Orgulho e Preconceito – Jane Austen

orgulho-e-preconceitoA típica história “boy meets girl”: eles se conhecem em uma festa, ela é a menina doce mais bonita da região, ele é o bom partido por quem todas as mocinhas são apaixonadas. Apaixonam-se mas, por uma série de mal entendidos, não podem viver esse amor. O tempo passa, os mal-entendidos são descobertos e esclarecidos e tudo termina em um belo casamento.

 Pois é, esse é o plot típico e em torno do qual Orgulho e Preconceito se constrói – mas que está longe de ser seu plot principal e envolver seus protagonistas. E são estes que fazem a história ser um clássico atemporal.

 Este talvez seja o mais conhecido (e querido) romance romântico de língua inglesa. É muito lido em escolas, é uma história querida até hoje, ganhou inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas famosas, ganhou várias recontagens (uma das minhas prediletas é o filme de O Diário de Bridget Jones, nem tanto o livro), paródias (tem ao menos uma delas que já foi resenhada nesse blog…), é sempre citada em outros livros, filmes e séries como o livro de cabeceira de algum personagem. Mas o orginal continua a encantar gerações e ser livro predileto (ao longo da vida já vi muitas mulheres lendo o livro no ônibus, na faculdade, em consultórios…). Aliás, é uma das resenhas mais pedidas do blog desde o início.

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Cinquenta Tons do Sr. Darcy – Emma Thomas

50-tons-darcyÉ uma verdade universalmente reconhecida que um clássico gera o desejo da iconoclastia. Aliás, essa iconoclastia é até mesmo saudável, pois obras e conceitos intocáveis não são nada saudáveis – e para que a quebra seja eficiente, quem a faz deve conhecer a obra original para tal.

Orgulho e Preconceito é uma das obras mais importantes da literatura inglesa. Um jovem provavelmente lerá o livro no colégio em países de língua inglesa, inclusive (e será que pegarão a ojeriza aos clássicos tão comum entre os alunos pátrios?). É muito mais do que um romance: é o retrato e crítica social de uma época que aparenta ser tão glamourosa, mas que continua se aplicando aos dias atuais, como o peso da conta bancária de alguém, prestígio social, preconceitos à primeira vista e mal-entendidos.

E como todo clássico, é constantemente renovado, tanto pela adaptação para outras mídias (tem ao mínimo três versões em filmes/séries de TV, incluindo uma muito clássica da BBC) quanto por recontagens (por incrível que pareça O Diário de Bridget Jones é uma versão moderna da obra) e paródias (como a precursora da onda de mashups Orgulho e Preconceito e Zumbis). Acho todos os casos válidos, pois é assim que o clássico se mantém vivo, não imutável e encostado na parede pegando poeira, traça e teia de aranha.

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Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

Continuando a trilogia temática do blog, vamos ao segundo post…

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Uma modinha literária que surgiu nos últimos tempos (e modinhas literárias surgem com a mesma rapidez do que qualquer outra modinha), talvez tendo como base a modinha musical surgida pouco antes, foi a dos mashups.

Como assim mashup?

Em linhas gerais, é uma mistura, uma infusão, uma fusão de dois textos. O livro responsável pela explosão dos mashups foi o paradigmático Orgulho e Preconceito e Zumbis – que pega o texto original de Jane Austen (85% do original) e insere algumas modificações – a guerra napoleônica vira a invasão zumbi, e as irmãs Bennet são exímias guerreiras prontas a combatê-los. Mas a história original, o romance entre os orgulhosos Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, continua lá.

Uma derivação dos mashups foram a apropriação de personagens (ficcionais e históricos) e a elaboração de outras histórias num contexto mais pop/moderninho: Jane Austen, a Vampira; Abraham Lincoln Caçador de Vampiros; Sense and Sensibility and Sea Monsters e por aí afora…

Então por que não utilizar a estratégia dos mashups, pastiches e paródias e reinventar os clássicos nacionais? Recentemente, a Leya lançou os seguintes títulos: Dom Casmurro e Discos Voadores; Senhora, A Bruxa; O Alienista Caçador de Mutantes e A Escrava Isaura e o Vampiro. Nenhum deles é um mashup no sentido estrito do termo, da preservação do texto original e sua mistura, mas todos parodiam os clássicos que povoaram as aulas de literatura.

E a Tarja lançou o livro que é o assunto do blog de hoje, Memórias Desmortas de Brás Cubas, do Pedro Vieira…

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Brás Cubas é o defunto-autor (e não autor-defunto, note-se) mais conhecido da literatura brasileira. Ele conta sua história do além-túmulo, com muita ironia, humor negro e crítica social, narrando sua tentativa, frustrada ou não, de ascender socialmente em geral e se dar bem na vida em particular. Em 1881, Machado de Assis gerou polêmica pela estrutura do romance, mais um bate-papo com o leitor do que uma narrativa.

Mas o pressuposto de Memórias Desmortas de Brás Cubas é a de que nosso querido defunto-autor tornou-se um zumbi e por isso pôde narrar suas memórias. Ao despertar do túmulo, acordado por seu ex-escravo Prudêncio, ele descobre sua predileção por cérebros e procura descobrir porque está desmorto – e trocar algumas palavrinhas com Cotrim, seu cunhado e cupincha de carteirinha. No meio do caminho, ele vai esbarrando e conhecendo personagens do universo machadiano e aumentando sua horda de zumbis famintos por cérebros, invadindo o Rio de Janeiro um século antes de qualquer diretor sequer pensar em filmar A Madrugada dos Mortos…

A história é interessante, mas a revisão do livro poderia ter sido mais criteriosas. Tem alguns erros bobos que qualquer passada de olhos mais atenta eliminaria num piscar de olhos.

O livro é narrado em primeira pessoa e é novamente um bate-papo com o leitor – trocam-se as referências clássicas por referências pop e a crítica, mordaz,  também muda de foco: o livro é um cruzado de direita no academicismo.

Obviamente a literatura, seja como retrato de uma época, ideologia, política ou sociedade;  seja como valor artístico, evolução linguística ou estilística; é e deve ser objeto de estudos. O problema é a apropriação da obra e de seu sentido pela academia – é destrinchar e procurar um sentido próprio, que às vezes nem mesmo o autor desejou dar ao texto.

É uma crítica ao sistema de ensino que obriga o menino de quatorze anos a ler, entender e apreciar Dom Casmurro e surfar entre mesóclises e metáforas – e também ao repúdio das obras ditas como comercias.

É uma crítica a quem elege os clássicos como reduto de uma minoria – seus estudiosos ou “as pessoas cultas” e se esquecem que alguns deles foram feitos para consumo popular em sua época. Até engraçado ver as reações que os mashups causaram, de pessoas que se dizem iradas e escandalizadas  pelo vilipêndio aos clássicos. Ora, e alguma coisa é tão sagrada que não mereça uma paródia? E ninguém aqui quer substituir ou tirar o valor e validade dos clássicos, mas fazer uma piada com isso tudo. É difícil entender ou a proposição é tão ofensiva assim?

E Brás Cubas versão zumbi vem para dizer isso: nada é sagrado e intangível, nem mesmo a vida.

(e para quem quer ver uma coleção de comentários irados e ultrajados sobre mashups ou paródias, leia a coletânea no blog do autor).

Ficou curioso? Leia o livro! Compre em (Livraria Cultura)

DADOS TÉCNICOS:

Autoria: Pedro Vieira
ISBN: 978-85-61541-22-4
Páginas: 144
Formato: 14x21cm
Ano: 2010
Tarja Editorial