O Primo Basílio – Eça de Queirós

o-primo-basilio-capaJá mencionei em outras ocasiões que perdemos muito mais do que ganhamos com preconceitos literários. Uma torcida de nariz e lá se vai a oportunidade de ler obras brilhantes, que seriam muito divertidas e instrutivas, mas que nos recusamos a ler por… bobagens.

A resenha de hoje é de um livro que já vem acompanhado da pecha de “livro obrigatório do vestibular”, “livro antigo”, “livro chato” e vários outros adjetivos pouco lisonjeiros. Mas para quem se dispuser a deixar de lado os preconceitos, temos uma história bem instigante e interessante.

(mas concordo que a obrigatoriedade de certas leituras, ainda mais em idades em que muitas vezes a temática pode não ser tão interessante, tira muito a magia da coisa. Pessoalmente, não tive esse problema – lembro-me de ter lido Senhora para o colégio e ADOREI o livro, mesmo na época. Aliás, o único livro realmente muito muito chato que (não) li (porque era um saco) para o vestibular foi um romance contemporâneo… Só não devemos virar reféns disso. Tenho muitas respostas positivas de pessoas que releram os romances depois da escola e descobriram que eles, na verdade, eram muito bons. Não dá para descartar todos os “livros antigos”, “livros curriculares” apenas por esse único e exato motivo).

Mas enfim, imitando sua professora de literatura do colégio agora: O Primo Basílio é um romance da escola realista de literatura, escrito pelo autor português Eça de Queiroz como crítica à sociedade lisboeta contemporânea (no caso, da segunda metade do século XIX) e à hipocrisia reinante nas classes mais abastadas. A trama, como todo mundo já sabe, é a história de Luísa, a jovem esposa de Jorge, promissor engenheiro de minas, e ambos formam um belo e feliz casal, rodeados de amizades e compromissos sociais. Até que um dia Jorge precisa partir numa viagem de trabalho e deixa a esposa sozinha, ao mesmo tempo em que o primo Basílio do título, antigo amor da jovem, reaparece, trazendo a perspectiva de altíssimas emoções para uma jovem sozinha em casa e entediada.

O tema principal é um dos maiores tabus da literatura: o adultério feminino. Interessante como vários dos romances realistas que chegaram a nós como clássicos tem essa premissa – a mulher que sai do papel de pura e casta tem algo de chocante e na maioria das vezes precisa receber uma punição exemplar.

Aliás, interessante que Luísa é mostrada como uma tolinha romântica, casada e feliz e sua amiga Leopoldina é mal falada e malquista pela sociedade por não fazer segredo de suas aventuras sexuais. Tem duas passagens envolvendo as duas que acho muito interessantes: a primeira, quando conversam sobre o colégio, com levíssimas insinuações de homossexualidade (não entre as duas, que fique bem entendido) (se hoje velhinhas dando beijos já chocam tanto as pessoas, imaginem tais insinuações na época – e fiquei muito surpresa de encontrá-las num livro do século XIX, para ser sincera) e a segunda, quando a vida de Luísa se tornou um inferno, quando ela fala das várias senhoras de moral ilibadíssimas de Lisboa que possuem segredos de alcova mas que, por serem discretas, ao contrário dela são bem recebidas por toda a sociedade e ninguém se importa.

Mas enfim, nossa tolinha romântica é deixada sozinha em casa por seu marido, que precisa fazer uma viagem de negócios, e está metida em um grandíssimo tédio. Nada para fazer (já que as duas empregadas, a invejosa Juliana inclusa) fazem todo o serviço por ela, a cabeça tomada pelos livros, dias muito iguais e a chegada de Basílio, seu primo e amor de adolescência, com o qual não pode se casar e que é um conquistador barato.

Com vontade de ter um casinho “igual aos dos romances”, cede aos encantos do primo, com direito a beijinhos, cartas de amor e encontros amorosos num hotelzinho de quinta categoria (outra coisa que me impressionou – o livro ser tão explícito em relação ao sexo). Mas ela é uma florzinha ingênua e delicada e seu romantismo idealizado não é nem um pouco compatível com o adultério. Basílio – e isso fica óbvio para qualquer leitor – só quer curtir, nas palavras aproximadas de outro personagem, ficar só com a parte boa sem a responsabilidade do casamento, mas a seriedade e expectativas dela colocam tudo a perder. Pior que até é engraçado ver que Luísa sabe que o envolvimento com Basílio é uma péssima ideia, mas ainda assim ain, ele é tão romântico, por que não, né (quem nunca).

(Aliás, gosto da interpretação de que Luísa é tão ingênua mais como deboche do autor mesmo – das moças com a cabeça nas nuvens esperando viver os romances dos livros, mas sem se darem conta que a idealização romântica não é nem um pouco compatível com o mundo real. Se a moça quiser cometer um dos maiores tabus sociais, não vai ser redimida pelo amor: vai ter de pagar o preço. E pode ser alto).

Juliana, a empregada feia e invejosa, que odeia a vida de trabalhos e não suporta a senhorinhainha cheia dos mimos e dengos – o sentimento é recíproco – vê na situação toda, além de uma obscenidade, uma ótima oportunidade para se dar bem. Aproveitando do descuido de Luíza, intercepta algumas cartas românticas e as utiliza como chantagem, tornando a vida da patroa um inferno.

Pensei que fosse odiar Juliana, mas senti um pouco de compreensão e pena dela. Apesar de não ter um bom caráter, ela passou por uma vida dura, cheia de explorações, e ainda tem de aturar uma madaminha chata e enjoada. Quando chega a oportunidade da desforra, entregue de bandeja, por que não aproveitar?

Então, quando Basílio parte, encerrando o romance, e Jorge retorna, tudo o que Luísa quer é retomar sua vida. Mas isso não será possível – pela culpa, pela chantagem – e terminará na punição de ambas as mulheres pelos seus malfeitos.

O autor, consciente ou não, deixa bem evidente o duplo critério: Luísa intercepta uma carta de Jorge ao amigo Sebastião (não me decidi se a paixão platônica dele é por Jorge, Luísa ou gostaria de ingressar num relacionamento poliamoroso com ambos) e descobre que o marido arranjou uma amante durante a viagem, mas o máximo que faz é enfurecer-se. Se seu caso extraconjugal viesse a público, por outro lado, teria tudo a perder: a boa imagem, o casamento, a vida…

Sobre o final, apesar de entender ser uma espécie de requisito do gênero e de talvez não ser possível terminar a obra de outra forma (tanto para passar a mensagem de que o adultério será severamente punido quanto que as ilusões românticas só podem terminar mal), achei a punição de Luísa desproporcional (por mais que estilisticamente a punição dela e a de Juliana se espelhem). O destino dela poderia ter sido outro, mais brando e menos gratuito.

(E outra: apesar dela ter o cabelo raspado estar ali por ser a mais clássica punição às adúlteras, acho que teve muito de sadismo/vingança do médico, por ela tê-lo tratado mal na outra ocasião, já que não sei se faria tanta diferença para o tratamento assim, mesmo para os critérios da época. Sei lá, achei essa cena em específico especialmente cruel).

Enfim, não tenha medo por ser clássico. É uma história universal, contemporânea (com algumas modificações poderia se passar hoje sem maiores problemas) e bem prazerosa de ler. Perca os preconceitos de adolescência e vamos lá!

OBS: apesar de ter escolhido uma edição bonitinha para postar como ilustração, li o livro fazendo o download no site Domínio Público, que arquiva textos em domínio público. Muito bom para pesquisar clássicos. Claro que comprar edições mais novas tem suas vantagens, pois algumas delas possuem linguagem atualizada, etc, mas essa é uma ótima opção para leitura de clássicos, gratuita e legal.

***

Até a próxima!

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2 Responses to O Primo Basílio – Eça de Queirós

  1. Republicou isso em Eu Vivo a Melhor Idadee comentado:
    ADOREI O LIVRO

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