Férias

feriasVocês, como leitores, têm épocas em que não conseguem nem olhar para um livro? Pois é, eu tenho.

Adoro ler, é meu passatempo predileto (bom, acho que é meio óbvio), o que não significa que não tenha outros passatempos ou interesses e às vezes a diversão solitária de um livro não é o que desejo. Quero algo mais dinâmico como um filme, um jogo, um passeio, um esporte. Ou mesmo se não vou sair de casa ou fazer nada em especial: às vezes meu cérebro simplesmente está cansado demais para absorver literatura e pede férias de livros.

Ainda mais porque trabalho com leitura, interpretação de texto e às vezes tudo o que NÃO quero depois de um dia cheio de trabalho é ver um livro na minha frente, quando mais algum mais complexo que exija mais concentração. Lembro-me de um ano especialmente apertado da universidade, quando li oito livros de ficção em um ano inteiro. Muito mais do que a média nacional, eu sei, mas muito pouco para qualquer clube de amante de livros.

Hoje estou mais tranquila quanto a isso (a única coisa que invejo é velocidade de leitura, vejo essas pessoas que leem 100 livros por ano e acho a coisa mais utópica e impossível do mundo @_@), até porque para nada na vida existe fórmula, prazo ou jeito certo. Mais do que isso: se um prazer vira obrigação, ele imediatamente deixa de ser prazer. Se é forçado, perde o encanto. Então… para que forçar quando o corpo e a mente pedem outra coisa?

Aproveitei as férias, fiz outras atividades, recebi outros estímulos e finalmente estou conseguindo pegar livros novamente, de leve, aos poucos, querendo compatibilizá-los com mais um mundo de possibilidades.

Começar o ano aos poucos então, desenjoando dos livros e buscando o novo!

***

Até a próxima!

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O Último Reino – Bernard Cornwell

Bernard Cornwell é um dos autores preferidos da Mariana. Ainda na minha crise de abstinência de livros durante o período de festas, ela, sentindo-se com pena de minha situação, emprestou-me este livro, “porque é de um dos meus autores preferidos, espero que você goste também”.

Ele acabou ficando por último da pilha, atrás dos livros que já coloquei aqui como lidos. Até que, finalmente, resolvi lê-lo, também pela curiosidade de conhecer a obra deste autor e pela oportunidade de saná-la.

O Último Reino é o primeiro livro da série Crônicas Saxônicas que, até o presente momento, é uma pentalogia com quatro livros lançados. Como ele já foi trilogia e tetralogia, então este número pode mudar. Trata da história do rei Alfredo, o Grande, que conseguiu enfrentar a ameaça de uma invasão dinamarquesa total e, a partir de Wessex, o último reino inglês, estabelecer a Inglaterra. É um romance histórico contado a partir do ponto de vista do ficcional Uthred, guerreiro inglês que se vê dividido entre dinamarqueses e ingleses, paganismo e cristianismo, a espada e a pena.

Este primeiro livro conta a história da infância e adolescência de Uthred, herdeiro de um senhor de terras que vê-se despojado de sua propriedade e passa a ser criado pelo dinamarquês Ragnar, que passa a considerar como seu próprio pai. Ele cresce, se torna um guerreiro, e o destino o coloca ao lado do rei Alfredo, a quem despreza imensamente, bem como contra os dinamarqueses, povo que adotou como seu.

O começo da história não me pareceu exatamente empolgante, as primeiras páginas foram bem chatinhas. Entretanto, ultrapassado o prólogo, o primeiro capítulo flui rapidamente com a história da infância e adolescência do guerreiro inglês entre dinamarqueses. Lá, desperta a sede de sangue e a selvageria em seu corpo, bem como outras paixões. As duas partes seguintes do livro, que relatam sua incorporação ao exército de Wessex e suas batalhas posteriores, também é bem empolgante.

Como romance histórico, com direito a espadas, paredes de escudos, lanças, membros decepados, sangue e tudo mais, funciona perfeitamente. A ação é uma constante e batalhas ocorrem o tempo todo, para todos os gostos. Como desconheço a história inglesa do século IX, não posso dizer se está adequado ou não à realidade, mas o autor apresenta uma atmosfera bem crível.

Quanto aos personagens, Uthred é nosso narrador e guia e, através de seus olhos, conhecemos as pessoas que o rodeiam: o padre feio e beato, porém gente boa; o general inimigo que vê como figura paterna; o velho e sábio skald, os demais generais, a garota selvagem que se torna seu primeiro amor, o rei carola e profundamente inteligente. Não os achei personagens profundos, mas também não creio que tenha sido a intenção do autor aprofundá-los. E Uthred soa como o garotão protagonista de mangá shonen que quer chutar umas bundas e cortar pessoas em pedacinhos, e que guia sua vida em função disso. Adolescência. Um dia ele crescerá, espero.

Entretanto, há três pontos do livro que me incomodaram bastante. A seguir:

1) Por que Ragnar poupou Uthred da morte? “Ele é insolente e atrevido, posso ficar com ele?”. No frenesi da batalha ele não cortaria um garoto em pedacinhos? Afinal, um a mais, um a menos… E, mesmo se sobrevivesse, seria um prisioneiro com tanta deferência? Lembrando que os dinamarqueses só conhecem sua origem nobre depois disso…

2) Mais para frente quando determinada fortaleza é assaltada, destruída e seus habitantes mortos, como um general, no meio de uma guerra, vai deixar sua fortaleza desguarnecida e não vai fazer rondas em torno de seu vilarejo para verificar que tudo anda bem, ainda mais com revoltas pipocando por toda a parte?

3) Descobrimos que determinado personagem é o antepassado de Chuck Norris além de tudo. Ele atravessa, sozinho, o acampamento inimigo, coloca fogo em uma frota de navios igualmente sozinho e não sofre um arranhão até que a batalha real comece? Essa foi ainda mais difícil de aceitar do que as duas anteriores e quebra o clima da batalha aonde está inserida.

Enfim.
Vale a pena se você gostar de ficção histórica, de lutas de espada e de Bernard Cornwell.

Diários de Nanny – Emma Mclaughlin e Nicola Kraus

Cometi um erro fatal neste fim de ano.
Deixei o maravilhoso romance que estava lendo em casa (não revelarei seu nome ainda, mas ele gerará uma das mais caprichadas resenhas deste blog) e trouxe para meu feriado dois livros técnicos. Só esqueci de um detalhe: ler sobre jurisdição e sobre processo civil brasileiro contemporâneo exige um certo preparo mental, não só a vontade de relaxar e viajar.
Resultado: depois de passar uma noite fazendo auditoria de um jogo de buraco (!) e ouvindo o especial do Roberto Carlos na televisão (!!!), percebi que as coisas não iam bem. Isso sem contar a longa conversa sobre teologia com o porteiro do Atlético

Minha amiga Mariana, solidária com minha situação, me emprestou alguns livros para que meus dias pudessem ser melhor preenchidos, dentre os quais Diários de Nanny. Como ela disse: “é um livro legal, foge daquele estereótipo de cinderela”.

Acredito que a literatura e a culinária se aproximam em vários pontos, então sempre recorro a analogias gastronômicas para explicar certos pontos. Pois então. Sabem aqueles dias em que tudo o que você quer jantar é o enroladinho de presunto e queijo da cantina da universidade? Pois então. Da mesma forma, há dias em que desejamos ler um livro leve e sem grandes pretensões literárias.

Nanny é uma universitária precisando de grana e, para arrecadá-la, ela se torna babá de um adorável garotinho filho de uma família de alta sociedade de Nova York. Claro, o garotinho Grayer não será a única pessoa de quem ela cuidará naquela casa, afinal sua mãe, uma madame de alta sociedade que sabe-se lá por qual razão teve um filho, também precisa de cuidados.

Não há o estereótipo da cinderela, ela não se apaixona pelo patrão (que é um ninfomaníaco safado, por sinal), mas há vários outros, como o da ricaça fútil e incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz, o do ricaço ausente e colecionador de amantes e a da pobre criança perdida no meio desses adultos. Claro, ela come o pão que o diabo amassou no emprego, e o final merecia ser melhor.

As autoras se apresentam como ex-babás e dizem que o livro é uma sátira sobre aquilo que tiveram de aguentar em seu trabalho e sobre o fato de pessoas que delegam a criação de seus filhos a outras pessoas.

Mas o livro me tocou. Fiquei pensando no pobre garotinho e seus pais que sabe-se lá porque tiveram um filho, talvez para apresentá-lo à sociedade como um brinquedo de luxo. Quase o vi adolescente virando hippie, eco-terrorista, drogado ou qualquer outra coisa apenas para chamar a atenção de seus pais, que o levariam a batalhões de psicólogos e terapeutas sem saber que o que lhe falta é o mais essencial. Pensei que infelizmente é uma realidade que também vivemos aqui, também próxima demais. Tenho muita pena dessas crianças e muito medo do que elas poderão se tornar no futuro.

Enfim, valeu a leitura, serviu ao seu propósito de entretenimento e ainda provocou reflexão, ora vejam só!

(P.S.: Caso algum dia visitem a UFV, reservem um tempo para provarem algum salgadinho do DCE. Compensa trocar alguns jantares por eles de vez em quando).