Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário – Vários Autores

O Brasil, feliz ou infelizmente, é o “país do futuro”, que jamais chega. Tivemos várias oportunidades históricas de saltos de desenvolvimento, mas acabamos por ficar para trás. Nós, mais do que a grande maioria das nações, temos na pele o sentimento do que poderia ter sido, mas por várias razões não foi. Agora vivemos um período de crescimento e prosperidade, mas estaremos escolhendo os rumos certos? Será que finalmente viraremos o país do presente?

Mas quantos planos não foram frustrados, embriões de bonança abortados, sonhos partidos? Quantos futuros não poderíamos ter tido, não fossem os mais diversos fatores?

O steampunk lida, como já dito antes, com um futuro que não foi. Como nós, brasileiros, enxergaríamos então um passado glorioso que poderia ter sido?

Bom, primeiro é preciso dizer que o steampunk demorou a pegar no Brasil, tendo sido mais divulgado só a partir da segunda metade da década de 2000 (apesar de já existir como gênero desde 1990). Não saíram muitas obras steampunk estrangeiras no Brasil, dá para destacar principalmente o RPG Castelo Falkenstein e os quadrinhos d’A Liga Extraordinária, mas não muito mais do que isso.

O primeiro livro genuinamente nacional a tratar do steampunk foi a coletânea Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, lançada pela Tarja Editorial em 2009. A Tarja, como quem acompanha o blog já sabe, é uma editora voltada principalmente para a ficção especulativa nacional e vem lançando trabalhos bem interessantes de nossos autores.

A edição é muito bem cuidada, o projeto editorial é bem legal, é um livro bonito de se ter em mãos. Foram convidados para compô-los vários autores, de vários estilos, mostrando sua visão do steampunk.

Interessante perceber também que a coletânea teve repercussão internacional, ganhando resenha do crítico literário estadunidense Larry Nolan, em seu blog, que dá destaque à obra dentro do cenário da ficção especulativa latino-americana.

Agora, vamos ao que interessa, uma análise pequenina de cada conto:

O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli – Uma introdução aos demais contos e ao steampunk. É um conto policial, com uma boa dose de teoria da conspiração, passado em um cenário steampunk. Só que é um conto onde… falta algo. A narrativa e o desenvolvimento fluem muito bem, mas falta sal e pimenta, falta empolgação e empatia. Mas cumpre bem seu papel como introdutor do steampunk, o que faz muito bem, e sai como abre-alas dos contos que virão :).


Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes
– O conto, em formato de relato histórico, trata das consequências e mudanças que a humanidade sofreria caso o projeto de determinado cientista ficcional tivesse resultados mais positivos. Se uma borboleta que bate asas em Manhattan gera uma tempestade em Pequim, da mesma forma uma engrenagem bem-montada na Inglaterra vitoriana tem o poder de alterar guerras e revoluções. O desenvolvimento é bem interessante e factível, caso houvesse a mesma tecnologia, é bem provável que os fatos ocorressem como sugeridos no conto.
E, é claro, o final é de arrepiar.

A Flor do Estrume, de Antonio Luiz M. C. Costa – Steampunk no Brasil, uma ficção alternativa utilizando dois personagens bem conhecidos aos olhos do leitor em uma situação inédita, mas bem plausível pela personalidade de ambos. Uma história alternativa em que a história colonial foi um bocado diferente – mas, uma grande falha no conto, apesar de que a compreensão de que se trata de uma realidade alternativa estar implícita, faltaram “porquês” para o leitor: como existe um Instituto Butantã alternativo no mesmo lugar de nossa realidade, que trata de matérias semelhantes e tem o mesmo nome do nosso, por exemplo. Depois vim a saber que o universo alternativo do autor já tinha sido trabalhado antes e possui suas próprias regras internas, mas a reação à leitura foi um “hã?” inevitável.
Mas é bem interessante o enfoque às ciências biológicas, ao invés do combo física-química-engenharia tão comum ao gênero – e, é claro, pelo bom uso dos personagens consagrados.


A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster
– Este é um conto que tem uma pegada diferente de todos os demais do livro: é uma aventura juvenil ocorrida no Brasil Império, sob o reinado de D. Pedro II (ele mesmo, na nossa realidade, era um amante das ciências), com um clima bem próximo ao de desenhos antigos e das séries que acompanhávamos na infância e adolescência. Se o espírito steampunk diz respeito ao saudosismo de algo que poderia ter sido e não foi, é este também o espírito do conto, tanto na história principal quanto nas entrelinhas. O protagonista, um gênio adolescente cheio de sonhos, pode ter a capacidade de realizá-los, mas será que seu ambiente cheio de restrições, burocracias e politicagens permitirá?
O conto tem algumas falhas – um dos personagens me parece ingênuo demais em relação ao mundo em que vive e a “costura” do clímax da trama me pareceu um bocado frágil – mas sua diferença temática em relação aos demais é digna de nota.


O Plano de Robida: Une Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo
– o maior conto da coletânea e, justificando seu tamanho, várias twists. Piratas espaciais ameaçam o Brasil imperial, num ar meio Capitain Sky and the World of Tomorrow, para logo passar para todo um planejamento de guerra e mergulhar em uma aventura com arzinho de pulp fiction. Algumas passagens, principalmente as da guerra, ficaram arrastadas e o desenvolvimento lento. Inclusive, um personagem da primeira parte do conto poderia ter rendido mais na segunda, ele praticamente desaparece, absorvido pelos acontecimentos. E o final, apesar da extensão do conto, não é em aberto – o conto termina mais como o prelúdio de algo maior do que uma ideia que se encerra em si mesma.


O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa
– Um conto muito bem construído, homenagem sincera e bem elaborada ao horror lovecraftiano. Só tem um pequeno probleminha: não é steampunk. Não é porque aparece um navio a vapor que a obra se caracteriza como o gênero.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia – Provavelmente é o melhor conto do livro. Três coisas em especial chamam a atenção: a primeira, a ambientação. Estamos na Era Vitoriana sim, mas na parte suja dela, a do trabalhador explorado que luta pelos seus direitos. No caso de alguns deles, autômatos domésticos, a luta também é pelo seu reconhecimento como pessoas. A segunda, o new weird. O conto é estranho, os termos são propositadamente esquisitos e malexplicados, é proposital a busca de um ambiente em que pouco é óbvio, mas onde o principal, como a trama e o desenvolvimento de personagens salta aos olhos. A terceira… a trama. Apesar da estranheza proposital, em nenhum momento o leitor se perde nos acontecimentos ou nos desejos e intenções dos personagens, a trama é conduzida de forma tranquila e segura para onde o autor quer que ela chegue.
É uma aula de conto, de narrativa e de estilo – além da história ser bem interessante e envolvente.


Cidade Phantástica, de Romeu Martins
– Uma aventura steampunk no Rio de Janeiro imperial, onde alguns fatos políticos ocorreram de maneira diferente de nossa realidade, como a ausência da Guerra do Paraguai e uma abolição décadas antes da real, além da aparição de personagens ficcionais brasileiros, como o pai da Sinhá Moça, que faz uma participação especial, e certo vilão muito conhecido. Aqui acontece algo inverso ao primeiro conto do livro: o conto tem pegada, tem empatia… mas tem alguns probleminhas de desenvolvimento. A trama é um bocadinho confusa, como se três histórias estivessem fundidas em uma só e fossem contadas em conjunto, mas sem delineamento. Achei uma pena, porque faltou só uma acertadinha de pilares para termos aqui um conto muito bom.

Por Um Fio, de Flavio Medeiros – A configuração política mundial alterou-se graças à tecnologia do vapor e o Império Britânico acabou por ter uma configuração bem diferente daquele de nossa realidade – e a guerra entre as três superpotências deste mundo está em curso. Dois personagens clássicos de Júlio Verne, o Capitão Nemo e Nobur, o Conquistador. O que poderia tornar-se um mero conto de fetiche tecnológico se torna um texto tenso sobre a guerra, sobre as razões de guerrear e sobre a honra que se espera do adversário respeitado. É uma bela homenagem ao autor e aos seus personagens e uma experiência de leitura cheia de tensão e reflexão.

Enfim, são visões bem diferentes do steampunk, da ciência, da tecnologia e até mesmo de alguns personagens e figuras clássicas, usados mais de uma vez por autores diferentes ao longo da obra. Vale como leitura tanto pela introdução ao universo do vapor quanto pela variedade dos temas. Tire seu óculos de aviador do armário e desenferruje as engrenagens para curtir um pouco de agitação vitoriana!

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Até a próxima!

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AnaCrônicas – Ana Cristina Rodrigues

Como já disse no post anterior, é difícil escrever sobre a obra de uma pessoa próxima. Muito mais fácil quando o autor pertence a outro espaço e outro tempo – ou, mesmo ao ser brasileiro, não é alguém de sua convivência.

Conheço a Ana Cristina Rodrigues desde 2004 ou 2005. E, desde então, ela vem mostrando ao que veio. Não apenas com seus contos, mas também com a sua atitude: reclamar de uma realidade é muito fácil, mas e mudar essa realidade? Quem se arrisca? Ela é uma dessas pessoas.

Enquanto muitos choram pela pretensa falta de espaço do mercado editorial brasileiro, Ana Cristina tem iniciativas como a Fábrica dos Sonhos, que desde 2005 reune escritores do gênero especulativo para aprimorarem suas habilidades, a participação ativa na comunidade de ficção científica do Brasil, tanto já tendo sido presidente do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) quanto na presença em eventos e palestras Brasil afora. E, claro, a moderação atenciosa nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia no orkut que, querendo ou não, reunem grande parte do pessoal que está em voga no momento. Isso sem citar os projetos-solo, as participações em antologias, como a Paradigmas (e, é claro, a Espelhos Irreais, confiram aqui :P), publicações em sites como Hyperfan, em e-zines…

AnaCrônicas é seu primeiro livro-solo, onde estão reunidas uma série de contos curtos sobre temas fantásticos. Desde uma versão muito pessoal ao Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, em É Tarde!, conto que abre a coletânea, à revisão de personagens históricos em Os Olhos de Joana. Do maravilhoso conto de temática arturiana A Dama de Shalott (que, cabe aqui ressaltar, é meu conto preferido da antologia) à realidade pós-apocalíptica d’A Casa do Escudo Azul. De um doce e tocante conto sobre a perda, como O Caminho da Terra das Fadas à reflexão irônica sobre os fatos da vida de Deus Embaralha, o Destino Corta. Do pulsar sexual de Chiaroscuro às chamas de um amor impossível em Como Nos Tornamos Fogo.

São várias temáticas, vários estilos, vários pontos de vista – que ganham um toque especial com a pequena ilustração que os acompanha, cortesia de Estevão Ribeiro. E é um livro curtinho, que dá para ser saboreado em uma tarde chuvosa de maneira prazerosa. Como se tratam de contos curtos e de temática bem diferente entre si, o exercício de leitura é bem leve e quando menos se espera, o passeio por todas as temáticas propostas chegou ao fim.

O estilo da autora, mesmo que de formas diferentes, aparece claro em todos os contos: riqueza de temática, com a escolha de palavras adequadas para a transposição da temática proposta, sem a necessidade de muita enrolação para se alcançar o ponto desejado. As emoções também são apresentadas de maneira clara e são absorivdas com facilidade pelo leitor.

E, principalmente para mim, não seria demais dizer, é um ode à Fábrica dos Sonhos – a maioria dos contos foi visto pela primeira vez por lá. A sensação de ter estado junto durante a criação de uma obra que me chamou tanto a atenção, de acompanhar a evolução temática e de escrita de alguém in loco, é bem interessante -e, por que não dizer, recompensador.

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Comentários, no link acima!

Estou preparando os especiais de um ano e de natal do blog! He he he!!! Quase um ano de blog e está sendo uma experiência bem satisfatória!

Até a próxima!

Paradigmas 1 – Vários Autores

O que se produz hoje em matéria de ficção fantástica no Brasil? Nós, brasileiros, deixamos a desejar comparados com autores de outras nacionalidades?

Com o objetivo de responder a primeira pergunta, em um manifesto de “estamos aqui, produzindo, e não devemos nada para ninguém”, a Editora Tarja lançou a coleção Paradigmas: por que não mostrar que nós estamos aqui, produzindo e criando?

E, também, por que não podemos quebrar paradigmas antigos – e até mesmo criar novos?

Foram escolhidos então, para o primeiro volume, treze contos de treze escritores de estilos e temáticas diferentes. Confiram então as críticas individualizadas a cada um dos contos:

MAI-NI Expressas, de Richard Diegues: O cotidiano de um universo cyberpunk. Não sei se é porque cyberpunk está longe de ser um dos meus estilos preferidos de leitura, ou se é porque o conto lembra o universo de Nevasca, livro que também não está na minha lista dos mais apreciados, mas não gostei. O conto, apesar de muito bem elaborado e desenvolvido, não me conquistou.

Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração, de Jacques Barcia: um conto com um acentuado toque de curry, tempero assim não tão comum na ficção pátria. O leitor já é mergulhado de início, e sem anestesia, em um universo mitológico em profunda agitação. Finda a tontura inicial subsequente, é hora de apreciar a história concisa, mas com todas as informações necessárias. Confesso que me ganhou pela esquisitice.

Um Forte Desejo, de M. D. Amado: um conto com acentuado toque de sensualidade. Agora, um passeio pelo terror, narrado pela perspectiva de uma mulher. Não traz uma temática inovadora, mas a execução do conto é bastante eficiente, apesar de que desde o primeiro parágrafo as pistas do que está para acontecer já são dadas para o leitor.

O Mendigo e o Dragão, de Bruno Cobbi: A ideia do conto é muito boa (fantasia urbana sempre é algo bom de se ver), mas a execução deixou a desejar. Várias ideias ficaram soltas, descoladas, sem maior desenvolvimento ou cuidado. A divisão de partes também ficou um pouco confusa, quem afinal fez o quê.

Una, de Roberta Nunes: Mais do que sobre erotismo, é um conto sobre a busca do prazer. Estranhei um pouco essa narrativa ser feita como conto infantil – no começo, a linguagem de “causo” até se mantém, mas vai se perdendo com o seu desenrolar. O mesmo acontece com a trama do conto: a primeira parte é bem-amarrada, a segunda não. É como duas ideias diferentes fundidas, sendo a primeira melhor executada do que a segunda.

Fogos de Artifício, de Eric Novello: É um conto com uma temática incrivelmente incomum: fantasia urbana. Magos e outras criaturas sobrenaturais que convivem em nossa realidade… Gostei BASTANTE da abordagem desse conto: um mago, uma investigação e alguns personagens em uma versão um pouco dark, tudo isso em uma narrativa super tranquila de ser lida. Está aí um belo conto-paradigma!

Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes: Aqui, uma história de melancolia, muito mais do que de aventura. Dá para ver que a inspiração partiu de vários mitos para a criação de seu próprio – do começo, antes de perceber qual era o personagem em questão, pensei em vários, em especial em Odisseu e suas aventuras. A perspectiva do monstro sempre é um ponto interessantíssimo se bem-explorado, mesmo que nesse conto ele seja visto pelos olhos de outro personagem. E, como eu já disse, uma melancolia onipresente em toda a narrativa. Belíssimo.

Sinfonia para Narciso, de Cristina Laisatis: Um conto que não pertence ao gênero fantástico, cuja proposta é a narrativa de um Narciso contemporâneo. Muito interessante a sacada de que não é apenas a visão que pode conquistar alguém. Também interessante notar a construção caprichada do texto, com direito a brincadeiras linguísticas de levar sorrisos aos lábios.

A Lenda do Homem de Palha, de Leonardo Pezzella Vieira: Novamente, um conto que flerta o terror – e seriam crianças criaturas incapazes de atos de crueldade? Interessante a construção e a narrativa em primeira pessoa, bem como a temática que foge do lugar-comum fantástico. O único porém foi ter me lembrado de meu trauma de infância, o filme A Colheita Maldita… 😛

A Teoria na Prática, de Romeu Martins: Um conto que não é fantástico mas que versa sobre um tema que mora ao lado: a teoria da conspiração (às vezes ela é mais fantástica do que uma horda de orcs de vestidos de oncinha dançando a macarena, afinal). Doses maciças de ironia e humor negro em uma trama bem-construída. Fiquei curiosa por mais contos no mesmo universo e temática. 😀

O Combate, de Maria Helena Bandeira: O tema é bastante interessante e original – e dá uma interessante sensação de “não-localização” até o fim do conto, uma “pegadinha” muito bem-sacada e resolvida pela autora. A construção, em pequenos pedaços de textos, como pequenas cenas vistas em flashes, também torna tudo muito interessante. Gostaria de ver esse universo proposto expandido…

O Templo do Amor, de Ana Cristina Rodrigues: É um conto com três faces: ritmo musical, universo até bastante interessante e alegoria. Não é muito difícil de associar a música inspiradora às sensações e descrições trazidas pelo conto: às vezes o amor precisa morrer. Construção e ritmo impecáveis, mas o finalzinho ficou um pouco confuso, talvez merecesse uma reescritura.

Madalena, de Osíris Reis: Está aí uma temática bastante ousada. O autor foi bastante feliz em escolher tanto uma lenda nacional, quanto um período histórico muito rico e pouco explorado, quanto a temática – está aí um tema pesado, mas tratado de maneira adequada. Um conto bastante visual, com descrições precisas e detalhadas do ambiente ao seu redor. Só peca, novamente, pelo desfecho: o “turning point” da personagem-título é súbito demais, quase se faltasse alguma cena que o tornasse mais coeso com o resto.

Enfim, uma boa seleção de contos de bons autores. Um bom mostruário de que muita coisa boa está sendo produzida aqui e agora!

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O link dos comentários está acima, deixe o seu lá!

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Gostaria de ver algum livro aqui? Então deixe sua sugestão em “o que você gostaria de ver aqui?”, acima.

A Leitura Acessível – Literatura On-line

Perdoem a falta de atualizações: meu tempo anda um pouco escasso e tenho três livros pendentes de término para lhes oferecer as resenhas – mas podem esperar que estou com muita coisa boa aqui na minha estante só esperando para ser lida 😀

Retomando o assunto da leitura acessível, desta vez com uma indagação pertinente: com a internet, o reinado dos livros de papel está por um fio? A tecnologia on-line vai suplantar as prensas e prelos? Uma das barreiras em relação à leitura on-line é o desconforto em se ler no monitor – cansativo, desagradável, você não pode colocar debaixo do braço e levar para todos os cantos, há a dependência da eletricidade.

Mas, pensando na praticidade de como seria um gadget que tornasse a leitura pelo computador agradável, recentemente a Amazon lançou o Kindle – leve, com interface agradável e memória que permite um grande armazenamento, além do baixo consumo de energia. Ainda não é o mesmo que o livro de papel, mas já é um grande avanço tecnológico.

O livro de papel irá morrer? Não vejo isso acontecendo no curto prazo. Mas o que está com dias contados, e a internet tem um papel fundamental nisso, são os periódicos em papel. Jornais? Com a informação se atualizando on-line a cada segundo, como fica o papel (com trocadilho) do jornal diário? Revistas semanais? Idem. Vejam também o papel das redes de relacionamento na comunicação – a recente crise política no Irã e as manifestações da oposição através do twitter, avisando ao mundo de uma situação que não tinha meios de ser divulgada pela imprensa oficial, está aí para demonstrar isso.

Também um caso a se registrar é o destino da indústria fonográfica após a internet e o compartilhamento de mp3. Quem, hoje, compra CDs com a avidez de outrora? E quando a divulgação de um músico foi tão barata e eficiente como é hoje? O mesmo raciocínio vale para a literatura e sua divulgação: a internet está aí, a primeira tecnologia de leitura agradável também está aí. A porta está aberta, a questão é se adaptar e fazer o melhor uso possível da tecnologia e de tudo aquilo que ela traz ao nosso favor.

Mas o papo sobre a leitura on-line ainda rende bastante… Os parágrafos acima são apenas parte de ideias que precisam ser melhor explanadas e às quais voltarei futuramente. Hoje o foco, como estamos tratando da série “leitura acessível”, é sobre literatura online.

Como assim?

A internet simplesmente torna qualquer um – e qualquer conteúdo – acessível a qualquer um. Basta conectar seu computador e uma miríade de sites de todo o mundo está a alguns toques no teclado de distância. Assim sendo, é muito fácil para um autor colocar seus textos on-line e divulgá-los a todos os leitores em potencial.

Então, dá-lhe blogs de contos (até mesmo o meu – não tão ativo, mas serve como registro), sites de autores que disponibilizam sua obra a quem estiver disposto a ler, antologias online…

Claro, um ponto deve ser comentado: apesar de alguns sites realizarem uma seleção criteriosa de quem fará parte de seu acervo, esta prática não é comum a todos. Então, há vários textos online que possuem problemas graves de estrutura, gramática, temática… Só que há vários que valem a pena ser lidos e conhecidos, de autores em processo de aprendizado e evolução, além daqueles já mais experientes, mas não tão conhecidos, que oferecem textos maravilhosos em seus blogs.

Sobre os blogs autorais, minha indicação é… nenhum! Mas há um motivo: conheço tantos autores blogueiros que tenho medo de esquecer algum deles na hora das citações, então é melhor que vocês surfem pelos links aqui do lado, os links desses blogs e assim por diante!

Dos sites coletivos, indicarei três: Fábrica dos Sonhos, Recanto das Letras e Estronho.

Boa diversão e até a próxima!

Espelhos Irreais – Vários

Capa do Espelhos Irreais

Capa do Espelhos Irreais

Espelhos Irreais é um livro sobre cinco diferentes visões da realeza fantástica, em contos de cinco autores: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues, Daniel Abreu e Roderico Reis. Há a visão da realeza em uma fábula, no tênue limite entre o real e a imaginação, na alta fantasia clássica, na ficção científica… São abordagens diferentes, histórias diferentes entre si, autores diferentes, narrativas diferentes. Como uma degustação literária de estilos e autores.

É também a primeira publicação de papel da Fábrica dos Sonhos, organização que há quatro anos reune autores, escritas e projetos. Uma estreia, uma forma de demonstrar o que andamos fazendo neste tempo todo e também nos apresentar, como autores e como grupo.

Declaro-me suspeita para fazer uma resenha. 🙂 Mas podem ficar com a feita pelo Eric Novello e pelo Fernando Trevisan. 🙂

Fome – Tibor Moricz

É o costume, tanto na comunidade Escritores de Fantasia quanto na Ficção Científica, que aquele que publique um livro, caso deseje fazer propaganda deste, deve disponibilizar um exemplar para sorteio entre os demais membros.

Em novembro do ano passado, ocorreu o lançamento do livro de Tibor Moricz (que, apesar do nome, é um autor brasileiro). Como a premissa me interessou, resolvi arriscar minha sorte no sorteio – e qual não foi a surpresa ao ser escolhida?

Fome não é o livro de estreia de seu autor, tampouco um romance. É um conjunto de contos, interligados entre si mas não co-dependentes, que se passam em um futuro pós-apocalíptico, onde por alguma razão a comida do mundo acabou e os poucos sobreviventes precisam se virar como podem. É um livro sobre o mais básico dos instintos: a sobrevivência. Também o é sobre a mais básica das necessidades: a alimentação.

Então, veremos que o homem é o lobo do homem – em todos os sentidos. O livro traz contos que partem para o choque, para a agressão, para o repugnante.

Só que aqui entra a minha opinião: como existem apenas o instinto, a selvageria e a loucura, como qualquer resquício de sociedade se perdeu e sobraram apenas indivíduos solitários e famintos, não consigo enxergá-los como seres humanos. São, isso sim, bichos dispostos a sobreviverem. E para bichos em franca luta pelo pão de cada dia, o que são tabus ou choques?

É diferente da situação de um maníaco que gosta de comer criancinhas (nos dois sentidos de “comer”). Neste caso, onde existe uma sociedade e consequentes regras de convivência e do que é socialmente tolerável ou não, é uma atitude monstruosa e execrável. Outro exemplo, o caso do Milagre dos Andes, onde os sobreviventes precisaram comer os amigos mortos para sobreviver. É o desespero de uma situação traumática e extrema, uma luta pela sobrevivência e para voltar à sociedade dos comuns.

Agora, quando já não existe sociedade e humanidade, que diferença faz? É chocante jogar dois vermes famintos numa bacia e ficar esperando até que um devore o outro? É cruel, mas não envolve nenhum tabu ou sentimento. Ou, mais próximo da realidade do livro, algum zumbi canibal. Gera empatia? Pois então.

Sobre os contos, percebe-se que o autor tem um excelente domínio da narrativa. Os dois primeiros são os mais fortes, onde o autor coloca as cartas na mesa e demonstra o que virá a partir dali. Só que o desenrolar dos contos começa a se tornar repetitivo: são as histórias de diferentes sobreviventes, mas que partem do mesmo lugar e chegam a conclusões semelhantes. Começa a se tornar mais do mesmo.

Outro ponto negativo foi o choque pelo choque. Um dos contos específico, chamado O Observador, me soou especialmente repugnante. Praticamente um round house kick no estômago.

Um terceiro ponto negativo – não do autor, mas da editora – é que o livro se desfez durante a leitura. Mal, muito mal.

Um ponto que acho interessante em um livro de contos fechados é que a leitura pode ser fracionada. Um conto hoje, outro amanhã, até mesmo intercalados com outro livro.

Outro ponto interessante é a do autor aventurar-se em um tema assumidamente polêmico, com o poder de gerar as mais díspares reações. Precisamos disso, de pessoas que se arrisquem a escrever, de pessoas que matem a fome de leitura com novidades.

Site da Fábrica dos Sonhos está no ar

O site da Fábrica dos Sonhos está finalmente no ar! Cliquem AQUI e confiram!

A Fábrica dos Sonhos é um grupo de escritores dedicados a… fazer o que escritores fazem. Desenvolver textos, projetos coletivos, aprimorar a escrita. E, claro, mostrar nosso trabalho ao público.

Está aí também o e-book O Melhor do Desafio Operário, que reune textos dos participantes elaborados nos últimos cinco anos.

Entrem e não deixem de conferir!