Fluxograma para um leitor iniciante de ficção científica e fantasia

Esse fluxograma bem legal está rodando pelas redes sociais há alguns dias, a partir do blog SF Signal e que traz um guia dos 100 melhores livros de FC&F para leitura. É bem legal ir pelos caminhos e procurar qual seria “seu livro”. Está em inglês e não traduzi, mas se você entende, é legal ir acompanhando.

(clique na figura para ampliar)

É uma lista evidentemente controversa (senti falta do Drácula aí, por exemplo, e acho que Stardust está sobrando), mas interessante. Realmente, se você é um leitor iniciante do gênero, que quer saber por onde começar, esta é uma excelente estrada. Dá também para fazer umas consideraçõezinhas sobre os escolhidos.

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Em Chamas – Suzanne Collins

É complicado fazer uma resenha do segundo livro de uma série porque fatalmente alguns aspectos determinantes do primeiro livro terão de ser abordados, a cada volume que se passa de uma série, mais difícil fica evitar e contornar os spoilers. Por isso evito fazer resenhas de segundos volumes, mas às vezes a necessidade de falar algo me faz burlar essa regra.

Assim sendo, a melhor maneira de começar essa resenha é dizendo que Em Chamas é a continuação de Jogos Vorazes, que foi uma das minhas maiores surpresas literárias do ano até o momento e foi um livro bem impactante – quando você passa uma semana sem conseguir pegar outro livro para ler ou mesmo se pega lembrando de passagens da história e relembrando dos personagens bem depois da última página, você sabe que um livro conseguiu mexer com você. Eu precisava ler a sequência, saber o que acontecia com os personagens após o final agridoce do primeiro livro, de que maneira a autora seguiria com a trama. E, claro, também preciso dividir minhas opiniões com vocês, caríssimos leitores deste blog 😀

Assim sendo, como se trata de uma sequência, só clique no texto integral se já leu o primeiro livro ou se não se importa com alguns spoilers dele. O aviso foi dado!

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Extraneus volume 1 – Medieval Sci-Fi – Vários

O site Estronho e Esquésito é um dos pioneiros no Brasil no que diz respeito à divulgação de contos de autores amadores, em especial em histórias de terror. A divulgação online e gratuita é um senhor caminho para quem está dando os primeiros passos na escrita e desde a fundação do site inúmeros autores já publicaram por lá. Comemorando os 15 anos (pois é!) de site, a Estronho está dando um passo além: partindo para a publicação física de coletâneas e romances.

Uma destas primeiras coletâneas, lançada em parceria com a Editora Literata, é a Extraneus vol. 1 (primeiro de uma série de três coletâneas temáticas) que, apesar de não tratar de terror, propõe uma temática bem desafiadora: ficção científica em cenário medieval. Como compatibilizar ambos os conceitos, que à primeira vista parecem incompatíveis? Este foi o desafio lançado nesta coletânea, composta tanto por autores já conhecidos do gênero quanto de novatos que estão aqui para mostrar muito bem que há muita gente boa a caminho.

Uma coisa bem legal da coletânea é o tamanho dos contos. São curtinhos, para serem lidos de uma só vez, do tamanho ideal para quem, como eu, anda com um livro na bolsa para ler enquanto enfrentando o trânsito nosso de cada dia. É um livro de ônibus perfeito, com bocadinhos ideais para serem saboreados entre as paradas.

Como em toda coletânea, há altos e baixos, e os pontos altíssimos são sem dúvida os contos Dez Lampejos do Muçulmano de Ferro, de Cirilo Lemos – que abre a coletânea em grandíssimo estilo com uma cruzada ligeiramente mais tecnológica; Punição, de Simone O. Marques, que conseguiu me surpreender pela construção caprichadíssima em um estilo de conto que não é meu predileto, mas que me cativou até o fim; e Mensagem a Pedro, o Eremita, de Davi M. Gonzales, que consegue dar um ar bem genuíno a uma temática até comum.

Não que o livro também não traga surpresas como um conto que flerta abertamente com o new weird, homenagens aos cenários clássicos de fantasia medieval, como Shadowrun, lendas medievais como a de Robin Hood revisitadas…

Só houve uma coisa que me incomodou nos contos: a temática acabou por ficar repetitiva. Dá para dividir facilmente os contos entre aqueles que tratam de viagens dimensional-temporais, invasões alienígenas e realidade virtual. Na minha opinião, dava para os autores terem extrapolado mais a temática, como os exemplos acima demonstraram, e me pergunto se o problema não é de um certo engessamento que o conceito de ficção científica anda ganhando nos últimos tempos. Dava para ter ousado mais, na minha opinião.

Mas ainda assim é uma obra bem interessante em estilos e narrativas, e um preview bem legalde novos autores que certamente estão aparecendo e causando por aí 🙂

(e, P.S., “medieval sci-fi” pra mim é e sempre será Phantasy Star. E tenho dito!)

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Até a próxima!

Lançamento: Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009

ANUÁRIO BRASILEIRO DE LITERATURA FANTÁSTICA 2009

Cesar Silva e Marcello Simão Branco

Numa iniciativa dos jornalistas e pesquisadores de ficção científica e fantasia Cesar Silva e Marcello Simão Branco, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica foi publicado pela primeira vez em 2005. Apresenta um amplo e profundo panorama do cenário fantástico nacional, em suas três manifestações principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de “fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.

Contém notícias sobre prêmios e personalidades, listas dos livros lançados durante o ano, artigo sobre o mercado editorial, com dados estatísticos e tabelas. Resenhas de vários dos principais livros de autores brasileiros e estrangeiros, entrevista com a “Personalidade do Ano”, ensaio de um especialista convidado, e uma seção histórica com datas e resenhas de livros importantes.

O Anuário tem por meta realizar um registro do estado dos gêneros no país, além de auxiliar tanto os leitores em busca do que há de novo, como aos escritores que desejam destrinchar as tendências do mercado. E também a editores e pesquisadores, que estão em busca de um conhecimento mais sistematizado e amplo do que está surgindo e das perspectivas para o fantástico no Brasil.

O Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica recebeu em 2010 o Prêmio “Melhores do Ano”, na categoria “Melhor Não-Ficção”, concedido pelo site Ficção Científica e Afins, da escritora Ana Cristina Rodrigues.

Repercussões:

“As suas carreiras críticas — existentes há anos em várias publicações, e há seis anos no Anuário –, são o balanço global dos gêneros literários que vocês analisam, o mais competente, sério e abrangente, dentro do universo crítico brasileiro.”  –André Carneiro, autor de Confissões do Inexplicável.

“O Anuário é uma das publicações de crítica de ficção especulativa mais independentes e de maior personalidade no país. Editores, pesquisadores, colecionadores de livros, escritores e fãs devem encontrar uma fonte de consulta, de avaliações e de opiniões críticas inestimável para dar perspectiva ao momento atual.” –Roberto de Sousa Causo, autor de Anjo de Dor.

“Um projeto raro e ambicioso, que apresenta uma perspectiva global e sistematizada a respeito do mercado no Brasil e confere-lhe uma unidade na qual os autores poderão posicionar-se. Além disso, contribui para o crescimento da crítica profissional e do estudo acadêmico, essenciais ao desenvolvimento de qualquer literatura.” –Luís Filipe Silva, site Efeitos Secundários (Portugal).

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009, Cesar Silva e Marcello Simão Branco. Capa de Cerito, sobre arte de Henrique Alvim Correa. São Paulo: Devir Livraria, selo Enciclopédia Galáctica, setembro de 2010, 168 páginas ISSN 2178-6240. Preço: R$28,00.

Sobre o selo Enciclopédia Galáctica:

Em 2010, a Devir Livraria inaugura o selo “Enciclopédia Galáctica”, destinado a obras de não-ficção voltadas para a discussão, análise e registro dos gêneros ficção científica, fantasia e horror na literatura, quadrinhos, jogos, cinema e televisão. O selo busca fomentar a produção crítica a respeito desses gêneros e formas de expressão, em um momento em que cresce muito o interesse pela literatura de ficção científica, fantasia e horror no ambiente acadêmico e literário nacional.

O primeiro livro do selo foi Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, de M. Elizabeth Ginway, brasilianista e professora de língua portuguesa e literatura e cultura brasileira na Universidade da Flórida (em Gainesville).

Devir Livraria: Rua Teodureto Souto, 624 – Cambuci – São Paulo-SP, CEP 01539-000

Fone: (0__11) 2127- 8787 – horário comercial

Mais informações: marialuzia.devir@gmail.com

Visite o nosso site: http://www.devir.com.br/

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E você, autor, que quer mandar seu release para o site, já sabe: mande o texto para blogleitura escrita @ gmail.com, sem os espaços!

Até a próxima!

AnaCrônicas – Ana Cristina Rodrigues

Como já disse no post anterior, é difícil escrever sobre a obra de uma pessoa próxima. Muito mais fácil quando o autor pertence a outro espaço e outro tempo – ou, mesmo ao ser brasileiro, não é alguém de sua convivência.

Conheço a Ana Cristina Rodrigues desde 2004 ou 2005. E, desde então, ela vem mostrando ao que veio. Não apenas com seus contos, mas também com a sua atitude: reclamar de uma realidade é muito fácil, mas e mudar essa realidade? Quem se arrisca? Ela é uma dessas pessoas.

Enquanto muitos choram pela pretensa falta de espaço do mercado editorial brasileiro, Ana Cristina tem iniciativas como a Fábrica dos Sonhos, que desde 2005 reune escritores do gênero especulativo para aprimorarem suas habilidades, a participação ativa na comunidade de ficção científica do Brasil, tanto já tendo sido presidente do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) quanto na presença em eventos e palestras Brasil afora. E, claro, a moderação atenciosa nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia no orkut que, querendo ou não, reunem grande parte do pessoal que está em voga no momento. Isso sem citar os projetos-solo, as participações em antologias, como a Paradigmas (e, é claro, a Espelhos Irreais, confiram aqui :P), publicações em sites como Hyperfan, em e-zines…

AnaCrônicas é seu primeiro livro-solo, onde estão reunidas uma série de contos curtos sobre temas fantásticos. Desde uma versão muito pessoal ao Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, em É Tarde!, conto que abre a coletânea, à revisão de personagens históricos em Os Olhos de Joana. Do maravilhoso conto de temática arturiana A Dama de Shalott (que, cabe aqui ressaltar, é meu conto preferido da antologia) à realidade pós-apocalíptica d’A Casa do Escudo Azul. De um doce e tocante conto sobre a perda, como O Caminho da Terra das Fadas à reflexão irônica sobre os fatos da vida de Deus Embaralha, o Destino Corta. Do pulsar sexual de Chiaroscuro às chamas de um amor impossível em Como Nos Tornamos Fogo.

São várias temáticas, vários estilos, vários pontos de vista – que ganham um toque especial com a pequena ilustração que os acompanha, cortesia de Estevão Ribeiro. E é um livro curtinho, que dá para ser saboreado em uma tarde chuvosa de maneira prazerosa. Como se tratam de contos curtos e de temática bem diferente entre si, o exercício de leitura é bem leve e quando menos se espera, o passeio por todas as temáticas propostas chegou ao fim.

O estilo da autora, mesmo que de formas diferentes, aparece claro em todos os contos: riqueza de temática, com a escolha de palavras adequadas para a transposição da temática proposta, sem a necessidade de muita enrolação para se alcançar o ponto desejado. As emoções também são apresentadas de maneira clara e são absorivdas com facilidade pelo leitor.

E, principalmente para mim, não seria demais dizer, é um ode à Fábrica dos Sonhos – a maioria dos contos foi visto pela primeira vez por lá. A sensação de ter estado junto durante a criação de uma obra que me chamou tanto a atenção, de acompanhar a evolução temática e de escrita de alguém in loco, é bem interessante -e, por que não dizer, recompensador.

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Comentários, no link acima!

Estou preparando os especiais de um ano e de natal do blog! He he he!!! Quase um ano de blog e está sendo uma experiência bem satisfatória!

Até a próxima!

Paradigmas 1 – Vários Autores

O que se produz hoje em matéria de ficção fantástica no Brasil? Nós, brasileiros, deixamos a desejar comparados com autores de outras nacionalidades?

Com o objetivo de responder a primeira pergunta, em um manifesto de “estamos aqui, produzindo, e não devemos nada para ninguém”, a Editora Tarja lançou a coleção Paradigmas: por que não mostrar que nós estamos aqui, produzindo e criando?

E, também, por que não podemos quebrar paradigmas antigos – e até mesmo criar novos?

Foram escolhidos então, para o primeiro volume, treze contos de treze escritores de estilos e temáticas diferentes. Confiram então as críticas individualizadas a cada um dos contos:

MAI-NI Expressas, de Richard Diegues: O cotidiano de um universo cyberpunk. Não sei se é porque cyberpunk está longe de ser um dos meus estilos preferidos de leitura, ou se é porque o conto lembra o universo de Nevasca, livro que também não está na minha lista dos mais apreciados, mas não gostei. O conto, apesar de muito bem elaborado e desenvolvido, não me conquistou.

Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração, de Jacques Barcia: um conto com um acentuado toque de curry, tempero assim não tão comum na ficção pátria. O leitor já é mergulhado de início, e sem anestesia, em um universo mitológico em profunda agitação. Finda a tontura inicial subsequente, é hora de apreciar a história concisa, mas com todas as informações necessárias. Confesso que me ganhou pela esquisitice.

Um Forte Desejo, de M. D. Amado: um conto com acentuado toque de sensualidade. Agora, um passeio pelo terror, narrado pela perspectiva de uma mulher. Não traz uma temática inovadora, mas a execução do conto é bastante eficiente, apesar de que desde o primeiro parágrafo as pistas do que está para acontecer já são dadas para o leitor.

O Mendigo e o Dragão, de Bruno Cobbi: A ideia do conto é muito boa (fantasia urbana sempre é algo bom de se ver), mas a execução deixou a desejar. Várias ideias ficaram soltas, descoladas, sem maior desenvolvimento ou cuidado. A divisão de partes também ficou um pouco confusa, quem afinal fez o quê.

Una, de Roberta Nunes: Mais do que sobre erotismo, é um conto sobre a busca do prazer. Estranhei um pouco essa narrativa ser feita como conto infantil – no começo, a linguagem de “causo” até se mantém, mas vai se perdendo com o seu desenrolar. O mesmo acontece com a trama do conto: a primeira parte é bem-amarrada, a segunda não. É como duas ideias diferentes fundidas, sendo a primeira melhor executada do que a segunda.

Fogos de Artifício, de Eric Novello: É um conto com uma temática incrivelmente incomum: fantasia urbana. Magos e outras criaturas sobrenaturais que convivem em nossa realidade… Gostei BASTANTE da abordagem desse conto: um mago, uma investigação e alguns personagens em uma versão um pouco dark, tudo isso em uma narrativa super tranquila de ser lida. Está aí um belo conto-paradigma!

Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes: Aqui, uma história de melancolia, muito mais do que de aventura. Dá para ver que a inspiração partiu de vários mitos para a criação de seu próprio – do começo, antes de perceber qual era o personagem em questão, pensei em vários, em especial em Odisseu e suas aventuras. A perspectiva do monstro sempre é um ponto interessantíssimo se bem-explorado, mesmo que nesse conto ele seja visto pelos olhos de outro personagem. E, como eu já disse, uma melancolia onipresente em toda a narrativa. Belíssimo.

Sinfonia para Narciso, de Cristina Laisatis: Um conto que não pertence ao gênero fantástico, cuja proposta é a narrativa de um Narciso contemporâneo. Muito interessante a sacada de que não é apenas a visão que pode conquistar alguém. Também interessante notar a construção caprichada do texto, com direito a brincadeiras linguísticas de levar sorrisos aos lábios.

A Lenda do Homem de Palha, de Leonardo Pezzella Vieira: Novamente, um conto que flerta o terror – e seriam crianças criaturas incapazes de atos de crueldade? Interessante a construção e a narrativa em primeira pessoa, bem como a temática que foge do lugar-comum fantástico. O único porém foi ter me lembrado de meu trauma de infância, o filme A Colheita Maldita… 😛

A Teoria na Prática, de Romeu Martins: Um conto que não é fantástico mas que versa sobre um tema que mora ao lado: a teoria da conspiração (às vezes ela é mais fantástica do que uma horda de orcs de vestidos de oncinha dançando a macarena, afinal). Doses maciças de ironia e humor negro em uma trama bem-construída. Fiquei curiosa por mais contos no mesmo universo e temática. 😀

O Combate, de Maria Helena Bandeira: O tema é bastante interessante e original – e dá uma interessante sensação de “não-localização” até o fim do conto, uma “pegadinha” muito bem-sacada e resolvida pela autora. A construção, em pequenos pedaços de textos, como pequenas cenas vistas em flashes, também torna tudo muito interessante. Gostaria de ver esse universo proposto expandido…

O Templo do Amor, de Ana Cristina Rodrigues: É um conto com três faces: ritmo musical, universo até bastante interessante e alegoria. Não é muito difícil de associar a música inspiradora às sensações e descrições trazidas pelo conto: às vezes o amor precisa morrer. Construção e ritmo impecáveis, mas o finalzinho ficou um pouco confuso, talvez merecesse uma reescritura.

Madalena, de Osíris Reis: Está aí uma temática bastante ousada. O autor foi bastante feliz em escolher tanto uma lenda nacional, quanto um período histórico muito rico e pouco explorado, quanto a temática – está aí um tema pesado, mas tratado de maneira adequada. Um conto bastante visual, com descrições precisas e detalhadas do ambiente ao seu redor. Só peca, novamente, pelo desfecho: o “turning point” da personagem-título é súbito demais, quase se faltasse alguma cena que o tornasse mais coeso com o resto.

Enfim, uma boa seleção de contos de bons autores. Um bom mostruário de que muita coisa boa está sendo produzida aqui e agora!

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O link dos comentários está acima, deixe o seu lá!

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Gostaria de ver algum livro aqui? Então deixe sua sugestão em “o que você gostaria de ver aqui?”, acima.

Espelhos Irreais – Vários

Capa do Espelhos Irreais

Capa do Espelhos Irreais

Espelhos Irreais é um livro sobre cinco diferentes visões da realeza fantástica, em contos de cinco autores: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues, Daniel Abreu e Roderico Reis. Há a visão da realeza em uma fábula, no tênue limite entre o real e a imaginação, na alta fantasia clássica, na ficção científica… São abordagens diferentes, histórias diferentes entre si, autores diferentes, narrativas diferentes. Como uma degustação literária de estilos e autores.

É também a primeira publicação de papel da Fábrica dos Sonhos, organização que há quatro anos reune autores, escritas e projetos. Uma estreia, uma forma de demonstrar o que andamos fazendo neste tempo todo e também nos apresentar, como autores e como grupo.

Declaro-me suspeita para fazer uma resenha. 🙂 Mas podem ficar com a feita pelo Eric Novello e pelo Fernando Trevisan. 🙂

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. LeGuin

O meu primeiro contato com este livro foi o famoso “ouvir falar”. Trata-se de um clássico da literatura de ficção científica, aonde a autora cria um planeta de seres que podem assumir ambos os sexos em seu período reprodutor. Foram exatamente estes os elementos que me apresentaram sobre o livro.

Ao comprá-lo, pensei: “mas e agora, sei dos seres ambissexuais, mas qual é a trama desse livro?”. Pois é. Ela é muito simples e muito sutil: a chegada à Gethen, o Planeta Inverno, de Genly Ai, terráqueo, embaixador da Comunidade Ecumênica, órgão paraplanetário que reune a humanidade dispersa pelo espaço. Lá, ele envolve-se com Estraven, político influente. A trama desenvolve-se então em torno da missão do Enviado, em fazer com que Gethen adera à Comunidade, e em seu relacionamento com Estraven.

Muito simples. Não é épico, nenhum acontecimento emocionante (exceto toda a parte final do livro). Trata-se de uma descrição, tanto ambiental quanto antropológica, tanto de um planeta gelado quanto de sua sociedade e cultura particulares. E, principalmente, de como seria uma humanidade em que a dualidade do masculino/feminino não existisse. Onde sexo só ocorreria em determinado período do mês e qualquer um tenha o potencial de ser macho ou fêmea.

O título do livro refere-se justamente a dualidades. No caso, a dualidade entre luz e sombra, mas que se aplica em várias outras: quente/frio, bem/mal, certo/errado… E as duas últimas são tão maleáveis… E ainda em uma sociedade em que a dualidade primária a qual um humano se submete não existe: a do masculino/feminino. O yin-yang que se mistura e se torna cinza.

Agora, o subtexto, que na minha visão se mostrou bastante óbvio. Nem é tanto a questão de gênero, porque a indagação sobre a eliminação de gênero é textual, mas sim a de se lidar com aquilo que é diferente. Com alguém que seja diferente. Como nos tornamos hostis ao diferente, ou mesmo como nos sentimos curiosos a desvendá-lo – e como precisamos nos utilizar de nossos próprios parâmetros e medidas para tentar encaixar a diferença. É a relação entre dois alienígenas que se encaram e julgam pelos seus próprios parâmetros.

Também, dos sentimentos humanos que transcendem o gênero, como os jogos políticos e de interesse – e, principalmente, a amizade, apesar de que um getheniano pode se reproduzir com seu melhor amigo.

Ainda, levando em consideração em que o livro foi escrito na década 1960, quando o mundo era bipolar, é interessante notar que em Gethen existem duas grandes potências rivais e alguns países periféricos – e que tanto faria para algum alienígena entrar em contato com EUA ou URSS – o outro lado logo também faria uma aliança que se estenderia pelo mundo. Fica aí a pergunta.

Outro ponto que achei curioso e que não sei se a autora estava consciente disso é quanto ao nome de Genly Ai. Em determinado ponto, um personagem afirma que “ai” parece quase um lamento de dor. Mas eu, imediatamente, lembrei-me que “ai”, em japonês, significa “amor”. Dentro do contexto da história, cai como uma luva.

Nevasca – Neal Stephenson

Continuando a minha epopéia de fim de ano, resolvi escolher algum livro para comprar e me livrar do tédio dos dias chuvosos ininterruptos. Pensei que fosse reviver Atlântida – ou o Dilúvio…

Enfim, dentre a infinidade de possibilidades, resolvi levar algo para experimentar. Ouvi comentários muito bons sobre o livro Nevasca na comunidade do orkut Ficção Científica e, como estava custando um valor que eu estava disposta a pagar, acabei levando.

Antes de falar sobre o livro, uma reflexão: dizem que os artistas têm o poder de antever as tendências antes que elas se cristalizem no mundo real. Neal Stephenson faz isso de uma forma brilhante. No começo, pensei: “um jogador de Second Life que está fazendo do jogo um cenário pra sua obra”. Mas daí atinei que o livro foi escrito em… 1992. Lá, o potencial comercial da internet começava a ser conhecido, mas ainda não houvera a guerra dos navegadores, a popularização da banda larga, os avanços em tecnologia, o Google… era inimaginável. Quanto mais a viabilidade, acessibilidade e popularidade de um programa como o Second Life. Outra coisa que achei interessante é que, em determinado ponto da obra, Hiro, o protagonista, utiliza-se de um programinha bem parecido com o Google Earth…

Mas enfim. Comecei a ler o livro, achei o primeiro capítulo uma das coisas mais estranhas e confusas nas quais tive o prazer de pôr os olhos nos últimos tempos. Respirei fundo e pensei: “gastei 49 reais nesse livro, não vou me dar ao luxo de parar de ler na página 10…”.
Creio que foi a linguagem – jogada e extremamente blogueira, como uma conversa entre dois pós-adolescentes de alguma tribo urbana. No caso, como dois geeks, ou mesmo gamers. Talvez também um mundo que me causou uma estranheza extrema: a máfia entregando pizza???

Continuei a ler. Bom, a realidade, onde o Estado sofreu uma modificação brutal e agora as pessoas moram em cidades-estado franqueadas, me pareceu pueril, enquanto o Metaverso – o Second Life de lá, mas muito mais abrangente – me parecia extremamente real. Nesta realidade, acompanhamos Hiro – hacker e entregador de pizza – e Y.T. – uma menina estranha e courier, uma cruza entre office boy e skatista – na investigação sobre a Snow Crash – droga que pode trazer o colapso à civilização.

Dá para perceber que o autor pesquisou para escrever esse livro. Não apenas sobre tecnologia, mas com certeza deu uma boa pesquisada em semiótica, teoria da linguagem e história antiga também. Provavelmente também deve ter lido a teoria dos memes, de Richard Dawkins, ao elaborar sua própria teoria. E esse é um ponto que conta a favor da obra – o cuidado com a explicação ao leitor, o que a torna factível.

Achei muito interessante a associação entre a linguagem de programação de computadores com a linguagem humana, com a Babel humana. Só estranhei que ele não chegou na parte mais básica: a vida, como um programa de computador, parte da transcrição de uma linguagem quase binária – a transcrição do DNA e do RNA. São basicamente os zeros e uns onde nos escoramos para sermos nós, um cachorrinho bonitinho ou uma planta.

Mas enfim, o começo que não é muito animador – mas que logo se converte em um meio bastante animado – volta mais para o fim. O desfecho é corrido, achei de uma confusão desnecessária. Apesar do ritmo de brainstorm da história, achei algumas passagens forçadas e outras mal-aproveitadas. Quando Hiro explica os resultados de sua pesquisa, mais pra frente – ele sempre foi de poucas palavras e meio bobo para se articular e então de repente ele consegue demonstrar um conhecimento articulado e quase enciclopédico para seus companheiros? E mesmo o finalzinho, achei muito… sei lá. Jogado. O autor poderia ter trabalhado um pouquinho mais…

Só que não há como negar. Y.T. é irresistível…

Recomendo a leitura principalmente se o leitor sacar um pouco de programação E cultura geral. Vai rir bastante das referências. Fora isso, se gostar de um bom cyberpunk (apesar da obra não ser exatamente cyberpunk).