trilogia The Chemical Garden – Lauren DeStefano

Aprisionada-capaEntão.

 Das séries de resenhas de livros ruins, recentemente tratei de Divergente e de A Seleção. Hoje a resenha será de uma série que trata de temas muito semelhantes a esses dois, mas com um diferencial: achei muito boa. Aliás, não sei se é uma visão enviesada, ou estou vendo apenas o que quero enxergar, mas é até uma crítica sobre os tropos irrefletidos das distopias românticas young adult.

(até coloquei no google e Wither é de 2011, A Seleção, de 2012 e Divergente, de 2011 também. Ou seja, não tem como ser cópia)

Bom, para começar o primeiro livro saiu em português alguns anos atrás, com o nome de Aprisionada. Mas por ter sido por editora pequena e que já encerrou suas atividades, talvez não seja muito fácil encontrar um exemplar por aí. Consegui um empréstimo – depois de opiniões de que esta série é muito boa – mas talvez seja mais fácil adquirir em inglês mesmo (por falar nisso, comprei os outros dois livros na Amazon para o kindle) (por falar nisso, já tenho base para fazer um dos posts mais pedidos do blog em todos os tempos, aguardem).

A premissa é a seguinte: numa realidade distópica (claro), as pessoas tentaram se programar geneticamente para prevenirem doenças, porém houve um terrível efeito colateral – os jovens nascidos dessas pessoas são acometidos por um vírus e morrem, irremediavelmente, se mulheres, aos 20 anos, se homens, aos 25.

Lógico que a sociedade se deteriorou e um dos maiores problemas sociais é que garotas se tornaram mercadoria valiosíssima – como a expectativa de vida despencou, elas correm o risco de serem roubadas para servirem de esposas a homens ricos desesperados para procriarem.

sever_capaRhine, a protagonista, é vítima de um destes sequestros – mas ao contrário da grande maioria, que são moças atingidas pela pobreza e/ou criadas em orfanatos sem recursos, ela é filha de cientistas e tem uma educação e cultura bem maiores do que a média, até para perceber que um cativeiro de grades douradas ainda é um cativeiro e ela não irá se dobrar, nem que isso signifique arriscar sua própria vida em planos de fuga, motivada pelo desejo de reencontrar sua metade, o irmão gêmeo Rowan, e aproveitarem juntos o pouco de vida que resta.

A bem da verdade, além dos dois young adults que citei no início do texto, a série tem uma vibe muito A História da Aia para jovens, o que não deixa de ser muito interessante.

Mas claro, como disse, vários dos tropos estão presentes:

– protagonista virginal: checked (apesar de que de certa forma ela só permanece assim pelas circunstâncias e os outros personagens ao redor dela, alguns de forma inclusive chocante – só o contexto permite achar aceitável uma garota de treze anos que se oferece sexualmente e engravida – , são bem ativos);

– aias servis e vestidos personalizados belíssimos (no terceiro livro, isso tem consequências cruéis);

– belíssimas mansões e um deslumbrante quarto apenas para você (como já disse, uma prisão dourada ainda é uma prisão);

– um triângulo amoroso para esquentar a coisa toda…. opa, aqui as coisas ficam interessantes também.

Evidentemente teremos um triângulo amoroso – já que se ela foi roubada para se casar, tem de se casar com alguém, e Linden, o sinhozinho, não é uma pessoa tão ruim quanto ela poderia supor. Ou melhor: ela conclui que ele também é uma vítima das mesmas engrenagens cruéis. Mas aqui está o ponto interessante: ela, em momento algum, por mais que seja submetida a algumas situações-clichê no primeiro livro, se apaixona por ele. Síndrome de estocolmo sim, o que se torna óbvio no terceiro livro, mas é bem claro que ao menos da parte dela nunca houve paixão, nunca houve amor. Talvez apego, solidariedade, pena, mas não amor romântico.

Outro ponto que me chamou muito a atenção: a força da amizade e cooperação femininas. Os relacionamentos mais fortes de Rhine no livro são com outras mulheres (ao ponto de eu na minha mente suja criar alguns shippings totalmente gratuitos): suas esposas-irmãs, as próprias criadas, as mulheres que encontra em seu caminho, ainda que algumas delas sejam hostis e vilanescas. Tanto que a Rival, um tropo presente em quase todo livro do gênero, não existe – quem poderia fazer esse papel eventualmente (Rose, Cecily, principalmente a segunda) acaba por não assumi-lo por completo.

Mais um ponto alto da série: bons personagens, seja a protagonista Rhine, seja o vilão Vaughn, as esposas-irmãs, Linden ou mesmo vários outros secundários que aparecem pelo caminho. Mesmo aqueles que poderiam ter desenvolvimento melhor (Gabriel, principalmente, e Rowan que não disse ao que veio) possuem seus bons momentos.

 A semelhança, ou melhor, principal diferença em relação a Divergente é o tratamento da ciência. Se Vaughn é um cientista maluco (e que está numa óbvia posição de poder e faz uso dela), ainda assim as entrelinhas não soam como A Ciência É Ruim e Todo Cientista É Um Maníaco Sem Sentimentos, mas como ser uma coisa boa que pode ter péssimas consequências se utilizada pelas pessoas erradas com finalidades espúrias. Os mesmos cientistas que aplicavam o mais rigoroso método para seu experimento eram pais amorosos – e mesmo Vaughn, no fim das contas, era movido por uma forma extremamente egoísta de amor.

 Aliás, o final é agridoce e traz uma das punições mais sutis e eficientes para um vilão que me lembro de ter lido em muito tempo. É a homenagem à imprevisibilidade da vida, da certeza de que apenas pensamos que temos o controle sobre tudo, mas este é impossível. A certeza de que tudo pode mudar a qualquer momento, por mais que achemos que temos tudo nas mãos.

 Fora a riqueza de temas não tratados com frequência em livros para jovens, em especial abuso físico/psicológico (e Rhine passa por estes em quase todas as suas formas)/sexual. Muito está nas entrelinhas e o que vem explícito também é muito forte.

 Aliás, até acho que esse livro acabou menos falado, não saindo como publicação principal de ninguém, justamente por ir muito fora da caixa no que se trata do clássico young adult. Mais que isso: é capaz de gerar boas reflexões tanto sobre a vida quanto sobre outros livros do gênero e aquilo que eles poderiam ter sido e não foram.

 Dedicada a quem acha que toda YA será fraquinha – esta série é forte, muito forte, e indico para todos os leitores.

***

Até a próxima!

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One Response to trilogia The Chemical Garden – Lauren DeStefano

  1. Milena Barbachã says:

    Que bom ouvir falar desse livro por aqui, pouca gente conhece. Li o primeiro livro no ano passado e amei, mas quando fui procurar os outros não achei em português e estou considerando muito comprar em inglês mesmo pela amazon. Vale muito a leitura 🙂

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