O Nome do Vento – Patrick Rothfuss

Após ler os quatro primeiros livros da série A Song of Ice and Fire, do George R.R. Martin, como já mencionei aqui antes, queria dar um tempo da literatura de fantasia. Por quê? A já citada série me impactou de uma maneira tão profunda que qualquer coisa do gênero que eu lesse a seguir seria eclipsada. Então, claro, procurei ler coisas que não fossem relacionadas ao gênero fantástico ou que tivessem alguma variedade temática grande o suficiente para evitar comparações.

Só que acabei esbarrando com O Nome do Vento, que veio bem recomendado por vários amigos e conhecidos. O livro (não confundir com A Sombra do Vento, por favor :P) é o primeiro volume de uma trilogia, chamada Crônicas do Matador do Rei – e, claro, também se trata de um romance de high fantasy, com um mundo fantástico em que a magia e criaturas mágicas existem e atuam.

Bom dizer também que, como Jonathan Strange & Mr. Norrell, é uma obra que sai no Brasil quase que por engano, já que não vem seguida nem de filme e nem de hype – e ela foi lançada originalmente em 2007, ou seja, recentíssima (ainda mais se parar pra pensar que Eye of the World, o primeiro volume da série Wheel of Time, de Robert Jordan, que é escorada no hype lá fora, tendo inclusive um fandom bem ativo, só saiu no Brasil esse ano, com quase 20 anos de diferença do lançamento original…). Ponto para a editora Sextante – e espero que tragam mais livros recentes também!

Outro ponto forte da edição é a capa: um belo trabalho gráfico, uma ilustração bem caprichada, bem coerente com a proposta da trama e que chama a atenção.

Só que entramos aqui em um ponto fraco, pois nem tudo são flores: a tradução deixou um pouco a desejar. Há um erro bobo e que muda bastante o sentido da trama, mas a escolha lexical utilizada na edição brasileira não foi das mais felizes. Não é nada que prejudique a leitura, mas eu acho que poderia ter sido melhorado.

Ah, sobre a política de spoilers: o grande spoiler que o leitor encontrará abaixo está na orelha do livro, então não achei nenhum crime mencionar o fato.

Ultrapassadas as preliminares, vamos ao livro: somos apresentados a um mundo de fantasia, onde a magia e espécies mágicas pulsam, e também a Kote, um taverneiro de uma vilazinha do interior, que na verdade é um aventureiro aposentado. Não apenas um aventureiro: um guerreiro, bardo, cientista, que esteve envolvido em grandes eventos de seu mundo, que tornou-se uma lenda entre os vivos. Claro, no momento tudo o que ele deseja é paz e sossego, até ser surpreendido por um cronista renomado, que está interessado em conhecer sua história através de seu próprio relato e não vai desistir antes de consegui-lo.

Kote, após alguma insistência, concorda em contar sua história, mas afirma que precisará de três dias para isso – e aqui está o sentido da trilogia, cada dia correspondendo a um livro.

Então começamos do começo: a infância, quando ainda se chamava Kvote e era o filho do líder de um povo nômade e ligado às artes, espalhando suas canções e danças por todo o mundo. Ele, uma criança superdotada e bastante curiosa pelos mistérios do mundo ao seu redor, com uma facilidade impressionante de aprendizado.

Em uma das andanças de seu povo, acabam esbarrando com um latoeiro, que na verdade é um estudioso arcano que, dentre outras coisas, conhece o nome do vento. E, Kvote, como boa criança precoce, vai adotá-lo como mestre, e ouvir pela primeira vez sobre a Universidade, onde os conhecimentos são distribuídos e propagados.

Nessa hora, o pensamento foi irresistível: “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?”. Mas resolvi insistir um pouco na leitura para ver no que daria…

…e a vida do menino vira do avesso depois que seu povo é dizimado pelo Chandriano, uma organização mística que habita as lendas e superstições do mundo.

Aqui, cabe um parêntesis: como Kvote vem de um povo imerso em músicas e contos, as músicas e contos do mundo aparecem na narrativa, e são bem trabalhados e rítmicos. A rima do Chandriano, em especial, merece destaque: dá arrepios seja no original, seja em português. Fica a palhinha, no original:

when the hearthfire turn to blue,
what to do? what to do?
run outside, run and hide.
when his eyes are black as crow?
where to go? where to go?
near and far. here they are
see a man without a face?
move likes ghosts from place to place
what’s their plan? what’s their plain?
chandrian. chandrian

E o mundo de O Nome do Vento é bastante sombrio e cínico. É o mundo de um deus morto, onde a magia arcana foi proibida e até os dias atuais continua sendo vista com reservas, onde a diferença social existe e está latente. É um mundo onde mazelas existem, onde o vício e venda de drogas ocorrem à luz do dia, onde a degradação é visível e latente.

E Kvote tem a obrigação de enfrentar um mundo sombrio e cínico e sobreviver. E sobrevive, aos trancos e barrancos mas sobrevive (e essa parte da trama lembra bastante o Charles Dickens e seus órfãos). Até que, por alguns lances de sorte, acaba tendo a oportunidade de ir para a Universidade.

E a Universidade, não posso deixar de comentar, é uma versão sombria e cínica de Hogwarts, com as diferenças sociais exacerbadas e Kvote, inteligente mas tornado arrogante pela consciência de tal capacidade, desafiando as regras do lugar. Claro, ele não é o protagonista bonzinho, está ali para cometer pecados e pecadilhos, a tropeçar nas próprias pernas mas também ser vítima de injustiças alheias. E é interessante ver suas escolhas e atos por sua perspectiva e não por a de uma outra pessoa.

Um dos pontos interessantes do livro é ter vários dos clichês de fantasia revisitados, mas dentro de lugar. O choque de realidade do órfão precoce, a escola mágica que é tudo, menos um lugar amigável, as tavernas e bardos, tudo isso está lá. Inclusive, uma das melhores e mais criativas caçadas a um dragão que me lembro de ter visto ocorre neste livro, ao decorrer da trama.

Enfim, o primeiro dia da vida de Kvote é animado – e, por ser uma história narrada em primeira pessoa, sabemos que ele sobreviverá a todos os apertos -, é interessante ver as memórias de um personagem tão fantástico expostas e exploradas. Foi uma bela surpresa, valeu a pena tê-lo conhecido e a seu mundo esse ano e espero continuar a ouvir seu relato sobre sua própria vida em breve!

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Quer tirar suas próprias conclusões? Compre o livro! (Submarino)

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AnaCrônicas – Ana Cristina Rodrigues

Como já disse no post anterior, é difícil escrever sobre a obra de uma pessoa próxima. Muito mais fácil quando o autor pertence a outro espaço e outro tempo – ou, mesmo ao ser brasileiro, não é alguém de sua convivência.

Conheço a Ana Cristina Rodrigues desde 2004 ou 2005. E, desde então, ela vem mostrando ao que veio. Não apenas com seus contos, mas também com a sua atitude: reclamar de uma realidade é muito fácil, mas e mudar essa realidade? Quem se arrisca? Ela é uma dessas pessoas.

Enquanto muitos choram pela pretensa falta de espaço do mercado editorial brasileiro, Ana Cristina tem iniciativas como a Fábrica dos Sonhos, que desde 2005 reune escritores do gênero especulativo para aprimorarem suas habilidades, a participação ativa na comunidade de ficção científica do Brasil, tanto já tendo sido presidente do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) quanto na presença em eventos e palestras Brasil afora. E, claro, a moderação atenciosa nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia no orkut que, querendo ou não, reunem grande parte do pessoal que está em voga no momento. Isso sem citar os projetos-solo, as participações em antologias, como a Paradigmas (e, é claro, a Espelhos Irreais, confiram aqui :P), publicações em sites como Hyperfan, em e-zines…

AnaCrônicas é seu primeiro livro-solo, onde estão reunidas uma série de contos curtos sobre temas fantásticos. Desde uma versão muito pessoal ao Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, em É Tarde!, conto que abre a coletânea, à revisão de personagens históricos em Os Olhos de Joana. Do maravilhoso conto de temática arturiana A Dama de Shalott (que, cabe aqui ressaltar, é meu conto preferido da antologia) à realidade pós-apocalíptica d’A Casa do Escudo Azul. De um doce e tocante conto sobre a perda, como O Caminho da Terra das Fadas à reflexão irônica sobre os fatos da vida de Deus Embaralha, o Destino Corta. Do pulsar sexual de Chiaroscuro às chamas de um amor impossível em Como Nos Tornamos Fogo.

São várias temáticas, vários estilos, vários pontos de vista – que ganham um toque especial com a pequena ilustração que os acompanha, cortesia de Estevão Ribeiro. E é um livro curtinho, que dá para ser saboreado em uma tarde chuvosa de maneira prazerosa. Como se tratam de contos curtos e de temática bem diferente entre si, o exercício de leitura é bem leve e quando menos se espera, o passeio por todas as temáticas propostas chegou ao fim.

O estilo da autora, mesmo que de formas diferentes, aparece claro em todos os contos: riqueza de temática, com a escolha de palavras adequadas para a transposição da temática proposta, sem a necessidade de muita enrolação para se alcançar o ponto desejado. As emoções também são apresentadas de maneira clara e são absorivdas com facilidade pelo leitor.

E, principalmente para mim, não seria demais dizer, é um ode à Fábrica dos Sonhos – a maioria dos contos foi visto pela primeira vez por lá. A sensação de ter estado junto durante a criação de uma obra que me chamou tanto a atenção, de acompanhar a evolução temática e de escrita de alguém in loco, é bem interessante -e, por que não dizer, recompensador.

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Estou preparando os especiais de um ano e de natal do blog! He he he!!! Quase um ano de blog e está sendo uma experiência bem satisfatória!

Até a próxima!

Stardust – Neil Gaiman

Neil Gaiman é um escritor britânico que ganhou fama internacional como roteirista da série de quadrinhos Sandman, da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. Trata de uma das séries que revolucionou o próprio conceito de quadrinhos como entretenimento, dando-lhes um viés ao mesmo tempo literário e artístico, mitológico e pop. É uma grande releitura de Sandman, personagem clássico da editora, mas também do mito de Morfeu, o deus dos sonhos dos gregos.

Stardust, elaborado juntamente com o desenhista Charles Vess, lançado originalmente em volumes pela DC, traz uma proposta semelhante: um conto de fadas – ricamente ilustrado, diga-se de passagem – elaborado para leitores adultos.

A trama é bem simples: na Inglaterra vitoriana, em uma pequena vila que faz fronteira entre o mundo dos mortais e o mundo das fadas, um jovem faz a seguinte promessa para sua amada: capturar uma estrela cadente. Só que, como é natural em um conto de fadas, a natureza da estrela cadente não é exatamente o que ele quer encontrar…

Aqui, a mistura do clássico e do pop apresentada em Sandman dá lugar aos elementos típicos dos contos de fadas: a bruxa, a princesa desaparecida, o herói valente que tem um coração de ouro, criaturas que o ajudarão em seu percurso, um reino que precisa de um herdeiro, a simbologia de números como três e sete, a presença e o poder das cantigas… Tudo isso em uma construção interessante e intrincada.

Mas, acima de tudo, é um livro que, apesar de um autor experiente e com domínio de narrativa invejável, possui alguns problemas sérios. O primeiro deles: quando a história chega em sua metade, o ritmo se altera totalmente. Era como se a cadência de uma melodia, que se mantinha durante a primeira parte, fosse alterada de maneira radical. Os acontecimentos se aceleram mas não porque a narrativa e a condução dos mesmos assim o exige – parece que o autor detalhou demais os primeiros elementos e, tendo um número limitado de páginas a cumprir, saiu correndo no final.

Além disso, a aparição da Irmandade do Castelo aparece muito mais como deus ex machina do que como solução. São personagens totalmente isolados da trama, que não se amarram ou se encaixam e deixam mais perguntas do que respostas. Servem apenas de via fácil para o autor tirar seus personagens de uma enrascada.

Alguns acontecimentos do desfecho da história também tem esse gosto de deus ex machina. Um fato bastante relevante na vida de Tristram passa quase que batido, enquanto outro simplesmente surge, sem nenhuma indicação de que aquilo poderia ocorrer. Mesmo os finais de alguns personagens parecem forçados, não-naturais, mal trabalhados… Uma pena. Sinceramente, esse era um universo que merecia mais capricho. Prefiro acreditar que a DC Comics precisou diminuir o número de edições por alguma razão, fazendo com que o autor não pudesse concluir e colocar os detalhes necessários para a trama.

E aqui cabe um adendo. Em 2007, a adaptação de Stardust chegou às telas de cinema.

Adaptação sempre é uma questão polêmica, mas o roteiro do filme de Stardust corrige algumas das falhas grandes e visíveis do livro, transcrevendo-as em um filme delicado, interessante – e, até mesmo, algo que o livro não dá brecha, com cenas de ação. Os grandes buracos do livro são preenchidos, as falhas arrumadas, algumas adições bem interessantes. Vale, principalmente, por um personagem exclusivo do filme: o capitão Shakespeare, que inclusive é o dono das melhores tiradas.

É um desses raros casos em que o filme sai melhor do que o livro originário, talvez por se permitir uma exploração maior e melhor do cenário.

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Devoradores de Mortos – Michael Crichton

O mundo nem sempre foi do jeito que é hoje. O poder muda de mãos, o conhecimento, a riqueza… e todos eles se movimentam, espalham e retraem com o tempo. Por volta do século X, a vanguarda científica e tecnológica do mundo ocidental encontrava-se nos países árabes – bastante irônico se pensarmos em sua situação geopolítica atual, bem como em alguns pré-conceitos e preconceitos bastante disseminados. Ali, naquele momento histórico, estava centrado o ápice da civilização e da intelectualidade do mundo.

Agora, imagine que um árabe dê de cara com um povo bárbaro, diferente em tudo de sua própria cultura. Esse é um dos pontos de partida de Devoradores de Mortos, de Michael Crichton.

Michael Crichton era um escritor especialista em best-sellers, em todos os gêneros: romance, suspense, ficção científica, fantasia… Talvez o seu trabalho mais conhecido seja O Parque dos Dinossauros, que inspirou o filme – e vários dos seus livros acabaram por virar filme. (Devoradores de Mortos, inclusive, deu origem a O 13º Guerreiro).

Um ponto interessante é que a trama é trazida como relato histórico, inclusive com notas de rodapé produzidas pelo próprio autor, como se fosse um manuscrito antigo traduzido por ele. É uma escolha narrativa bastante interessante e que funciona muito bem na história a ser contada aqui – o ser que sai da metrópole e se encontra com os bárbaros e se espanta com a diferença de costumes e modo de vida.

Só que entramos aqui na segunda premissa da história: os bárbaros são nórdicos, liderados pelo lendário Beowulf. Será recontado então, através do olhar de um observador alienígena, que além de narrar a saga, dirá muito também sobre a cultura em que se insere. A trama não diz respeito apenas à busca do herói pelo monstro e pela mãe do monstro, mas a todo o processo, detalhes e minúncias envolvidos.

E, como a trama é revestida por uma aura de relato histórico, a explicação do monstro também tem algum senso de pseudo-ciência, o que acaba muito bem construído. Também é de se ressaltar o trabalho de pesquisa realizado pelo autor, que não tirou as explicações sobre os povos nórdicos e seus hábitos simplesmente de sua cabeça.

É um livro curto e de leitura fácil, temática interessante e uma boa introdução à obra de um autor tão versátil.

Paradigmas 1 – Vários Autores

O que se produz hoje em matéria de ficção fantástica no Brasil? Nós, brasileiros, deixamos a desejar comparados com autores de outras nacionalidades?

Com o objetivo de responder a primeira pergunta, em um manifesto de “estamos aqui, produzindo, e não devemos nada para ninguém”, a Editora Tarja lançou a coleção Paradigmas: por que não mostrar que nós estamos aqui, produzindo e criando?

E, também, por que não podemos quebrar paradigmas antigos – e até mesmo criar novos?

Foram escolhidos então, para o primeiro volume, treze contos de treze escritores de estilos e temáticas diferentes. Confiram então as críticas individualizadas a cada um dos contos:

MAI-NI Expressas, de Richard Diegues: O cotidiano de um universo cyberpunk. Não sei se é porque cyberpunk está longe de ser um dos meus estilos preferidos de leitura, ou se é porque o conto lembra o universo de Nevasca, livro que também não está na minha lista dos mais apreciados, mas não gostei. O conto, apesar de muito bem elaborado e desenvolvido, não me conquistou.

Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração, de Jacques Barcia: um conto com um acentuado toque de curry, tempero assim não tão comum na ficção pátria. O leitor já é mergulhado de início, e sem anestesia, em um universo mitológico em profunda agitação. Finda a tontura inicial subsequente, é hora de apreciar a história concisa, mas com todas as informações necessárias. Confesso que me ganhou pela esquisitice.

Um Forte Desejo, de M. D. Amado: um conto com acentuado toque de sensualidade. Agora, um passeio pelo terror, narrado pela perspectiva de uma mulher. Não traz uma temática inovadora, mas a execução do conto é bastante eficiente, apesar de que desde o primeiro parágrafo as pistas do que está para acontecer já são dadas para o leitor.

O Mendigo e o Dragão, de Bruno Cobbi: A ideia do conto é muito boa (fantasia urbana sempre é algo bom de se ver), mas a execução deixou a desejar. Várias ideias ficaram soltas, descoladas, sem maior desenvolvimento ou cuidado. A divisão de partes também ficou um pouco confusa, quem afinal fez o quê.

Una, de Roberta Nunes: Mais do que sobre erotismo, é um conto sobre a busca do prazer. Estranhei um pouco essa narrativa ser feita como conto infantil – no começo, a linguagem de “causo” até se mantém, mas vai se perdendo com o seu desenrolar. O mesmo acontece com a trama do conto: a primeira parte é bem-amarrada, a segunda não. É como duas ideias diferentes fundidas, sendo a primeira melhor executada do que a segunda.

Fogos de Artifício, de Eric Novello: É um conto com uma temática incrivelmente incomum: fantasia urbana. Magos e outras criaturas sobrenaturais que convivem em nossa realidade… Gostei BASTANTE da abordagem desse conto: um mago, uma investigação e alguns personagens em uma versão um pouco dark, tudo isso em uma narrativa super tranquila de ser lida. Está aí um belo conto-paradigma!

Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes: Aqui, uma história de melancolia, muito mais do que de aventura. Dá para ver que a inspiração partiu de vários mitos para a criação de seu próprio – do começo, antes de perceber qual era o personagem em questão, pensei em vários, em especial em Odisseu e suas aventuras. A perspectiva do monstro sempre é um ponto interessantíssimo se bem-explorado, mesmo que nesse conto ele seja visto pelos olhos de outro personagem. E, como eu já disse, uma melancolia onipresente em toda a narrativa. Belíssimo.

Sinfonia para Narciso, de Cristina Laisatis: Um conto que não pertence ao gênero fantástico, cuja proposta é a narrativa de um Narciso contemporâneo. Muito interessante a sacada de que não é apenas a visão que pode conquistar alguém. Também interessante notar a construção caprichada do texto, com direito a brincadeiras linguísticas de levar sorrisos aos lábios.

A Lenda do Homem de Palha, de Leonardo Pezzella Vieira: Novamente, um conto que flerta o terror – e seriam crianças criaturas incapazes de atos de crueldade? Interessante a construção e a narrativa em primeira pessoa, bem como a temática que foge do lugar-comum fantástico. O único porém foi ter me lembrado de meu trauma de infância, o filme A Colheita Maldita… 😛

A Teoria na Prática, de Romeu Martins: Um conto que não é fantástico mas que versa sobre um tema que mora ao lado: a teoria da conspiração (às vezes ela é mais fantástica do que uma horda de orcs de vestidos de oncinha dançando a macarena, afinal). Doses maciças de ironia e humor negro em uma trama bem-construída. Fiquei curiosa por mais contos no mesmo universo e temática. 😀

O Combate, de Maria Helena Bandeira: O tema é bastante interessante e original – e dá uma interessante sensação de “não-localização” até o fim do conto, uma “pegadinha” muito bem-sacada e resolvida pela autora. A construção, em pequenos pedaços de textos, como pequenas cenas vistas em flashes, também torna tudo muito interessante. Gostaria de ver esse universo proposto expandido…

O Templo do Amor, de Ana Cristina Rodrigues: É um conto com três faces: ritmo musical, universo até bastante interessante e alegoria. Não é muito difícil de associar a música inspiradora às sensações e descrições trazidas pelo conto: às vezes o amor precisa morrer. Construção e ritmo impecáveis, mas o finalzinho ficou um pouco confuso, talvez merecesse uma reescritura.

Madalena, de Osíris Reis: Está aí uma temática bastante ousada. O autor foi bastante feliz em escolher tanto uma lenda nacional, quanto um período histórico muito rico e pouco explorado, quanto a temática – está aí um tema pesado, mas tratado de maneira adequada. Um conto bastante visual, com descrições precisas e detalhadas do ambiente ao seu redor. Só peca, novamente, pelo desfecho: o “turning point” da personagem-título é súbito demais, quase se faltasse alguma cena que o tornasse mais coeso com o resto.

Enfim, uma boa seleção de contos de bons autores. Um bom mostruário de que muita coisa boa está sendo produzida aqui e agora!

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A Clash of Kings – George R. R. Martin

A “linha editorial” deste blog é evitar ao máximo spoilers das obras aqui apresentadas. São minhas opiniões depois de realizadas as leituras, evitando ao máximo dar detalhes das tramas ou tirar surpresas (e não considero que fatos acontecidos nos primeiros 10 ou 20% iniciais de um livro sejam necessariamente spoilers).

Spoiler, do inglês “to spoil”, estragar, significa revelar alguma reviravolta de determinada trama… e estragar a surpresa do leitor. Há quem não se importe (eu mesma, dependendo da série, vou atrás de spoilers), há quem odeie, há aqueles que alteram o impacto de alguns acontecimentos (se você souber de antemão, algumas cenas perdem o impacto imaginado pelo autor), há os inocentes. Então, prefiro evitá-los.

Claro, tem algumas histórias e situações que são domínio público. Você SABE que Romeu e Julieta morrem no final. Qual era o segredo de Diadorim. Qual o destino de Dorian Gray e seu retrato. Então, nestes casos específicos, não há nada de mal em revelar o que se acontece.

Tudo isso para dizer que, justamente por ser o segundo livro de uma saga – é a continuação de A Game of Thrones, já resenhado algum tempo atrás, da série A Song of Ice and Fire – é difícil descrever a história de A Clash of Kings sem montanhas de spoilers.

Mas vou tentar fazê-lo de maneira que não exista spoiler algum.

Em A Clash of Kings, aparecem mais tramas paralelas, focando diferentes personagens em diversos locais de Westeros e do resto do mundo. Personagens que foram só citados ou tiveram aparições menores em A Game of Thrones ganham força, ganhando até mesmo pontos de vista. Mesmo os personagens do primeiro livro, que seguiam uma linha de acontecimentos mais ou menos comum, se dispersam pelo mundo, afastando os diversos pontos de vista de uma influência direta uns nos outros e criando várias e várias tramas autônomas entre si.

E a nota quanto aos personagens continua valendo: são humanos, reais, com acertos e erros. Íntegros ou corruptos, bons ou maus, simpáticos ou patéticos, todos eles são humanos passíveis de erros e atos heróicos, capazes de gerar empatia por parte dos leitores. Não há como não se envolver com suas alegrias e suas dores.

Outro ponto interessante a se tocar é que George R. R. Martin se aprofunda em pontos que outros escritores de fantasia tendem a não explorar ou mesmo evitar: sexo, traições, violência física. Há apenas uma certeza ao leitor: TUDO é possível. Não é porque fulano é um personagem importante que ele está imune ao sofrimento e à morte.

E é justamente a incerteza e o grande leque de possibilidades que só faz abrir que torna a série interessantíssima, valendo a pena acompanhar e ver até onde o autor nos guiará. 😀

Espelhos Irreais – Vários

Capa do Espelhos Irreais

Capa do Espelhos Irreais

Espelhos Irreais é um livro sobre cinco diferentes visões da realeza fantástica, em contos de cinco autores: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues, Daniel Abreu e Roderico Reis. Há a visão da realeza em uma fábula, no tênue limite entre o real e a imaginação, na alta fantasia clássica, na ficção científica… São abordagens diferentes, histórias diferentes entre si, autores diferentes, narrativas diferentes. Como uma degustação literária de estilos e autores.

É também a primeira publicação de papel da Fábrica dos Sonhos, organização que há quatro anos reune autores, escritas e projetos. Uma estreia, uma forma de demonstrar o que andamos fazendo neste tempo todo e também nos apresentar, como autores e como grupo.

Declaro-me suspeita para fazer uma resenha. 🙂 Mas podem ficar com a feita pelo Eric Novello e pelo Fernando Trevisan. 🙂

A Game of Thrones – George R. R. Martin

Toda a época – e todo o grupo – possui os seus modismos.
Se pararmos pra pensar na literatura de fantasia, podemos ver com clareza a “onda Tolkien”, bem como a “onda RPGista”: anões, elfos – que são inimigos entre si -, fireballs explodindo, um guerreiro que precisa salvar o mundo de uma ameaça maligna… Essas temáticas vão além do clichê, chegam a um ponto de recorrência que praticamente anula o processo criativo. E, a bem da verdade, o autor que se utiliza desses elementos não está mesmo criando nada.

A influência de Tolkien na literatura, explodida pelo hype dos filmes da trilogia O Senhor dos Anéis, parece exacerbada hoje. Se o caro leitor parar para pensar, quantos livros poderá dizer que são filhos ou netos diretos dessa geração tolkeniana, principalmente de nossos autores pátrios? Ou mesmo se pensar em outras mídias, como filmes e quadrinhos?

Ainda, depois do sucesso da série de filmes Senhor dos Anéis, os estúdios cinematográficos contribuiram um pouco, mesmo que indiretamente, para a propagação de clichês. Alguns livros de fantasia, de qualidade questionável ou não, viraram filmes e viram seus exemplares, em novas edições caprichadas, pipocarem em terras brasileiras. Posso citar de cabeça o clássico Crônicas de Nárnia, os recentes Fronteiras do Universo, Eragorn e Coração de Tinta, o acachapante Crepúsculo – e ele, o maior de todos, Harry Potter. Todos eles vão do infantil ao infanto-juvenil, ressalte-se.

Só que a fantasia não é apenas feita de Tolkien, Harry Potter e da prateleira do infanto-juvenil das livrarias. Essa é apenas a pontinha da pontinha da pontinha do iceberg – e, infelizmente, é a pontinha que chega ao leitor brasileiro. Salvo algumas editoras que se arriscam a publicar o diferente, como Conrad e Aleph, e algumas gratas surpresas como a publicação de um livro como Jonathan Strange & Mr. Norrell pela Cia. das Letras, a fantasia que não vem escorada em sucessos de cinema, em autores consagrados como Neil Gaiman ou Anne Rice, ou que vai direto para a prateleira do infanto-juvenil chega ao Brasil quase que por engano.

Enfim, uma dessas séries que vai além da pontinha do iceberg – e se revela quase um novo paradigma literário, como o próprio Senhor dos Anéis ou Fundação, para ficar em exemplos próximos – é A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin. A série está planejada para ter sete livros, os quatro primeiros já lançados, o quinto por sair ainda este ano e os outros dois em produção. A Game of Thrones é o livro inaugural da série.

Esqueçam os anões, elfos, bruxinhos, bolas de fogo, varinhas mágias e guerreiros salvando o mundo enquanto vivem a jornada do herói. A magia é óbvia, evidente, ululante, mas não faz uso de nenhum desses estratagemas para aparecer. Aliás, o prólogo já traz de imediato a certeza de que estamos diante de um livro de fantasia, sim, senhor!

Era uma vez o continente dos Sete Reinos de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno uma vida toda. O último verão durou mais de uma década, o que significa que um longo inverno se aproxima, e ele está chegando. Há uma barreira (“the Wall”) que separa o mundo civilizado do mundo selvagem dos Outros, e eles parecem se agitar quando o inverno chega.

Enquanto isso, a vida segue pacífica em Winterfell, castelo da família Stark, liderada pelo patriarca Eddard e por sua esposa Catelyn, até o dia em que são surpreendidos pelo rei Robert Baratheon, que faz uma proposta irrecusável a Eddard: ser a Mão do Rei – aquele que governa o reino de fato, enquanto o rei caça, bebe e se diverte.

Robert e Eddard são amigos de infância e lutaram juntos quando da tomada do reino das mãos de seu antigo monarca, Aerys II, o que torna o convite ainda mais difícil de ser declinado, e que obriga o patriarca Stark a mudar-se de sua casa para o palácio real, e a ser mais um personagem dentro das intrigas palacianas. Além da vida de Eddard, as mudanças na vida de sua família e das pessoas que se interligam com sua vida também estão em foco, com a criação de várias tramas paralelas que interferem nos acontecimentos principais.

Há ainda uma trama paralela que funciona bem como história à parte: é o destino de Daenerys Targaryen, última descendente de Aerys II, princesa exilada em uma terra distante. Inclusive, os capítulos que estão sob seu ponto de vista foram lançados como noveleta à parte, chamada Blood of the Dragon.

A história é formada por pequenos capítulos que correspondem ao ponto de vista dos mais diversos personagens. Em A Game of Thrones, são cerca de dez os personagens contemplados. E, sobre os personagens: o autor teve o dom de criar personagens reais: carismáticos, humanos com acertos e erros, críveis, que o leitor tem o dom de amar ou odiar se quiser.

Quanto ao ambiente, os Sete Reinos são em tudo um mundo em tudo parecido com o nosso. Sua tecnologia remonta à Baixa Idade Média no comecinho da transição para o Renascimento, mas com culturas e regras próprias condizentes a um universo particular. Há também inúmeras referências à nossa realidade, como a rixa entre as famílias Stark e Lannister – e que, devido a vários acontecimentos, só faz crescer – que é uma referência óbvia à dísputa de poder entre as famílias York e Lancaster, na Inglaterra, que culminou na Guerra das Rosas.

Bom, o leitor deve ter percebido que alguns termos estão em inglês. Pois é. O livro não foi publicado no Brasil, então as leituras possíveis são no idioma original ou em alguma tradução – a série está sendo lançada em Portugal, a quem interessar possa. Uma série no universo de A Song of Ice and Fire está em fase de pré-produção pela HBO e eu realmente espero que com o advento da série – como com o advento dos filmes impulsionou a tradução e o lançamento de livros – os livros possam ser publicados no Brasil. E, se há alguma editora me lendo: olhem com carinho para essa série, é uma grande história que merece ser publicada.

Ah! Me perguntaram nos comentários e achei interessante responder: você pode encomendar os livros na Amazon ou outros sites internacionais, mas há lojas nacionais que importam, como a Livraria Cultura. É também um livro relativamente fácil de ser encontrado em sebos, comprei meu exemplar por R$7,00 (sete reais).

Além da Terra do Gelo – Victor Maduro

O meu contato inicial com este livro ocorreu há vários meses quando, andando pela comunidade Escritores de Fantasia, encontro um tópico em que um autor falava sobre a crítica – tanto aquela desfavorável quanto aquela favorável demais, que em nada ajuda a apontar os acertos e falhas. Identifiquei-me com aquilo, com a vontade de que eu fosse lida por alguém disposto a apontar o que era bom e o que era ruim em meu texto e, movida por essa similaridade, propus a ler o livro e criticá-lo.

Só que muitos meses se passaram entre esse dia e o dia em que efetivamente pude ler, já que estava concluindo minha graduação e isso é totalmente caótico. Quando pude ler, o livro tinha sido mandado para a gráfica – fiquei muito feliz em saber de sua publicação, mas soube também que seria resenhista, não daria mais tempo de auxiliar no processo criativo. Ainda assim, pus-me a ler, curiosa com o que teria em mãos.

Essa é a história de Vanhardt, um garoto rejeitado pela vizinhança, mas que descobre ser algo maior e diferente do que jamais supos: o filho de uma deusa, no caso, a deusa do gelo (será que só isso mesmo?…). Como já diria Stan Lee, grandes poderes trazem grandes responsabilidades, e o bônus de ser o filho de uma deusa virá acompanhado de alguns ônus… Esses ônus não compreendem a salvação do mundo e nem nada semelhante, apenas uma jornada pessoal que irá desembocar em algumas situações muito maiores do que aquelas que ele pode imaginar…

Ele parte da isolada terra do gelo em busca de algo muito especial e importante para ele (não vou dizer o que) e descobre o mundo fora dela, com amigos e inimigos – bem como se vê envolvido num jogo entre os deuses, graças à sua mãe.

Temos a jornada do herói presente, mas com elementos muito interessantes.

Os personagens são simpáticos e o narrador conta a história de uma forma muito cativante, mas um erro básico de um romance de estreia é visível: a história inicia-se em um ritmo bastante lento, as peças do tabuleiro demoram a ser organizadas antes do início da partida. São muitos detalhes realmente desnecessários, que poderiam ser condensados sem prejuízo para o entendimento do leitor.

Entretanto, uma vez que as peças estão dispostas, a trama flui rapidamente: são reviravoltas e grandes revelações, que logo gerarão outras reviravoltas e revelações. Aqui há um movimento contrário ao que ocorre no início do livro: o clímax da história acontece rápido demais!!!! Poderia ter durado mais um ou dois capítulos.

Finalmente, é uma grata surpresa em se tratando de um livro de estreia de um escritor iniciante, bem como é bom saber que uma nova geração de autores de fantasia está a caminho.

E se a leitura da resenha animou para a história, então é só visitar a página oficial do livro. E lembrando a todos que, se eu não achasse que o livro merecesse, não daria espaço no meu blog. Então, caros autores-leitores, deem um jeito de escrever livros que mereçam estar aqui. =P