Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

hibisco-roxo-capaQuando dei-me conta que lia mais literatura americana/inglesa do que qualquer outra anos atrás, resolvi que era um erro que precisava ser reparado e resolvi dar maior atenção às demais vozes do mundo. Aí percebi que nunca tinha lido autores africanos e corri atrás desse objetivo. Aí fui mais longe: percebi que li apenas africanos brancos, queria saber o que os autores africanos negros tinham a dizer. Minha primeira experiência foi com Chinua Achebe (infelizmente sem resenha já que não tenho ânimo/inspiração/coragem para resenhar todos os livros que leio), talvez o mais clássico autor nigeriano contemporâneo. A colagem que ele faz, da tradição tribal que colide e se funde com a colonização europeia mas que deixa certo desalento de “e agora?” nas pessoas e culturas antigas, é fantástica.

Mas poderia ser mais contemporânea ainda. Então finalmente fui ler Chimamanda Ngozi Adichie, conhecida deste blog desde 2010 pelo incrivelmente fantástico e necessário vídeo Os Perigos de Uma Única História, mas não tem problema se a conheceu este ano por causa da Beyoncé e de seus outros TEDs. Chimamanda é uma jovem autora nigeriana que no fim da adolescência se mudou para os Estados Unidos para melhores oportunidades de estudo e talvez hoje uma das jovens vozes mais hypadas da literatura internacional. Não sem mérito, diga-se.

Esta foi uma dessas experiências incríveis de saber estar diante de um de seus livros prediletos ainda nas dez primeiras páginas. É uma leitura forte e pesada, com temática densa, mas ao mesmo tempo tão leve que consumia páginas e páginas sem sentir a passagem do tempo.

É a história de Kambili, uma adolescente nigeriana em torno de quinze anos, filha de uma família de classe alta, talvez de um dos homens mais ricos e poderosos da Nigéria, mas que vive em casa uma realidade que os conhecedores de seu pai, Eugene, poderiam jamais supor: o homem beneficiário de várias e várias obras sociais, responsável pela educação e sustento de muitos, fiel exemplar na igreja e ferrenha voz opositora de uma ditadura cruel, é abusivo e violento em relação a sua própria família. Mas o contato quase casual com sua tia paterna é capaz de mostrar-lhe que o mundo pode ser muito maior, diferente e interessante do que o que foi educada para conhecer.

Aliás, para ser bem sincera, o parágrafo acima é perigoso, pois foi uma grande felicidade ler o livro sem ter a menor ideia em qual terreno estava pisando. Sem saber que a tensão do primeiro capítulo estava cheia de significados profundos que só após a leitura seriam revelados, de tatear as primeiras palavras no escuro buscando dar a elas alguma coerência.

Mas enfim: essa obra tem um diálogo enorme com Chinua Achebe, como quem diz, “olhe, sou sua herdeira”. Propositadamente ou não, os personagens deste livro parecem descendentes de segunda ou terceira geração dos daquele autor e revelam as consequências do colonialismo: as antigas tradições postas de lado e consideradas bárbaras (senão “pagãs” mesmo e cuja conversão é necessária e imediata sob pena do  fogo do inferno), trocadas por um aspecto de “cultura” e “sofisticação” que só o Ocidente pode fazer por você (inclusive, igbo, o idioma tribal, é considerado pouco sofisticado – as pessoas chiques comunicam-se em inglês porque é coisa de “gente educada”).  Eugene não admite que seu pai continue vivendo na tradição tribal, pois o considera um pagão impuro e que não está longe da barbárie como ele próprio e sua família (ou estão eles todos afundados nela?).

Interessante que a todo momento a autora fala de uma vida de classe alta e urbana, como que para lembrar ao leitor que a Nigéria, ao contrário do que o senso  comum possa sugerir, não é um fim de mundo com um coqueiro, uma cabana e um leão. Ao contrário, para quem pode pagar, nada tem a dever ao melhor da Europa, com todas as suas marcas e porcarias. Chega até a ser chato que a toda hora ela se refira a marcas de comidas ou roupas, o que acaba diminuindo na convivência com sua tia, de outra classe social e com outras prioridades.

Kambili desabrocha, de uma menina tímida e profundamente reprimida vai repensando sua vida e conceitos, até mesmo encontrando uma paixão (ainda que platônica), algo impensável para quem vivia esmagada pela autoridade do pai. Aliás, interessante que nas primeiras páginas do texto, quando ela se referia a Papa, escrito dessa forma, imaginava que ela falasse do líder religioso, mas era, na verdade, sobre o pai que falava – e em seu mundo particular ele é a Autoridade, nada pode passar fora do crivo dele. Não sei se foi a intenção da autora, mas para minha compreensão pessoal, essa confusão inicial de papéis veio bem a calhar, de saber qual o tamanho e a importância de Eugene para Kambili e demais pessoas ao seu redor.

E, apesar de termos uma visão interna de Kambili, há poucos lampejos de como o mundo externo a enxerga: ao invés de tímida e profundamente reprimida, uma riquinha esnobe que se acha melhor do que as colegas e os primos, quando a verdade passa longe disso. Pouco a pouco, estimulada por sua tia, viúva numa cultura patriarcal que recusou-se a se casar novamente e professora universitária, ou seja, praticamente uma alienígena, a casca vai se rompendo e ela vai emergindo, conseguindo inclusive o mais simples, relacionar-se com outras pessoas. Não que a semente da revolução e de seu arauto, a revolta, não se acenda primeiro em Jaja, seu irmão mais velho e companheiro de infortúnio, como já vemos no primeiro capítulo.

E, claro, o ponto mais forte e emocional da obra. Eugene era péssimo pai e um marido pior ainda, extrapolando todos os limites de abuso físico e psicológico. Mas em nenhum, nenhum momento Kambili o odeia ou julga suas atitudes (ainda que tenha plena noção do que está acontecendo). O julgamento é do leitor e não da filha. Mais: aquele é o pai que ela tem, capaz de demonstrações de carinho (ao modo dele) e mesmo para o leitor fica bem claro que tudo o que ele faz é achando que está agindo da forma correta e esperada, que só assim poderá dar o melhor à sua família. Mais: que dá dinheiro a várias obras de caridade e pessoas necessitadas sem alarde, porque acha que esse é seu papel, seu jornal é uma importante voz da imprensa durante a ditadura, o que coloca sua vida em risco, dedica-se a ajudar um jornalista e à sua família das ameaças governamentais… Como assumir que ele é 100% mau? É um grande lembrete: o mundo é cinzento. Admitir que o abusador, que o monstro é humano, é necessário demais para nossa tendência como espécie e sociedade de crer no maniqueísmo preto-e-branco. As coisas na vida nunca são simples e a autora é sensível para deixar essa mensagem expressa em sua obra, ainda que de forma muito delicada e sutil.

Toda desgraça de Kambili é sutil: ela sabe que as coisas poderiam ser diferentes, mas não existe outro mundo além daquele que vive, é preciso que ela saia da caverna para que veja a realidade do mundo. E ela também não se enxerga, ou coloca, como vítima – claro, na dinâmica familiar é natural que ela se veja como imperfeita e tola. A sutileza está lá para que o leitor decifre qual o papel da garota e como ela passa, com os acontecimentos, a ser para o mundo.

Como já disse, não precisei de dez páginas para saber que estava diante de um de meus livros favoritos e inesquecíveis. Recomendo muito este livro, a obra da autora e ampliar os horizontes, porque a superfície do best-seller pode parecer confortável, mas há muito mais do que o lugar-comum para ser lido e conhecido.

***

Até a próxima!

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5 Responses to Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

  1. aquarela dos sonhos says:

    Adorei seu texto e a dica do livro, muito bom!

  2. Republicou isso em Eu Vivo a Melhor Idadee comentado:
    PRECISAMOS CONHECER A LITERATURA DE OUTROS POVOS

  3. Pingback: Meio Sol Amarelo – Chimamanda Ngozi Adichie | Leitura Escrita

  4. Cecília says:

    Olá! Conheci o seu blog hoje, e tive a agradável surpresa de me deparar com alguém que parece ter a escrita como uma amante, tamanha a sua evidente afinidade para com as palavras. Espero que ainda esteja em atividade por aqui, e claro, nao poderia deixar de parabenizá-la por esta incrível resenha.
    Agora, se me permite a pergunta, você por acaso teria um canal no YouTube onde fala sobre livros? Depois de ler suas impressões, não pude deixar escapar tal ideia.

    Um abraço (e por favor, continue escrevendo sempre).

    Cecília.

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