Good Omens – Neil Gaiman e Terry Pratchett

good-omens-capaUm dos assuntos mais culturalmente instigantes é o apocalipse, o fim de tudo, a chuva de fogo e o ranger de dentes eternos que marcará o ponto final. Como será o dia final? Trará terremotos, meteoritos, renúncias papais? Como será o choro e ranger de dentes definitivos?

 Essa é a versão dos maiores nomes da fantasia inglesa contemporânea, numa parceria feita para dar certo. O humor mordaz de Pratchett misturado com a riqueza dos cenários de Gaiman encaixam-se como uma luva, a fusão de estilos fica bem concisa, apesar de conseguirmos enxergar bem as marcas registradas de cada autor, o recado de que eles estão ali.

 O mundo está marcado para acabar desde o momento em que ele começou, então as legiões de Céu e Inferno estão se preparando para o Armageddon, a batalha final, desde então. Não que todos anjos e demônios concordem com isso: Crowly, demônio, e Aziraphale, anjo, têm lá seus motivos para gostar da humanidade e não estão muito a fim de duelos com espadas com lâminas de fogo, bestas-fera e nem nada disso. Querem é seguir a vida de sempre e deixarem como está, mas os chefes não parecem concordar muito.

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Tormenta – Lauren Kate

Sabem aquela história de “guilty pleasure”? De você gostar de algo vergonhoso, ter vergonha de admitir, mas gostar assim mesmo? Pois é, essa leitura se deve metade a guilty pleasure, metade a masoquismo puro e simples.

Li Fallen ano passado, não gostei por N fatores. Mas daí fiquei sabendo que a continuação tinha sido lançada no Brasil e me deu aquela curiosidade de ler, sob o argumento de que “será que o segundo é tão ruim quanto o primeiro?”. Como achei-o em uma promoção online por 17 reais e achei um preço justo a se pagar pela curiosidade, acabei comprando para ver qual era.

E não é que achei que melhorou, mesmo?

Dessa vez, os erros crassos de construção da trama que a autora cometeu no primeiro livro não ocorreram: a história está um pouco mais fechada, sem buracos e sem personagens que desaparecem. Pelo contrário, a adição dos personagens novos só acrescentou à trama, por mais que nenhum deles saia muito de um estereótipo pré-concebido.

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Cidade dos Ossos – Cassandra Clare

Eu poderia começar essa resenha ironizando todas as (várias) semelhanças deste livro com Harry Potter, falar de novo sobre, principalmente agora que os filmes do bruxinho estão chegando ao fim, a busca incessante pelo “novo Harry Potter” volta com força total (apesar de que aqui acho que  comparação cinematográfica mais justa seria o “novo Crepúsculo”) ou sobre o recente boom de anjos na literatura.

Mas não vou começar por nada disso.

Vou dizer sobre o quanto esse livro foi uma agradável surpresa.

Para começo de conversa, não sei o que me atraiu nele. É um dos lançamentos hypados de young-adult do momento, mas quando vi a sinopse pela primeira vez, não me bateu lá muita vontade de ler. Só que recentemente, no fim do ano, lendo a sinopse novamente, o livro despertou minha curiosidade o suficiente para ser adquirido. Também fiquei sabendo que a autora, Cassandra Clare, era autora de fanfics tendo inclusive escrito um dos mais famosos baseados no Harry Potter, o Draco Dormiens (que até eu li, apesar de não me interessar por fanfics de Harry Potter – voltaremos ao tema jajá). Bateu uma identificação danada, já que há muitos e muitos anos eu também escrevia fanfics e queria fazer mnhas próprias histórias, então também tinha o “vamos ver o que uma fanfiqueira faz quando precisa criar seu próprio universo”.

E é aqui que entra minha supresa: o livro, dentro dos parâmetros do gênero e público a que se propõe, é muito bom.

É a história de Clary Frey, uma adolescente de 15 anos normal que, um belo dia, ao ir à baladeeenha com seu amigo Simon, vê um adolescente esquisito e resolve ir atrás dele para uma paquera. As implicações de um inocente flerte juvenil são a descoberta de que demônios, vampiros, lobisomens e outras criaturas místicas não são mitos: eles estão entre nós. Além disso, os nephilims, um grupo de caçadores com sangue de anjo, andam entre nós para garantir que todos se comportem – especialmente uma facção chamada Caçadores de Sombras, treinados desde a tenra idade para retornarem demônios para suas dimensões de origem e manter a paz dimensional.

Clary conhece então os irmãos Alec e Isabelle – e Jace, o loirinho bonitinho e sarcástico que chama sua atenção imediatamente. E, claro, sua vida muda para sempre a partir deste encontro. E, mais claro ainda, ela não sabe toda a verdade sobre sua origem e si mesma. Após o encontro inusitado, coisas muito estranhas começam a acontecer em sua vida e quando sua mãe é sequestrada, ela se dá conta de que está envolvida até o pescoço com os Caçadores de Sombras e precisa tirar essa história a limpo.

Então dá-lhe perseguições, criaturas mágicas das mais diversas que vivem disfarçadas de humanos, lugares mágicos escondidos dos olhares vulgares (ou mundanos, como são chamados aqui), reviravoltas, segredos perdidos no tempo, alguns deles capazes de mudar toda a vida dos envolvidos…

Aqui, voltamos ao Harry Potter. Como já dito, a autora escrevia fanfics do bruxinho e sua turma e resolveu escrever suas próprias histórias em seu próprio cenário. As semelhanças entre as duas obras aqui não é meramente acidental e nem podem ser – elas se tocam, se inspiram, derivam.

Vamos pegar uma sinopse do Cidade dos Ossos: garota sai de sua vida normal e é jogada em um mundo mágico desconhecido das pessoas comuns, que está sendo ameaçado por um ditador poderoso, que todos julgavam morto, e que deseja dominar este mundo mágico e subjugar a humanidade comum. Isso realmente não lembra NADA para vocês?

E outros detalhes, como a semelhança entre Clary e Gina Weasley (apesar de que acho essa forçada – a Clary, por sua descrição física e nome, me parece muito mais uma mary sue – ou projeção idealizada da autora – do que uma versão da Gina), Jace e Draco Malfoy, um dicotomia entre as criaturas mágicas e o mundo dos “trouxas”/”mundanos”… E, claro, a parte em que a história dos pais dos protagonistas é contada parece mais como seria um fanfiction nos marotos, mas enfim…

Mas o cenário, quando visto de perto, não soa falso como uma Hogwarts estilizada seria – há criaturas que jamais passariam perto das aventuras do bruxinho, como anjos e demônios, e o sistema de magia e controle não está restrito às regras rígidas de um colégio interno. Pelo contrário: a regra aqui é não ter regras (exceto as da boa  vizinhança, controladas pelos Caçadores de Sombra). Inclusive, há mundanos, como o Simon (meu personagem predileto de longe!), que mesmo com sua falta de poderes são capazes de salvar o dia.

Uma palavrinha sobre os personagens agora: o Jace foi tão planejado para que todas as meninas caíssem de paixão por ele que para mim não funcionou. Achei-o chatinho, artificial demais no tom blasé/irônico, não consegui criar empatia. Ele foi tão feito para ser gostado e para que todos caiam de paixão por ele que ficou fora do tom, que não me despertou mais do que indiferença. O Simon (e aqui entra a “regra de liberdade dos personagens abaixo dos protagonistas” da qual um dia voltarei a falar) consegue ser muito mais simpático – um humano sem poderes, desprezado pelos Caçadores de Sombra mas que se infiltra, se impõe e vira parte do time.

Quanto à Clary, protagonista, gostei dela. As atitudes estão coerentes com a de uma adolescente que vê seu mundo virar de ponta-cabeça algumas milhares de vezes, são muito mais “alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui????” misturada com a paixonite adolescente inevitável. Quero ver de que forma isso vai ser conduzido ao longo da série.

Enfim, o livro foi uma gratíssima surpresa, a trama segura o leitor e o deixa ligado do começo ao fim e me deu muita curiosidade de seguir a série (não ao ponto de comprar tudo o que já saiu em inglês, mas deu). O próximo livro da série sai no Brasil em abril – e vou adquiri-lo logo que for possível! Fica a recomendação para quem gosta do gênero, para quem quer uma leitura de desligar a cabeça e ler feliz da vida e para quem quer desbravar um pouco do maravilhoso mundo da Y.A.

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Quer tirar suas próprias conclusões? Compre o livro! (Submarino)

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Até  próxima!

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O Senhor da Chuva – André Vianco

Este é um blog eclético, afinal a dona do blog é eclética (bom, dentro de certos parâmetros, não espere ver Augusto Cury aqui). Do mainstream ao underground, do clássico ao lançamento de ontem, a intenção do blog é trazer dicas de leitura que agradem a todos os paladares.

Então, aproveitando a temática natalina, vamos tratar de anjos.

Primeiro, algumas palavras sobre o autor. André Vianco é o cara que deu certo, na minha opinião. Esforçou-se, correu atrás, financiou seu primeiro livro e, hoje, é um escritor brasileiro profissional, com direito a livros nas listas de mais vendidos.
Sua história pessoal é uma história de alguém determinado, que lutou até atingir o seu objetivo, e que continua lutando. Além disso, é um participante bastante atencioso da comunidade orkutiana “Escritores de Fantasia”, onde é membro ativo e atuante. Para mim, o André é um exemplo a ser seguido. Algum dia meus futuros livros estarão aos lados dos dele.

Mas agora, vamos a este livro específico. O Senhor da Chuva trata da antiga, clássica e eterna batalha entre anjos e demônios, que começou no dia da Queda e durará para sempre. Este round específico envolve seu protagonista, um anjo que, ao desviar de suas funções habituais e ajudar a um traficante que tinha o potencial para ser salvo, acaba desequilibrando a ordem das coisas e provocando uma sangrenta batalha.

O começo é eletrizante. O leitor é envolvido logo de início pelos personagens e pela trama e logo faz parte das ações dos protagonistas, o anjo e o humano, que tem suas vidas reviradas ao avesso em uma sucessão de acontecimentos.

Como não poderia deixar de ser diferente nos livros do autor, o terror está presente, então dá-lhe sustos, sangue, gosma e criaturas bizarras. E, claro, a participação especial de alguns vampiros que acabam envolvidos nos acontecimentos.

O livro gira em torno da batalha iminente entre anjos e demônios. E, pela simbologia dessa batalha, pelo significado dos anjos significarem tudo aquilo que é bom, bonito e puro e os demônios a corrupção e a degradação, é natural que os primeiros acabem vencedores, ainda mais se o autor deseja passar uma mensagem de esperança. Nesse ponto, acho que está a falha gritante do livro.

O começo é realmente empolgante, o leitor sente vontade de seguir em frente, mas a empolgação vai indo embora com o decorrer da trama. A batalha final e o desfecho como um todo se arrastam devagar, é difícil ler as últimas páginas para se chegar ao final. O livro perde o fôlego e fica apenas aquela sensação do “já que cheguei até aqui quero ver o que acontece”.

Também em relação ao desfecho, a saída encontrada pelo autor soa forçada. Quanto mais um dos lados se fortalecia, mais eu como leitora pensava: “pois é, e agora como você vai sair dessa?”. E a solução soa forçada, não é natural. Não diria que é um deus ex machina, não chega a esse ponto, mas pareceu muito que o autor seguiu uma linha de raciocínio do tipo “essa é a melhor solução que eu posso encontrar nessa sinuca de bico que me meti”.

Outro ponto que achei estranho, apesar de não ser da construção da trama em si, é o fato da cidadezinha em que a trama se desenvolve ser de maioria protestante e batista. No Brasil, sem ser uma colônia? Isso me pareceu estranho, ainda mais sabendo que no interiorzão, há quase uma unanimidade católica e as comunidades protestantes, em sua maioria, são neopentecostais. Talvez se fosse uma colônia ou houvesse alguma explicação para isso soasse mais natural.

Como avaliação final do livro, diria que vale a pena ler se o leitor pretende refrescar a cabeça ou se pretende conhecer o trabalho de autores novos. Ou mesmo se é um dia chuvoso, pelo jogo de palavras que isso proporciona.