A Clash of Kings – George R. R. Martin

A “linha editorial” deste blog é evitar ao máximo spoilers das obras aqui apresentadas. São minhas opiniões depois de realizadas as leituras, evitando ao máximo dar detalhes das tramas ou tirar surpresas (e não considero que fatos acontecidos nos primeiros 10 ou 20% iniciais de um livro sejam necessariamente spoilers).

Spoiler, do inglês “to spoil”, estragar, significa revelar alguma reviravolta de determinada trama… e estragar a surpresa do leitor. Há quem não se importe (eu mesma, dependendo da série, vou atrás de spoilers), há quem odeie, há aqueles que alteram o impacto de alguns acontecimentos (se você souber de antemão, algumas cenas perdem o impacto imaginado pelo autor), há os inocentes. Então, prefiro evitá-los.

Claro, tem algumas histórias e situações que são domínio público. Você SABE que Romeu e Julieta morrem no final. Qual era o segredo de Diadorim. Qual o destino de Dorian Gray e seu retrato. Então, nestes casos específicos, não há nada de mal em revelar o que se acontece.

Tudo isso para dizer que, justamente por ser o segundo livro de uma saga – é a continuação de A Game of Thrones, já resenhado algum tempo atrás, da série A Song of Ice and Fire – é difícil descrever a história de A Clash of Kings sem montanhas de spoilers.

Mas vou tentar fazê-lo de maneira que não exista spoiler algum.

Em A Clash of Kings, aparecem mais tramas paralelas, focando diferentes personagens em diversos locais de Westeros e do resto do mundo. Personagens que foram só citados ou tiveram aparições menores em A Game of Thrones ganham força, ganhando até mesmo pontos de vista. Mesmo os personagens do primeiro livro, que seguiam uma linha de acontecimentos mais ou menos comum, se dispersam pelo mundo, afastando os diversos pontos de vista de uma influência direta uns nos outros e criando várias e várias tramas autônomas entre si.

E a nota quanto aos personagens continua valendo: são humanos, reais, com acertos e erros. Íntegros ou corruptos, bons ou maus, simpáticos ou patéticos, todos eles são humanos passíveis de erros e atos heróicos, capazes de gerar empatia por parte dos leitores. Não há como não se envolver com suas alegrias e suas dores.

Outro ponto interessante a se tocar é que George R. R. Martin se aprofunda em pontos que outros escritores de fantasia tendem a não explorar ou mesmo evitar: sexo, traições, violência física. Há apenas uma certeza ao leitor: TUDO é possível. Não é porque fulano é um personagem importante que ele está imune ao sofrimento e à morte.

E é justamente a incerteza e o grande leque de possibilidades que só faz abrir que torna a série interessantíssima, valendo a pena acompanhar e ver até onde o autor nos guiará. 😀

Espelhos Irreais – Vários

Capa do Espelhos Irreais

Capa do Espelhos Irreais

Espelhos Irreais é um livro sobre cinco diferentes visões da realeza fantástica, em contos de cinco autores: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues, Daniel Abreu e Roderico Reis. Há a visão da realeza em uma fábula, no tênue limite entre o real e a imaginação, na alta fantasia clássica, na ficção científica… São abordagens diferentes, histórias diferentes entre si, autores diferentes, narrativas diferentes. Como uma degustação literária de estilos e autores.

É também a primeira publicação de papel da Fábrica dos Sonhos, organização que há quatro anos reune autores, escritas e projetos. Uma estreia, uma forma de demonstrar o que andamos fazendo neste tempo todo e também nos apresentar, como autores e como grupo.

Declaro-me suspeita para fazer uma resenha. 🙂 Mas podem ficar com a feita pelo Eric Novello e pelo Fernando Trevisan. 🙂

A Game of Thrones – George R. R. Martin

Toda a época – e todo o grupo – possui os seus modismos.
Se pararmos pra pensar na literatura de fantasia, podemos ver com clareza a “onda Tolkien”, bem como a “onda RPGista”: anões, elfos – que são inimigos entre si -, fireballs explodindo, um guerreiro que precisa salvar o mundo de uma ameaça maligna… Essas temáticas vão além do clichê, chegam a um ponto de recorrência que praticamente anula o processo criativo. E, a bem da verdade, o autor que se utiliza desses elementos não está mesmo criando nada.

A influência de Tolkien na literatura, explodida pelo hype dos filmes da trilogia O Senhor dos Anéis, parece exacerbada hoje. Se o caro leitor parar para pensar, quantos livros poderá dizer que são filhos ou netos diretos dessa geração tolkeniana, principalmente de nossos autores pátrios? Ou mesmo se pensar em outras mídias, como filmes e quadrinhos?

Ainda, depois do sucesso da série de filmes Senhor dos Anéis, os estúdios cinematográficos contribuiram um pouco, mesmo que indiretamente, para a propagação de clichês. Alguns livros de fantasia, de qualidade questionável ou não, viraram filmes e viram seus exemplares, em novas edições caprichadas, pipocarem em terras brasileiras. Posso citar de cabeça o clássico Crônicas de Nárnia, os recentes Fronteiras do Universo, Eragorn e Coração de Tinta, o acachapante Crepúsculo – e ele, o maior de todos, Harry Potter. Todos eles vão do infantil ao infanto-juvenil, ressalte-se.

Só que a fantasia não é apenas feita de Tolkien, Harry Potter e da prateleira do infanto-juvenil das livrarias. Essa é apenas a pontinha da pontinha da pontinha do iceberg – e, infelizmente, é a pontinha que chega ao leitor brasileiro. Salvo algumas editoras que se arriscam a publicar o diferente, como Conrad e Aleph, e algumas gratas surpresas como a publicação de um livro como Jonathan Strange & Mr. Norrell pela Cia. das Letras, a fantasia que não vem escorada em sucessos de cinema, em autores consagrados como Neil Gaiman ou Anne Rice, ou que vai direto para a prateleira do infanto-juvenil chega ao Brasil quase que por engano.

Enfim, uma dessas séries que vai além da pontinha do iceberg – e se revela quase um novo paradigma literário, como o próprio Senhor dos Anéis ou Fundação, para ficar em exemplos próximos – é A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin. A série está planejada para ter sete livros, os quatro primeiros já lançados, o quinto por sair ainda este ano e os outros dois em produção. A Game of Thrones é o livro inaugural da série.

Esqueçam os anões, elfos, bruxinhos, bolas de fogo, varinhas mágias e guerreiros salvando o mundo enquanto vivem a jornada do herói. A magia é óbvia, evidente, ululante, mas não faz uso de nenhum desses estratagemas para aparecer. Aliás, o prólogo já traz de imediato a certeza de que estamos diante de um livro de fantasia, sim, senhor!

Era uma vez o continente dos Sete Reinos de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno uma vida toda. O último verão durou mais de uma década, o que significa que um longo inverno se aproxima, e ele está chegando. Há uma barreira (“the Wall”) que separa o mundo civilizado do mundo selvagem dos Outros, e eles parecem se agitar quando o inverno chega.

Enquanto isso, a vida segue pacífica em Winterfell, castelo da família Stark, liderada pelo patriarca Eddard e por sua esposa Catelyn, até o dia em que são surpreendidos pelo rei Robert Baratheon, que faz uma proposta irrecusável a Eddard: ser a Mão do Rei – aquele que governa o reino de fato, enquanto o rei caça, bebe e se diverte.

Robert e Eddard são amigos de infância e lutaram juntos quando da tomada do reino das mãos de seu antigo monarca, Aerys II, o que torna o convite ainda mais difícil de ser declinado, e que obriga o patriarca Stark a mudar-se de sua casa para o palácio real, e a ser mais um personagem dentro das intrigas palacianas. Além da vida de Eddard, as mudanças na vida de sua família e das pessoas que se interligam com sua vida também estão em foco, com a criação de várias tramas paralelas que interferem nos acontecimentos principais.

Há ainda uma trama paralela que funciona bem como história à parte: é o destino de Daenerys Targaryen, última descendente de Aerys II, princesa exilada em uma terra distante. Inclusive, os capítulos que estão sob seu ponto de vista foram lançados como noveleta à parte, chamada Blood of the Dragon.

A história é formada por pequenos capítulos que correspondem ao ponto de vista dos mais diversos personagens. Em A Game of Thrones, são cerca de dez os personagens contemplados. E, sobre os personagens: o autor teve o dom de criar personagens reais: carismáticos, humanos com acertos e erros, críveis, que o leitor tem o dom de amar ou odiar se quiser.

Quanto ao ambiente, os Sete Reinos são em tudo um mundo em tudo parecido com o nosso. Sua tecnologia remonta à Baixa Idade Média no comecinho da transição para o Renascimento, mas com culturas e regras próprias condizentes a um universo particular. Há também inúmeras referências à nossa realidade, como a rixa entre as famílias Stark e Lannister – e que, devido a vários acontecimentos, só faz crescer – que é uma referência óbvia à dísputa de poder entre as famílias York e Lancaster, na Inglaterra, que culminou na Guerra das Rosas.

Bom, o leitor deve ter percebido que alguns termos estão em inglês. Pois é. O livro não foi publicado no Brasil, então as leituras possíveis são no idioma original ou em alguma tradução – a série está sendo lançada em Portugal, a quem interessar possa. Uma série no universo de A Song of Ice and Fire está em fase de pré-produção pela HBO e eu realmente espero que com o advento da série – como com o advento dos filmes impulsionou a tradução e o lançamento de livros – os livros possam ser publicados no Brasil. E, se há alguma editora me lendo: olhem com carinho para essa série, é uma grande história que merece ser publicada.

Ah! Me perguntaram nos comentários e achei interessante responder: você pode encomendar os livros na Amazon ou outros sites internacionais, mas há lojas nacionais que importam, como a Livraria Cultura. É também um livro relativamente fácil de ser encontrado em sebos, comprei meu exemplar por R$7,00 (sete reais).