O Amor de Uma Boa Mulher – Alice Munro

amor-boa-mulherEntão chegamos ao prêmio literário de maior prestígio do mundo, o Nobel. O franco favorito a ser contemplado em 2013, o nigeriano Chinua Achebe, faleceu no começo do ano – e como não há premiação póstuma, deixou seu posto em aberto (só para comentar, já li um dos livros do autor, chamado A Flecha de Deus – que, de certa forma, se assemelha ao livro de hoje, naquilo que traz o recorte do cotidiano de uma família e comunidade numa Nigéria que passa por um imenso choque cultural). Assim sendo, não havia favoritos ou nomes certos e uma grande indagação no ar: quem será o contemplado?

A grande torcida das bolsas de apostas (e também deste blog) era pelo japonês Haruki Murakami, mas a decepção foi generalizada no dia do anúncio do prêmio, que contemplou a canadense Alice Munro. A obra da autora, contista (num mundo de romancistas, um raro dom), intimamente ligada ao cotidiano e vida das mulheres canadenses nas décadas centrais do século XX. Claro que fiquei insatisfeita porque meu candidato preferido não havia ganhado, mas a temática da autora me despertou alguma curiosidade, além de que, querendo ou não, havendo justiça ou não, o Nobel é a maior chancela que um autor pode ter por sua obra.

Leia mais deste post

II Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira

hydra_2ediçãoAnunciada a segunda edição do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira

01 de julho de 2013

 

A revista norte-americana Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show (IGMS) e os websites brasileiros A Bandeira do Elefante e da Arara e Universo Insônia se uniram mais uma vez para levar o melhor da ficção especulativa brasileira para os leitores de língua inglesa do mundo inteiro, através da segunda edição do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira.

Um painel de juízes brasileiros selecionará três finalistas entre os contos de literatura fantástica publicados no Brasil em 2011 e 2012. Orson Scott Card, um dos autores mais vendidos do mundo da ficção especulativa e Edmund R. Schubert, editor da IGMS, vão escolher o vencedor entre os finalistas. Os três finalistas terão seus contos traduzidos para o inglês e o vencedor receberá publicação remunerada na revista Intergalactic Medicine Show.

O autor Orson Scott Card é novamente destaque no Brasil, pois a Devir acaba de lançar no país o quarto volume da premiada saga de Ender, Os Filhos da Mente. O primeiro livro da série, O Jogo do Exterminador (Ender’s Game) está sendo adaptado para o cinema e o filme será lançado este ano com participação de Harrison Ford e Ben Kingsley. Card comenta: “Desde a época em que vivi no Brasil no começo dos anos 70, a nação e o povo brasileiro têm sido importantes para mim. Continuo seguindo o panorama de ficção científica brasileira, e tenho orgulho que a IGMS facilitará a apresentação de alguns destes escritores aos leitores americanos. Até agora, leitores americanos têm pouca ideia da quantidade de bons trabalhos que estão sendo feitos no nosso gênero no Brasil.”

Esta segunda edição será organizada pelo publicitário e agitador cultural Tiago Castro, coorganizador do Fantasticon, maior evento do gênero no país e editor do site Universo Insônia. Tiago escreve: “Foi um grande prazer participar da primeira edição do concurso, uma iniciativa tão interessante para ficção especulativa brasileira. O trabalho foi intenso, principalmente pela qualidade dos contos recebidos, mas no final o resultado foi bastante recompensador. Estou feliz e ansioso com a oportunidade de organizar esta segunda edição.”

A primeira edição do concurso foi realizada em 2011. Os dois primeiros colocados, Brontops Baruq e Flávio Medeiros, tiveram seus contos publicados em inglês na revista IGMS, recebendo remuneração pela publicação e destaque na imprensa internacional. Brontops Baruq, vencedor da primeira edição, relata: “O Concurso Hydra foi uma injeção de autoconfiança e me inspirou a continuar escrevendo. Fico feliz de saber deste novo concurso e espero que ele continue abrindo portas e caminhos, além de levar mais da literatura fantástica brasileira a novos hemisférios”.

Os três contos finalistas serão traduzidos para o inglês por Christopher Kastensmidt, autor finalista do Prêmio Nebula, professor da UniRitter e fundador do Concurso Hydra. Christopher acrescenta: “Foi uma honra trabalhar com Orson Scott Card e IGMS durante o primeiro Concurso Hydra, e estou muito feliz que eles estão apoiando esta iniciativa mais uma vez. É muito difícil o autor brasileiro ser publicado no exterior, e as publicações resultantes da primeira edição tiveram um enorme impacto sobre as carreiras dos finalistas. Também, a parceira deu uma visibilidade internacional inédita à comunidade de ficção especulativa brasileira.”

Edmund R. Schubert, editor da IGMs diz: “Eu acho que explorar pontos de vista e atitudes interculturais não é apenas saudável, mas absolutamente necessário, em um mundo cada vez mais interligado, onde a ficção científica e a fantasia são a voz de quem é “estranho”, “alienígena”, literalmente e metaforicamente. É a voz que explora diferenças que nos tornam iguais. Na edição inaugural do concurso Hydra, ao invés de publicar apenas o vencedor (como foi originalmente planejado), IGMS publicou dois dos finalistas, e foi muito gratificante ver como o concurso foi bem recebido no Brasil, assim como ver as histórias premiadas  bem recebidas nos Estados Unidos. Mal posso esperar para ver o que o segundo concurso Hydra nos trará”.

O nome do Concurso Hydra vem da constelação.  Esta constelação com nome de um monstro mítico atravessa a equador celestial, unindo os hemisférios celestiais norte e sul, da mesma maneira que o Concurso Hydra espera juntar os hemisférios norte e sul de ficção especulativa. A constelação Hydra também aparece na bandeira brasileira.

As inscrições serão abertas de 15 de julho a 31 de agosto, e todos os autores brasileiros com contos que se encaixam no gênero de literatura fantástica e que foram publicados pela primeira vez nos anos de 2011 e 2012 podem participar. O regulamento em português está disponível no site Universo Insônia (universoinsonia.com.br). Não existe taxa de inscrição e o vencedor receberá tradução do conto para inglês e contrato de publicação na IGMS, com pagamento padrão da revista.

 

Sobre Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show

Fundada em 2005 pelo multipremiado escritor Orson Scott Card, e editada desde 2006 por Edmund R. Schubert, IGMS é uma revista online bimensal premiada que publica contos ilustrados de ficção científica e fantasia, histórias, entrevistas, resenhas e muito mais.  Autores vão de profissionais conhecidos como Peter Beagle e David Farland até autores fazendo sua estreia profissional. O site da revista é www.intergalacticmedicineshow.com.

 

Sobre The Elephant and Macaw Banner

A Bandeira do Elefante e da Arara (The Elephant and Macaw Banner) é uma série internacionalmente premiada de fantasia situada no Brasil do século XVI. As histórias contam as aventuras de Gerard van Oost e Oludara, uma dupla improvável de heróis que se encontram em Salvador.  Notícias, arte e informações sobre as referências culturais e históricas podem ser encontrados no site www.ABandeira.org.

 

Sobre o Universo Insônia

O site Universo Insônia publica artigos, notícias e opiniões sobre literatura fantástica, cinema, quadrinhos, séries de TV, jogos analógicos e digitais, desenhos animados e cultura pop fantástica em geral. O principal objetivo do site é divulgar e apoiar os profissionais da área da cultura fantástica brasileira, mas também traz conteúdo sobre as diversas produções internacionais. www.universoinsonia.com.br

Tiago Castro

Organizador

contato@tiagocastro.com.br

***

Confira também o REGULAMENTO do concurso!

***

Acho que, para quem é autor de contos, publicado e quer participar de uma coisa muito legal, deveria pensar em mandar os textos para apreciação! Quem sabe não recebem por aí uma surpresa boa? 😉

Até a próxima!

 

A Sombra no Sol – Eric Novello

A resenha deste livro tem de começar por alguns dados objetivos bem interessantes: ele faz parte de um projeto multimídia bem interessante, no qual o e-book foi lançado antes do livro de papel e cuja pré-venda dava direito ao e-book exclusivo Dias Nublados (não, não tenho, chuif! Tenho de editar a resenha depois…). Infelizmente, não tenho e-reader e além de tudo detesto ler no computador (hábito que pelo visto precisarei rever nos próximos anos), então só pude ler a edição de papel lançada algum tempo depois. Mas vale a iniciativa, até porque, como disse, o meio eletrônico cada dia mais deixa de ser promessa e vira realidade, que deve envolver todos os sujeitos do processo de leitura: o autor, o editor, a editora, o leitor. Esses primeiros experimentos mostram o novo caminho a ser seguido – e é bom que se repliquem cada vez mais, até para teimosos tradicionalistas como eu se dobrem às novidades 😦

O autor, Eric Novello, velho conhecido aqui do blog (e sou fã mesmo!), parecia a pessoa ideal para encampar o projeto: além da qualidade de seu texto, é alguém que gosta de testar aquilo que a tecnologia, multimídia e transmídia tem de especial para oferecer à experiência de leitura. Também bem legal a editora Draco levar o projeto adiante, um salto para frente bem legal.

Leia mais deste post

Sagas 3: Martelo das Bruxas – Vários Autores

Já fazia tempo que queria conferir o trabalho da editora gaúcha Argonautas (é tão legal ver a variedade crescente de temas, locais e pessoas que a literatura fantástica nacional proporciona!). Eles possuem um projeto interessante chamado Sagas, que são antologias temáticas com uma pegada mais pulp (como a capa sugere) de bons autores convidados e tamanho reduzido, o que influencia diretamente em seu preço. Até agora foram lançados dois volumes, mas o terceiro e mais recente me chamou a atenção pela temática: como o título já sugere de imediato, trata-se de uma versão fantástica da inquisição.

Como você, meu bem-informado leitor, bem sabe, a perseguição à bruxaria (não necessariamente sob a Inquisição) está muito relacionada a uma religião, agora dominante, que desejava destruir os últimos vestígios de paganismo havidos na Europa medieval e que aliou-se a uma perseguição ao feminino e suas artes (como o ciclo dos nascimentos, tradicionalmente “assunto das mulheres”, e a cura pelas ervas). Foi uma época especialmente difícil para ser mulher (como se houvesse época fácil, mas essa se destaca), principalmente porque qualquer uma poderia ser acusada de bruxaria por qualquer motivo e os processos eram bastante precários – para quem se interessa em saber a injustiça destes julgamentos ajudou a prática jurídica a evoluir, mas enfim.

Leia mais deste post

Resultado Concurso Hydra

Para quem achava que 2011 já tinha acabado, por que não uma boa notícia ainda esse ano?

Concurso Hydra anuncia os três finalistas

É com muito prazer que anunciamos os três contos finalistas do Concurso Hydra:

·  “(História com desenho e diálogo)” por Brontops Baruq, publicado na revista Portal Fundação do Projeto Portal
·  “Eu, a Sogra” por Giulia Moon, publicado na antologia Imaginários, vol. 1 da Editora Draco
·  “Por um Fio” de Flávio Medeiros Junior, publicado na antologia Steampunk da Tarja Editorial

Ana Carolina Silveira, juíza do concurso escreve: “’Por Um Fio’ é uma mistura de estilos e temáticas: steampunk, ficção alternativa e história alternativa. É a história de uma batalha naval cujos participantes são velhos conhecidos dos amantes de livros, no meio de uma guerra mundial vitoriana. O clima de aventura e perseguição está presente do início ao fim, culminando em um final surpreendente e eletrizante”.

“No conto ‘(História com desenho e diálogo)’, o autor conseguiu criar uma história simples, porém, muito bem elaborada, ao intercalar a narrativa com descrições dos desenhos, ilustrando a já fluente imaginação do leitor”, comenta Tiago Castro. “O conto foi um dos meus preferidos, tanto pela construção da história, quanto pelo formato apresentado.”

“‘Eu, a Sogra’ é excepcional,” diz Christopher Kastensmidt. “O texto é ‘afiado’, e capta a atenção do leitor da primeira até a última página com seu ritmo rápido e seus personagens bem-desenvolvidos. O conto utiliza o sobrenatural para examinar problemas cotidianos, e de forma muito bem-humorada. Eu ri várias vezes lendo este conto maravilhoso.”

Mais de cem contos foram inscritos, todos previamente publicados.  Publicações anteriores incluíram antologias impressas, revistas impressas, revistas eletrônicas, coletâneas impressas, blogs coletivos, blogs pessoais, fóruns abertos e outros websites.  Alguns contos foram publicados pela participação anterior em concursos públicos e privados.  Quase metade dos contos veio de antologias impressas e as editoras com mais contos submetidos pelos autores foram a Tarja Editorial e a Editora Draco, sendo que as duas tiveram publicações entre os finalistas.

Mesmo com tantos contos inscritos, os juízes conseguiram chegar a um consenso sobre os três melhores.
O vencedor do concurso, a ser anunciado em breve, será escolhido dentre os três finalistas pelo autor premiado Orson Scott Card.  Este conto receberá tradução para o inglês e publicação paga na revista Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show.

O Concurso Hydra é organizado em uma parceira entre A Bandeira do Elefante e da Arara e Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show, com participação especial dos sites Leitura Escrita e Universo Insônia.

Parabéns a todos os participantes! 🙂

Quando o conto escolhido para ser publicado for divulgado, voltaremos com mais notícias 🙂

 

Adorável Noite – Adriano Siqueira

Vamos começar hoje pelo óbvio: ao contrário do que a ultraexposição pode fazer crer, os vampiros não começaram com Crepúsculo. Pelo contrário: os vampiros são criaturas sobrenaturais que permeiam nosso imaginário de forma perene, algumas vezes em alta e outras em baixa, em todas as mídias, e possuem inclusive fãs fiéis e apaixonados.

Um desses fãs é Adriano Siqueira, que há décadas coleciona histórias, revistas, livros, filmes e todos os tipos de objetos relacionados a nossos morcegos prediletos. Inclusive, quando a internet brasileira começou a caminhar, fundou o site Adorável Noite, a maior referência vampírica brasileira, com novidades, informações e muitos contos.

Leia mais deste post

Meu Amor É Um Anjo – Várias Autoras

Meu Amor É Um Anjo é o segundo livro da série Amores Proibidos, da Editora Draco, cujo primeiro volume foi o Meu Amor É Um Vampiro (do qual esta que vos fala participou e por isso não pôde resenhar =P Mas tem um monte de resenhas aqui). A proposta da série é reunir textos de autoras, para um público mais adolescente, e que tratem do encontro sobrenatural entre humanos e a criatura da vez.

Aqui entra o primeiro desafio deste volume: ao contrário do mito do vampiro, que permite inúmeras variações, dos conflitos do amante imortal que jamais envelhecerá, passando pelo bon vivant que desperta a luxúria humana e chegando ao completo monstro, há mil histórias que podem ser contadas. Como diversificar as histórias sobre anjos, então, trazer coisas diferentes em textos de nove autoras?

(e, curiosamente, nenhuma das autoras do livro utilizou-se do mito bíblico do relacionamento entre anjos e humanas, aquela parte do Gênesis que diz mais ou menos que os anjos vieram à terra, se apaixonaram pelas filhas dos homens e fizeram uma raça de nephilins antes de serem punidos por isso).

Leia mais deste post

Extraneus volume 1 – Medieval Sci-Fi – Vários

O site Estronho e Esquésito é um dos pioneiros no Brasil no que diz respeito à divulgação de contos de autores amadores, em especial em histórias de terror. A divulgação online e gratuita é um senhor caminho para quem está dando os primeiros passos na escrita e desde a fundação do site inúmeros autores já publicaram por lá. Comemorando os 15 anos (pois é!) de site, a Estronho está dando um passo além: partindo para a publicação física de coletâneas e romances.

Uma destas primeiras coletâneas, lançada em parceria com a Editora Literata, é a Extraneus vol. 1 (primeiro de uma série de três coletâneas temáticas) que, apesar de não tratar de terror, propõe uma temática bem desafiadora: ficção científica em cenário medieval. Como compatibilizar ambos os conceitos, que à primeira vista parecem incompatíveis? Este foi o desafio lançado nesta coletânea, composta tanto por autores já conhecidos do gênero quanto de novatos que estão aqui para mostrar muito bem que há muita gente boa a caminho.

Uma coisa bem legal da coletânea é o tamanho dos contos. São curtinhos, para serem lidos de uma só vez, do tamanho ideal para quem, como eu, anda com um livro na bolsa para ler enquanto enfrentando o trânsito nosso de cada dia. É um livro de ônibus perfeito, com bocadinhos ideais para serem saboreados entre as paradas.

Como em toda coletânea, há altos e baixos, e os pontos altíssimos são sem dúvida os contos Dez Lampejos do Muçulmano de Ferro, de Cirilo Lemos – que abre a coletânea em grandíssimo estilo com uma cruzada ligeiramente mais tecnológica; Punição, de Simone O. Marques, que conseguiu me surpreender pela construção caprichadíssima em um estilo de conto que não é meu predileto, mas que me cativou até o fim; e Mensagem a Pedro, o Eremita, de Davi M. Gonzales, que consegue dar um ar bem genuíno a uma temática até comum.

Não que o livro também não traga surpresas como um conto que flerta abertamente com o new weird, homenagens aos cenários clássicos de fantasia medieval, como Shadowrun, lendas medievais como a de Robin Hood revisitadas…

Só houve uma coisa que me incomodou nos contos: a temática acabou por ficar repetitiva. Dá para dividir facilmente os contos entre aqueles que tratam de viagens dimensional-temporais, invasões alienígenas e realidade virtual. Na minha opinião, dava para os autores terem extrapolado mais a temática, como os exemplos acima demonstraram, e me pergunto se o problema não é de um certo engessamento que o conceito de ficção científica anda ganhando nos últimos tempos. Dava para ter ousado mais, na minha opinião.

Mas ainda assim é uma obra bem interessante em estilos e narrativas, e um preview bem legalde novos autores que certamente estão aparecendo e causando por aí 🙂

(e, P.S., “medieval sci-fi” pra mim é e sempre será Phantasy Star. E tenho dito!)

***

Até a próxima!

Eclipse ao Pôr do Sol – Antonio Luiz M. C. Costa

Livros de contos de um só autor podem ter efeito duplo: a amostra de temática e de estilo pode ser enfadonha ou instigante. A publicação de estreia na ficção do articulista Antonio Luiz M. C. Costa cai no segundo grupo – estava planejando ler um conto por dia, mas foi impossível largar o livro antes de ler tudo.

Existe uma certa identidade temática nos contos escolhidos para comporem o livro: o sobrenatural e o mágico em terras tão distantes e tão próximas, no espaço e no tempo. Temos amostras da lírica do amor, de investigações mágicas, de reflexões…

Bom, vamos a uma análise rapidinha dos contos:

O conto de abertura, A Nascente da Serra, é o melhor da coletânea. Não sei qual seria a melhor palavra para descrevê-lo. Lírico? Agridoce? Ambos? A escrita, uma emulação do português clássico, trouxe uma dose maior de poesia para o conto. A identidade do protagonista ficou óbvia para mim logo no comecinho e me colocou um sorriso no rosto. Sua musa tem uma face diferente a cada época da humanidade e cultura: princesa sacrificada, ninfa, santinha… É uma história sobre um amor singelo e puro, mas que não é eterno (algum amor é?) e nem será o único na vida dos protagonistas. O final, com easter egg para quem gosta de literatura clássica, também me provocou um risinho. Caso eu fosse professora do Ensino Médio, levaria o conto para ser lido por meus alunos em alguma atividade complementar. O livro tem outros bons contos, mas já vale a pena ser adquirido só por conter essa preciosidade.

O segundo conto, O Anhangá, é uma ficção alternativa (ou seja, reune personagens preexistentes) sobre a solução de um mistério na Santos do século XIX. Demorei a estabelecer empatia com os personagens e com a trama, o que só aconteceu quando começou o thriller – e foi impossível parar de ler até a solução final. É o duelo entre o ceticismo e o sobrenatural (e a vitória e explicação são bem coerentes com a ciência positivista da época). Não gostei do final, achei que faltou um pouco do sal e pimenta que temperaram todo o conto, mas no balanço geral é uma boa leitura.

Não gostei de Louco Por Um Feitiço, o próximo conto. Sei de onde saíram os personagens e as situações, por ser um spin-off de um projeto anterior do autor. Achei o conto bem construído, bem narrado, tem um background interessante (um dos machos-beta da comunidade que se ressente do macho-alfa, digamos assim), mas achei que partiu do nada e chegou a lugar nenhum. Sei lá. Ficou parecendo mais uma desculpa para uma cena de sexo interespécie e menos uma história a ser contada (e não tenho pudores literários para cenas calientes, até as narradas nos mínimos detalhes – e isso o autor faz sem cair no ridículo, mas achei que faltou… história).

O quarto conto, Papai Noel Volta Para Casa, traz as reflexões do bom-velhinho, que não gosta de seu serviço mas depende dele para tirar uns trocados, pois já não possui as glórias do passado. Uma reflexão sobre o balanço de poder da humanidade através dos tempos, e também sobre como quem algum dia foi rei jamais perde a majestade. A composição deste conto é bem diferente da dos demais, mas é imperdível, com um desfecho que não surpreende mas é bem conduzido.

O Cio da Terra é uma espécie de continuação do primeiro conto, A Nascente da Serra, onde um jovem do século XXI encontra a musa do primeiro conto e se apaixona perdidamente. E, como todo louco de amor, sua razão e bom-senso sucumbem ao reino das emoções e sentidos. O ponto alto do conto é a caracterização da linguagem, que ficou bem interessante – e apesar do atrevimento linguístico, em nenhum momento o conto perde a fluência. Quanto ao final, tenho sentimentos dúbios. Gostei, mas não gostei (apesar de que quem viu o mundo mágico não pode mesmo querer voltar para o mundo real). Fica para o leitor decidir 🙂

Agora vamos ao último conto, o que nomeia a coletânea, Eclipse ao Pôr do Sol. Também foi um conto que demorei a criar empatia, só aconteceu depois da passagem do oráculo – antes disso, me pareceu mais um desafio do tipo “quantas deidades gregas consigo colocar dentro de contexto”. Mas após o oráculo e quando a investigação começou, o texto fluiu que foi uma beleza. O subtexto é algo como a ciência, e não a superstição, é capaz de levar o homem à liberdade e felicidade, e da superação de um pensamento místico com o desenvolvimento da ciência (e meus problemas aqui são mais ideológicos, por não concordar muito com o ponto, do que em estilo e desenvolvimento em si). É um conto rico em referências e fiquei feliz por pegar pelo menos grande parte delas, o que torna a trama e a mensagem mais claros.

Enfim, são sabores diferentes que levam a um denominador comum. Vale a leitura, os contos são bem fluentes e interessantes. E se você conhece o trabalho do Antonio Luiz como crítico, então fica mais interessante ainda acompanhá-lo agora do lado oposto.

Dados técnicos:

Eclipse ao pôr do sol e outros contos fantásticos
Antonio Luiz M. C. Costa
ISBN: 978-85-62942-05-1

Gênero: Literatura fantástica
Páginas: 128
Preço de capa: R$ 27,90

Compre em: (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!

Neon Azul – Eric Novello

A Literatura é uma coisa só, colocando debaixo de seu guarda-chuva todos os gêneros, sem preconceito por este ou aquele. Alguns dos clássicos universais são fantásticos, outros são thrillers, outros romances psicológicos, outras narrativas simples daquilo denominado como “mainstream”.

Mainstream, nesse contexto, significa mais ou menos a linha mestra principal, geral e genérica de uma manifestação artística. É o romance que não pertence a um gênero e o que se costuma definir erroneamente como toda a literatura.

Quando se está perto do gênero, parece que existe a dicotomia entre ele e o mainstream (para ficar em minhas preferências pessoas, literatura fantástica), que são ideias imiscíveis como água e óleo, como polos iguais de um ímã que se repelem. Só que essa dicotomia não existe: mainstream e gênero se complementam, se tocam, se influenciam.

Não é apenas a boate que dá titulo ao romance Neon Azul que está no limiar entre o mundo real e o sonho: o livro também está entre o mainstream e a fantasia. É o diálogo entre o gênero e a generalidade, um romance fantástico com toques do noir e do contemporâneo – ou um romance noir e contemporâneo com toques fantásticos? Fica para o leitor decidir.

O romance tem a estrutura fix-up, ou seja, são contos independentes entre si, que podem ser lidos em qualquer ordem e que se encerram em si mesmos, mas que lidos em conjunto formam uma trama. O livro trata da história da Neon Azul, uma boate diferente perdida no centro do Rio de Janeiro, e cada conto trata da vida de uma pessoa que orbita o bar, seja funcionário ou cliente.

O Neon Azul parece atrair pessoas perdidas – tanto aquelas sem rumo quanto as que encontraram o rumo da perdição. É como se o bar estivesse naquele limiar entre o real e o sonho, onde o impossível acontece de forma natural e onde as coisas mudam de forma se você para de prestar a atenção nelas. O Neon tem a lógica dos sonhos, onde os desejos se tornam intensos e estão ao alcance de um toque – entretanto, aqui, há um preço a se pagar pela satisfação da vontade.

Os contos são noir e, ao contrário do humor irônico de Histórias da Noite Carioca, aqui a melancolia é onipresente, bem como a sensação de aniquilação e de fatalidade. Não é um livro sobre escolhas fáceis ou finais felizes e redentores, mas sobre aqueles que já perderam tudo – o orgulho, a saúde, a sanidade. Há também aqueles que querem entrar num mundo que glamourizam, mas que mostra todos os seus tons de negro à medida em que se aprofundam.

Talvez o conto de abertura seja aquele que mais destoe dos outros: a solução do conflito é uma catarse parecida com aquela do filme Dogville, solução essa que não ocorre da mesma forma nos outros contos. Não são contos para estômagos fracos e sensíveis – sexo, drogas, assassinato, desejos perdidos e encontrados.

A parte fantástica é bem sutil, apesar de onipresente (e tenho no mínimo três teorias pessoas para a identidade d’O Homem). Tempo e espaço são apenas convenções que podem ser facilmente burladas, pessoas atravessam espelhos e guardam seres mágicos em garrafas. E o fantástico aqui é real, não metáfora ou fábula. Faz parte e compõe o universo onírico do bar. Por isso talvez seja muito mais mainstream com toques fantásticos do que fantástico escrito com a contemporaneidade mainstream.

É uma leitura altamente recomendada e, sinceramente, o melhor livro que li este ano (sorry, mr. Gaiman).

***

Ficou curioso? Leia o livro! Compre em (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!