Convergente – Veronica Roth

convergente-capaA melhor coisa a fazer quando você se angustia por não terminar nenhum livro de jeito nenhum é pegar um que você sabe que a leitura flui fácil. É tiro e queda: você lê rapidinho e fim, livro lido! Claro que acho muito complicada a obrigação de ler – se lazer vira obrigação, deixou de ser diversão para ser outra coisa. Então, se não tenho blog patrocinado, se não trabalho no processo editorial como um todo, melhor fazer as coisas no meu ritmo e jeito – afinal, por que procurar stress numa atividade que deveria ter o efeito contrário? (e se escrevo isso aqui é que vejo tanta gente, entre amigos e conhecidos, falando que “precisam” ler livros, que leram pouco durante o ano, etc – e confesso que já fui um pouco assim também – que não custa relembrar isso. Não é uma competição. Não deveria ser, ao menos).

Convergente era um livro que servia bem a esse propósito: leitura rápida, já tinha lido os dois outros volumes (e apesar de não ter gostado do segundo confesso que a autora deixava um bom cliffhanger) e ouvi rumores que a autora tinha tomado uma medida bem ousada no livro. Fiquei curiosa e fui conferir, milagrosamente não muito tempo depois do lançamento.

No volume final da trilogia, Tris e seus amigos finalmente saem de Chicago e descobrem o mundo que existe fora da distopia – e que não é tão exatamente assim melhor do que a vida antiga. Aliás, como já descobriram no livro passado, são descendentes dos participantes de um antigo experimento científico, que está sendo monitorado com pessoas prontas para intervirem de maneira não muito agradável na vida já afetada pelá política pós-facção. Os personagens estão numa situação meio “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”: o destino em Chicago é a morte, seja pelas mãos da guerrilha que tomou conta da cidade, seja por seus “criadores”. Então, escolhas precisam ser feitas.

Dessa vez Tris está bem menos marrenta do que no livro anterior – aliás, ela resolve pouquíssima coisa pela força, está mais interessada no raciocínio e estratégia. O que é uma mudança súbita em relação ao livro anterior, claro, mas a situação é tão estressante que até justifica – aliás, tudo é mais lento aqui, mais até do que no primeiro livro. Só lá pela metade da história haverá ação, pancadaria, tiroteio e mortes. Mas isso não é uma crítica: até preferi as coisas mais lentas e resolvidas de formas não-violentas.

Também temos a adição muito bem-vinda de Tobias/Quatro, o namorado da protagonista, como narrador, trazendo seu ponto de vista das coisas e sua versão dos fatos. Sempre o achei um personagem muito, mas MUITO mais interessante do que ela – aliás, se há algum personagem na trama mais próximo de ser redondo é justamente ele.

É um livro que poderia ser bom, mas torna as limitações da autora óbvias. Muitas pontas soltas são mal amarradas, mistérios mal explicados e mesmo a trama principal, aquilo que imagino ter sido o que a autora quis contar, não é feito de uma forma muito brilhante. Aliás: se comparados o primeiro e último livros, parecem até partes de coisas diferentes, apesar da evolução da trama não vejo as coisas assim tão coesas, principalmente em relação aos personagens principais. Só que ainda prefiro a limitação do autor do que autores de potencial maior, mas cujo desfecho de uma trilogia deixa a desejar por pressa ou desleixo.

Outra coisa também, sobre verossimilhança (sim, dragões, monstros voadores, zumbis, armas de munição eterna etc não são problema nenhum, mas acho extremamente problemático quando os detalhes, as explicações, não casam). A justificativa para a guerra é tão ridícula e risível que me pergunto como anda o ensino de ciências nos Estados Unidos. Basicamente, os cientistas (e o discurso dos cientistas como pouco éticos, frios e dispostos a tudo pelos experimentos continua nesse livro) descobriram que as mazelas da humanidade acabariam se fossem suprimidas características genéticas do indivíduo como covardia, egoísmo, violência, falsidade. Além de não ter funcionado, causou uma briga entre os geneticamente modificados e os geneticamente puros no qual os EUA foram completamente consumidos e a distopia de Chicago é um grupo-controle para tentar solucionar as coisas e “curar geneticamente” a humanidade através de cruzamentos que gerariam os divergentes, pessoas com o DNA restaurado.

Gente. Gente gente gente gente.

Quase larguei o livro nessa hora, simplesmente porque ISSO É CIENTIFICAMENTE MAIS FURADO DO QUE UMA PENEIRA. QUALQUER pesquisa SÉRIA de hoje vai atrelar questões comportamentais ao AMBIENTE (que tem um papel igual ou superior ao da genética na determinação de quem é o indivíduo) e à CULTURA. Não é simplesmente tirar o gene do mau-caratismo e tá resolvido, é muito mais complexo do que isso. Claro que mais pra frente os personagens vão ver que não é bem por aí, que o determinismo genético é uma furada e tal mas… QUEM LEVOU ISSO INSTITUCIONALMENTE A SÉRIO EM PRIMEIRO LUGAR???? Pra mim a trama foi invalidada aí, pois não. faz. sentido. nenhum. É uma base equivocada e como tal extremamente problemática para a trama.

E, por fim, não poderia deixar de comentar o spoiler. Achei mesmo que a autora estragaria tudo com um “era tudo um sonho/simulação”, os planos dos protagonistas darem errado ou algo assim. Mas não. O spoiler foi inteligente, muito corajoso e principalmente muito coerente com toda a história. Às vezes o autor quer deixar sua marca, chocar o público, mas só entra em contradição com tudo o que trouxe antes, ou aquilo soa gratuito. Aqui, não. A história pedia a atitude radical tomada pela autora. E são poucos que tem a coragem de tomar o caminho que a história pede, doa a quem doer – e a muitas histórias, o melhor final possível não aconteceu por falta de coragem seja do autor ou do editor, tenho certeza. Esse foi um ponto positivíssimo da conclusão da saga, da coragem da autora fazer aquilo que deveria ser feito.

 Resumindo, achei a série, no fim, uma espécie de reflexo do zeitgeist: uma sociedade que quer resolver tudo no chute na porta e soco na cara, segregada, onde algumas pessoas são “melhores e mais capazes” do que outras – mas em que todas as entrelinhas o erro disso tudo soa latente. E o mais importante sobre distopias: o que elas dizem sobre o hoje e agora.

P.S.: A série caiu tanto no gosto do público que o filme de Divergente tá sendo um estouro de bilheteria nos EUA. Chega daqui a alguns dias ao Brasil.

***

Até a próxima!

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