Cem Sonetos de Amor – Pablo Neruda

capa_cem-sonetos-de-amorConfesso: livros de poesia nunca são minha primeira opção. Nem a segunda. Nem a terceira. Fazia uma boa década que não abria nenhum (desde os tempos de colégio), a prosa me atrai mais. Se teve algum livro do Desafio Literário que realmente disse respeito a coisas que não leria normalmente, com certeza foi o deste mês. Apesar de ter colocado o livro escolhido na lista, nem era essa minha primeira escolha: era Fernando Pessoa (que está em algum local incerto e não sabido da minha casa, no mínimo escondendo-se entre duas prateleiras). Mas Neruda também é um clássico e uma boa pedida, então resolvi encará-lo.

 Como o título sugere, este é um livro de poesias românticas. Quem na vida nunca fez poesias de amor? Até os grandes mestres da arte, o próprio Neruda era muito afeto aos poemas de amor. Este livrinho não diz respeito ao amor idealizado adolescente, mas de um sentimento mais profundo, de uma compreensão do amor que muda com os anos e a vida, tendo por musa inspiradora a terceira esposa do poeta, Matilde. E, claro, o contrário exato da idealização: o amor físico, sensual, carnal. Principalmente no primeiro segmento do livro (dividido em partes do dia), Manhã, as poesias têm altíssimo teor erótico. Mas amor é vida e se relaciona com todos os aspectos desta: o contato com o ambiente, com as angústias, com as incertezas, com a morte – que também é vida.

 E, como da essência da poesia, é um livro sobre brincar com as palavras, montá-las como tijolinhos em busca de expressar sentimentos e provocar sensações. Senti-me refrescada por alguns deles, em outros, passeei por praias chilenas e senti o cheiro do mar. E refleti sobre o amor, sobre o que é o amor para mim – quis ler várias poesias na alcova…

 Mas ler um livro de cem poesias num mesmo eixo temático é cansativo. A apreciação não é a mesma, pois a saturação começa a crescer e as poesias a se misturarem entre si. Gosto mais de lê-las separadamente, aos poucos, ao invés de ser soterrada por elas. Claro que tive minhas favoritas, mas lê-las em conjunto tira a força delas… Não recomendo.

 Enfim, descobri mais uma coisa nisso tudo: escrevi esse texto para cumprir o desafio combinado, porque poesia se sente, não se resenha!

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Até a próxima!

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Infância – J. M. Coetzee

Ah, a infância… Aquela época idílica de brincadeiras até o pôr-do-sol, de candura e inocência e pureza e… Bom, não para todas as crianças. Para nem entrar naqueles casos onde a infância é usurpada pela violência e abuso (físico, psicológico, sexual…), há casos em que, por vários fatores, a personalidade também ajuda para que as lembranças desta época não sejam tão coloridas, ou mesmo passar pela infância não tenha sido indolor.

Este é um romance de inspiração autobiográfica de uma infância que, se não foi violada, também não foi o paraíso da felicidade. John cresce num país cindido (a África do Sul), em que há uma divisão bem clara e hostilidade declarada entre os grupos que compõem a população, para nem falar sobre o preconceito institucionalizado em relação aos negros. E por que a infância de um menino branco, africânder, de classe média, pode não ter sido maravilhosa?

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Maus – Art Spiegelman

Poucas coisas foram mais horríveis e inacreditáveis (no pior dos sentidos, de realmente não entender o que levam pessoas a considerar um grupo de outras pessoas um inimigo a ser exterminado) do que o holocausto ocorrido na Segunda Guerra Mundial. Várias histórias foram contadas sobre o extermínio de judeus, sob todos os ângulos possíveis: desde a história de uma menina que tem a adolescência interrompida pela guerra (tanto por não poder usufrui-la quanto por morrer em função dela), como Anne Frank, quanto a de um milionário que arrisca a própria vida para salvar pessoas, como retratado no filme A Lista de Schindler. Na verdade, esse é um tema tão recorrente, especialmente em cinema, que acaba até desgastado, do tipo “mais uma história sobre o holocausto?”.

O próprio autor de Maus se pega fazendo essa pergunta em determinado ponto. Mais uma história? Só que essa é um pouco diferente: pela forma, pela abordagem, pelo metatexto.

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O Rei do Inverno – Bernard Cornwell

Em primeiro, primeiríssimo lugar, tenho de pedir desculpas pelo hiato. Sabem como é, faço o blog sozinha e quando as coisas apertam tenho de parar com tudo. Bom, pelo menos estamos de volta 🙂 E eu tinha avisado pelo twitter e pela página do facebook que estaríamos em recess. Você não segue/não curtiu??? Corrija isso A-GO-RA e clique nos botões aí na coluna do lado!

Mas falando do livro de hoje, não posso dizer que não seja uma pessoa tolerante. Como vocês podem conferir aqui e aqui, minhas experiências anteriores com o Bernard Cornwell (de quem sempre tinha ouvido falar muito bem) não foram exatamente muito proveitosas. Só que sempre ouvia: “leia a saga arturiana dele, é muito boa, você vai gostar!”e isso ficou na minha cabeça. São mesmo, pelo menos no Brasil, os livros mais famosos dele, então resolve dar o benefício da dúvida, aproveitar uma promoção e conferir qual era a do livro (e bom ressaltar que essa tal promoção aconteceu em marco do ano passado e o livro só saiu da estante porque encaixava-se em um dos temas do Desafio Literário, mas detalhes).

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A Outra Volta do Parafuso – Henry James

Um dos maiores apelos do terror, além do medo do desconhecido, é quando a ameaça desconhecida poderia acontecer com qualquer um, inclusive com o leitor em seu sossego. Muito além do terror gráfico de monstros, demônios ou ameaças cósmicas está aquele um pouco mais próximo: a loucura, a perseguição, o crime.

Esta também é a premissa mais básica de uma das mais clássicas escolas do terror (aquela vitoriana, do fim do século XIX e início do XX, que também diz muito acerca do positivismo vigente e do advento da ciência sobre o obscurantismo): qual o pior terror, as assombrações ou as alucinações que ocorrem apenas na mente do assombrado? O sobrenatural é real ou é apenas imaginação?

A trama, já que o livro é de 1898, é bem conhecida: uma jovem preceptora vai trabalhar numa mansão erma (e mansões ermas e sombrias tem tudo a ver com terror, também) contratada para cuidar de dois órfãos, com a condição de em momento algum aborrecer o tio e responsável legal deles com qualquer problema, mas ela começa a ver os fantasmas de sua antecessora e seu amante e conclui que as crianças estão em perigo e precisa salvá-las. Lógico que apenas ela vê os fantasmas e ameaças e toda a trama se constrói sobre as visões.

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Dois Irmãos – Milton Hatoum

A rivalidade entre irmãos, uma das coisas mais comuns nas famílias na vida real, é um tema literário desde sempre, poderia dizer que desde Caim e Abel. Quando se trata da rivalidade entre gêmeos então, poderia dizer que desde Esaú e Jacó (os bíblicos e o livro machadiano), passando pelos clássicos embates entre a gêmea boa e a má de novelas.

Mas essa não é a história de um “gêmeo bom” e um “gêmeo mau”, até mesmo porque essa dicotomia não existe na vida real, e essa é uma história do cotidiano. Trata-se dos gêmeos Yaqub e Omar, que nunca se deram bem, e que estendem essa rivalidade, com consequências catastróficas, por toda a vida.

Estamos na Manaus do início do século XX, pouco depois do apogeu do ciclo da borracha, responsável por atrair pessoas de todo o mundo para a capital do Amazonas – inclusos os ascendentes dos gêmeos, que vieram do Líbano. É um período de efervescência e riqueza para talvez uma das cidades mais isoladas do Brasil por seus fatores geográficos e um passeio por suas características: prédios, ruas, o desabrochar de uma elite econômica muito rica e a proximidade com a floresta logo ali.

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Spartacus – Howard Fast

Este é desses livros que contam uma história que todo mundo já ouviu (aliás, é a base para uma de suas versões mais famosas, o filme clássico de 1960 com Kirk Douglas no papel principal) e que atualmente, graças ao seriado também homônimo (que pode não ser lá um bom seriado mas é divertido :P), ganhou uma nova versão. É também uma dessas incríveis histórias reais que sobrevivem ao tempo e são compartilhadas pelas gerações.

 Essa versão foi escrita pelo autor norte-americano Howard Fast no auge do macartismo, a perseguição nada velada aos comunistas. A obra, com viés marxista bem explícito (o conceito de luta de classes está em todos os lados, até literalmente, e como se isso não estivesse claro o suficiente em determinado ponto um personagem vira e diz algo mais ou menos assim: “não trabalho com escravos, só com assalariados, porque já que eles recebem pagamento nunca vão se rebelar”), é um lembrete que, apesar da época difícil, houve desde o início da humanidade aqueles que deram a vida pela liberdade e que cabe a cada um, independente da época, seguir seu exemplo.

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As Boas Mulheres da China – Xinran

Confesso que li esse livro um pouco desavisada. No seguinte sentido: esperava que fossem histórias de mulheres chinesas com finais felizes, mas não são. Trata da vida dura de mulheres comuns, de diversas classes sociais, oprimidas por duas forças diversas: a sociedade chinesa, por tradição machista, que relega as mulheres ao segundo plano, e também à Revolução, à implementação de um regime comunista ditatorial e opressor, onde além da perseguição e punição intelectual, há também a física, a retirada de toda e qualquer dignidade possível.

Não existem finais felizes em As Boas Mulheres da China. O livro é um relato jornalístico de uma apresentadora de rádio, de um programa bem popular, que resolve responder a uma pergunta simples: “como vivem as mulheres na China?”. A partir dessa pergunta, começa a desvelar um mundo de tragédias pessoais e coletivas.

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O Psicopata Americano – Bret Easton Ellis

Este é um livro… difícil de se começar a falar. Um livro difícil de se ler, também, por vários motivos (o primeiro e mais óbvio deles é a estilística, o autor tem obsessão – e por tabela o narrador, mas exploraremos isso mais tarde – de dar os mínimos detalhes sobre roupas, ruas, casas, marcas, menus… absolutamente tudo, o segundo é que a falta de propriamente uma narrativa na trama acaba por tornar o livro grande demais e meio enfadonho – de acordo com meus cálculos li uns quatro ou cinco livros em concomitante com este, quando não aguentava mais – e o terceiro é que na medida em que a trama avança, a violência se torna cada vez mais explícita e exagerada). Mas, pelo amor ao desafio, vamos lá.

A psicopatia, em resumo, é um transtorno psiquiátrico que representa a falta de empatia pelas outras pessoas ao seu redor (e que leva a frieza, insensibilidade, manipulação, egocentrismo…). Como toda doença, existem gradações, claro, e só uma minoria dos psicopatas se tornam assassinos seriais. Curioso que essa falta de sentimentos, segundo pesquisas, faz com que psicopatas sejam pessoas extremamente bem-sucedidas em suas profissões, já que não tem escrúpulos para subir na carreira…

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Escola dos Sabores – Erica Bauermeister

Ano passado, pelo amor ao desafio, resolvi me juntar ao Desafio Literário, pela oportunidade de ler livros que já queria ler, mas precisava de um “empurrãozinho”, e também para ler coisas novas que não passariam normalmente pela minha estante. A proposta para janeiro era um livro que envolvesse gastronomia e/ou culinária e ficção e como duas escolhas óbvias já tinham sido lidas antes tive de procurar outras alternativas.

Uma das opções que me dei foi então o livro Escola dos Sabores, de Erica Bauermeister, que é a história de uma chef, dona de um restaurante de sucesso, que abre seus salões mensalmente para um curso de culinária – cada turma dura seis meses e reune pessoas em busca de vários objetivos durante o aprendizado: aprender efetivamente a cozinhar melhor, fazer algo para renovar a vida ou simplesmente a simples e mera curiosidade.

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