Uma história de São Paulo, Bienal do Livro e Acessibilidade

Uma vez tive uma palestra no trabalho sobre a inclusão dos funcionários deficientes. Inclusive ressaltando que o termo correto é esse, deficientes, já que um portador de necessidades especiais não necessariamente é portador de uma deficiência (imagine um obeso, por exemplo). E que, um belo dia, uma pessoa que não é portadora de deficiência pode se ver numa situação em que tenha dificuldades de locomoção e precise de necessidades especiais. Aliás, essa experiência também reforça muito a empatia sobre quem tem de enfrentar a cidade que não é preparada para ela todos os dias.

cadeira

Longa história curta: sofri um acidente e quebrei o pé. Isso em 03/08.

Imaginamos que iria melhorar rápido, de acordo com as previsões do médico, em cerca de 15 dias, coisa que não acabou acontecendo. Estávamos com a viagem marcada para São Paulo: dia 23 tínhamos um compromisso particular com amigos (a comemoração do casamento civil de um casal muito amado) e a Bienal do Livro no dia 24, quando os amigos Jim Anotsu e Eric Novello lançariam seus novos livros pela Editora Gutenberg. Tudo já estava comprado e pago – e estava realmente ansiosa para fazer esta viagem. Namorido e eu resolvemos que, apesar das dificuldades, iríamos assim mesmo, pois valeria a pena compartilhar os momentos com as pessoas queridas. Para me dar maior mobilidade (já que ir de um lado para o outro de muletas é o ó), alugamos uma cadeira de rodas e lá fomos nós.

 1. Existe amor em São Paulo (mas não tanto acessibilidade)

 av-paulista

Saímos de Porto Alegre no voo de 10h20, pela companhia Avianca. Aliás, só tenho elogios à companhia, todos os funcionários, seja em Porto Alegre, seja em São Paulo, foram extremamente gentis e atenciosos. Me senti muito bem-cuidada e respeitada e recomendaria efusivamente para uma próxima viagem (uma pena não operarem a rota POA-BH).

Em Guarulhos, pegamos o ônibus do Airport Bus Service que, em tese, é adaptado para cadeirantes. Coloque em tese nisso. A vantagem é ser uma viagem direta e que pararia na Avenida Paulista, bem próximo de onde estaríamos hospedados, mas a grande desvantagem descobri logo na chegada do ônibus: degraus enormes. Por sorte consigo levantar da cadeira, só não consigo andar, mas fiquei imaginando se não fosse o caso, como seria. (há outra opção de ônibus que vai para a estação de metrô do Tatuapé e cujo veículo tem o elevadorzinho para cadeira de rodas, porém aumentaria muito nossa viagem e em nossa visão complicaria mais as coisas). Enfim, chegamos na Paulista, os funcionários do ônibus foram atenciosos para me ajudarem a descer e como nosso hotel ficava na Consolação, fomos andando mesmo, sem táxi.

Andar na Paulista de cadeira de rodas é ok, pois o chão é plano. Porém, virando a Consolação… Buracos. Crateras. Desníveis. E bate a roda da cadeira no chão, e quase caio, e aquela coisa toda até chegarmos ao hotel (Ibis Budget, também não tenho nada a reclamar, inclusive agradeço o banheiro adaptado que me permitiu tomar meu primeiro banho de pé em quase um mês).

Encontramos com amigos com quem tínhamos combinado de almoçar na Augusta (aliás, escolhi o hotel originalmente por estar perto de lugares que amo visitar quando em São Paulo: rua Augusta e Conjunto Nacional). São só três quarteirões – de buracos, desníveis, falta de rampas, falta de tudo. Em algumas esquinas não tem nem rampa, se o cadeirante tem de atravessar, aparentemente azar o dele. Ou crie asas. Ou sei lá. Nesse momento me arrependi amargamente de ter viajado e só queria minha casinha e minha caminha.

Almoçamos, encontramos vários amigos e depois fomos ao Conjunto Nacional. Outros amigos tinham nos convidado para outro compromisso a seguir, então precisei sacar dinheiro. Resolvi ir ao Shopping Center 3, por ali e… o elevador de acesso para deficientes tava com probleminhas. Com algum esforço pessoal, consegui subir apenas para descobrir que os caixas do meu banco estavam inoperantes, mas fazer o quê…

O compromisso seguinte foi uma visita à festa de Nossa Senhora da Achiropita, que deve ser a mais tradicional quermesse de São Paulo (sim, QUERMESSE, tem até tobogã inflável, barraca de tiro ao alvo e maçã do amor), no tradicionalíssimo bairro do Bixiga. Apesar de termos ido no começo da festa (umas 18h30), era uma LADEIRA num mar de gente. Fiquei me questionando se tinha sido realmente uma boa ideia – mentira, tinha total noção de que era uma péssima ideia mesmo. Mas tirando os esbarrões e encontrões (aparentemente ninguém liga muito se tem um cadeirante andando em sua direção), até que foi uma experiência divertida, com o staff da festa super atencioso e que até nos lembrou que, como eu era preferencial, não precisava pegar nenhuma fila para comida. Fomos para a rua de trás (para zerar a programação musical da festa acho que só faltou O Sole Mio, pois todos os outros clássicos italianos foram repetidos à exaustão) e os voluntários simpaticíssimos foram muito gentis em nos providenciar fogazzas. Na verdade queria comer as massas, berinjelas, docinhos e tudo mais mas, além de não estar com muita fome, de qualquer forma tinha muita gente e era horrível ficar andando por aí.

Quanto à festa que fomos, é interessante notar que o bar em si não era acessível (não tinha rampas, a sorte foi que eu podia sair da cadeira de rodas para subir o degrauzinho e nem banheiros especiais). Se fosse alguém que não pudesse ficar de pé de forma alguma, não poderia entrar ali, aliás, dos vários bares da Augusta que procuramos, aquele ainda foi o menos pior. Ou seja, cadeirante não pode ter vida social, não pode sair com os amigos, interagir, tomar um chopinho, aparentemente.

No dia seguinte, antes da Bienal, o inferno na terra: nos atrasamos para o café da manhã do hotel e fomos à Bella Paulista… e dá-lhe buracos na rua. Tantos que quase caí da cadeira umas várias vezes e mais que isso – a roda empenou. Sério, não sei descrever o que estava sentindo, uma certa hostilidade da cidade em relação a mim, uma vontade de ser atingida por um raio e acabar logo com isso, até que chegamos à padaria (fantástica, acho um dos melhores destinos culinários de São Paulo, e o staff foi bastante atencioso). Por falar nisso, funcionários do metrô da estação Consolação me ajudaram PESSOALMENTE a acessar o terminal, o que me deixou bastante grata por sua atitude solícita.

Finalmente pudemos ir à Bienal… e esse é um tópico à parte.

 2. 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo  

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Acho que tudo o que aconteceria nessa tarde foi prenunciado pelo (único) taxista que, mesmo tendo um sedan, passou a curta viagem nos xingando e dizendo que deveríamos ter ido num carro maior (sendo que conseguimos colocar a cadeira de rodas, dobrável, sem maiores esforços dentro do porta-malas de um Fiesta anteriormente) e que nos largou na primeira calçada possível. Como não havia NENHUMA indicação de entrada, resolvemos ir por uma e perguntamos a um segurança se havia acesso especial para cadeirantes. “Vocês compraram o ingresso?”. “Sim”. “Então vão pelo outro lado onde há uma rampa”. “Mas não tem como ir por aqui?”. “Não”.

Como disse, não havia indicação alguma de onde era o “outro lado”. Encontramos logo na entrada um prédio com rampa… que era outro prédio de outro evento. Voltamos por onde viemos. O segurança, enfurecido ao nos ver novamente, resolveu nos dar uma bronca sobre como não tínhamos obedecido suas ordens e ido para o outro lado (que não encontramos). Virei e “tá, mas podemos continuar indo por aqui?”. “Vão por sua conta e risco”.

(descobrimos que indo por dentro era mais fácil, tranquilo, rápido e acessível. E que a tal “outra rampa” era do lado oposto do quarteirão, ou seja, precisaríamos andar uns bons 1500m para encontrá-la se contornássemos o quarteirão).

Para entrar no pavilhão da Bienal? Isso mesmo, nenhuma rampinha. Nenhumazinha. E como eu não era “pessoal autorizado” não podia entrar pelo lado plano, ou ao menos foi essa a orientação do staff. Perguntamos para um staff o procedimento de entrada especial, ele respondeu, rispidamente: “você é prioritária, peça para as pessoas darem licença”. Sem degrau, num corredor labiríntico de cercas, realmente. Conseguimos passar com algum esforço – e porque arredamos coisas e eu podia me levantar da cadeira. Fico pensando como uma pessoa que não poderia levantar faria.

Então com muita dor de cabeça… entramos! Pudemos prestigiar o (finzinho) do lançamento dos amigos, mas também convivemos com pessoas que não dão licença, que ficam OFENDIDAS quando pedia-se licença e pouca flexibilidade para andar pelos corredores. Ou seja, tirando o stand da Gutenberg, sabe quantos stands visitei? Exatamente, zero. Gente demais, bagunça demais e pouca possibilidade de… sei lá, gastar dinheiro com livros?

(ainda assim tirei uma foto no Trono de Ferro, cortesia do monitor do stand que me deixou passar na frente de todo mundo graças ao meu estado – um rapaz cego tirou a foto na mesma ocasião).

Para comer? Lá se vai uma bela hora e meia esperando a comida, mesas, etc. Isso dá até para relevar porque é comum que em grandes eventos alimentação seja o ponto fraco, mas ainda assim é chato.

E o créme de la créme: não basta os poucos carrinhos elétricos, a confusão, não poder andar bem pelos corredores e a falta de acesso: meu namorado foi roubado durante a Bienal! Isso mesmo, não bastasse tudo isso, alguém deve ter aproveitado algum momento de distração com a cadeira e zás-trás! – o Kobo que estava ali quinze minutos atrás não estava mais.

Quando ele deu pela falta, foi procurar um segurança do evento – com muito custo, achou algum que orientou que era só segurança do lugar e pros seguranças do evento teria de falar em outro lugar. Ou seja, um lugar que deveria nos manter seguros sem nem um segurança à vista e uma hora para resolver toda a burocracia (o B.O. foi registrado na delegacia próxima, ao menos foi rapidinho).

No fim das contas, tirando o prazer de prestigiar os amigos, foi uma péssima experiência em qualquer ângulo. Fiquei me perguntando ainda: e se alguma pessoa que estivesse com a gente passasse mal? Morria, né? Porque até achar staff, ambulatório, etc, na confusão toda que se armava, já era. Desrespeito em todos os níveis, do começo ao fim. Uma pena que um evento tão tradicional não consiga cuidar bem de seu público, muito menos de quem tenha dificuldades de locomoção.

Aliás: ainda falta MUITO para que essas pessoas possam ter uma vida mais tranquila na cidade, que possam ter sua liberdade de ir e vir (e de usufruir de eventos particulares) respeitada. E é isso – nós não fazemos ideia do que quem necessita passa. Os transtornos de alguns dias de cadeira de rodas não são NADA perto de quem passa a vida sobre uma. A grande maioria das pessoas é solícita, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Começando pelo simples – que tal pavimentar melhor as calçadas? Os governos se importam tanto com os carros, mas e os pedestres? Não merecem um lugar firme para andarem? Para terem sua dignidade respeitada?

Um P.S.: quando íamos embora, no embarque em Guarulhos, afirmei que não poderia passar pelo detector de metais. “Pode tirar sua bota (a robofoot, o imobilizador)?”. Achei aquela uma pergunta tão absurda que respondi calmamente que não, não podia. De jeito nenhum. E, ao invés de usarem um detector manual para meu corpo e apalpassem minha perna se faziam tanta questão assim de me revistar, me levaram para o cantinho da vergonha para uma bela apalpadela. E sim, solicitei o detector manual, ao qual responderam “mas sua bota é metálica…”. Com uma pessoa de marcapasso é a mesma coisa? Sei lá, me deu vontade de dizer que era uma pena que eu não tinha drogas e armas na minha bota. Pena mesmo.

***

Até a próxima!

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One Response to Uma história de São Paulo, Bienal do Livro e Acessibilidade

  1. adrianastrix says:

    …Eu estava à beira de passar mal. Devia ter feito um draminha só pra ver o circo pegar fogo. 😛

    Tenso essa falta de estrutura. :/ O evento está muito maior que o espaço dele, e olha que já é um big de um espaço.

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