um especialista convidado, e uma seção histórica com datas e resenhas de livros importantes.

O Anuário tem por meta realizar um registro do estado dos gêneros no país, além de auxiliar tanto os leitores em busca do que há de novo, como aos escritores que desejam destrinchar as tendências do mercado. E também a editores e pesquisadores, que estão em busca de um conhecimento mais sistematizado e amplo do que está surgindo e das perspectivas para o fantástico no Brasil.

O Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica recebeu em 2010 o Prêmio “Melhores do Ano”, na categoria “Melhor Não-Ficção”, concedido pelo site Ficção Científica e Afins, da escritora Ana Cristina Rodrigues.

Repercussões:

“As suas carreiras críticas — existentes há anos em várias publicações, e há seis anos no Anuário –, são o balanço global dos gêneros literários que vocês analisam, o mais competente, sério e abrangente, dentro do universo crítico brasileiro.”  –André Carneiro, autor de Confissões do Inexplicável.

“O Anuário é uma das publicações de crítica de ficção especulativa mais independentes e de maior personalidade no país. Editores, pesquisadores, colecionadores de livros, escritores e fãs devem encontrar uma fonte de consulta, de avaliações e de opiniões críticas inestimável para dar perspectiva ao momento atual.” –Roberto de Sousa Causo, autor de Anjo de Dor.

“Um projeto raro e ambicioso, que apresenta uma perspectiva global e sistematizada a respeito do mercado no Brasil e confere-lhe uma unidade na qual os autores poderão posicionar-se. Além disso, contribui para o crescimento da crítica profissional e do estudo acadêmico, essenciais ao desenvolvimento de qualquer literatura.” –Luís Filipe Silva, site Efeitos Secundários (Portugal).

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009, Cesar Silva e Marcello Simão Branco. Capa de Cerito, sobre arte de Henrique Alvim Correa. São Paulo: Devir Livraria, selo Enciclopédia Galáctica, setembro de 2010, 168 páginas ISSN 2178-6240. Preço: R$28,00.

Sobre o selo Enciclopédia Galáctica:

Em 2010, a Devir Livraria inaugura o selo “Enciclopédia Galáctica”, destinado a obras de não-ficção voltadas para a discussão, análise e registro dos gêneros ficção científica, fantasia e horror na literatura, quadrinhos, jogos, cinema e televisão. O selo busca fomentar a produção crítica a respeito desses gêneros e formas de expressão, em um momento em que cresce muito o interesse pela literatura de ficção científica, fantasia e horror no ambiente acadêmico e literário nacional.

O primeiro livro do selo foi Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, de M. Elizabeth Ginway, brasilianista e professora de língua portuguesa e literatura e cultura brasileira na Universidade da Flórida (em Gainesville).

Devir Livraria: Rua Teodureto Souto, 624 – Cambuci – São Paulo-SP, CEP 01539-000

Fone: (0__11) 2127- 8787 – horário comercial

Mais informações: marialuzia.devir@gmail.com

Visite o nosso site: http://www.devir.com.br/

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E você, autor, que quer mandar seu release para o site, já sabe: mande o texto para blogleitura escrita @ gmail.com, sem os espaços!

Até a próxima!