Minha Querida Sputnik – Haruki Murakami

(Curioso. Acho que nunca antes na história desse blog um autor tinha ganhado resenhas de dois livros diferentes num espaço tão curto de tempo…).

Segundo livro do Haruki Murakami que leio (e certamente haverá muito mais, pois me apaixonei pelo autor). Novamente aqui, uma história universal sobre o desconforto de crescer e sentir-se isolado, um tema que ele retomou em After Dark (até curioso perceber a evolução narrativa de um livro para o outro. Minha Querida Sputnik é de 1999 e After Dark de 2004, então várias arestas estilísticas puderam ser aparadas). Um ponto que achei interessante nesse livro é que, apesar da trama melancólica, o cenário é colorido e agradável, partindo até mesmo para uma descrição bem vívida e real das ilhas gregas e de cidadezinhas francesas.

De certa maneira, há um liame temático entre esta resenha e a do livro anterior, por mais que as tramas e seu desenvolvimento sejam bem diferentes entre si. Ambos têm por protagonistas pessoas nos seus vinte e poucos anos, completamente perdidas, e que tem de se haver com alguns traumas do crescimento.

Aqui, conhecemos Sumire, jovem, desleixada com sua aparência, que entrou na faculdade de Letras mas largou-a por ver que aquilo não a ajudaria a realizar seu sonho: ser escritora de sucesso. Há um acordo com seus pais: eles a sustentarão até que atinja 27 anos, nem um dia a mais, então é bom que ela se encontre até essa data, mas até o ponto em que a história começa, a jovem não parece fazer muito para realizar seu próprio sonho.

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Azincourt – Bernard Cornwell

Como todo bom leitor, tenho uma relação bastante pessoal com os autores de livros: tem aqueles de quem gosto muito e já li grande parte da obra ou estou próxima disso, os de que gostei da experiência e posso repeti-la, mas não é uma prioridade, os autores cuja leitura de uma de suas obras basta, os que larguei um dos livros pela metade e não pretendo que entrem nunca mais em minha pilha de leitura – e os que não gostei de minha primeira experiência de leitura, mas que por curiosidade ou insistência quero dar uma segunda chance (dois exemplos notórios aqui: William Gibson e André Vianco).

E esse é o caso de Bernard Cornwell. Como vocês já tiveram a oportunidade de perceber, minha primeira leitura do autor não me agradou, mas ele é tão querido e tem tantos fãs cativos que pensei que talvez o problema fosse com o livro escolhido, ou comigo, e resolvi que lhe daria uma segunda chance quando tivesse oportunidade.

Só que como ele é um autor de sagas longas de milhares de livros cada uma – que além de tudo são meio carinhos para meus bolsos de pobre mortal – e gostaria de uma amostra com começo, meio e fim, já que as sagas sempre tem a desculpa do “fica melhor no livro 2” ou algo parecido (eu particularmente discordo deste argumento, se uma história precisa de milhares de páginas para “ficar boa”, então ela não é boa, apesar de reconhecer que há tramas que mostram ao que vieram só lá pela metade ou da metade para o fim), queria um livro-solo. Azincourt, o lançamento mais recente, parecia, então, excelente para minha empreitada.

Bernard Cornwell, para o leitor desavisado, é um autor de ficção histórica em geral e da história inglesa em particular. Suas duas sagas mais conhecidas são as Crônicas Arturianas, que sem dúvida são sua obra mais conhecida, sobre o mítico Rei Arthur e sua Távola Redonda, e as Aventuras de Sharpe, sobre um soldado inglês de mesmo nome do início do século XIX – e daí conclui-se também outra predileção temática, sobre grandes guerras, conflitos e batalhas.

Azincourt (ou Agincourt, depende do lado do Canal da Mancha) é uma das batalhas da Guerra dos Cem Anos, disputada entre Inglaterra e França no século XV (e que teve várias personalidades históricas envolvidas nos seus mais diversos momentos, do rei Henrique V a Joana D’Arc), onde os ingleses, exaustos, devastados pela doença e em desvantagem numérica, venceram uma luta dada como perdida contra os franceses.

E a trama do livro será essa: a batalha e uma série de circunstâncias que as sucederam, através dp ponto de vista do protagonista da vez, Nick Hook, um guarda-caça de nascimento plebeu que é alistado no exército por uma série de circunstâncias que incluem rixas familiares, crimes não cometidos e uma boa dose de azar. Sua habilidade como arqueiro é notória – e a sorte da batalha será definida pela destreza com o arco.

Aqui, um ponto que merece destaque: apesar dos nomes que entram na história serem os dos grandes príncipes, generais e comandantes, quem parte para matar ou morrer em uma batalha são os peões – os soldados comuns, os homens do povo arrancados de sua rotina, voluntariamente ou não, colocados para combater em guerras que não são suas. As vidas na linha de frente são as suas, bem como é seu sangue que tinge de vermelho os anais da história. A trama narrará a história de alguns destes homens, além de, é claro, alguns dos nobres que colocaram seus nomes na história, entre eles o próprio Henrique V.

Mas, voltando ao livro em si: a trama demora para engrenar. As primeiras cinqüenta ou sessenta páginas, ou melhor, todo o caminho que leva Nick até a cidade francesa de Soissons e do massacre que a consumiu, é de uma chatice sem-tamanho. Eu iria largar o livro, desagradada, lá pela página 30, mas, com pena de ter desperdiçado a quantia investida nele, prossegui.

E esse é um dos grandes problemas da trama: as coisas demoram a acontecer e lá se vão páginas e mais páginas de explicações sobre a situação política, a constituição dos exércitos, o funcionamento de seus armamentos e por aí aofra. Para quem gosta deve ser até divertido, mas me deixou entediada.

Outro grande problema do livro é algo que já tinha me saltado aos olhos em O Último Reino: o protagonista, da linhagem de Chuck Norris, é o uber-homem no meio da gente comum: uma habilidade extraordinária com o arco, ok, aceitável; estar no lugar certo na hora certa o tempo todo, até tem desculpa porque a trama precisa caminhar de alguma forma; apesar de ter nascido, crescido e vivido como um guarda-caça treinado no arco em uma roça inglesa qualquer e, após uma hesitação e resistência iniciais agir como soldado com treinamento de exército, a suspensão da descrença começa a sofrer danos; com o passar da narrativa, apesar da guerra rolando solta ao redor, ter a certeza absoluta de que NADA vai acontecer com o protagonista simplesmente porque ele é melhor do que todo o resto: parou, né? (Isso porque nem mencionei que Deus fala com nosso amigo protagonista de vez em quando para impedir que a trama fuja de sua previsibilidade).

Ou seja: um livro em que a leitura não flui de maneira tranqüila, sem personagens carismáticos e com a suspensão da descrença inoperante. Difícil, né? No balanço final, foi interessante por ter me ensinado um pouco mais sobre a história inglesa e europeia, mas decepcionante em termos de trama. A impressão ruim construída em O Último Reino continua.

Ainda estou curiosa para ler as Crônicas Arturianas (porque concluí que pela legião de fãs essa história deve ser muito boa…), mas não é nem de longe uma prioridade na minha lista de leituras…

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Quer tirar suas próprias conclusões? Compre o livro! (Submarino)

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Até a próxima!

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Depois de muita fantasia e ficção científica, vamos a um livro que não pertence a nenhuma categoria de ficção especulativa (apesar de possuir alguns detalhes que não possuem exatamente verossimilhança…). Uma colega estava lendo este livro em minha sala, há uns dois anos, recomendando-o como boa leitura. Ainda, uma amiga comprara, também empolgada por comentários favoráveis.

Um parêntesis, antes de continuar com o livro. Sou apaixonada por livrarias – entrar, passear, folhear, descobrir este ou aquele romance, ver que esta ou aquela capa chamam a atenção, levar um pocket esperto por um preço bom ou procurar determinado livro específico – mas adoro as livrarias online e suas ofertas tentadoras. Descontos de mais de 50% por livro SEMPRE são tentadores, convites a encher cada vez mais minha biblioteca particular. Então, por que não aproveitar superdescontos?

Em uma das minhas compras, interessada em comprar algum livro que não fosse de ficção especulativa, descobri que A Sombra no Vento estava em uma adorável oferta por R$15,90. Não pensei duas vezes – tinha sido bem-indicado, e R$15,90 não representam exatamente um prejuízo para um livro ruim.

A história trata de Daniel Sempere, um garoto de dez anos órfão de mãe, levado por seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos (ADOREI o cenário, por que não pensei nele?), onde encontra o romance A Sombra do Vento, escrito por um tal de Julián Carax. Encantado pelo livro, passa a adolescência em busca de seu misterioso autor, encontrando cada vez mais mistérios no caminho que o leva até ele, topando com amigos e inimigos.

É uma história de suspense e mistério, mas com uma leveza adolescente. E trata, também, justamente disso – essa transição leve e misteriosa entre a adolescência e a fase adulta, que diz respeito também à mudança nos relacionamentos que trazemos da infância, à descoberta do amor e do sexo, a assunção de responsabilidades e das consequências de nossas ações.

É também um livro sobre… a leitura. Sobre a importância do livro, sobre mergulhar de cabeça em histórias que nos sejam, como leitores, realmente empolgantes, sobre envolver-se com seus personagens e trama e levar isso às últimas consequências.

A trama, que possui como narrador seu personagem principal, é bastante ágil, com pistas (algumas falsas) e novas informações a cada capítulo. O seu desfecho é particularmente eletrizante – não dá para fechar o livro antes que todo o mistério trazido por Daniel se revele.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o cenário: é também uma história sobre Barcelona no pós-guerra e seus personagens – pessoas comuns, como empregados, ricaços e mendigos, que guardam consigo feridas ou não da Guerra Civil. É também a história de uma cidade, de uma época e das pessoas que a habitam.

Por fim, não é um livro que cause uma mudança de pensamentos ou que leve à reflexão, mas é uma leitura bastante tranquila e interessante para quem deseja desvendar livros misteriosos…