O Destino de Júpiter

jupiter_ascending_movie_poster_2O grande mérito/pecado de tudo o que diz respeito aos trabalhos dos irmãos Wachowski deve-se ao fato de terem sido eles os criadores de Matrix.
Não sei se você, leitor, reconheça o impacto que Matrix teve na época de seu lançamento. Foi uma quebra de paradigmas em todos os sentidos: de trama, de montagem, de efeitos especiais, de tudo. Foi um dos grandes marcos do cinema, que influenciou não apenas o gênero ficção científica/cyberpunk. E tudo o que se espera dos Wachowski, desde então, é um novo Matrix – e todos os seus filmes serão medidos com a régua matriciana.
Daí já começamos a entender porque O Destino de Jupiter é um fracasso de crítica. Porque, óbvio, não é Matrix. A trama está situada em algum lugar entre o mediano e o razoável – mas isso para quem nos deu Matrix é o Pior Filme do Mundo.

Só não acho que seja um filme que mereça o esquecimento.
Quanto à trama, uma space opera original (no sentido de não ter sido baseada em nenhuma obra anterior) mas que não vai muito além da jornada do herói convencional: a Terra é um lote de um imenso império estelar e a garota comum Jupiter descobre que é dona dela – mas que quem toma conta dela atualmente não abrirá mão de suas posses assim tão fácil.
Tem algumas boas sacadas (como a sequência hilária dos burocratas espaciais), um fundamento que retoma Matrix (as baterias humanas) e uma crítica nada sutil ao consumismo e mesmo apologia ao veganismo. Mas junte-se também com o máximo de clichês possíveis, como casamentos arranjados, portais fechando, fortalezas se desfazendo…
É um belissíssimo filme, de uma plasticidade enorme, mas todo o cuidado que os diretores tiveram no visual, deixaram passar no roteiro – furado, em alguns momentos forçado (e haja suspensão de descrença) e desleixado mesmo. Temos personagens demais, alguns potencialmente interessantíssimos, deixados de lado ao longo do filme porque não temos tempo para eles, assim como outros que não têm os motivos expostos satisfatoriamente (tanto do lado dos mocinhos quanto dos vilões). Talvez uma população menor no universo ajudasse aqui.
Mas aqui temos o ponto alto do filme e que é o motivo para que não seja esquecido como um projeto de verão (inverno?) fracassado: representatividade.
Para começar, ao contrário do tradicional na ficção científica, fantasia, etc, temos UMA protagonista. É uma garota, a Jupiter do título, que vai passar pela jornada do herói hoje. Que interage com VÁRIAS mulheres ao longo da trama – sua mãe e tia, uma amiga terrestre, a herdeira imperial, a capitã da Aegis… Sério, sério mesmo: quantas mulheres, com variados graus de relevância, existia em Interstellar, comparado ao número de homens? Em Pacific Rim? Em Guardiões da Galáxia? Em Senhor dos Anéis? em Star Wars?
Esse é meu ponto, meu principal ponto. Por que não podemos ter mais filmes com mais personagens femininos? Mais personagens não-brancos? Ainda que por N razões não possam protagonizar, por que não fazer um mundo de plano de fundo mais diverso? (para mim o personagem de Idris Elba é o verdadeiro protagonista de Pacific Rim, mas tiveram de colocar um loirinho pq se já foi difícil vender o filme assim, imaginem se não fosse…). Por mais que Kalique seja um dos personagens que poderiam ser a) melhor aproveitados ou b) limados sem prejuízo, gosto da existência dela. Gosto que haja uma mulher relevante no filme. Por mais que o capitão da Aegis seja um personagem decorativo que não faria diferença qual fosse seu rosto, é muito mais interessante que seja uma mulher negra do que mais um homem branco. Mesmo que Jupiter não consiga ser muito mais do que uma donzela em perigo (apesar de que ela só precisa de auxílio – e quem não precisaria na situação dela – nas situações que envolvem força bruta, já que nos duelos mentais é perspicaz o suficiente para se virar sozinha).
Por que temos de nos fixar para sempre nas histórias únicas sendo que há tantas outras por aí ao nosso alcance?
Existem tantos filmes de trama tão ou mais furada quanto que se passa pano, então por que não exaltar os pontos positivos que temos aqui? Porque não é um filme carismático (e o MAIOR PECADO de Jupiter Ascending é não ser um filme carismático)?
Enfim.
Preferia (mesmo) que fosse um filme melhor. Mas acho que tem todo um lado positivo que pode – e DEVE – ser tomado como exemplo e levado adiante.
***
Até a próxima!

 

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5 Responses to O Destino de Júpiter

  1. hifaso says:

    Eu gostaria muito mesmo que esse filme fosse bom. Embora um gênero tão facilmente conspurcável em entretenimento vazio e degradável aos olhos da “crítica séria”, futurologia me parece a mais nobre forma de ficção jamais inventada. Contudo, ao que parece, não passou de uma forma de o Andy Washowski se aproximar da irresistível Mila Kunis. Foi uma bela iniciativa nesse sentido, Andy.

  2. Só de ver o trailer já sabia que nao seria uma filme 10/10 ou 8/10! Além que, eu amos os irmãos(os diretores), mas o último filme deles que foi muito bom mesmo foi aquele A Viagem

    bjs
    carolespilotro.com

  3. carolespilotro2015 says:

    Só de ver o trailer já sabia que nao seria uma filme 10/10 ou 8/10! Além que, eu amos os irmãos(os diretores), mas o último filme deles que foi muito bom mesmo foi aquele A Viagem

    bjs
    carolespilotro.com

  4. Alfa says:

    Bom, eu gostei do filme. Espere, abaixem as pedras. Primeiro eu não costumo ser muito rigoroso com filmes, minha critica só tem dois lados, gostei ou não gostei. Eu gostei desse.

    Entretanto o fato de Júpiter precisar ser salva o tempo todo me irritou profundamente, ainda que ela fosse astuta nos debates, fiquei impregnado com a ideia de que ela era só mais uma princesa sendo salva, protegida e guiada pelo seu príncipe encantado.
    Fora isso, gostei muito da piada com a burocracia, das críticas a sociedade, do universo vasto que eles criaram, das tecnologias e efeitos especiais.

    Concordo que o roteiro poderia ser melhor, mas no fim somou mais pontos positivos do que negativos, é um filme que se estivesse passando na TV eu pararia para vê-lo novamente.

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