Ela

ela-filmeUm dos maiores paradoxos da modernidade é que, apesar de termos inúmeros gadgets, conexões e artefatos que eliminam as distâncias, estamos cada vez mais solitários. Vamos para o trabalho (e hoje qual profissão não precisa de um computador para executar as atividades?), chegamos em casa, nos atualizamos das notícias e jogamos videogame antes de dormirmos e começarmos tudo de novo – e isso tudo com poucas interações sociais pelo caminho.

Theodore, o protagonista do filme, é um homem solitário ainda não recuperado do recente divórcio com a mulher que conhecia desde a infância. Apesar dele ter amigos, conhecidos, um chefe legal com quem tem um bom relacionamento (e com quem aparece interagindo ao longo de todo o filme) e até mesmo encontros românticos, internamente é uma pessoa solitária, que interage mais com eletrônicos ou pela internet com desconhecidos para tentar preencher o vazio interno. Até o dia em que descobre um novo sistema operacional, Samantha, última tecnologia, programada para reagir à personalidade de seu dono e para aprender e evoluir. Eventualmente, Theo acabará se apaixonando pela voz em seu telefone.

Ambos estabelecem um relacionamento bem real: saem juntos, tem momentos românticos, interagem com os amigos, sentem ciúmes, brigam… Há as limitações dela não ter um corpo (e longos debates sobre isso), mas, como ela mesma diz, somos ambos feitos de matéria e pertencemos ao mesmo mundo.

E lá vem o tanto de questionamentos que refletem nossa atualidade: os sentimentos são programados, ela é programada para ser a namorada perfeita, mas no que isso os torna menos reais? Nós mesmos somos programados para sentir, mas x serotonina + y adrenalina não é somente uma programação. Mas ao mesmo tempo, é de uma tristeza imensa relacionar-se com um programa. Em determinada cena, vemos um mar de pessoas conversando alegremente com seus celulares (não com alguém pelo celular, mas com o aparelho mesmo) enquanto nem se olham e tocam. Estamos perdidos, somos ilhas em nós mesmos.

Lembro-me de uma vez conversar com um contato e dizer que a internet era um mar de pessoas solitárias. Ele ficou bem brabo comigo, mas é uma verdade que percebo – no facebook todo mundo é lindo, cool e feliz, mas lá dentro de nós mesmos, quando nos deitamos e vamos dormir, é isso mesmo, é essa felicidade toda mesmo? Enfim, para mim, como pessoa solitária que vê um pouco do que vive/viveu na tela, as coisas ficam ainda mais fortes.

Além da tecnologia que deveria nos aproximar e nos isola, ainda temos uma dupla leitura da profissão de Theo – ele escreve cartas manuscritas encomendadas por pessoas que querem revelar seus sentimentos para entes queridos. Os sentimentos são reais, mas somos tão inábeis assim para expressá-los que precisamos contratar alguém que faça isso pela gente? Ou serem textos elaborados por outras pessoas invalida a intenção inicial de quem encomendou as cartas em primeiro lugar?

A própria fotografia do filme tem esse efeito: sempre mostra o personagem principal oprimido entre paredões e multidões e isso só realça sua solidão: enquanto quando interage com pessoas os ambientes são mais íntimos e acolhedores, quando está sozinho tudo dá uma enorme sensação de agorafobia. Faz o mundo parecer ainda mais solitário e hostil.

Nota também para os diálogos excelentes e pelas frases cheias de poesia que viram facilmente citações, como “o passado é uma história que contamos”, “você é parte da pessoa que sou hoje e sempre te amarei” e por aí afora. Queria até uma lista completa.

Enfim, é desses filmes feitos para serem comédias, mas que conseguem ser ainda mais tristes do que dramas familiares feitos para arrancarem lágrimas. E bem necessário para, como toda boa ficção científica, colocar uma história sobre o futuro para uma reflexão sobre nossa própria época.

***

Até a próxima!

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2 Responses to Ela

  1. Suely Silveira says:

    Adorei o comentário, retrata bem o filme. Este é um filme que mexe com a gente. De fato, faz-nos pensar o quanto estamos nos afastando do contato direto, do tête-à-tête. É mais fácil e simples o contato virtual …
    O filme revela a nossa solidão, a incapacidade de nos relacionarmos uns com os outros e com nós mesmos …

    Abs,
    Suely

  2. Michelle says:

    Você apontou bem os questionamentos do filme. Particularmente, achei “Ela” maravilhoso, tanto pela trama quanto pelo visual e pela trilha sonora. O meu preferido entre os indicados ao Oscar na categoria principal. É daqueles que, com certeza, assistirei várias vezes quando comprar o DVD.
    bjo

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