série A Seleção – Kiera Cass

a-selecao-capaSabem os reality shows? Existe uma escala de baixaria neles, com certeza, que vai de um nível leve até uma chutação de balde generalizada capaz de gerar uma vergonha alheia tão grande que se transforma em humor. As maiores baixarias de toda, lógico, vem da reciclagem dos antigos programas de arrumar namorado: vejamos pérolas como Rock of Love, ou arrumar uma nova namorada para um astro como Bret Michaels, conhecido pela necessidade de pessoas novas para esquentarem seus pés nas noites frias.

Enfim, transpondo isso para os livros: imaginem uma mistura de Cinderela, Jogos Vorazes (que já era uma espécie de reality show por si só, mas enfim) e Rock of Love – temos a série de hoje, A Seleção.

America é uma jovem moradora, meio rebelde e questionadora (porque, como vocês sabem, todo mundo vive de boa em realidades distópicas, exceto a protagonista, que é a única questionadora e disposta a desafiar aquilo que está ali) do reino de Iléa. Aí, em um belo dia, o príncipe Maxon procura uma noiva, que será escolhida por meio de uma espécie de gincana televisionada passada entre os muros reais e ela preenche todos os requisitos para se habilitar. Só que ela é a Heroína Relutante, que gostaria de ficar apenas com seu namoradinho Aspen e se casar com ele – apesar de que isso gerará polêmica, já que ele é de uma casta inferior e, como sabemos de nossa sociedade, é aceito que mulheres ascendam por meio do casamento, mas nunca que regridam.

Mas é preciso seguir o chamado da aventura e nossa heroína (apesar da descrição default de sempre – linda e loira – pelo nome eu só conseguia enxergá-la como a America Ferrera, aliás, livros mais representativos cairiam bem, protagonistas negras, latinas, indígenas, cairiam bem) encara o desafio – e, LÓGICO, por só ela ser autêntica, chamará a atenção do príncipe e roubará seu pobre coraçãozinho solitário. E, LÓGICO, seu namoradinho irá atrás dela para triangular a relação e tornar as coisas mais emocionantes.

E dá-lhe tropos desse tipo de história: vestidos deslumbrantes, aias fiéis, jantares cheios de comidas maravilhosas, quartos enormes em mansões (sempre imagino o mesmo quarto em todas as histórias), protagonista virgem (porque sexo na adolescência/antes do casamento é er-ra-do e toda protagonista de young adult tem de ser pura e virginal)… Sabem aquela história do leu-um-leu-todos? Pois é, bem assim.

Por falar em tropos… Iléa são os Estados Unidos do futuro onde, por alguma razão ou circunstância (que aparecem na história e são muito furados a bem da verdade), tornaram-se uma monarquia – e do tipo mais tradicional, com uma família real, o rei condensando as figuras de chefe de governo e de estado, essas coisas. Só fiquei pensando: COMO? Justo os EUA? Ainda se fosse uma invasão estrangeira ou algo do tipo ainda dava para forçar algum sentido, mas da forma como as coisas são colocadas… não. Não dá pra descer, não dá pra engolir, voltamos à boa e velha discussão sobre verossimilhança – apesar de ser um ponto menor no cômputo geral das coisas, as razões e circunstâncias da monarquia são tão rasas (e tolas) que não são convincentes.

(aí fui ler a biografia da autora, descobri que ela é supostamente formada em História e fiquei toda NÃO PODE SE. Sério, tudo bem, é um livro focado em jovens, mas custa dar uma caprichada na verossimilhança histórica/política? Nem precisava aprofundar muito, só fazer mais convincente. Até Jogos Vorazes, tem vários probleminhas de verossimilhança que estouram principalmente no terceiro livro, é mais bem construído e lógico).

Aliás, eu lia e tinha a sensação de que algumas ideias são muito bobas e eu teria vergonha e escrever uma série sobre elas – mas enfim, se a autora é uma escritora best-seller, com fandom e tudo, e eu não, acho que a errada sou eu.

Fica parecendo que eu não gostei da série depois disso tudo, né? Mas agora vem a parte chocante: eu gostei. Achei divertida, a protagonista é simpática e inteligente (se tem algo que não SUPORTO é protagonista burra, se for antipática piorou tudo), achei um bom candidato para leituras despretensiosas, apesar de todas as ressalvas.

Sobre a construção da protagonista, só não gostei de uma coisa: ela nunca, em momento algum, tem de fazer escolhas ou enfrentar as consequências de seus atos. As coisas acabam se resolvendo sozinhas, sem que ela tome posições. A rival (já que é necessário que exista a Rival)? Resolve-se sozinho. O triângulo amoroso – que era onde ela teria REALMENTE de tomar uma posição – se resolve sozinho (sem morte, que seria uma forma de resolução de trama, neste caso, covarde, mas ainda assim ELA NÃO PRECISA ESCOLHER). E pessoas, tanto as reais quanto os personagens, só crescem e se tornam fortes assim: escolhendo, tomando posição. E não é como se na vida tudo fosse se encaixar e se resolver magicamente, até os piores mal-entendidos e pepinos, ou que jamais fosse necessário escolhermos, necessariamente, um caminho a seguir (e não sermos empurrados para ele). Enfim. Autor não pode ter dozinha de personagem, sob pena de não fazê-los crescer. É assim com filhos, também.

Minha única grande ressalva narrativa é sobre o final do terceiro livro – mas que finalzinho mequetrefe. Sério. Que finalzinho jogado. Desses que eram para ser dramáticos mas se tornam risíveis.

Enfim, como um conhecido disse: seria uma história melhor caso se focasse no drama interno das candidatas, nas inúmeras intrigas e problemas que poderiam arranjar entre si, e não saísse para uma geopolítica tosca e mal construída. É aquela sensação de que a trama em si pode ser meio bizarrona (reality show para escolher princesa, com todas as implicações disso e olhem que preferi nem entrar na discussão sobre o quão errada essa premissa é), mas que poderia ser melhor com mais cuidado.

Ao menos o Rock of Love cumpre exempalrmente as expectativas…

***

Até a próxima!

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