Em Chamas – Suzanne Collins

É complicado fazer uma resenha do segundo livro de uma série porque fatalmente alguns aspectos determinantes do primeiro livro terão de ser abordados, a cada volume que se passa de uma série, mais difícil fica evitar e contornar os spoilers. Por isso evito fazer resenhas de segundos volumes, mas às vezes a necessidade de falar algo me faz burlar essa regra.

Assim sendo, a melhor maneira de começar essa resenha é dizendo que Em Chamas é a continuação de Jogos Vorazes, que foi uma das minhas maiores surpresas literárias do ano até o momento e foi um livro bem impactante – quando você passa uma semana sem conseguir pegar outro livro para ler ou mesmo se pega lembrando de passagens da história e relembrando dos personagens bem depois da última página, você sabe que um livro conseguiu mexer com você. Eu precisava ler a sequência, saber o que acontecia com os personagens após o final agridoce do primeiro livro, de que maneira a autora seguiria com a trama. E, claro, também preciso dividir minhas opiniões com vocês, caríssimos leitores deste blog 😀

Assim sendo, como se trata de uma sequência, só clique no texto integral se já leu o primeiro livro ou se não se importa com alguns spoilers dele. O aviso foi dado!

Leia mais deste post

Jogos Vorazes – Suzanne Collins

Um lugar-comum (que não foge muito da realidade) é o de que todas as histórias já foram contadas. A originalidade absoluta não existiria e seria impossível de ser alcançada, portanto, não seria possível exigi-la, e o que faria diferença em uma história seria muito mais a forma como ela é contada do que seu conteúdo. Claro que essa falta de originalidade diz respeito às linhas gerais de uma obra, pois se formos analisar em nível de detalhes, o incômodo passa a aparecer com força.

E isso foi o que me incomodou da primeira vez que ouvi falar em Jogos Vorazes: a sinopse do livro é exatamente a mesma de outra obra, um pouco mais antiga, chamada Battle Royale. Vejamos: em um futuro distópico, um grupo de jovens é levado para disputar um jogo mortal em frente às câmeras, exibido por toda a nação, e eles devem se matar entre si até que surja o vencedor, aquele que sobreviverá a todos os outros. E, claro, o protagonista vai se rebelar contra o sistema, mas o que está em jogo é a sua própria vida, então as coisas não serão fáceis e nem facilitadas para ele. (tudo bem, nenhum dos dois também inaugurou esse tipo de história – desde o início da humanidade existem ritos sacrificiais de jovens levados a morrer pelo bem da sociedade, como podemos ver no mito de Teseu e do Minotauro, e mais recentemente nos survival movies, mas as linhas gerais das duas obras supracitadas são semelhantes demais).

Vencida minha resistência inicial, com a ajuda de comentários enfáticos como os desta blogueira (fãzona da série) e também de comentários em blogs e sites internacionais voltados mais para ficção científica/fantasia e menos para young adult, fui fisgada pela curiosidade e resolvi ler o livro, até mesmo para saber até que ponto era mesmo parecido com Battle Royale.

E o resultado foi muito superior ao esperado. Encontrei um livro envolvente e cativante – e que, apesar de ter a mesma sinopse de Battle Royale, tem um enfoque bem diferente.

A protagonista aqui é Katniss, menina pobre do distrito mais pobre da grande nação de Panem, erguida sobre o que restou daquilo que um dia foi a América do Norte. Pela fome, miséria, repressão e pouca esperança de melhorar de vida, além da responsabilidade de ter de sustentar a mãe e a irmã mais nova, é uma garota que sabe o mínimo de sobrevivência em ambientes perigosos, além de ter sido endurecida pelas circunstâncias. Toma o lugar da irmã, sorteada para ser a representante daquele ano do distrito nos Jogos Vorazes – o survival-reality-show- game da vez, uma versão para valer do Survivor (ou Big Brother), em que os eliminados da semana… bom, foram eliminados para sempre – e se pretende sobreviver, não pode ter pudores para sobreviver. Seu par, o representante masculino do distrito, é Peeta, um rapaz de sua idade, filho do padeiro, gentil e bem menos cingido pela vida do que a protagonista.

(e é curioso pensar sobre a concepção dos dois personagens: Katniss é durona, decidida, dona de uma personalidade forte e que não tem medo de pegar em armas – e Peeta é o garoto gentil, que decora os bolos da padaria de seu pai e que nunca precisou sair de sua atmosfera pacífica. O clichê comum de “mocinha frágil-mocinho forte” aqui é quebrado e invertido – Katniss é a senhora da ação e Peeta é puro sentimento. Dá até pra fazer uma reflexãozinha sobre gênero, mas só “inha”).

Os dois devem ser preparados – há uma equipe de preparação com uma relações-públicas e um “mentor”, um antigo ganhador dos Jogos do mesmo distrito que eles, Haymitch, que tem o papel de treiná-los e traçar as melhores estratégias para que, no mínimo, não façam um papelão na hora em que o show começar.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção no livro foi todo o clima – apesar da minha birra em ler narrativa no tempo presente, dá para se acostumar rápido, bem como com Katniss, a narradora* – apesar de que eu a achei obtusa demais. Tá, ela teve uma vida de merda e tá numa situação de enlouquecer qualquer um, mas ela não se permite simplesmente SER de vez em quando? Sempre tem de ser tão séria e sisuda? Não pode relaxar nunca?. A opressão do mundo, de recursos naturais escassos, possibilidade remota de ascensão social, grades, vigias e o sacrifício anual de jovens para que toda a população saiba que qualquer tentativa de revolta é inútil ficou muito forte – CLARO, não chega no nível de um 1984, mas a ambientação é bem reforçada.

Outro ponto que merece destaque: o tom de crítica. Geralmente, a YA que chega ao topo das paradas não é exatamente crítica, ou tal ponto não é tão forte – ou é tão forte que acaba se desgastando, como a série “Feios”, em que está na cara qual lição o autor quer passar e você nem precisa ler o livro para saber do que se trata. O convite à reflexão aqui é mais sutil – e talvez mais profundo: a violência entre nós também não é banal e a vida não vira produto?

Isso fica bem claro para mim na passagem em que Katniss chega à Capital para ser preparada para os Jogos Vorazes – é um programa televisivo que todos assistirão, então ela precisa ser limpa, receber tratamentos estéticos e ser vestida como recomenda a moda para ser um belo produto a ser ofertado ao público e anunciantes. E isso é deixado claro a todo momento: ela é uma peça do espetáculo e deverá se comportar como tal. A vida dela – e dos demais participantes – é irrelevante.

Outra é como a nossa própria mídia também tem seus jogos vorazes e não estou falando dos realities shows. Qual o valor da vida para os programas policiais de fim de tarde que fazem questão de explorar um crime ao máximo? Ou para todo circo midiático que cercou o caso Eloá, por exemplo, onde só faltaram instalar câmeras no cativeiro?  Para nem lembrar do caso da menina Isabella… – e qual o valor que cada vida ganha. Isso também para não lembrar as revoluções e guerras transmitidas ao vivo e minuto a minuto via satélite para todo o mundo – é até curioso ver numa sociedade em que a morte é tabu a vida valer tão pouco.

E, claro, nada aqui pode acabar bem. Mortes ocorrerão – e a autora até  tem a mão pesada para uma obra juvenil – e também momentos de empatia extrema com os personagens, mesmo com aqueles antipáticos em um primeiro momento – e o final, apesar de ser de certa forma previsível, tem sua boa dose de agridoce.

Não dá para passar por esse livro sem envolver-se, ainda que o mesmo tema já tenha sido explorado outras vezes e com outras nuances. Me surpreendeu muito positivamente, se você não tem preconceitos ou barreiras em relação a young adult, pode ler esse sem medo. Recomendado.

E achei engraçado que mais para o fim das contas, o tom do livro me lembrou demais o tom de Ender’s Game (O Jogo do Exterminador) – sobre a melancolia de ver uma criança (ou adolescente, no caso) ser obrigada a perder ainda mais sua inocência em um mundo em que é obrigada a matar. Recomendo a leitura para quem gostou de Jogos Vorazes.

*Notinha para o leitor avançado que não afeta muito a resenha: a autora utilizou a primeira pessoa no texto, sob o ponto de vista da Katniss, mas, apesar de em tese a primeira pessoa ser mais fácil de ser trabalhada, a autora aqui mostrou que também dá para trabalhar um pouco em cima disso. Katniss narra, mas deixa MUITO sub-entendido e para que o leitor conclua por si mesmo. Tem até um ponto onde achei que a autora jogou muito bem em relação a isso – estamos ouvindo a versão de Katniss, não significa que ela interprete tudo da maneira correta ou que não existam outras coisas acontecendo ao mesmo tempo. A primeira pessoa é um fio condutor para o leitor, sim, mas dá para deixar pontas soltas e muita coisa implícita. Achei bem legal esse uso – e também foge bastante das autoras pouco experientes de outros young adult que utilizam-se do mesmo recurso.

***

Gostou? Quer conferir o livro também? Então compre aqui! (Submarino / Livraria Cultura)

Aproveite e leve também o 1984 (Submarino/Livraria Cultura) e o O Jogo do Exterminador (Submarino/Livraria Cultura)

***

P.S.: Não resisti e fiz um post com spoilers do livro. Para que ninguém veja aquilo que não quer ver, está protegido com senha: resenhacomspoiler . Clica lá, digita a senha e veja os apontamentos, agora com spoilers 😀

***

Até a próxima!

Fome – Tibor Moricz

É o costume, tanto na comunidade Escritores de Fantasia quanto na Ficção Científica, que aquele que publique um livro, caso deseje fazer propaganda deste, deve disponibilizar um exemplar para sorteio entre os demais membros.

Em novembro do ano passado, ocorreu o lançamento do livro de Tibor Moricz (que, apesar do nome, é um autor brasileiro). Como a premissa me interessou, resolvi arriscar minha sorte no sorteio – e qual não foi a surpresa ao ser escolhida?

Fome não é o livro de estreia de seu autor, tampouco um romance. É um conjunto de contos, interligados entre si mas não co-dependentes, que se passam em um futuro pós-apocalíptico, onde por alguma razão a comida do mundo acabou e os poucos sobreviventes precisam se virar como podem. É um livro sobre o mais básico dos instintos: a sobrevivência. Também o é sobre a mais básica das necessidades: a alimentação.

Então, veremos que o homem é o lobo do homem – em todos os sentidos. O livro traz contos que partem para o choque, para a agressão, para o repugnante.

Só que aqui entra a minha opinião: como existem apenas o instinto, a selvageria e a loucura, como qualquer resquício de sociedade se perdeu e sobraram apenas indivíduos solitários e famintos, não consigo enxergá-los como seres humanos. São, isso sim, bichos dispostos a sobreviverem. E para bichos em franca luta pelo pão de cada dia, o que são tabus ou choques?

É diferente da situação de um maníaco que gosta de comer criancinhas (nos dois sentidos de “comer”). Neste caso, onde existe uma sociedade e consequentes regras de convivência e do que é socialmente tolerável ou não, é uma atitude monstruosa e execrável. Outro exemplo, o caso do Milagre dos Andes, onde os sobreviventes precisaram comer os amigos mortos para sobreviver. É o desespero de uma situação traumática e extrema, uma luta pela sobrevivência e para voltar à sociedade dos comuns.

Agora, quando já não existe sociedade e humanidade, que diferença faz? É chocante jogar dois vermes famintos numa bacia e ficar esperando até que um devore o outro? É cruel, mas não envolve nenhum tabu ou sentimento. Ou, mais próximo da realidade do livro, algum zumbi canibal. Gera empatia? Pois então.

Sobre os contos, percebe-se que o autor tem um excelente domínio da narrativa. Os dois primeiros são os mais fortes, onde o autor coloca as cartas na mesa e demonstra o que virá a partir dali. Só que o desenrolar dos contos começa a se tornar repetitivo: são as histórias de diferentes sobreviventes, mas que partem do mesmo lugar e chegam a conclusões semelhantes. Começa a se tornar mais do mesmo.

Outro ponto negativo foi o choque pelo choque. Um dos contos específico, chamado O Observador, me soou especialmente repugnante. Praticamente um round house kick no estômago.

Um terceiro ponto negativo – não do autor, mas da editora – é que o livro se desfez durante a leitura. Mal, muito mal.

Um ponto que acho interessante em um livro de contos fechados é que a leitura pode ser fracionada. Um conto hoje, outro amanhã, até mesmo intercalados com outro livro.

Outro ponto interessante é a do autor aventurar-se em um tema assumidamente polêmico, com o poder de gerar as mais díspares reações. Precisamos disso, de pessoas que se arrisquem a escrever, de pessoas que matem a fome de leitura com novidades.

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Este é um dos livros mais apavorantes que já li.

Ele é geralmente classificado como “distopia”. Distopia, em um conceito rápido e objetivo, é o contrário de utopia. De acordo com a Wikipedia, ” Uma Distopia ou Antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma “Utopia negativa”. São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. Nelas, cai-se as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. Assim, a tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, de instituições ou mesmo de corporações.”

Mas não se trata de uma distopia. Apesar de escrito como tal, é a nossa própria realidade. E isso é apavorante.

Na trama do livro, Montag é um bombeiro que, nesse futuro, possui a função de queimar livros. Um belo dia, após trocar palavras com uma garota da vizinhança, começa a se questionar sobre sua vida e, por fim, o que haveria de tão perigoso nos livros que os fizeram ser banidos.

Apresenta-se então uma sociedade dominada pela mídia, em que as pessoas não conversam mais entre si, mas apenas com sua “família” – os personagens da programação da televisão onipresente. Em que as pessoas são fúteis, vazias, egoístas, hedonistas e insensíveis. Não há nem o que dizer sobre alienação – a sociedade como um todo é alienada e alienante. O valor mais importante é a diversão, então por que pensar sobre si mesmo ou questionar sua realidade? Isso não é divertido.

Exatamente por isso os livros foram banidos: cada minoria se melindrava com um determinado trecho, que era suprimido. Por fim, por que as pessoas gostariam de ler livros e ficar tristes com a reflexão subsequente? O importante mesmo é se divertir.

Esse é o ponto apavorante da história.

Quantas pessoas não conhecemos que são vazias, que não se lembram de fatos relevantes sobre si e sobre os outros, que os assuntos se resumem a roupas, carros, esportes ou à programação da TV, por absoluta falta de qualquer outro conteúdo?

Quantos hedonistas não vemos por aí, principalmente em minha geração? O que importa é o prazer e a diversão, por que a reflexão se ela pode ser tão dolorosa? O melhor é não pensar muito e viver para se divertir. Melhor nem falar sobre a insensibilidade e sobre o egoísmo. Assim como na obra, é tão comum vermos jovens pegando carros, dirigindo a toda velocidade e atropelando pessoas apenas por diversão… e isso ser absolutamente normal.

A mídia? Há quem viva para as novelas e se importe mais com fofocas de artistas do que com sua própria vida – vide as vendagens de revistas como a Caras. A companhia é a mocinha da novela, a paixão platônica, o galã, o inimigo capital, o vilão.
Com o advento da internet então, torna-se perfeitamente possível uma vida totalmente virtual, em que as amizades acontecem no Second Life, as conversas se estabelecem no MSN, a intimidade se esvai.

E as minorias ofendidas? O politicamente correto vem com força total. Isso não pode porque as feministas não gostam, aquilo não pode porque o movimento negro não gosta, aquilo outro então ofende aos homossexuais. E a sociedade pisa em ovos para que ninguém se melindre.

Os livros libertam a mente, ensinam sobre a alma humana, provocam a reflexão. Por isso são perigosos – por que derrubar uma linda e confortável torre de marfim eletrônico se viver na ignorância (em todo e qualquer sentido que “ignorância” possa ter) é tão mais confortável e agradável? Para que pensar se isso vai entristecer o indivíduo? Cabe então aos bombeiros combaterem essa maligna ameaça.

Outro ponto interessante do livro é como a mídia escapa daquilo realmente importante. Em determinado ponto, a guerra foi declarada e é iminente, mas todas as câmeras estão em cima da perseguição a um criminoso comum. E quanto a nós? Quantas vezes investigações importantes, projetos de lei particularmente discutíveis ou escândalos políticos não são abafados por pais que atiram criancinhas pela janela ou por namorados ciumentos que sequestram namoradas? Afinal, a novela sempre é mais interessante do que a vida coletiva.

Alguns pontos da escrita, principalmente no que dizem respeito à tecnologia, soam datados. Achei particularmente inverossímel o fato de existir um rio que não estivesse totalmente degradado pela poluição e a existência de um bosque tão próximo a uma cidade.

Apesar disso, naquilo que os livros trazem de melhor – o retrato da alma humana e da sociedade – a trama continua atualíssima, talvez muito mais atual do que era em 1953, seu ano de lançamento.

Vale a leitura e vale a reflexão subsequente (porque a reflexão pode ser dolorida, mas é extremamente necessária).

***

Quer conferir a história também? Leia o livro! Compre em (Submarino)