Frozen: Uma Aventura Congelante – Disney

frozenProvavelmente (já que não me lembro da primeira vez, já que tenho uma lembrança remota que comprova a teoria, mas não sei se houve um “antes”) o primeiro filme que vi no cinema foi um dos grandes clássicos Disney. Ou melhor, indo mais longe na lembrança: A Bela e A Fera (no cinema onde hoje é o Sesc Palladium, em Belo Horizonte, pra ser mais exata). Tive a sorte de ter crescido na era de ouro do final de 1980-início de 1990, onde, por cerca de dez anos, uma obra-prima Disney atrás da outra eram lançadas. O mês julho era esperado com ansiedade (não apenas para meus dias de férias com minha avó – que incluiam, é claro, pelo menos uma ida ao cinema), já que era a data da próxima animação.

Os anos foram se passando, veio um período bem ruim para o estúdio: filmes ruins, problemas financeiros e a hegemonia abalada pela concorrência, como a revolucionária Pixar – ainda que pertença ao estúdio – , a descoberta ocidental de Hayao Miyazaki (um dos maiores mestres da arte da animação) e mesmo os grandes estúdios de cinema se mexendo e aprimorando suas próprias técnicas, como a Dreamworks. Mas, como num conto de fadas, a Disney reergueu-se, vem na sequência de bons filmes (ainda que não sejam mais apresentados em julho) e voltou a ter o prestígio de outrora (ainda que com alguns escorregões desnecessários, mas já chegamos lá).

Então não deixa de ser uma grande alegria dar de cara com A Animação do Ano que tem todo o jeito dos melhores filmes dos saudosos anos 90, de ter vindo na esteira de grandes sucessos como o próprio A Bela e a Fera, Alladin e O Rei Leão (que, há quem diga, é a animação da Disney absoluta). Mas… bom, os tempos são outros 😉

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Revisitando a Disney – O Corcunda de Notre Dame

Não seria muita pretensão dizer que todos os meus leitores tiveram uma infância Disney. Meu pai, criança de roça, lia avidamente as histórias do Tio Patinhas nas décadas de 50 e 60 – e até minha avó, que era de uma cidadezinha do interior e acabara de se mudar pra Belo Horizonte assistiu Branca de Neve e os Sete Anões quando criança.  Eu, nascida no início da retomada da animação da Disney (e me lembro com carinho quando ganhei minha fita da Cinderela com cinco anos de idade – eu e minha mãe cantávamos todas as músicas juntas e cantamos até hoje :P) e de assistir religiosamente nos cinemas o Grande Lançamento de Julho.

Só que os anos passam, o interesse cai – e a entressafra de bons filmes Disney veio justamente na minha pré-adolescência e naquela fase de “não gosto mais dessas coisas de criança!” – e, posteriormente, seja por saudosismo, porque há crianças novas na família ou porque está passando na televisão mesmo chega a hora de rever os filmes. E, por que não, já mais madura tanto em idade quanto em apreciação de narrativas em geral.

Daí vem a ideia de revisitar clássicos Disney e observar hoje em dia camadas de narrativa que não foram feitas para crianças entenderem. Em alguns casos, só algumas piadas de “bônus parental” é que saltam aos olhos depois do amadurecimento (não vejo em Hércules hoje nada muito diferente do que via aos doze ou aos dezoito anos, p. ex., ou mesmo em Alladin ou nas princesas mais antigas), em outros dá para descobrir algumas camadas de subtexto que uma criança não enxerga (A Bela e A Fera é o exemplo mais óbvio disso) e há também a possibilidade da compreensão da obra mudar totalmente.

Então vamos ao caso onde isso aconteceu comigo: O Corcunda de Notre Dame.

O filme foi lançado em 1996 e é um dos três mais sombrios da Disney, junto com O Caldeirão Mágico (aposto com 90% de chances de acerto que você nunca tinha ouvido falar no filme apócrifo do cânon dos longas de animação da Disney até o presente momento :D) e A Bela Adormecida. São filmes não apenas com temática mais sombria, mas que abusam de tons escuros e da falta de luminosidade para reforçarem seu ponto.

Aos 10 anos de idade, quando fui ver o filme no cinema, não gostei. Talvez a falta de personagens alegres, saltitantes e fofinhos tenha me incomodado, ou uma mocinha bem atípica, ou um enredo que nada tem de mágico ou engraçado. Minha avó comprou a fita de vídeo para que víssemos nas férias enquanto estivéssemos em sua casa, mas via pouco e pouco me interessei. Não era o melhor exemplo de “filme Disney” para mim, que a essas alturas quase já tinha furado a fita do Alladin ou d’A Bela e a Fera.

Enfim, alguns poucos anos atrás, uns dois ou três, o filme passou na TV. Parei para assistir e a experiência foi muito diferente da primeira impressão – achei que minhas lembranças não faziam justiça ao filme. E dia desses resolvi rever o filme. Qual não foi minha surpresa com o que encontrei ali.

Para quem não sabe, o filme é adaptado do livro Notre Dame de Paris, clássico de Victor Hugo (só para lembrar os estudos de literatura do colégio: ninguém espera que um autor da terceira fase do romantismo – a da crítica social – faça uma história cheia de carneirinhos felpudos, né) e narra a história da catedral, além de alguns personagens: Quasímodo, o corcunda deformado fisicamente e sineiro da catedral; Esmeralda, a bela cigana por quem Quasímodo se apaixona da forma mais pura possível e Claude Frollo, o ábade que criou Quasímodo e que torna Esmeralda objeto de sua obsessão. Isso não pode – e nem vai – acabar bem.

Claro que estamos falando de uma adaptação Disney, então temos um final feliz (e para fins de adaptação as personalidades são totalmente alteradas) mas o cerne continua lá: em Paris, na segunda metade do século XV, o juiz Frollo persegue os ciganos e em um belo dia termina por matar uma jovem que fugia com seu bebê. O pároco, testemunha da cena, impede que ele atire a criança em um poço e ordena que ele a crie, como punição pelo sangue inocente derramado. A criança, deformada, é criada no interior da catedral de Notre Dame e é chamada de Quasímodo.

Um dia, vinte anos depois, o gentil corcunda, cansado de apenas assistir ao Festival dos Tolos do alto de sua torre, desobedece seu mestre e vai se misturar às pessoas que vê viverem suas vidas. E é aí que a história começa…

…bem como a certeza de que estamos diante de um filme da Disney totalmente fora da curva.

Quasímodo primeiro é integrado à festa até que sua identidade é revelada e ele passa por uma pequena humilhação e tortura públicas. Claro, quando eu tinha 10 anos ver essa cena não deve ter me deixado muito feliz…

E temos também Esmeralda, que tínhamos conhecido alguns minutos antes e percebido se tratar de uma moça esperta que sabe sobreviver nas ruas perigosas de Paris. No Festival dos Tolos ela apresenta a todos sua bela dança e… talvez por sua personalidade contestadora, resolve seduzir o grande vilão da trama e com isso constrangê-lo. E… bem, não sei se é a dança Disney padrão, decidam:

Daí continuamos acompanhando a história de uma anti-heroína rebelde que se põe em perigo para questionar a tirania de Frollo, do ingênuo (no melhor sentido da palavra) Quasímodo que acaba apaixonando-se por Esmeralda e ajudando-a a manter-se viva e em liberdade, do cavaleiro-numa-armadura-bilhante Phebo, altruísta desde o primeiro momento que entra em cena e que assim permanece até o fim do filme (ele salva Esmeralda e é gentil com Quasímodo gratuitamente, assim como arrisca o pescoço sem hesitar algumas vezes pelo bem de outras pessoas).

Bom lembrar também que os ciganos e outros párias sociais de Paris não são retratados como coitadinhos cor-de-rosa. São povo oprimido, sim, mas os cidadãos não hesitam em torturar o sineiro e os ciganos também não tem pudores ao eliminar o que julgam ser uma ameaça. Um exemplo disso é Clopin, o arlequim que apresenta a trama – de narrador e provável personagem humorístico para uma peça perigosa no transcorrer da história, que não vai ter pudores em deixar um inocente ser humilhado publicamente ou tentar matar, com certo prazer sádico, aqueles que vê como ameaça.

E, claro, o mais cruel – e mais humano – vilão Disney: Claude Frollo, o juiz que via o mal em tudo, menos em si mesmo, e que deseja possuir (no sentido mais carnal possível) Esmeralda – nem que tenha de incendiar a cidade para isso. Ele não tem nenhuma sede de poder – é a própria autoridade opressora, para que mais poder do que isso? – ou ganas de derrubar alguém, apesar de claramente xenófobo, como demonstra desde o começo da trama – mas sua vilania atinge o limiar da loucura graças à bela Esmeralda, criatura que deseja, mas também sente asco – afinal, apesar de bela e provocativa, ainda é, para ele, uma bruxa.  Além disso, com o perdão do pequeno spoiler, é um dos vilões com a mais assustadora “morte Disney” – o próprio demônio vem buscá-lo por suas vilanias.

E lá vai a talvez mais assustadora música do vilão da Disney, tanto pelo vídeo quanto pela letra. Uma oração pedindo para que uma mulher se entregue a um homem – ou seja assassinada, caso se recuse.

Não há criaturas fofinhas e saltitantes – os mascotes da vez são gárgulas que nada tem de bonitinhas ou criaturas mágicas. Na verdade, é um dos desenhos menos mágicos da Disney – e se você entender que as gárgulas são amigos imaginários do solitário Quasímodo, interpretação MUITO plausível dentro do contexto(apesar de que o cabritinho e alguns guardas discordarão :P), vai concluir que não há magia alguma no filme inteiro. A trama se baseia em escolhas e orientações morais humanas, sem nenhum elemento sobrenatural incluso – e aqui a realidade é muto mais cinzentas do que nos outros clássicos Disney, as pessoas podem ser cruéis, malvadas e manipuladoras sem serem necessariamente vilãs.

Além disso, é um desenho sem uma “moral da história”, apesar da vitória dos mocinhos éticos contra o vilão opressor e assassino. Dá para encontrar lá no meio uma mensagem de tolerância ao diferente, mas ao contrário d’A Bela e a Fera, que glorificava a beleza interior, a questão aqui talvez seja o outro lado da moeda: o que torna o homem um monstro não é o rosto, mas o caráter.

Enfim, é o mais adulto dos clássicos Disney e que VALE a pena ser revisto, principalmente como adaptação que apesar de suavizada, amplia, renova e faz justiça à obra original.

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Quer aproveitar a onda de nostalgia e rever o filme? Então compre-o! (Submarino – DVD)

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Pros leitores que eram crianças quando o filme foi lançado: vocês gostaram na época? Só para curiosidade estatística mesmo 🙂

Até a próxima! Espero que seja em muito breve!